O fantasma perturbador por trás da pancada



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(Foto: Jangadeiro On-Line)

Quando, aos 28 anos de idade, após muito pensar sobre a atitude que iria tomar, José (nome fictício para as iniciais A.O.A.) tragou sua primeira pedra de crack, jamais passou pela sua cabeça que, hoje, aos 43 anos, ainda estaria lutando para fugir de um fantasma que o assombra desde aquele fatídico dia: a dependência. A grande maioria dos adictos ao crack viciou-se na primeira vez que experimentou. O seu altíssimo poder viciante é o que mais tem disseminado essa droga pelas periferias Brasil afora, em que pese, nos últimos anos, ela ter avançado sem pedir licença também na classe média.

José teve seu primeiro contato com as drogas ainda moleque. Aos nove anos, por incentivo de um conhecido mais velho, engoliu goela abaixo o psicotrópico Artane, comumente chamado de “aranha”. Gostou da sensação e passou a automedicar-se com o remédio tarja preta quase que diariamente. Aos 14, a primeira baforada num cigarro de maconha. “Até aí, era tudo legal”, lembra, com ar de saudade nos olhos.

Decidiu buscar outras sensações. Com 18 anos casou-se. Logo em seguida, veio a cocaína. Esta apresentou-se sedutora para José, que, com o passar dos anos, não mais sentindo prazer ao inalá-la, passou, então, a injetá-la diretamente na veia, com a ajuda de seringas descartáveis. “Parecia que você tava nas nuvens”, diz, com uma expressão perdida no olhar, digna de quem mais uma vez vislumbrou no seu imaginário aquela cena de anos atrás.

Foram dez anos levando uma vida de casado “aparentemente” normal. Trabalhou como jornaleiro, operador de máquina de costura, com serviços gerais e até em padaria. Sempre cumprindo com suas “obrigações” de bom marido e pai de dois garotos, hoje com 18 e 6 anos, respectivamente. José era o que podemos chamar de usuário social, aquele que consome drogas – lícitas e ilícitas -, mas consegue ter controle e equilíbrio sobre as mesmas. Até aquele fatídico dia em que deu sua primeira “pancada na pedra”.

De lá para cá, a vida social e familiar de José foi, gradativamente, se esvaindo junto com a pedra que era queimada na lata, virando fumaça. Teve que sair de casa, separou-se da mulher – e também dos filhos, que ficaram com a mãe. “Quando o caba tá fumando isso, perde a noção. Não se lembra de casa, da mulher, de nada”, diz ele.

O crack, sem nenhum moralismo tacanho, destrói e suplanta qualquer aspecto de caráter ético, moral ou humano que seu usuário possa ter. De pai de família e marido “exemplar” a assaltante. Após não ter mais o que tirar de casa, saía à rua à procura de “bobeiras”. Morador do Panamericano, zona oeste de Fortaleza, atravessava toda a cidade para praticar os delitos e não despertar a desconfiança da família tampouco dos vizinhos. “Roubava pelas Aldeota. Quem eu achasse que dava dinheiro, eu escorava”, diz, não demonstrando, à primeira vista, arrependimento algum.

Mais de dez anos de uso do crack arrasaram o aspecto físico de José. A pele negra e áspera mostra-se já castigada e com marcas visíveis do uso prolongado. Os dentes – na verdade, os poucos que ainda possui -, estão todos amarelados e carcomidos. Mas, bravamente, os cabelos ainda não se entregaram às agruras da dependência e do tempo. Estão todos lá, impávidos, ainda bastante pretos e com muito brilho. Pouquíssimos e perdidos cabelos brancos anunciam as mais de quatro décadas vividas. Uma destas sob o fantasma da dependência ao crack.

Contudo, bem mais grave do que a degradação da fisionomia de José, as sequelas sociais, morais e psicológicas apresentam-se ainda com maior nitidez e estão mais impregnadas em sua história de vida. É difícil desassociar-se delas. Muito difícil! É bem provável que Ricardo vá continuar ainda por muitos anos pelejando contra esse espectro da dependência que o ronda desde aquele fatídico dia em que resolveu experimentar. Exemplos como o de José estão aos montes espalhados por todo o Brasil. Homens e mulheres que perderam família, pais, filhos, casa, tudo. Entregam-se de corpo e alma a uma pedrinha pequena, branca ou amarelada, que parece inofensiva, mas que carrega em si um alto teor autodestrutivo!

A história de José ilustra um problema vivido por milhares, quiçá milhões de brasileiros. A epidemia do crack nas grandes capitais e que está se interiorizando já é – sim! – caso de saúde pública e de um olhar mais atencioso por parte do poder público. As iniciativas públicas que até agora se debruçaram sobre a problemática dessa droga ainda se mostram engatinhantes e de tênue eficiência. Longe de um discurso moralista, é preciso ação. O crack, de fato, não é brincadeira não, mermão! A continuar assim, muitos outros Josés, Joãos e Antônios brasileiros serão tragados, juntos com a pancada na lata ou no cachimbo, por esse vilão fantasmagórico – porém muito real, concreto e destruidor.

E agora, José?


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