A vendedora de livros



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

A menina negra, interiorana e pobre, casou assim que adquiriu os primeiros sinais de que tinha ficado “moça”. Era assim que, até meados do século XX, e aqui acolá ainda hoje no Ceará, se referiam às meninas que sangravam pela primeira vez.

Os filhos, uns cinco, foram todos sendo logo providenciados um atrás do outro e concebidos pelo maldito buraco de um lençol. Afinal, mulher decente não ficava nua nem na frente do marido. Assim, um a um, os filhos foram feitos nas brechas da noite e do lençol branco que servira de prova da virgindade na noite de núpcias. O sangue ali, exposto sobre a cama, e o homem, pai de todos os seus futuros cinco filhos, com sorriso no canto da boca vendo seu troféu em tom vermelho encarnado.

Ela era dor na primeira vez e em todas as outras. Nunca soube o que era ter prazer. Orgasmo? A palavra mesmo, nunca pronunciou. O corpo, sempre coberto e, nunca jamais, trocou de roupa na frente dele e de mais ninguém. O marido, achando pouco as vestes que escondia aquele corpo franzino, fez com que ela também se vestisse de dor depois que a abandonou com todos os cinco filhos ainda crianças. O “homem da casa” foi-se para nunca mais.

Zulmira ganhou o mundo circunscrito nas ruas de sua cidade do interior, para vender livros que nunca lia, só vendia, montada em um jumento. Ela e os filhos tinham que sobreviver e, antes que ela morresse de ódio e de tristeza e de revolta, os filhos precisavam comer e crescer e estudar e, quem sabe, o quanto antes, criar suas próprias famílias.

A cidade pequena foi ficando cada vez menor. Trouxa debaixo do braço, os filhos todos sob sua saia, saiu rumo à capital. Para a cidade onde nascera e se criara e tivera seus cinco filhos e um marido que nunca a viu nua e ainda a abandonara, jamais voltaria a não ser para rever os parentes. Humilhação demais ser deixada pelo marido. Passou os anos seguintes a se vestir também de culpa. Afinal, nunca foi despudorada e, segundo sua mãe, ela precisava se comportar como mulher casada, com bons modos principalmente nas horas íntimas com o marido, e não ficar despida era regra primeira. A mãe lhe dizia que, embora os homens gostassem de se deitar com mulher puta, dessas assim bem puta mesmo, que dizem onde e como querem, eles não valorizavam esse tipo de mulher. Era o que ela pensava dia e noite, noite e dia. Nunca que devia ter escutado os conselhos de sua mãe, já tão velha e também sem experiência com a vida e com os homens.

Tinha vinte e cinco anos quando chegou carregada de meninos em Fortaleza e continuou a vender livros, vida seguindo sem prazer, sem lazer, sem amor. Tudo era trabalho, sacrifícios e os filhos que precisavam comer, crescer, estudar e, quem sabe, o quanto antes, criar suas próprias famílias. Economizava até o que não tinha, adquiriu uma pequena casa em um conjunto habitacional. Abrigou cada um dos filhos que, de alguma forma, apresentavam algum tipo de distúrbio psíquico. Fobias, ansiedade extremada, megalomania, fuga da realidade e, como se diz no bom linguajar cearense: mania de grandeza.

A pobreza extremada é um perigo para a saúde mental das pessoas – era o que dizia sempre uma amiga da família que, sensível às situações dos filhos de Zulmira, tentava amenizar as culpas.

Os anos se passaram e Zulmira, já velha e medrosa de que nem o básico entrasse em sua casa, continuava a labuta sol a sol, a vender livros. Sim, à revelia das livrarias existentes na cidade grande, ainda assim, havia pessoas que compravam livros na porta de casa. Zulmira andava para vender e andava para cobrar os clientes inadimplentes. Sua vida foi atravessada por muitos caminhos. Enquanto andava acompanhada do cigarro, o único vício que adquiriu e que, de alguma forma, lhe sinalizava um comportamento de rebeldia para uma mulher de sua época, tentava organizar a cabeça que não era lá muito diferente da dos filhos.

Zulmira tinha medos profundos! Medo de morrer antes dos filhos se fazerem adultos, medo de que as filhas mulheres sofressem algum tipo de abuso, de que os filhos homens se envolvessem em algum tipo de violência. Medo de faltar o alimento dentro de casa que, embora pouco, nunca faltou. Medo de ser só durante toda a vida que lhe restava, mas lá no fundo, bem no fundo de sua alma, guardava as palavras sempre duras de sua mãe — Uma mulher separada, tem que se dar o respeito! E se dar o respeito era permanecer sozinha, nunca mais amar ou ser amada, se é que um dia foi. Nunca falava sobre seus medos com ninguém. Não é nada saudável para a saúde emocional de uma mulher ser largada pelo marido com cinco filhos para criar. Nem na cidade grande, nem na média e nem na cidade pequena, isso não é coisa de homem decente!
De tanto andar e de tanto fumar, caiu doente aos oitenta e nove anos de idade. Dos filhos, dois seguiam bem ou mal casados, uma separada, uma viúva e uma sempre solteira que já havia surtado algumas vezes. Muitos netos e bisnetos que, vez ou outra, ela confundia os nomes.

Zulmira ali, num leito de hospital, e não tinha balão de oxigênio no mundo que desse conta do pulmão já tão estragado e carcomido de dor e de nicotina. Dizem que o pulmão é o órgão da emoção e, por isso, ninguém soube ao certo o que fez Zulmira atravessar a estrada depois de dias chamando por sua mãe num quarto de hospital. Ninguém sabe dizer se foi o acúmulo de emoções difíceis ao longo da vida ou se o acúmulo do fumo no seu corpo.

— Mamãe, me leve que não aguento mais sofrer mamãe. Vem me buscar mamãe.

E numa tarde de novembro a mãe de Zulmira veio, ninguém viu, mas ela veio. Passou as mãos sobre os olhos da filha, pegou-lhe pelas mãos e, juntas, atravessaram o portal.

A filha que nunca casou e que já tivera vários episódios de surtos, nunca deixou de morar com a mãe. E foi ela que, ao saber que a mãe acabara de falecer, foi cuidar de limpar e organizar tudo para a última ida da genitora à casa que construiu sozinha, às custas de muito passo dado debaixo desse sol que nunca tem fim.

Antes, porém, cuidou de tomar o antidepressivo. Enquanto limpava, chorava tudo o que morava dentro e fora de todos os surtos que já tivera na vida. Os dias passavam lentos e insuportáveis e, assim como sua mãe quando no leito do hospital, passou a dizer dia e noite, noite e dia — Mamãe, me leve que não aguento mais sofrer mamãe. Vem me buscar mamãe.

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2 Replies to “A vendedora de livros”

  1. zelia.rib.sales@gmail.com disse:

    O conto de Argentina Castro é um berro!

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