Remoções, violência policial, prisões políticas, etc. Até quando vamos aceitar a democracia de faz-de-conta?



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(Ilustração: Pawel Kuczynski)

A Copa do Mundo, enfim, acabou! No entanto, os efeitos nocivos que a Fifa trouxe em seu bojo continuarão repercutindo na sociedade brasileira por muito tempo. A toda-poderosa Fifa vai-se – ainda bem!, mas as mazelas, as violações e os arbítrios que ela trouxe não serão facilmente apagados do cotidiano das milhares de pessoas afetadas pelo torneio, direta ou indiretamente.

A Copa do Mundo, como megaevento que é, representa apenas mais um braço de dominação que o capitalismo desenvolveu para manter sua hegemonia. A Fifa não está preocupada com o futebol mundial, mas sim com suas contas secretas em paraísos fiscais. O jogo jogado em campo é apenas um pequeno detalhe para a máfia. Como grande corporação que é, o que interessa mesmo são as vultosas quantias bilionárias geradas com o evento, que vão encher os cofre$ em sua sede na Suíça.

Nesse contexto, o estado brasileiro tem total envolvimento com a mafiosa entidade. É cúmplice e baba-ovo! Foucault diz, em seu ensaio As redes de poder, que as máfias, as grandes corporações (adendo nosso!) e os estados nacionais são hoje um emaranhado de interesses comuns e escusos, à revelia das populações. Assino embaixo! “Sob a dominação espetacular, conspira-se para mantê-la e para garantir o que só ela pode chamar de seu bom andamento. Essa conspiração é parte integrante de seu funcionamento” (Guy Debord, A sociedade do espetáculo).

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(Ilustração: Luis Quilles)

Para garantir o “bom funcionamento” do torneio, o estado brasileiro não se envergonhou de liberar a bilionária corporação de impostos (me diga aí: você já foi liberado alguma vez da declaração do IR todo começo de ano? Não, né? Pois é, você não é a Fifa!); não se intimidou um pouquinho sequer em cuspir na cara de sua Constituição (se é que ela valha de alguma coisa!), em expulsar 250 mil pessoas de suas casas, em impedir o direito de ir e vir do seu povo, em usar seu aparato militar para reprimir violentamente manifestantes, em aprofundar e ainda fazer vistas grossas a processos violentos de exploração infantil, especulação imobiliária, etc.

Para completar o quadro de terror e barbárie, o estado brasileiro agora prende pessoas por intuir que elas podem vir a realizar alguma atividade criminosa no futuro. É o que aconteceu no Rio de Janeiro no último sábado. Sobre essa arbitrariedade sem limites, o Sakamoto escreveu um artigo bem interessante: “Minority Report – Paranormais ajudam a polícia carioca a prever crimes”.

O encarceramento de indivíduos “subversivos” é lógica de todo regime autoritário e ditatorial

Aqui em Fortaleza, o manifestante Eric Souza está há mais de dez dias preso no 11º DP, no Pan-Americano, por ter “pixado” uma viatura policial. Relatos de pessoas que foram à delegacia deixar alimentos e prestar solidariedade contam que o rapaz está sofrendo represália dos policiais, que não repassam todas as comidas e o tratam com muita violência, numa atitude desumana. Mais de uma semana preso, com restrições a comida e visitas de família e amigos por uma “pixação”? Vale dizer que esse ato, tipificado em lei, quando réu primário, não dá mais do que um Termo Circunstancial de Ocorrência (TCO)! Que absurdo é esse? Eric Souza é mais um preso político no Brasil atual, assim como Rafael Vieira, morador de rua condenado a cinco anos pelo “crime” de portar Pinho Sol e água sanitária na mochila!

O encarceramento de indivíduos “subversivos” é lógica de todo regime autoritário e ditatorial. Os fantasmas da ditadura militar pós-64 continuam muito vivos ainda hoje; há muito de ditadura no modo de agir do estado brasileiro. E tem gente que acredita que vivemos uma democracia! De fato, uma “democracia” ao modo burguês. À burguesia, todas as benesses do estado. Ao povo e aos “subversivos”, o chicote! Como pode? Dezenas de pessoas serem presas sem provas, com bases em que “poderiam causar transtornos futuramente”. Como assim? Isso é muito sintomático de uma sociedade arbitrária que não admite de maneira alguma o contraditório aos seus dogmas, às suas imposições. Precisamos estar atentos e fortes para perceber o estado de coisas violento que estamos inseridos – e, a partir desse reconhecimento, agir! Até quando vamos naturalizar a barbárie?


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