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O apartheid brasileiro não acabou

(Charge: Alpino)

Por Artur Pires

Imagine aí a situação: você é negro e pobre, nasceu e cresceu numa favela. Em toda sua vida, dentre as opções de lazer, ir ao shopping nunca foi sequer cogitado. Não fazia parte de seu universo. Mas aí alguns amigos começam a ir, gostam da idéia e te convidam para um rolé por lá também. Você decide experimentar. E então sai de casa com amigos rumo ao shopping. Combinam de passear por lá, mirar as vitrines, comer algo nas feéricas praças de alimentação desses recantos, ir ao cinema ou consumir o supérfluo. Você, enfim, está lá. Eis que, de repente, policiais militares (PMs fazendo rondas em shoppings já é, por si só, revelador de muita coisa – Pelo fim da PM, pela imediata desmilitarização da Polícia!) e seguranças dirigem-se a você e seus amigos e dizem grosseiramente que não podem ficar ali. Você se recusa a sair. E aí vem o pior: te expulsam a cacetada, empurrões, tapas e xingamentos.

Essa cena não é imaginária como parece ser. Ela é real, concreta. Mas aí o leitor pensa que isso certamente aconteceu nos anos 50, no sul racista dos Estados Unidos – quem sabe no Alabama ou no Mississipi – ou talvez na África do Sul do apartheid. Mas não! A cena descrita aconteceu em São Paulo, Brasil, 2015. E ocorreu também em várias cidades brasileiras. Quem não lembra de jovens negros e pobres sendo expulsos na inauguração de um shopping na Parangaba, em Fortaleza? (Lembre aqui).

Infelizmente, esse fato enojante, de embrulhar o estômago, deverá ocorrer outras vezes, em muitas outras cidades, e nas mesmas cidades novamente. Sabe por quê? Porque, para a sociedade das aparências, a favela não é bem-vinda no templo do consumo burguês. À favela, cabe ir ao shopping tão-somente para ser explorada atrás dos balcões do McDonald´s ou para limpar os banheiros. Ou, então, cabe ir somente àqueles que foram construídos para ela, casos do North Shopping Jóquei, em Fortaleza, para que não se misturasse com os clientes do Iguatemi ou do RioMar.

Dentro da lógica consumista, é claro que é importante que os pobres consumam, comprem, ostentem, mas é preciso assegurar que esse neoconsumismo da periferia não invada os templos sagrados da burguesia. A sociedade brasileira é claramente segregada. Contudo, enquanto a periferia esteve cerceada, limitada às suas fronteiras suburbanas e aos locais “apropriados” para ela, estava tudo bem. Quando ela invade, sem pedir licença, os domínios territoriais exclusivos dos ricos, aí o mito do paraíso racial brasileiro vai para o brejo.

Para agravar esse quadro pintado com tintas carregadas de opressão, exclusão e marginalização históricas, a Justiça de vários estados já autorizou “o uso da força policial para conter possíveis atos de ameaça relacionados ao rolezinhos“. Peraí, justiça? O judiciário assinou o atestado de comprovação do apartheid brasileiro. Há locais em que pretos e pobres não podem andar – é isso o que ele diz com essas decisões absurdas! Essa mesma Justiça que abarrota negros e pobres – muitas vezes réus primários, ladrões de galinha e de varal ou vapores do tráfico de drogas nas favelas – como sardinhas em lata no sistema prisional, ao tempo em que põe vendas nos olhos e é condescendente com os criminosos do colarinho branco – esses de paletó e gravata, que desviam e superfaturam milhões em obras públicas, que removem violentamente pessoas de suas casas em nome de organizações mafiosas (como a FIFA, para ficar num só exemplo), que compram votos no Congresso Nacional e nas demais casas legislativas Brasil afora para se perpetuarem no poder, que fazem conchavos políticos por debaixo dos panos para engordarem ainda mais suas contas bancárias em paraísos fiscais…

Não percamos de vista que o poder judiciário é também um dos apêndices do segregacionismo brasileiro. Via de regra, age para manter o status quo, amparando e sendo generoso com a elite tupiniquim e, por outro lado, lançando sua mão punitiva contra a população dos guetos, sempre atendendo aos ditames do capital e da sociedade do controle. O encarceramento em massa de pobres é componente imprescindível dessa política. Aliás, como disse Bourdieu, n´O Poder Simbólico, na atual configuração do sistema político mundial, o Judiciário, o Legislativo e o Executivo estarão sempre a postos para obedecer ao senhor dinheiro. O sistema político está carcomido. O capital é quem canta o funk: “Tá dominado, tá tudo dominado”! O alardeado Estado Democrático de Direito é uma farsa medonha, uma falácia absurda que nos é empurrada goela abaixo diariamente e teatralizada a cada dois anos, nas eleições.

Voltando à questão central do texto, a polêmica dos rolezinhos tem a face positiva de trazer à superfície, de maneira incontestável, a densa segregação de classe e de raça que há no Brasil. Põe definitivamente uma pá de terra sobre o mito do paraíso racial e de classe brasileiro. Não há integração entre as classes sociais no Brasil. O(a) morador(a) da periferia só interage com o(a) burguês(a) quando vai recolher o lixo na casa deste(a), ou quando dá um “bom dia” da portaria do prédio onde trabalha, ou quando é empregado(a) doméstico(a) ou jardineiro(a) numa mansão, ou quando – consequência direta dessa desigualdade – aponta uma quadrada para a cabeça daquele(a)!

“Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal

Por menos de um real Minha chance era pouca

Mas se eu fosse aquele moleque de touca

Que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca

De quebrada, sem roupa, você e sua mina

Um, dois, nem me viu: já sumi na neblina”

(Racionais MC´s – Capítulo 4, Versículo 3)

Assim como na África do Sul do apartheid ou nos estados racistas estadunidenses da primeira metade do século XX, vivemos numa sociedade apartada, profundamente segregada. A relevante diferença é que o segregacionismo brasileiro é ainda mais eficaz, porque sorrateiramente transmite a idéia de que não existe. E é justamente esse véu que acoberta sua feição tenebrosa que o torna ainda mais eficiente e, consequentemente, mais nocivo. Entretanto, com o transbordamento da sociedade do consumo avançando em direção às comunidades periféricas, vai ser cada vez mais difícil mascarar a tão marcante segregação social brasileira. “É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas” (Gilles Deleuze, Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle).

Oxalá que essa explosão venha acompanhada de transformações profundas no estado das coisas e nos costumes sociais, bem como traga em seu bojo fagulhas com alto poder de combustão para a derrocada da onipresente estrutura econômica que a todo custo tenta nos impedir de sonhar. Queima babilônia! Como diria Ednardo, “eles são muitos, mas não podem voar”.

PS: Ensina pra eles aí, Gal:

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