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Torcidas Organizadas: reflexões para além do proibicionismo

Por Raoni Oliveira

Segundo o Mapa da Violência de 2014, entre os anos de 1980 e 2012, a taxa anual média de mortalidade de jovens por homicídios é de 43,4 por 100 mil habitantes, frente a 3,8 homicídios por 100 mil habitantes fora da faixa etária de 15 a 29 anos. São dados alarmantes que indicam a condição de extrema violência em que a juventude brasileira se encontra. Do ano de 1980 a 2012 as mortes por homicídios representaram 28% na população jovem e 2% na população não jovem. Entre os anos de 2002 e 2012, as mortes de jovens por homicídio no território nacional cresceram 8,7%, sendo 27.655 homicídios em 2002 e 30.072 em 2012. Neste mesmo período a taxa de homicídios de jovens no nordeste quase duplicou, elevando-se em 97,1%, totalizando, em 2002, 6.134 jovens mortos, e em 2012, 12.092. No estado do Ceará o avanço dos números é bem mais preocupante, representando um aumento de 218,5% entre os mesmos anos citados anteriormente, sendo 730 homicídios em 2002 e 2.325 em 2012.

Estes números são a representação da dificuldade que as instituições governamentais têm de intervir nos conflitos em que os jovens se encontram. É notório como a utilização da polícia, enquanto agente repressivo, tem sido ineficiente e nada exitosa na função diminutiva da taxa de homicídios. Os números aumentam e a resposta tem se repetido. Em 2001 a violência nos bailes funk repercutia na mídia; a solução encontrada para diminuir os confrontos foi a proibição e criminalização dos eventos.

Notícia da jornalista Kamila Fernandes, no jornal Folha de São Paulo, de 2001, relatava: “A Polícia Civil do Ceará decidiu proibir bailes funks e shows de grupos que toquem esse estilo musical em casas noturnas de Fortaleza, que passa a ser a única capital do país a não permitir os bailes. Alvarás não serão concedidos. [...] Segundo o superintendente da Polícia Civil, José Alberto, se depender dele, não vai haver mais nenhum baile funk em Fortaleza”.

Em 2001 foram proibidos os bailes funk em Fortaleza, mesmo assim a taxa de homicídios de jovens subiu no ano posterior – 54,0 por 100 mil habitantes em 2001 e 56,1 por 100 mil habitantes[1] em 2002, ou seja, foram 730 homicídios de jovens em 2002, 767 em 2003 e 823 em 2004, no ano seguinte tornou a se elevar, 939 homicídios de jovens em 2005[2]. Isto posto, tentaremos subsidiar uma resposta menos ortodoxa, mas potencialmente eficiente no que se refere à mortandade juvenil nas metrópoles brasileiras.

Estes dados são de extrema importância para visualizarmos quem são os sujeitos que mais necessitam de políticas públicas. Assim, de acordo com o Mapa da Violência de 2014, a juventude – faixa etária dos 15 aos 29 anos – é quem mais sofre com o cotidiano hostil das metrópoles. Também são os jovens que compõem majoritariamente as torcidas organizadas, são os mesmo jovens que são vítimas de mortes violentas e que sofrem com disputas territoriais de seus bairros.

É difícil supor o número total de Torcidas Organizadas no Brasil. Só em Fortaleza podemos contabilizar pelo menos dez, porém vamos nos propor a refletir sobre as que aglomeram maior número de jovens: Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF) e Jovem Garra Tricolor (JGT), do Fortaleza Esporte Clube; e Torcida Organizada Cearamor (TOC) e Movimento Organizado Força Independente (M.O.F.I.), do Ceará Sporting Club. As duas maiores (TUF e Cearamor) exercem influência direta em cerca de vinte e cinco mil jovens (números não oficiais); estes geralmente moradores de bairros periféricos da cidade.

