O ocaso nos domingos é o pior

Por Clara Capelo (auto-retratos) /  Assistência: Vitor Colares

claracapelo@gmail.com / claracapelo.com

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O ocaso nos domingos é o pior.

Vou dormir com medo. De repente vejo o medo cartografado em minha cidade. Não, na minha cidade, não. Na verdade, onde nasci.

Minha cidade é grande, onde nasci é pequeno, uma parte.

Acordo, mais um dia, vejo a igreja. Como ela me oprime! Todos os dias! Acordo na cidade branca, que conserva aquilo, logo aquilo, que me

corrói, que me esmaga.

Percorro pela cidade graduada, cada esquina sua me parece um tanto católica, hoje. Suas ruas me lembram medos que senti, as dores que

bateram no peito naquele final de tarde de um domingo.

O ocaso nos domingos é o pior.

O ocaso nos domingos, vendo o mar, é o pior.

O ocaso nos domingos, vendo o mar, na minha cidade, é o pior.

Quanto ruído, quanto corpo, quanta dobra, eu posso expor isso? Não sei, sei que guardado na gaveta de minha escrivaninha não cabe.

Dentro do peito, não cabe. Só resta isso?

Me revolvo.

A linha tênue entre luz e sombra no meu corpo, no corpo da minha cidade, é onde vejo a morte.

Talvez o que resta seja respirar onde essas linhas (tão tênues!) não chegam, onde elas não encostam.

Talvez, ali, no claro de luz, ou ali (ali, ó!) naquela sombra lisa e também segura, seja onde eu consiga, finalmente, respirar.

Fortaleza, 14 de setembro de 2015, 20:35

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Crônica e ensaio fotográfico publicados na seção Lambe-Lambe na Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 (pgs. 31 e 32) (aqui, versão PDF)

Espia aqui outro ensaio fotográficos: Lambe-Lambe

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