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Vera Dantas: “Quero conjugar o verbo esperançar, porque nesse verbo tem ação”

Vera e o Ekobé: uma relação simbiótica (Fotos: João Ernesto

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Ela é do sertão do Rio Grande do Norte. Foi criada à base de sertanices próprias do semiárido nordestino, como o contato próximo à terra e o cuidado por meio de plantas medicinais. Única filha médica de um casal camponês. No sotaque, nos olhos falantes e nos grandes gestos vívidos, ainda carrega as marcas da criação sertaneja. Estão no espírito!

Já adulta, vivendo em Fortaleza, e em permanente diálogo com outras sonhadoras e sonhadores, causou um rebuliço danado no universo da educação popular no Brasil. A medicina já não a abarcava mais! Transcendeu-a. Tendo como referências duas almas libertárias, a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999) e o educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997), se lançou à liberdade de sonhação: esse propósito de fazer da vida um misto de sonhar e agir! Desacreditou da política tradicional para transformar a própria vida cotidiana em fazer política! Esteve na vanguarda da construção do “Ekobé”, um centro irradiador de formação e cuidados em saúde, com práticas integrativas e populares, totalmente gratuito.

A gente conversou com Vera Dantas no próprio Ekobé. E saímos de lá com o coração mais rico, encharcado de esperança!

Vera, tu é uma médica… (Ela interrompe: “não sei nem se ainda sou”; e cai na gargalhada) Pois é, justamente sobre isso que a gente vai falar. O que tu, enquanto médica “diferente”, pensa sobre a indústria farmacêutica e toda essa medicalização da vida?

Acho que nem todo médico é da biomedicina, nem todo médico é capitalista, nem todo médico defende a medicalização e a mercantilização da vida, né? Eu fico feliz porque não sou tão minoria assim, temos um movimento hoje, que começa a ficar forte, dessas pessoas que estão caminhando em outra direção. O tempo vai passando e o universo vai oferecendo oportunidades de romper e seguir por outro caminho que não o da medicalização e da mercantilização da vida. E a gente tem essas possibilidades no SUS (Sistema Único de Saúde), embora isso seja boicotado.

Voltando um pouco aqui pro lance da indústria farmacêutica. O que tu pensa sobre essas teorias de que ela detém soluções pra certas doenças e esconde isso pra ganhar dinheiro, vender remédio, pra lucrar mais. Tu acha que isso é factível?

Eu acho que isso é real! Na realidade, no campo da saúde – e falo campo da saúde que não é só medicina – nós trabalhamos com um olhar contemporâneo ocidental, que é um olhar pautado na ideia mecanicista de que o corpo é uma máquina e, como uma máquina, ele é composto por peças que você substitui ou compra as coisinhas pra ajeitar. Hoje, quem tem dinheiro não quer mais parir normal (óia a pág.19), com poucas exceções; todo mundo quer emagrecer colocando o balãozinho bariátrico no estômago, ou então vai tirando os pedaços do corpo. Se você olhar pra lógica do plano de saúde, as pessoas pagam pra ter direito a uma hotelaria, que é mais ou menos refinada de acordo com o valor que se paga. Mas nas medicinas tradicionais, sejam as indianas, as chinesas, as africanas, sejam as tradições milenares dos nossos povos nativos, todas têm um outro olhar sobre a saúde e sobre a vida, que o corpo não é uma máquina, que tudo está dentro de tudo. (O “teólogo da libertação”) Leonardo Boff fala uma coisa muito bonita sobre isso, que em cada célula está o todo, né? E que nós sobrevivemos por causa da solidariedade. O (filósofo e biólogo chileno Humberto) Maturana vai falar do ser humano como ser ontologicamente amoroso e dessa solidariedade que tá em cada célula e que vai contrariar esse olhar sobre a imunologia que diz que a doença é provocada pelo micróbio e pelo microrganismo, né?

Né! Falando um pouco do SUS (Sistema Único de Saúde) agora. No papel ele é um sistema único no mundo, mas infelizmente ainda não funciona a contento. Quais as estratégias de viabilidade pra ele funcionar?

