Laço Vermelho 



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

Levanto a cabeça lentamente da grama úmida. Minha visão ainda está meio embaçada e só consigo escutar um zunido. Lentamente levanto a mão para sentir a parte de trás da cabeça, onde levei o golpe. Ao olhar para meus dedos vejo sangue. Se isso tivesse acontecido em casa eu deveria ter sido levada ao hospital 40 minutos atrás. Não sei quais são as sequelas de não tratar uma concussão por uma batida de martelo. Aparentemente vou descobrir.

Coloco ambas as mãos no chão e tento me levantar lentamente, fazendo o mínimo barulho possível. Ouço vozes e congelo. Meu coração está a mil por hora. Há folhas secas grudadas na parte de trás da minha cabeça, onde o sangue está. Minhas pernas queimam de fadiga. Mas estou viva e preciso continuar. As vozes cessam e eu finalmente me levanto. Consigo andar até a parte de trás do galpão de madeira. Preciso pegar algo para me defender. Dou mais um passo e quase tropeço em algo. Um braço. Estremeço. Sigo onde o braço me leva e há um corpo inteiro. Imóvel. Olhos abertos estáticos. Seu pescoço…semi aberto. Em carne que era viva até meia hora atrás. Marcas repetidas e profundas de esfaqueamento. A visão me enjoa e sinto a bile subindo na garganta. Ele não está sozinho. Sobre suas coxas há outro corpo. Uma mulher. O corpo de lado de alguém que caiu. Seu cabelo está emaranhado em algo desfocado demais para identificar e é possível ver parte de seu coro cabeludo. Não consigo ver seu rosto e agradeço por isso. Pisco algumas vezes e minha visão melhora. Então percebo que o objeto em seu cabelo é um ancinho. Estico a cabeça para ver melhor sem me aproximar demais. Ele está amarrado com um laço vermelho. Me viro para o homem perto de meus pés e noto pela primeira vez uma grande tesoura de jardineiro. Também com um laço vermelho.

Lembro de ler sobre isso em algum lugar. Psicopatas gostam de deixar marcas. Às vezes guardam mechas de cabelo em suas vítimas ou marcam que estiveram ali de algum jeito, orgulhosos de suas façanhas. E eu sou a próxima.

Engulo o medo. O susto. O desespero. Não há tempo pra isso agora. Sentindo a adrenalina dentro de mim, dou a volta e consigo entrar no galpão. Ele é grande, escuro e espaçoso, mas não há muitos utensílios faltando. Abro uma caixa de ferramentas onde deveria ter uma chave de fenda, uma chave inglesa e o martelo, mas possui apenas pregos agora. Na parede onde deveriam estar pendurados os utensílios maiores só havia uma mangueira e uma forquilha. O que significa que a pá, o enxertador e o sacho já haviam sido usados também. Estremeci e respirei fundo. Tinha que pensar em mim agora.

Ouço passos sobre folhas secas. Imediatamente escaneio o recinto procurando um lugar para me esconder. Rapidamente encontro um armário de vassouras e entro nele. Tapo minha própria boca para abafar minha respiração acelerada. Tudo está quieto. Depois de alguns minutos ouço passos se afastando. Estou suspeita de que pode ser uma pegadinha mas decido arriscar. Saio do armário. Não há ninguém. Olho para a parede.

A forquilha não está lá.

Os pelos do meu pescoço se eriçam e antes que eu possa me virar, sua mão está pressionando minha boca. Sinto gosto de metal e cheiro de terra. Com sua outra mão ele puxa meu cabelo para trás e encontro seus olhos. São grandes e arredondados com as pupilas dilatadas abraçadas por tons de castanho. Estão serenos, tão serenos que quero ceder. Vejo meu reflexo neles, mas mal me reconheço. Estou amedrontada com manchas de vinho em meu rosto e a boca trêmula, mas não tenho palavras. Não preciso delas mais. Do que adiantaria?

“Não se preocupe, vou cuidar de você, meu amor.” Ele diz. Palavras tão rotineiras para nós. Palavras que se seguiam de gripes e brigas. Palavras que me diziam que poderia me jogar em seus braços e me afundar lá. Foi só mais essa vez, ele não fará de novo. Eu me convencia vezes e mais vezes.

Não fecho os olhos, em vez disso mergulho na calma e certeza dos seus. Ele sabe o que está fazendo, sabe tão bem. Posso confiar nele, afinal.

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