Ciência e arte: sobre atravessar linguagens e transpor horizontes



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(Foto: divulgação)

Era 2016 quando o então presidente da câmara dos deputados Eduardo Cunha abriu espaço para votar uma medida que permitia a não obrigação da sinalização de transgênicos na embalagem dos produtos. Esse embargo ao simples acesso à informação ao consumidor, a nós, ficou marcado como mais uma derrota que se somaria a tantas outras que culminou no impedimento da primeira mulher eleita, pelas vias da frágil democracia brasileira, presidente da república. Arte e política são campos convergentes para as possibilidades infinitas da poiesis humana, assim também como arte e biologia estão na formação de Fabíola Fonseca, bióloga com inclinações artísticas nascida em Macapá e radicada no mundo, como ela mesma prefere dizer. 

Em setembro de 2019 estive com Fabíola em Natal, na montagem de sua exposição Escala Cromática para Moscas e Outros Seres (Fabíola Fonseca, João Agreli, Carlos Ueira, Michelle Sales, Cesar Baio). Como a bioarte pode ser uma expressão de síntese de singularidades? Essa pergunta é um trampolim para mergulhar no trabalho da cientista-artista. Ela desenvolveu essa obra como fruto de uma residência no laboratório de genética na Universidade Federal de Uberlândia e mais duas outras obras: Moscas Transgênicas (Fabíola Fonseca, João Agreli, Carlos Ueira, Cesar Baio, Francisco Moura, Levy Mota), uma vídeo performance do voo desses pequenos seres, e o livro Manual de como fazer sua mosca transgênica (Fabíola Fonseca, João Agreli, Rosemário Sousa, Alexandre Carvalho), produzido com financiamento do edital de Cultura da Prefeitura de Uberlândia (2017). Os desdobramentos de um trabalho compartilhado também entre as itinerâncias de Fabíola pelos caminhos trilhados em sua pós-graduação. 

A polifonia que a arte possibilita também está em pensar as moscas como trampolim para um mergulho na tentativa de compreensão sobre a biologia das próprias moscas. Para gestar o trabalho, Fabíola buscou compreender o ciclo de vida das drosófilas e também deslocá-las de seu lugar-comum de “mosca da banana”. Moscas modificadas geneticamente, que também modificam a artista no momento em que expressam singularidades. Os insetos compõem-se como possibilidade de se enxergar como parte de processos, além de variegados ambientes onde desenvolvemos nossas participações. 

Quando o processo de elaboração do trabalho depende da análise de ciclos de vida de outros seres, o objeto analisado não se mostra de forma estável. A partir dessas variedades fenotípicas, como a escala cromática dos olhos das moscas, se compõe a exposição fotográfica que ela trouxe ao museu Câmara Cascudo, em Natal, nos dias 26 e 27 de setembro. No aparelho da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ela trocou experiências sobre seu processo bioartístico, além de expandir a expressão de seu trabalho para o público potiguar. 

Fabíola em seus experimentos científicos (Foto: João Ernesto)

As drosófilas possuem 70% de compatibilidade genética conosco. Falando sobre o processo de cruzamento, ela traz esta informação também como possibilidade de agregar outros sentidos ao acompanhar as moscas. “A ciência e a arte produzem outros mundos, por isso que perguntei como ambas se entrelaçam para produzir essas singularidades. A variação é a cor, mas como isso vem para ciência e como vem para a arte?”. 

Com uma linguagem poética, Fabíola contribuiu para o livro Manual de Como Fazer sua Mosca Transgênica. A obra apresenta os cruzamentos das moscas para se produzir uma mosca transgênica, além de várias questões acerca do processo artístico e científico. “É como essas moscas trazem outra composição de e para o mundo. Como elas contribuem para essa modificação do mundo. Se for parar pra pensar, há 15 anos atrás a gente não pensava ainda em moscas transgênicas, e por que que a gente começou a pensar e quais possibilidades isso nos apresenta?”.

Em uma conversa que durou cerca de uma hora, pudemos falar também sobre o processo de acessibilidade ao conhecimento científico e artístico. Sobre como participamos do enclausuramento do próprio conhecimento. Enquanto as universidades estão sofrendo cortes de gastos e julgamentos que extrapolam a moralidade, a produção gira em torno das qualificações curriculares em detrimento a outras possibilidades de produzir e escoar o conhecimento. “Se um cara lá fora fala que a academia é balbúrdia, em qual momento nós saímos de nossa zona de conforto para demonstrar que não era balbúrdia?”, pondera ela com um misto de preocupação e tristeza, mas que aos poucos vai cedendo espaço a uma esperança que vem da possibilidade de construir outras poéticas a partir da relação entre ciência e arte para enfrentar esse cenário.  

Para além das obrigações acadêmicas, a obra de Fabíola nos remete à polifonia das linguagens. Somos deslocados através de termos incômodos como moscas e transgenia, enquanto ela nos apresenta possibilidades de interseções entre arte e ciência. Em uma estadia curta na capital potiguar, foi possível observar uma pessoa que fez do laboratório o seu ateliê. Com o desejo de transpor fronteiras, ela expressa um trabalho pioneiro envolvendo transgenia com as moscas. Conversar com ela é uma possibilidade de acessar vontades de mudança, não só da linguagem acadêmica, mas também de atravessar muros.

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jernesto@revistaberro.com


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