A estratégia dele funcionar é a participação popular. Porque o SUS tem um mecanismo de participação instituído que são os conselhos de saúde. Infelizmente, do jeito como os conselhos foram implantados, eles também viraram espaços de cristalização de determinados poderes. Não são todos os movimentos que conseguem chegar, na maioria dos lugares precisa de CNPJ pra ser representante de conselho. Então, a dificuldade do SUS se efetivar é porque você tem a mesma situação que a gente passa no Brasil: você tem uma elite que não aceita dividir os privilégios com a maioria, que não aceita que os que nunca tiveram nada possam ascender e acessar as coisas. Então, eu penso que pro SUS se efetivar são esses três movimentos que nós devemos fazer: cuidado, formação e participação política.

Pela forma como tu vive, tu acredita que é necessário criar também formas autônomas e independentes ao SUS, de tá cuidando da gente de uma forma solidária, fora da institucionalidade, né? Como aqui no Ekobé. Aliás, uma curiosidade: esse nome, Ekobé, é indígena?

É um nome Tupi que quer dizer “vida”.

Massa! Então, a gente viu que vocês têm atendimentos gratuitos, comunitários, que se baseiam sempre nessa multiplicação dos saberes, desses saberes ancestrais… como é estar aqui no Ekobé?

Olhe, aqui nós atendemos a toda a comunidade, é aberto a quem chegar. Às vezes as pessoas dizem: você tá trabalhando demais. Eu não tô trabalhando no Ekobé naquele sentido original do trabalho. Pra mim aqui eu crio, aqui eu dou e recebo…

Mas esse talvez seja o sentido original do trabalho, que depois foi desvirtuado. O trabalho ontológico talvez seja esse, né?

Isso, o trabalho doloroso é porque o trabalhador tá alienado dele. Eu não estou alienada, eu ajudei a construir esse espaço aqui. Não fui eu só, têm muitos e muitas aqui, né? Isso aqui, minha gente, foi todo um processo. Aqui a gente faz sonhação, a gente não tá esperando que outro mundo aconteça. O mundo possível vai acontecendo aqui, agora. O Paulo Freire dizia assim: eu não vou esperar na pura espera, porque o tempo de espera é um tempo de espera vã, eu quero conjugar o verbo esperançar, porque nesse verbo tem ação. O (poeta de Maranguape/CE) Ray Lima gosta muito de usar a palavra “sonhação”, e no Ekobé estamos fazendo a sonhação!

Aqui a gente faz sonhação, a gente não tá esperando que outro mundo aconteça. O mundo possível vai acontecendo aqui, agora. (…) o tempo de espera é um tempo de espera vã, eu quero conjugar o verbo esperançar, porque nesse verbo tem ação.

Esse termo é lindo, “sonhação”!

Lindo demais!

Vera, pensando no que vocês fazem aqui, qual tua visão sobre práticas integrativas como o reiki ou a meditação no sentido da autocura? De como a gente tinha esse poder (de autocura) e esqueceu?

Pois é, exatamente. Nós passamos a vida inteira entregando o nosso corpo pro outro. Nós entregamos nosso corpo pro médico, pro fisioterapeuta, pra enfermeira; a gente não cuida mais da nossa alimentação, já que é o nutricionista que passa a dieta. Como a ideia de saúde da biomedicina é a ideia mecanicista, do corpo como máquina, então você aprende a formatar a máquina, a condicionar e automatizar a máquina. No caso do Ekobé é diferente, não é à toa que a construção é em espiral, o movimento de espiral é o movimento da vida. Aqui as práticas são complementares: o reiki se junta com a yoga, que se junta com a medicina ayurvédica, que se junta com a medicina tradicional chinesa, que se junta com a prática xamânica, que se junta com as práticas da religiosidade… o movimento de espiral que se espalha, que produz redes, que produz teias, esses são os movimentos da natureza e que produzem autogestão.

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Ekobé: “O movimento de espiral é o movimento da vida

Em relação a essas práticas integrativas (reiki, yoga, acupuntura, xamanismo, entre outras) e à própria permacultura, a gente percebe que voltaram com tudo no Brasil nos últimos cinco, dez anos. Tem um movimento crescente de mais pessoas interessadas e a gente percebe que o mercado disso está crescendo avassaladoramente. Formações em yoga e reiki em pouco mais de um ano e já se pode atender profissionalmente; cursos de bioconstrução e pacotes de PDC vendidos caríssimos, e depois quem aprende sai vendendo também. Tão ganhando muito dinheiro com isso…. A Ivânia (do Ciclovida) disse certa vez numa conversa - e isso nos tocou - que esses saberes são ancestrais, de todas(os) nós, que deveriam portanto serem repassados sem a mediação pelo dinheiro. A pergunta é: esses movimentos já foram também cooptados pela grana?

