As vantagens e Desvantagens de denunciar um abuso sexual em “Brooklyn-99”



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Jake e Amy encontrando com Keri no final do episódio (Foto: reprodução; Montagem: Juliana Lima)

O episódio “He Said She Said” da sexta temporada da comédia policial aborda uma temática que quase todas as mulheres conhecem. Abuso sexual. Mais uma vez a série aborda um tema sério brilhantemente usando o equilíbrio perfeito de comédia e sensibilidade.

Para entender melhor vamos resumir: O episódio tem como personagens principais a dupla (e casal) Jake e Amy que são direcionados pelo capitão do precinto a investigarem um caso onde uma mulher quebrou o pênis de um colega de trabalho. A investigação se torna complicada após ele (chamado de Seth) e ela (Keri) contarem versões diferentes dos fatos. Ele conta que estavam conversando e ela se ofendeu com uma brincadeira e o atacou com um taco de golfe por ser doida. Enquanto ela conta que Seth havia bebido e quando a chamou para a sala, ele tentou tirar sua roupa e se forçar nela, e por isso ela se defendeu.

Ao ouvirem isso os policiais recomendam que Keri faça uma denúncia formal contra o colega, mas ela recusa pois a empresa estava oferecendo muito dinheiro para que ela nunca mais tocasse no assunto e ela sabia que ninguém acreditaria na versão dela. Antes que ela possa assinar o contrato, Jake e Amy resolvem achar provas para que Keri leve Seth à justiça, mas a empresa preparou todos para falarem que ele é um ótimo cara e ninguém quis denunciá-lo. Ao descobrirem da investigação, a empresa também resolveu ignorar o contrato e demitir Keri por não agir de acordo. Quando a dupla finalmente acha uma testemunha, Seth enfrenta as penalidades do assédio.

Este episódio tem um roteiro tão brilhante por não se limitar em uma vertente do abuso sexual. Ele se aprofunda em como as mulheres podem passar por situações debilitantes em ambientes de trabalho e no dilema em que se encontram em relação a denunciar o caso.

Na cena em que Amy discute o caso com sua colega Rosa, esta tem uma opinião contrária de denunciar. Rosa estava contra a investigação deles pois Keri não tinha provas o suficiente para denunciar e mesmo se conseguisse ela teria que passar por um processo excruciante de julgamentos e sua reputação ficaria manchada, o que causaria impacto em sua vida social e profissional. Amy discordou com os argumentos de Rosa pois quando uma mulher denuncia, ela inspira outras a fazer o mesmo. Mas Rosa argumenta que o homem pode ser levado à Justiça, mas a vida da mulher pode ser arruinada no processo.

No final do episódio Keri se demite de seu trabalho por seus colegas a tratarem diferente por ela ter feito a denúncia. Por outro lado, outra mulher da empresa foi a delegacia reportar um caso de assédio provando que Rosa e Amy estavam certas.

Esta é uma questão muito interessante que é desconhecida para muitas mulheres. Keri afirma inicialmente para Amy que nem estava considerando denunciar Seth pois ela sabia que o sistema era falho e ela não ganharia aquela luta.

De acordo com a US Equal Employment Opportunity Commission, agência federal americana responsável pelas leis contra a discriminação nos locais de trabalho, a cada 4 casos de assédio em locais de trabalho nos Estados Unidos, 3 não são reportados. Um levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que 52% das mulheres do Brasil não denunciam seus agressores.

Em 2017 a promotoria de Justiça do Ministério Publico de São Paulo identificou os principais motivos para as mulheres não denunciarem. Entre eles o medo do agressor; não identificarem o que passaram como assédio; ninguém acreditar nelas; perder o emprego e reviver a experiência.

Além das mulheres nem sempre saberem da opção de denunciar, elas não sabem a importância disso pra outras mulheres e como elas devem se preparar para o que está por vir. É um processo duro não só socialmente e profissionalmente mas psicologicamente também por terem que reviver tudo aquilo de novo.

Em um lado mais pessoal do episódio vemos Amy de moletom estudando duro para achar provas contra Seth. Ela conta para Jake que não é “só um caso” pra ela e sim é um caso pessoal por já passar por uma situação parecida quando virou policial. Ela conta como se sentiu vulnerável após ganhar diversas promoções e seu chefe a levar para sair e querer beijá-la, como se ele merecesse e só a tinha promovido por querer algo em troca. Amy relata que se transferiu para a delegacia atual depois disso e nunca comentou com ninguém por medo de ser demitida ou de concluírem que seu trabalho não foi válido e sim comprado.

“Deus, toda vez que acho que entendo o quão ruim é, fica pior do que eu imaginava”, Jake reponde para a história de Amy sobre machismo.

Além disso, Amy explica para Jake o quão comum essas situações são. Amy mostra a Jake que lida com machismo todo dia e como ambos estão na mesma situação, mas ao mesmo tempo é uma situação completamente diferente para ela. Ela dá 3 exemplos:

  • a) Quando estão na rua Jake vê algo legal e exclama “sick” (gíria para algo legal, em inglês) mas um homem está cheirando o cabelo de Amy e ela exclama a mesma palavra para expressar nojo.
  • b) Quando vão pegar café o barista agradece a Jake mas provoca Amy inapropriadamente e a chama de linda.
  • c) Quando alguém chega na delegacia pedem a Amy ( que está vestida de uniforme) para conversas com um policial, mostrando que não a levam a sério só por ser mulher.

“Esse tipo de coisa acontece com toda mulher que eu conheço. Eu só quero deixar as coisas melhores para essa mulher”, Amy afirma.

Assim vemos também como Jake lida com a situação como um homem por não imaginar as dificuldades diárias que as mulheres passam e o ponto de vista dele por ser completamente oblíquo à situação.

A conclusão do episódio – dita por Rosa quando Keri se demite mas outra mulher aparece para denunciar na delegacia- é a de que dois passos para frente e um passo para trás ainda é um passo para frente. O que significa uma frase muito comum entre aqueles que, como a Amy, são fãs da saga Harry Potter: “Há um momento em que temos que escolher o que é certo e o que é fácil”.

Claro que há casos e casos e os prós e contras em casos de denúncia sempre devem ser avaliados para que a vítima não se exponha a demasiado risco. Mas ao denunciar estamos ajudando mulheres a fazer o mesmo e prevenindo que estes homens repitam seus erros – sendo os dois passos pra frente, enquanto podemos arcas com as consequências – sendo este o passo para trás.

O episódio retrata que denunciar não é algo fácil a se fazer, mas é importante fazer sua voz ser ouvida. A série demonstra representatividade das mulheres que passam por situações parecidas. Muitas vezes elas se sentem encurraladas para falar a respeito e não sabem como lidar nesse tipo de situação e quais impactos – negativos e positivos – denunciar o agressor pode trazer.

LEMBRE-SE: Se você está sendo ameaçada, violentada, machucada, assediada ou teme por sua vida ligue 180. A denúncia é anônima, gratuita e a linha é disponível 24h.

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