As chaves no caminho



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“Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.”

(Carlos Drummond de Andrade)

 

(Ilustração: Lara Albuquerque)

 

Pas-sa  a bol-sa!!

Mansamente o rapaz falou com as palavras trôpegas, escorregadias, mal conseguindo movimentar os lábios de tão entorpecido pelas drogas de cada dia;  com um olhar de uma inocência perdida, vida crua e imaturidade nas circunstâncias do crime. Estava muito bem vestido de acordo com os padrões da moda juvenil. Usava um boné, um tênis, uma camisa de modelo polo, um short taquitel de cor verde-limão, tudo numa sincronia de cores. Sendo muito difícil não enxergá-lo no escuro. E, para completar os acessórios, um colar largo prateado, no pulso um relógio que tudo reluzia com a luz da lua. Não tinha nenhuma aparência de ladrão muito necessitado. Mas as aparências enganam até os mais tolos que fazem dela uma prática constante em sua vida!

O quê?

Perguntou, ainda que com um certo receio. Não estava acreditando naquela situação, ainda anestesiada pelo repique sonoro do coco de Pernambuco. O tropear dos tamancos do coco da Lia de Itamaracá soando numa cadência ritmada em sua mente, deixando-a lerda em suas atitudes que só a fez duvidar.

Estava retornando para casa, vindo de uma apresentação na concha acústica da UFC. Eram 4:30 da manhã. Nessa época as festinhas que ali aconteciam não tinham hora para terminar; amanhecia-se em cada canto, espalhados pelas arquibancadas, nas escadas. Depois de uma última que implantou terror, disparos e ossos quebrados, os encerramentos dos eventos têm agora hora marcada.

Naquele tempo ainda era possível perambular pelas ruelas sem muitos sobressaltos de violência. Caminhava sempre no meio da rua, literalmente. Dica que aprendera com o tempo, de como uma mulher sozinha poderia se proteger minimamente dos fatigados fantasmas noturnos. Será? Era somente para haver um espaço de maior visibilidade, numa possível fuga e sair correndo.

Só que naquele momento a fuga não fora possível.

Há dez anos que morava próxima ao Benfica. Muitas vezes nem imaginava como chegava em casa sem que nada a surpreendesse no meio do caminho, só mesmo um santo protetor para salvá-la de algum incidente.

Nesta bela noite, estava muito indisposta para beber; por incrível que pareça fora uma das poucas vezes em que voltara sóbria para casa. Era seu caminho rotineiro de volta. Sempre exposta para possíveis ataques, mas com a coragem em dia. Nunca havia passado pela experiência de ser assaltada nas madrugadas benfiquenses. Já havia visto arrastões no bar do Assis, numa mesa de longe (em ambas situações), na praia do Futuro, mas de cara, olho a olho para ela era uma situação inusitada. Mesmo que num futuro bem próximo, outras ocasiões de roubos multimodais ocorreriam.

Neste dia, acordara com uma ressaca dos diabos. Tinha que trabalhar, mas a dor de cabeça, a vontade de vomitar e a tontura a seduziam para não sair da cama. Estava tudo em silêncio, ou quase. Qualquer burburinho naquele mundinho chamaria sua atenção. Foi quando ouviu o sussurro da torneira gotejando. E foi pulsando cada vez mais forte, um choro de lamentações. A todo custo, levantou-se. Caminhou até o banheiro e lá estava ela, aos prantos. Tentou mexer e remexer, improvisando com um elástico que mais parecia uma torneira mumificada. Continuou lacrimejando, mas, pausadamente. Já  foi algo de muita ajuda. Resolvera que ao retornar do trabalho daria um jeito para tal questão.

Ohh! Se o dia já começara assim, como será o seu fim? falou, já dando as costas e fechando a porta do banheiro.