Olhe, aqueles que têm a lógica de mercado aprisionaram isso nos consultórios privados. Não só os médicos, mas também psicólogos, fisioterapeutas, e por aí vai. A lei do mercado é muito forte, porque conta com a mídia, conta com o dinheiro. Minha mãe usava uns remedim homeopáticos na gente lá no sertão do Rio Grande do Norte. Ela cuidava da gente com as plantas medicinais e com a homeopatia. Quando cheguei no Ceará, conheci logo o movimento de saúde mental do Bom Jardim (bairro da zona oeste de Fortaleza), então comecei a ver o povo fazendo eneagrama e fui fazer homeopatia lá porque não queria fazer em consultório privado. No (Conjunto) Palmeiras a mesma coisa. Nós tivemos algumas pessoas que foram importantes: o professor Abreu Matos, por exemplo, um grande pesquisador da área de plantas medicinais, disse: “eu quero devolver pro povo o que aprendi com ele”. E ele fez a formação de farmácia viva lá (no Conjunto Palmeiras). Esse era pra ser o princípio: ensinar e compartilhar. Hoje (no Ekobé), nós já iniciamos (gratuitamente) mais de 300 pessoas em reiki espalhadas pelo Brasil… isso é a nossa sonhação!

A gente agora queria falar um pouquim de educação popular. Tu, sendo uma das figuras nacionalmente mais conhecidas nesse cenário, pode falar resumidamente o que é essa prática?

Educação popular é uma prática que foi sistematizada no Brasil principalmente por Paulo Freire, e parte de duas questões: primeiro, é a experiência que produz o conhecimento; e que as pessoas aprendem com a sua experiência a se constituir na vida e aprendem a ler esse mundo antes de ler a palavra. Por isso que o Paulo Freire criou um método revolucionário de alfabetização em 40 horas. Ele vai dizer: como é que eu me liberto? Me liberto quando me inquieto, quando consigo problematizar minha realidade e aí construo uma consciência crítica, que ele chamou de conscientização, que me leva a agir, transformar a realidade e fazer novas reflexões. Experiência, reflexão crítica e o olhar libertário pra entender que as coisas (sociais) não são naturais, que acontecem porque existe um processo que as determina. Então, a educação popular é um ato político, que permite às pessoas se perceberem capazes de construir, e que não se constrói solitariamente. A gente aprende a ler isso na educação popular!

E que “ninguém educa ninguém”. As pessoas se educam em comunhão, né?

Isso! João Santiago, que é um poeta de Crateús (CE), que hoje vive no Paraná, diz assim (no poema “Educação Freireana”): “Mas o que é educar?/ Tem a educação bancária, tem a educação popular/ Uma ensina a obedecer, a outra a aprender porque ensina a pensar/ Educação popular é por si só diferente/ Ninguém educa ninguém, faz-se coletivamente/ Não tem um saber maior, porque não tem um menor, tem o saber que é diferente/ Educação popular não se faz na solidão/O caminho da liberdade é o mesmo da educação/ Somente o amor humaniza/ A educação deve e precisa acontecer em união”. O Paulo Freire, além do olhar político, da ideia de libertação, traz uma questão que são os dois princípios fundamentais pra essa educação acontecer: o diálogo, que não se resume na relação eu-tu, mas como essa possibilidade de construção compartilhada de vida e de conhecimento; e o outro princípio é o da amorosidade, que não é essa amorosidade piegas, romântica, ele tá falando dessa possibilidade de ser com o outro, da compaixão.

Paulo Freire é massa! No teu doutorado, tua tese falava da perspectiva popular das “cirandas da vida”. E aqui no Ekobé vocês trabalham com ciranda, teatro, biodança… Como é essa dimensão da arte dentro da educação popular?

