Branquitude



0 Comentários

(Arte: Vitor Grilo)

dani@revistaberro.com

O discurso de posse do maior cargo do Estado brasileiro, que pela própria estrutura já reverencia a bandeira, a lei e a família desde a Proclamação da República, traz em si a autoridade e o privilégio da branquitude: “Brasil acima de tudo, deus acima de todos”. Este Brasil e este deus são brancos, mas disfarçam-se de identidade nacional.

O modo de pensar branco se coloca como ponto de partida e de chegada. No final do experimento, o branco é considerado moralmente e intelectualmente superior, mas, na partida, ele foi a tabela de medição para analisar o outro. Se negro e indígena são raças, o branco é o que? Entender que branco também possui pertencimento étnico-racial retira este da categoria da normalidade e do ideal que todos tem que seguir.

Você já se questionou qual é o ideal de inteligência, de beleza e de justiça no Brasil? São pessoas brancas. Quando escutei o professor Lourenço Cardoso falando branquitude, entrei em paradoxo, pois assumir a existência dela faz perceber que os privilégios enquanto branco produzem a desigualdade em relação às pessoas não-brancas.

Se você interpretar branco como uma classificação étnico-racial, vai começar a observar que este não é parâmetro, mas apenas uma identidade que mantém os seus privilégios a partir da opressão que se acumula há séculos. Enquanto isso, o branco se isenta do que remete aos negros de forma negativa, o extermínio da juventude negra, a diferença de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre pessoas negras e brancas, como se estes dados se construíssem por si só.

Nós, brancos, assumimos que há oportunidades iguais para nos isentar da nossa responsabilidade nesta sociedade racista. Essa “igualdade”, isto é, democracia racial como já foi dito que existia no Brasil, foi e é a destruição da diversidade cultural existente, o que torna simbólico a redução constante desta diversidade a um só deus e a uma só nação.

Bolsonaro nos diz que estamos a nos libertar do politicamente correto, ou seja, do pequeno entendimento que viemos acumulando de que somos opressores e de que precisamos questionar as nossas atitudes. A esperança de um Brasil melhor para este governo é, em outras palavras, retomar os nossos lugares de privilégios.

Como este lugar foi construído? Na tese “O branco ante a rebeldia do desejo: um estudo sobre a branquitude no Brasil”, Lourenço Cardoso discute este desejo do branco em pesquisar o objeto negro, sem que se coloque em análise ou em questionamento a própria identidade branca.

O professor faz apontamentos sobre a identidade branca não-branca do Brasil. Como assim branca não-branca? O fato de que os portugueses seriam os não-brancos europeus, devido a miscigenação com povos judeus, mouros, ciganos e africanos antes de virem ao Brasil, torna nossa ancestralidade branca de “segunda classe”.

Apesar de serem menosprezados no continente europeu, o branco português “classifica a si mesmo como senhor” ao chegar no Brasil, como nos descreve Lourenço. Aí, está o pulo do gato, pois, ao mesmo tempo, o branco não-branco idealiza uma branquitude mais branca, europeia e estadunidense, para esquecer o português “atrasado”, e inferioriza, oprime identidades não-brancas dentro do próprio país.

Como diz Lia Schucman, isto não tem só a ver com o “legado do passado”, há “interesse no presente” de que tudo permaneça da mesma forma. O passado queremos esquecer, seja ele português, indígena ou africano.  E, no presente, para além do estado que aponta o dedo em sinal de arma, qual é o nosso lugar nesse binômio negro-branco? Onde estamos classificando a nós mesmos enquanto senhor? Como podemos sacudir a nossa própria imagem?

O racismo precisa ser combatido todos os dias. Não será fácil deixar os seus privilégios por ser branco de lado, tornar-se um branco antirracista é muito mais que ação de marketing. Os brancos estão acostumados a combater as regras para serem vanguarda, transgressores, isto é, permanecer no centro. Neste caso, a regra é a branquitude, a primeira forma de combatê-la é o branco sair do centro.

///

Dani Guerra é caminhante deste mundo. Conta histórias para tecer possibilidades. 


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *