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Croniconto Urbano

Washington Hemmes

            Voa em duas piruetas a cair no chão, o boneco humano. Mar-vermelho: afoga mágoas dessa vida tanta. Tanta, essa vida!

Apinham-se derredor do corpo, curiosos, espetacularizam a morte em câmeras de minuto e meio, e o que era dor, medo, luto, torna-se gargalhada recheada por reclames globalizados.

Aprendera desde pequeno a sentir-se o outro, ele, altruísta, valores cristãos enraizados em chicotes-terços, cinturões-crucifixos, verdadesÒ de aço inoxidável: corre atrás da máquina-atropeladora modo a anotar a placa. Sensibiliza-se a multidão ante a cena de tamanha solidariedade. Carpidam às avessas, todos, em torcida organizada. Ele, enquanto, preocupa-se com registrar o número do assassino, a entregá-lo à justiça. Justamente, é aplaudido pela massa.

Acabrunhado, papel no bolso, desliza da turba ao calçadão da praça: devia de ter uma delegacia ali perto. Caminha à porta do distrito, faz que entra, resvala rente-parede à casa lotérica, e aposta, sem remorso, honra e alma nas dezenas da morte.

 

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