Eu digo inclusive que a arte é cuidado, né? Porque a gente concebe essa dimensão da arte como essa capacidade que todo ser humano tem de transcender, como soube muito bem trabalhar Nise (da Silveira, psiquiatra alagoana que a partir de meados dos anos 1940 revolucionou o tratamento psiquiátrico no Brasil através do incentivo à prática das artes plásticas pelas pessoas com transtornos psicológicos). Então, eu transcendo quando eu faço uma massagem, uma aplicação de reiki, e eu transcendo quando eu consigo brincar e dialogar com o outro, com a outra, numa vivência de teatro, numa ciranda. Na educação (tradicional), a gente ainda tem um olhar instrumental sobre a arte, do mesmo jeito que a gente tem um olhar mecanicista na saúde. É muito potente quando as pessoas cuidam com arte, se expressam com arte. Mas infelizmente, no geral, ainda não ocorre assim.

Vera, chegando aos finalmentes da entrevista, a gente não podia deixar de falar sobre a situação política do país, tudo que tá acontecendo. Paulo Freire – mais uma vez ele – dizia que o homem de esquerda se equivoca quando tenta “domesticar o tempo”, algo como domesticar a História e se apegar docilmente às velhas técnicas de representação. Como tu vê o cenário brasileiro hoje e como tu vê a questão das eleições?  

Olhe, eu fui militante do PT desde a criação dele. Mas hoje o nosso sonho foi virando pesadelo exatamente por essa ótica mercantilista, capitalista, que vai moldando os processos da burocracia e de governo pros interesses… E aí as pessoas que estão à frente dos processos estão tão engrenadas naquelas garras que vão, né? Não acredito mais nesse modelo de democracia, acho que temos que construir outra coisa. E isso não é do nosso país, isso é do mundo.

Como seria esse modelo?

Pra mim é um modelo pautado nesse caminho que nós vamos construindo aqui (no Ekobé), libertário, autogestionário. Acho que temos algumas possibilidades que já existem: o Ekobé é uma delas, o movimento Bem-Viver dos índios da América do Sul, essas possibilidades de se trabalhar com as grandes assembleias populares, de se sair desse modelo da democracia. Nós precisamos sair desse modelo da democracia representativa. Ela já deu o que tinha de dar. Esse modelo tá totalmente bichado. E isso precisa vir das bases, né? Sou uma esperançosa incorrigível!

Nós precisamos sair desse modelo da democracia representativa. Ela já deu o que tinha de dar. Esse modelo tá totalmente bichado. E isso precisa vir das bases, né? Sou uma esperançosa incorrigível!

E vive de sonhação, né?

E vivo de sonhação, não tô parada na pura espera e nem vou ficar. Eu vou pra rua! Agora, não vou pra rua defender partido nenhum, não vou pra rua defender Lula nem Dilma. Agora, como estamos num cenário que tem muitas forças complexas, nós precisamos nesse momento saber quem são os aliados e quem são os adversários. Hoje eu amanheci o dia lembrando de um poema do Agostinho Neto e queria compartilhar com vocês. Não sei se lembro todo, mas vou dizer a parte que conheço (ela se ajeita na cadeira e recita): “Dos que vieram e conosco se aliaram, muitos traziam sombras no olhar, intenções estranhas/ Para alguns a razão da luta era só ódio: um ódio antigo e duro como uma lança/ Para outros era uma bolsa vazia, queriam enchê-la de coisas sujas, inconfessáveis/ Outros viemos. Lutar pra nós é um destino, uma ponte entre o amanhecer e o desejo de um mundo novo/ Queremos um mundo novo/ Na mesma barca nos encontramos/ Todos decidem: vamos lutar/ Lutar pra quê? Pra dar vazão ao ódio antigo? Ou pra construirmos a liberdade de ter pra nós o que queremos?/ Sim, queremos ter pra nós o que queremos!/ Na mesma barca nos encontramos/ Quem há de ser o timoneiro?/ Quem há de ser o timoneiro?”… Eu acho que não tem que ter um timoneiro, todos e todas temos que ser os timoneiros!

A entrevista acabou com uma entusiasmada salva de palmas, após toda a beleza da poesia e a interpretação visceral de Vera!

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Entrevista publicada na Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 (pgs. 6 a 9) (aqui, versão PDF)

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