Chegara do trabalho mais cedo porque não conseguira cumprir com suas tarefas como de costume. Como também não resolvera o caso da torneira. Estranhamente tomara coragem para passar aquela lábia no chefe e ter uma horinha livre antecipada. Sorte dela?

Já no seu apartamento, ao girar a chave e abrir a porta, mansamente aquele lamento foi se rastejando ao pé do seu ouvido. Entrou. Deu as duas voltas na fechadura e retirou as chaves, coisa que ela não tinha hábito de fazer. Estava lá, no seu precário paraíso imanente como tudo que faz parte de sua realidade. A própria poerinha do universo naquele instante descomunal de um dia tão singular.

Se encaminhou para área de serviço; abriu o cadeado do portão e por um descuido deixou as chaves em cima do armário. Logo retornou para tomar uma ducha e um remedinho; não demorou muito para ela estar com seu corpo nu esparramado na cama. Só acordou com o despertar do celular quase na hora de ir ao show.

Levantou-se e correu ao banheiro para vomitar mais uma vez, a última. Tomou um banho novamente e escovou os dentes, ali mesmo, embaixo do chuveiro, para não mexer no que quase remediado estava. Colocou o vestido indiano vermelho, novo, que ganhara da irmã no dia do seu aniversário; alguns acessórios, que adorava usar, e suas rasteirinhas de couro em composição com a bolsa de crochê que já existia em suas posses há mais de quinze anos e que ainda mantinha o seu vigor.

Ela é dessas, tudo dura uma eternidade!! Hoje, a bolsa já está mais surrada!

Depois de saborear as boas brisas suaves, fechou todas as janelas e o portão da área de serviço. Se encaminhou à porta já com o objetivo de ir para rua, foi quando percebeu que as chaves não estavam lá. Foi aí que o pânico se instalou de vez porque não a agradava, em nada, saber que estava trancada em casa e não poderia sair. O medo começou a tomar grandes proporções.

E agora o que faço? Não posso deixar o medo me dominar, tenho que pensar em algo!! ela disse, entre pontadas agudas de angústia, escorada no portão.

E lá se foram surgindo as ideias, devagarinho… como se fossem a caixinha de Pandora…

Colocou um tapete embaixo do armário com uma vassoura que estava ao lado e teve que esticar o braço ao máximo para pegá-la; vagarosamente foi empurrando o tapete até o armário. Olhou para todos os lados de todos os cômodos do apartamento, com muito cuidado e paciência (mesmo sendo quase impossível naquele instante), com intuito de encontrar algo que lhe fosse de alguma serventia. Ao passar de volta pela sala de estudo, observou um guarda-chuva pendurado no cabide e teve a grande ideia: o pegou pelo fundo e foi arrastando as chaves com o cabo até onde estava o tapete. Elas teriam que cair em cima do pano, porque a distância era mínima, o guarda-chuva estava abaixado o possível. Tudo podia dar errado, mais ainda. Mas tudo bem, graças a todas as deusas, as chaves chegaram em suas mãos.

– Ufa, que alívio, dessa eu escapei!! pensou, digerindo um riso fácil.

Só em pensar na possibilidade de ficar trancada a deixara desatinada, mas o pior levou um chute no traseiro. E foi-se…

Dançou a noite inteira!! Ao retornar…

Lá estavam os dois: ela e o jovem que queria levar sua bolsa…no meio do caminho…

A situação não podia ser remediada. Já estava feito. Ao olhar para o rapaz, sentiu de imediato que seria daquela vez a sua hora. Era só aguardar a aproximação. Tentou ainda se esquivar do possível tombamento. Caminhou para direita e lá foi ele. Caminhou para esquerda e ele correspondeu na mesma sequência com sua bicicleta. Pronto, foi-se a coragem de mansinho dando a vez, de novo, ao horror do que poderia acontecer. Indagou outra vez, com os nervos em frangalhos:

O quê?

Passa bolsa!!

