Sobre violência, futebol e a “mística daquelas camisas”



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(Foto: Fábio Lima e Rodrigo Carvalho, O Povo)

Artur Pires

Desde ontem, 3 de maio, após o extraordinário e inesquecível Clássico-Rei no Castelão, que decidiu o Campeonato Cearense 2015, li e escutei muitos comentários, tanto de torcedores como de “comentaristas” esportivos, sobre a violência protagonizada por fanáticos de ambos os clubes dentro do gramado, após o jogo. E o que tenho notado é um discurso eivado de hipocrisia, marcadamente raso, superficial, que vomita preconceitos e cobra punição aos “vândalos e marginais”, e, como sempre, analisa as consequências dos atos violentos, mas esquece as causas.

Ora, as cenas de violência que vimos pela televisão ou assistimos no estádio são e serão recorrentes numa sociedade violenta, que marginaliza e negligencia pessoas. O futebol, como fenômeno social que é, apenas reflete a violência no qual está inserido. Os alcunhados “vândalos e baderneiros” são os mesmos que cotidianamente sofrem com a truculência policial, com a falta de educação e saúde pública, de lazer, de direito a uma moradia decente, de respeito à sua dignidade, que saem de casa e têm esgotos a céu aberto à sua frente, enfim, que sofrem dia após dia com a violência social; já vivem a apanhar da vida, por assim dizer. Uma sociedade assim espera o que de seus (sobre)viventes? Que respondam com paz e amor à violência diária a que estão submetidos? Ah, meus caros, não é assim que a banda toca. A violência social ricocheteia em todos os desdobramentos dessa mesma sociedade – e o futebol não está alheio a isso!

A verborragia que pede punição aos “vândalos, marginais e baderneiros” é a mesma que pede a redução da maioridade penal ou que vocifera que “bandido bom é bandido morto”. São de fato marginais, mas sabe por quê? Porque estão à margem de um tecido social que os ignora e exclui, que os condena à própria sorte, que os entrega a uma vida em meio à miséria, e que só os vê quando estes respondem com brutalidade à violência social que os vitima e sangra.

A saída não virá com estes discursos à la Capitão Nascimento de punição a qualquer custo. Porque o buraco é muito mais embaixo. O buraco é comprido e largo, tem mais de quatro séculos de exploração e negligência. A questão aqui não é passar a mão na cabeça de torcedores violentos, mas entender suas questões, fazer o saudável e salutar exercício humano da compaixão, de pôr-se no lugar do outro. “Ahhh, mas então tu não se coloca no lugar do pai de família que quer levar seus filhos pro estádio e não pode mais devido aos vândalos?” Claro que me coloco também! Torço profundamente para que isso volte a ocorrer, que pais, mães, filhas e filhos possam ir tranquilamente ao estádio, sem temer problemas. Mas torcer para que isso aconteça passa necessariamente por desconstruir essa visão de que o problema está na conseqüência, ou seja, nos atos violentos – que, queiram aceitar ou não, já são uma resposta -, e não na causa em si, a própria violência social.

A barbárie no futebol não vai desaparecer enquanto não atacarmos as raízes dela, que não estão no futebol, mas numa humanidade completamente entregue a valores distorcidos, que dá iates para uns e a rua como moradia para outros. É raso e hipócrita atacarmos com discursos punitivos as torcidas organizadas, e não percebermos que o que gera tudo isso é o fato de que muitas pessoas não têm sequer o que comer e onde dormir hoje. A selvageria nos campos e estádios é só uma metonímia da desumanização que vivemos!

 

……..

 

Quanto ao jogo em si, faço aqui uma mea culpa: eu desisti, eu desacreditei, Nação Tricolor! No segundo gol do time rival, virei as costas e fui em direção ao portão de saída, esbravejando desgosto, decepção e desilusão. Mas quando me aproximava para pôr os pés na rua, fui contido pela “mística daquelas camisas”. Um sonoro e gigantesco “Êêêêêêêêêêêêê” me fez parar, olhei prum torcedor que tinha um radim de pilha colado ao ouvido e vi que ele gritava de alegria: – Gol do Leão, gol do Leão, dizia. Olhei pro lado e vi centenas de torcedores pulando eufóricos. A ficha não tinha caído. – O que foi, o que foi? perguntei a quem estava na minha frente. – O Leão empatou, empatou!!!

Saí correndo de volta à arquibancada, ainda sem acreditar direito naquilo, querendo confirmação para o que parecia inacreditável! – O que foi, o que foi? Foi gol do Leão? indaguei, querendo apenas escutar que sim. Olhei para o gramado novamente e vi os jogadores tricolores vibrando e os do time rival com a bola ao centro do gramado. Sim, tinha sido gol do Leão! Gol do 40º título cearense de nossa história, que se juntou às 4 conquistas regionais (46, 60, 68 e 70).

Eu fui levado ao estádio pela primeira vez por meu pai, em 1991, aos 6 anos, na final do Campeonato Cearense. Até hoje, nenhum público em Clássico-Rei foi maior que aquele: mais de 60 mil tricolores e alvinegros lotaram o Castelão. O jogo foi 1 a 1, um golaço de Mirandinha para o Leão, e o Fortaleza foi campeão porque havia conquistado 3 turnos contra 1 do Ceará. Para um menino matuto que tinha vindo do interior ver aquele jogo, a experiência foi catártica…  como ontem!

O futebol tem suas mazelas, que vão bem além das brigas nos estádios: o business, a Fifa e as federações são de uma sujeira que enoja; os cartolas e empresários também maculam a imagem do esporte. O que falar então das vitórias e derrotas? Efêmeras, passageiras, nada mais. As vitórias regozijam; as derrotas doem. Ambas atingem o ego. Inflam-no ou murcham-no! São comemorações ou decepções que escapam às nossas mãos rapidamente, fagueiras como o vento. Mas disse tudo isso para concluir que, ainda assim, é impressionante como o futebol mexe com a gente. Tem algo de etéreo nestas derrotas e vitórias, nestas frustrações e catarses, que não cabe às explicações racionais, algo da ordem do sutil e do invisível, que lentamente e com o passar dos anos vai repousando na alma, sedimentando-se no espírito.

Racionalmente falando, sou torcedor do Fortaleza, e sei que o futebol é coisa pequena diante da existência, esta é tão maior; infinita, para se falar a verdade. Um jogo não é algo para se dar tanta importância, porque é assim mesmo: descartável. Um dia se ganha, outro se perde. Nem de longe o “Fortaleza é a minha vida”, como alguns torcedores apregoam por aí, batendo no peito. Minha vida vai bem além do clube que torço. Mas, espiritualmente falando, naquilo que a alma nos diz, numa linguagem que não é humana muito menos racional, tão-somente intuitiva, há uma ligação entre mim e o Fortaleza que eu não sei explicar, só sentir! Há algo de misterioso que eu não codifico tampouco entendo à luz da razão – e nem procuro mais! Apenas sinto! E sinto n´alma, não no ego! Nas vitórias e nas derrotas! Deve ser a “mística daquelas camisas”!


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