Um menino só



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Muito se discute em pesquisas acadêmicas – e acredito que se deva mesmo discutir – as nuances que permeiam o olhar do observador. Ora, se pesquisas acadêmicas pretendem elucidar questões, compreender fenômenos e inferir conhecimentos, qual seria a ferramenta mais essencial para alcançar tal objetivo? Através de quais lentes podemos elucidar qualquer questão que seja? Sim, o limite do conhecimento é o limite do olhar.

O olhar tem um “quê” semelhante a um processo de escolha. Cada foco, uma renúncia. Quando se foca em algo, o restante vira apenas pano de fundo. Pois bem, o que aconteceria se revertêssemos o olhar e o fundo virasse o foco? No mínimo, uma novidade! E são mesmo leques de surpresas que nos aguardam quando optamos por ampliar nossa percepção. Nem sempre agradáveis, mas vivas e pulsantes como as coisas reais.

Fazer pesquisa com adolescentes em situação de rua é um bom exemplo do que acontece quando propomos focar o fundo. Em outras palavras, é evidenciar fenômenos que são marginalizados e cotidianamente esquecidos. É fazer um furo na bolha da segregação social. É acessar pessoas e histórias de vida para além da ficção ou filantropia. É atravessar o aparente. É ter um encontro humano e genuíno com a realidade e com ela poder surpreender-se. É perceber que em matéria de vida, há flores e espinhos por todos os caminhos, e que isso é bem mais plural do que singular.

Peço licença para contar parte da história de um menino. Um menino só. Só um menino.

Um menino que jamais sonharia ter um pouco de sua história estampada em uma revista. Que nem de longe percebia como era bonito, sensível e especial. Que jamais dimensionará o quanto me cativou. Um menino que eu torço para que esteja vivo. Um menino que ainda me faz chorar. Não sei quase nada sobre esse menino, mas é dele que quero falar.

Seu nome é Alexandre, mas é conhecido como Alê ou Morceguinho. Costumava ficar pelas ruas da Beira-Mar, mais precisamente na rua da Pizza Hut, onde tem uma marquise e muitos adolescentes dormem e convivem por ali. Nessa mesma rua fica localizado o estacionamento de carrinhos de mão amplamente utilizado pelos comerciantes da feirinha da Beira-Mar. A mão de obra que conduz esses carrinhos nós já sabemos: são as crianças, adolescentes e jovens adultos que convivem por dentre os prédios, areia e vitrines do calçadão turístico de Fortaleza. No entanto, apesar do movimento e fluxo de pessoas que existe ali, Alê sempre estava só. Não tinha amigos e não confiava em ninguém.

Lembro que logo nos primeiros dias que fui observar os adolescentes em situação de rua pela orla da Beira-Mar, Morceguinho chamou minha atenção. Magro, muito magro, realmente beirando (ou mesmo mergulhado) (n)a desnutrição. Negro, cabelos levemente cacheados, finos e embaraçados. Olhos grandes, negros e profundos. Seu olhar era desconfiado e triste, por vezes, raivoso. Tinha 17 anos e era usuário de crack. Sujo, descalço, maltrapilho. E sempre, sempre estava só. Ele chamava minha atenção pela tristeza e solidão estampadas em seu corpo e silêncio.

Certa vez, ao vê-lo passar do outro lado da rua, perguntei ansiosa ao educador social que estava ao meu lado informações sobre o garoto.

— Ah, esse aí é o Morcego. Desiste, você não vai conseguir falar com ele.
— Ué, mas por que não? – perguntei inconformada.
— Ele não fala com ninguém. Não tem amigos, só anda sozinho. Acho que nem come esse menino! Só quer saber de fumar “pedra”. Se ele passou pelo albergue uma vez foi muito. A gente já fez foi desistir de abordá-lo. É sempre arisco, responde a gente com ignorância. É melhor você nem tentar falar com ele, pode ser perigoso.

Aquela informação chegou até mim com efeito contrário. Agora, queria ainda mais saber dele, falar com ele. Não, eu não ia desistir. A desistência já era uma velha conhecida de todos aqueles meninos. O estado, as políticas públicas, a escola, a família, a sociedade, eles próprios. Todos desistiram em algum momento, em alguma instância. Essa era minha sensação. Acreditar em alguma coisa é a comidinha preferida da transformação. Dessa e de outras fomes padecem o Brasil.

Certo dia, numa tarde de sábado quente e ensolarada, bebia um pouco de água quando avistei Alê sentado num pneu de carrinho de mão, olhando para o chão com a cara fechada. Não resisti.

— Oi, tudo bem? Você é o Alê não é? – disse-lhe, sorrindo.

Ele voltou seu olhar para mim e, mirando seus olhos, pude sentir seu abatimento e desesperança com ainda mais nitidez. Ele fez que sim com a cabeça, olhou para minha garrafa d´água e retomou o olhar para o chão. Enquanto pesquisadora fui orientada a nada oferecer aos adolescentes para além de minha atenção sincera e interessada, no entanto, naquele momento, um ímpeto maior de humanidade intuitiva me fez esticar a mão em sua direção e dizer:

— Quer um pouco d´água?

Sem responder, ele pegou a garrafa e bebeu um gole longo, restando quase nada ao final.

— Você pode beber o resto se quiser.

E assim o fez. Silêncio.

— Você tem um nome bem bonito sabia? – disse-lhe, enquanto o via mexer na garrafa d´água, observando as gotas que lá se espalhavam. Ele olhou para mim e me deu um sorriso tímido, daqueles de canto de boca. E me bastou para ser feliz aquela tarde. Conversamos pouco, mas logo percebi que ele não gostava de falar. Eu não sabia que aquela metade de sorriso ia ser o mais perto de alegria que eu poderia dele observar.

Daquele dia em diante sempre o cumprimentava quando o via, mas a resposta variava entre olhares desajeitados, esquivados e negação objetiva. “Quero conversa não, tia”.

Bem, como eu disse, eu não ia desistir. Vai que um dia ele topasse uma conversa? Eu só saberia se perguntasse. Quando não o via passando sozinho, o avistava dormindo sozinho. Ele dormia de olhos semiabertos. Talvez não se permitisse um sono profundo, daqueles que nos possibilitam sonhar. Devia ter bons motivos para não confiar em ninguém. E muitos outros para ter perdido seus sonhos. Eu queria saber desses motivos.

Um dia o vi sentado na calçada de uma rua um pouco mais acima da orla, perto de um bar. Resolvi ousar um pouco mais do que um simples cumprimento. Sentei ao seu lado e puxei conversa:

— E aí Alê, fazendo o quê?
— Nada não.

Percebi que ele olhava para um nome tatuado em seu braço. Um nome de mulher. Fiquei na dúvida se era tatuagem de nanquim ou se era canetinha. Mas não quis perguntar isso.

— Quem é Mariana?

Ele nada falou. Ficou apenas olhando e acariciando o nome com seu polegar.

— Você tem cigarro?

Disse-lhe que não e no mesmo instante ele se levantou, foi até o bar, conseguiu um com algum freguês e foi andando noutra direção.

— Tchau, Alê! – gritei de longe

E ele levantou o braço sem olhar para trás.

De todos os meninos que eu tive a sorte de conhecer, conversar e partilhar um pouco de suas vidas durante a pesquisa, Alê foi o que menos pude acessar. Era, de longe, o mais fechado, solitário e triste. Naquela altura da pesquisa eu já havia compreendido a importância da rede de apoio na superação das adversidades. Em outras palavras, tinha compreendido que pessoas e relações são as fortalezas de nossa caminhada. Nossa injeção de ânimo. A teia que constrói e conecta os sentidos de nossas ações são feitas de pessoas, através de pessoas. Ser humano é relacionar-se. A solidão de Alê me assustava. Ele não tinha momentos divertidos como os outros garotos. Ele não sorria, ele não falava. Ele apenas olhava e sentia algo que transparecia no seu jeito peculiar que mesclava selvageria e timidez. Alê não gostava de viver, e morria um pouco a cada dia. Me pergunto se um dia Alê foi feliz. Se um dia ele foi criança, como são as crianças em sua natureza, curiosas, espontâneas. Minha impressão é de que Alexandre devolve para a vida aquilo que a vida a ele ofereceu: violência, descaso, desconfiança.

Queria saber mais sobre o Alê. Desenhar com ele um caminho menos hostil para seus passos e futuro. Queria ter sido para ele algo semelhante ao que ele foi para mim: alguém que motiva a continuar.

Escolhi compartilhar a historia de Alê (mesmo com absoluto desconhecimento de sua história de vida) por um motivo particular. As linhas em branco preenchidas por curiosidade e preocupação podem ser escritas a qualquer momento, a qualquer instante. Alê é único, mas sua história é plural. Nós fazemos parte dela. Todos nós! Não apenas pesquisadores ou trabalhadores da rede socioassistencial. Nós seres humanos que compomos esse perverso tecido social que mantém como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade. E pior, a naturaliza. É urgente que tomemos essa história como nossa e que possamos reescrevê-la. A história sem história de Alê nos convida a isso. Que possamos fazer jus à profundidade de sua existência e sofrimento.
Não haverá de ser em vão.

Alê foi ameaçado de morte por dívida de tráfico e nunca mais apareceu na Beira-Mar.

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Bia Nobre é psicóloga e pesquisadora de vulnerabilidades na infância e na juventude.


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