Respondeu ele já com uma maior firmeza em suas palavras, mas sem nenhuma em seu corpo de um jovem rapaz. Arriou uma das pernas para se apoiar no chão e a outra no pedal, numa morosidade sem fim agarrou a bolsa dela ainda em seu ombro, de repente, sem entendimento nenhum, lá estava ele estatelado no chão com sua bicicleta na coxia e segurando a bolsa com uma das mãos.

Fizera uma volta de 180 graus.

Ela olhou para ele com um olhar fugidio de quem ainda não estava acreditando na situação. Pegou a alça da bolsa e a retirou do ombro e deu prontamente sem nenhuma reação, embevecida pela ironia da ocasião.

Essa mesma bolsa já passara pelo teste drive de um outro assalto na praia do Futuro (lembre-se, não fora no Benfica!), quando estava com uma amiga e haviam marcado com mais dois amigos numa barraca que nem estava aberta e nem os micróbios deram o ar de suas tramóias. Foram somente para serem roubadas. A amiga, na verdade, que foi pega de surpresa por um dos garotos que conseguiu arrebentar a alça de sua bolsa e sair correndo; já  ela encarou o garotinho segurando com firmeza a sua, conseguindo assim desvencilhar-se de alguns transtornos naquele dia.

Ahh… e suas chaves estavam no bolso da minissaia!

Assim…Quando o jovem levantou-se com sua bicicleta, como se nada tivesse acontecido, pegou a bolsa, subiu e saiu pedalando, e a colocou dentro do calção. Deu-se a sua partida. Só que naquele mesmo instante, apareceu do nada um mototaxista para salvá-la. Foi somente nesse instante que percebeu que ficaria na rua sem suas chaves para entrar em casa, no seu mundinho. Desesperada deu sinal para o mototaxista e falou:

Moço, acabei de ser assaltada!

Para que lado ele foi? Estava a pé?

Ela respondeu e passou todas as coordenadas que a aflição da situação permitiu, mesmo que ainda estivesse desnorteada com o acontecido. O moço, já com ela na garupa, foi na contramão da rua Senador Pompeu, parou na avenida Domingos Olímpio e pediu ajuda para outro motoqueiro. Lá estavam os três em uma perseguição ao jovem de bicicleta. Ela, numa tremenda tensão, indagou ao mototaxista:

Moço, e se ele estiver armado?

Não há nenhum problema, também estou!!

Ela, em sua profunda covardia, começou a choramingar; mais parecia uma criança desprotegida implorando colo.

Moço, por favor, deixa eu descer aqui no posto, vai o senhor sozinho! fora um pedido de quase súplica.

O moço ciente do seu papel de super herói não arredou o pé de sua decisão,  seguiu em sua missão com ela na mais ingênua perturbação. Já bem próximo ao jovem, na avenida, falou num tom de autoridade:

Onde está a bolsa da moça?

O garoto, em um único movimento na sua mais pura tranquilidade aparente, colocou as mãos para dentro do calção, pegou a bolsa e a jogou para o alto, na avenida, sem sequer olhar para trás. A bolsa voou espalhafatosamente para um lado próximo de onde estavam, mas as chaves saltitaram no ar e caíram na beirada do bueiro. Eles pararam e ela correu em disparada para resgatar sua paz. Pegou a bolsa e  passou o seu endereço. Chegou em casa aliviada, mas quando foi pagar a corrida, só havia alguns trocados em moeda.

Moço, nem dinheiro tenho para pagar ao senhor!

Juntou todas as moedas e passou para ele. Só ficara uma moeda antiga que ganhara de uma cigana em Gramado, no Rio Grande do Sul, quando era muito jovem.

— Não há problema, fica para outra ocasião. E com alguma intenção futura passou o cartão com seu telefone para ela e foi-se indo…

Lá estava ela, como uma menininha que ganhara doces, feliz, com sua bolsa e a moeda da cigana, suas chaves no caminho, em mãos…abrindo…E sem lamúrias escorrendo…


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