A cela



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

Sexta-feira 16 de outubro, 16:59h. Saio da sala que religiosamente frequentei por 10 anos, desço os poucos lances de escada e já estou na rua. Caminho pelas calçadas de Pelotas, sutilmente coloridas por seus imensos ipês amarelos. Me dou conta que já é início da primavera, percebo também que já estou parada na esquina da Marechal Floriano com Gomes Carneiro por mais de 10 minutos. Tudo é tão vivo ali!

O vento suave traz o cheiro agradável das flores que recobrem os canteiros dos edifícios, me causando uma sensação agradável, mas nada que consiga acalmar meus pensamentos, agora agitados como um furacão. Com grande esforço consigo ordenar alguns poucos, e refaço passo por passo as orientações da terapeuta. Meu coração, bem mais acelerado que o normal, prenuncia um ataque de pânico — eu já sabia que isso iria acontecer. Aceitei a alta há 10 minutos, e agora tenho que ser forte.

Sempre soube que nunca fiz ou farei algo de imponente na vida, nunca construirei monumentos ou catedrais, mas acabar com as conquistas acumuladas com muito custo nesses anos de terapia, seria como assumir a continuidade do trabalho de Jack Estripador, em mim mesma, repetidamente.

Continuo a caminhar por mais duas quadras, e não conseguindo mais controlar a respiração me encosto no grande paredão de cimento cinza que está à minha frente. Fecho os olhos, na tentativa de retomar a lucidez. Tento respirar lentamente, uma, duas, dez vezes, sem sucesso.

Ainda imóvel, com os olhos fechados, encostada na segurança do paredão que não me engole, lembro da técnica de visualizar uma praia deserta, o mar, as ondas – qualquer coisa que me traga um pouco de estabilidade. De repente sinto a respiração retomar seu ritmo normal, sinto meus batimentos desacelerando, acredito que sobreviva por mais 30 minutos, tempo suficiente para eu chegar em casa.

Retomo o trajeto que tracei em minha mente com passos apressados num ritmo fora do normal, levanto a cabeça e me torno alheia às pessoas que passam por mim, vez ou outra uma esbarra em meus braços, agora trêmulos, me deixando um pouco inconfortável. Retomo a confiança de 15 minutos atrás, a mesma que me fez sair de cabeça erguida do consultório, continuo a andar. Só penso em Denis, em Giovanna e o quanto quero lhes falar, explicar como este dia marcará nossas vidas, dizer que estou livre depois de uma vida inteira de autoflagelo. Quero estar em casa e contar que tudo acabou, que estou pronta para seguir, reconstruir nossas vidas.

Percebo o movimento frenético das pessoas aumentar repentinamente. Parecem estar com algum tipo de ânsia, vejo o céu escurecendo e todos fugindo da possível tempestade que se aproxima. O vento aumenta sua velocidade fazendo com que folhas e flores rodopiem em todas as direções, num balé frenético, descompassado, mas hipnotizante.

Fico tonta só de olhar, sinto meu corpo girar junto com as folhas; o vento está bem mais forte, não mais exala o odor agradável dos jardins, mas sim fumaça e terra. Sinto meus olhos arderem, mas arrisco dar mais alguns passos em direção a eles e ao nosso futuro. Parece que estou levantando voo, meus pés mal tocam o chão, só consigo me concentrar em chegar em casa, preciso contar-lhes que tudo acabou, que estou livre, falar dos nossos sonhos e de tudo que ansiamos conseguir.

Os primeiros pingos da chuva tocam minha face e, desorientada com toda a agitação das pessoas, percebo que estou perdida, tranco a respiração para manter a calma e sinto alguém me segurar pelo braço.

Adélia me seguiu até ali, ela olha firmemente dentro de meu pânico e me conduz até seu carro. Adélia é uma mulher negra, alta e magra, dona de um porte intimidador, mas seguro, também é dona do poder de transformar realidades, principalmente as doentias. Ela é a responsável por me fazer acreditar na capacidade de superação que todos carregamos.

Com sua ajuda, em poucos minutos, me encontro parada na portaria de meu prédio. Procuro sem pressa a chave em meus bolsos, até que as encontro inesperadamente em minhas mãos. Permaneço parada por mais algum tempo, tomo coragem e rumo para o saguão. Aperto com as mãos trêmulas o botão do elevador, mas desisto, procuro a porta que leva às escadas. Subo os treze andares e percebo que pouco restou para me impedir de enfrentar o que está atrás daquela porta. Subi com meus próprios pés aqueles treze andares, e dependo deles para chegar até o topo.

Quando giro a chave e abro a porta, o tempo volta a correr e me deparo com minha imagem refletida na vidraça — uma mulher frágil com as mãos amarradas. A realidade me assalta e por trás dos vidros vejo Giovanna com seu vestidinho branco, bordado, enfeitado como de uma princesa, linda!, perfumada, sandálias sem meia, como sempre. Há quantos dias não contava o tempo? Por que entregar-se a um hábito sem perguntar a razão? Entre um momento e outro de lucidez lembro que estou ali para uma rápida visita. Ainda apoiada no batedouro da vidraça, os flashs das imagens do corpo de Denis no chão me roubam o momento. Ouço o arrastar de adeus dos pés de Giovanna, olho mais atentamente e vejo Adélia parada ao meu lado. Já é hora de retornar para a cela.

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Angelita Guesser

www.aguesser.com

Angelita Guesser nasceu no Rio Grande do Sul em 1976. Hoje mora em Porto com seus filhos e o escritor Huggo Iora com quem divide uma vida de poesias. Estudou Psicologia e Direito, fez formação em Psicanálise, também é mestra em política social. Adquiriu o hábito da escrita através da transcrição das sessões de psicoterapia em que trabalhou por 18 anos. Desenvolve seu lado artístico através das palavras e principalmente através dos desenhos. Lançou Foda-se (Ed. Autora) em janeiro de 2020, seu primeiro livro de poemas totalmente independente, seu segundo livro Entre um Eco e Outro (Ed. Letramento) em julho do mesmo ano. Hoje se dedica à escrita de romance e contos.


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