Acalma  



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Por Nagle Melo

Houve um tempo, não muito distante, onde se acreditava que o coração não resistiria à dor, que aumentava a passos largos e tomava o corpo e a alma por completo, sem esquecer um só fio de cabelo. As lembranças assombravam dia e noite. Noite e dia. Não havia sono. Não havia sonho. Apenas o fechar e abrir dos olhos.

O percurso diário não ajudava. As paisagens pelas janelas dos ônibus não tinham mais o brilho das manhãs ensolaradas, quando fechava os olhos e sentia que a vida pulsava em seu peito. As memórias tinham vida e apareciam e reapareciam como fantasmas que não conseguem desencarnar deste mundo. De repente, o choro. As lágrimas tinham vida própria e não se envergonhavam de, audaciosamente, escorrerem pelo rosto cansado de mais um dia de trabalho intenso. Sentia que o coração poderia parar a qualquer momento. Parar de sentir, de pulsar, de emocionar.

Sessões de análise e momentos de solitude foram suas grandes parceiras durante um bom tempo. Ainda são e serão infinitamente. Mas, naquele momento, não conseguia enxergar que eram suas extensões de mulher. Só sentia um fardo e cansaço. O mundo é cruel, injusto! Ahhhhhhhhhhhhh! Gritava. E ninguém ouvia. Olhava ao redor e só enxergava as paredes brancas da casa nova, embaçadas pela vista turva. Então decidiu-se por se deitar no chão de porcelanato, que reluzia a brancura do local. De sua casa. De si própria. Adormeceu.

Acordava numa floresta e mal conseguia abrir os olhos devido à forte e intensa luz branca que a queimava por inteira! Aos poucos, foi conseguindo se levantar e começou a sentir um cheiro de terra molhada, de flores, de natureza. Foi abrindo os olhos devagarzinho e a quentura foi tomando uma forma já conhecida. A sua própria. De repente estava de frente para uma cachoeira linda, de águas cristalinas. Sozinha. E pela primeira vez, depois da morte, não se sentia sozinha. Sentia-se inteira, completa, plena. Não sabia onde estava, nem o que estava acontecendo. Mas havia algo ainda mais diferente: o silêncio tomara conta dela, inteiramente. E ela podia nadar, mergulhar, sentir os cheiros das flores, das águas, da terra, do ar. Estava livre!

Despertou com os olhos cheios de lágrimas, mas desta vez eram lágrimas de alegria, como as que foram geradas nos magníficos bosques de Palermo. Olhou pro lado e viu uma flor azul, como se tivesse sido deixada (de presente) por alguém. Não lembrava que havia qualquer flor em sua casa, muito menos uma azul. Foi quando lembrou do sonho! Havia flores de muitas cores, algumas púrpuras, outras coloridas, todas lindas! Mas a flor azul de uma planta estranha, pequena e quase insignificante diante de tanto estímulo de belezas foi a que fisgou seu coração. Até teve a impressão de, por trás desta planta, ter visto um olhar. Eram grandes e concentrados os olhos. Mas ao se aproximar, não havia ninguém. Uau! O que isto significa? Teria sido fantasia de sua mente tão desejosa? Não achava respostas. Não havia respostas, nem perguntas. E o coração voltou a sentir; a se emocionar; a bater. Um calafrio a percorreu da cabeça aos pés e ela saltou do chão. Descobria, naquele exato momento, que estava viva e que o tempo eterno era este! Aqui e agora.

Nagle Melo é psicóloga, amante do ócio e escreve o que seu coração grita


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