Para propormos qualquer ação, devemos, antes, entender como e em que sentido estes jovens se juntam. É sabido que a juventude se organiza em torno de algumas esferas socioculturais específicas (música, dança, escola, bairro). Como já foi dito anteriormente, o baile funk já foi o espaço de maior aglomeração juvenil na cidade. Centenas e até milhares de jovens se deslocavam de seus bairros para frequentar bailes em que as disputas territoriais, já vivenciadas por estes em seus lugares de moradia, tomavam sua forma mais concreta e explícita.

Os clubes em que estes eventos aconteciam ficavam repletos de jovens em busca de confrontos simulados, a fim de experimentar a excitação que apenas o elevado nível de descontrole da situação lhes proporcionaria, como teorizou Norbert Elias, em A busca da excitação. É evidente que nenhuma violência está sendo defendida, mas sim destacada a necessidade de compreensão, para que possa haver uma intervenção contundente e eficiente por parte dos órgãos que se propõem a findar com os conflitos em questão.

Através de estudo produzido ao longo de mais de cinco anos, foi possível observar que a intencionalidade em que a violência existente nas T.Os. se baseia está intimamente ligada ao que Bourdieu, em O poder simbólico, chamou de capital social e ao que Elias chama de busca da excitação. Então o que seria capital social? A palavra “capital” nos faz pensar em dinheiro, mas isso por que o dinheiro pode ser acumulado e trocado, portanto, tudo que chamaremos de capital pode ser acumulado e trocado, servindo assim como moeda e item de distinção social.

Nossa sociedade se organiza para nos educar e socializar de forma que quem tem mais “dinheiro” possui maior poder de compra, então quem tem mais dinheiro tem mais “capital” financeiro; mas também é verdade que quem tem mais dinheiro exerce maior influência sobre quem está a seu redor; isso porque as pessoas a seu redor querem ter mais dinheiro também para poderem exercer influência sobre as outras. A questão fundamental é visualizarmos o “capital financeiro” apenas como mais uma esfera da teia de relações sociais em que vivemos.

Aceitemos então que estamos em constante disputa. Em um conflito contínuo que nos faz exercer ou sofrer influências das pessoas ao nosso redor e não apenas com a forma dinheiro, mas também com a forma cultural dos círculos sociais em que estamos inseridos, quer dizer: em meio aos universitários, quem escreve melhor e publica mais artigos acumula mais capital social frente a seus colegas que almejam escrever bem e publicar artigos, mas isso não vale para os comerciantes informais do centro da cidade. Pouco importa aos camelôs quem escreve melhor ou pior, se existe ou não um ranking das revistas acadêmicas que dá mais pontos para quem escrever e publicar, assim também é na torcida organizada. Haveria então uma certa ética acadêmica, uma outra ética camelô, uma outra ética torcedora e que pouca coisa teriam as três em comum.

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(Foto: Tatiana Fortes/O Povo)

Entendemos por ética a compreensão particular que cada grupo tem do mundo ao seu redor, seria a ética o modo como determinado grupo se comunica, como se veste, que tipo de música escuta, quais lugares frequenta, como trata os de fora do grupo, como vê os seus pares. Esta forma não deve ser encarada como melhor ou pior que outras, mas sim como outras possibilidades de sociabilidades. Esta forma, em particular, é constituída por um espectro violento, não por algo inato, mas sim por constituição sociocultural do meio que forja os sujeitos. São as habilidades destes que sobrevivem a um espaço em que, ou se aprende a se impor com a força física, ou se é mutilado diariamente pelo próprio ambiente formador; ou se encaixa em um grupo, e protegem-se uns aos outros, ou se vive sob domínio de terceiros.

A tensão social vivida pelos agentes intensifica a forma violenta de sociabilidade. Para Norbert Elias, a tensão social cotidiana produz o stress, o qual seria dissolvido pela excitação agradável, desencadeada pelo nível de ausência de controle dos conflitos miméticos. Assim, é considerado que o nível de excitação é inversamente proporcional ao controle – quanto mais regras um jogo tem, menos stress seria dissolvido.

Acrescenta Elias, em A busca da excitação (p. 95): “Por outras palavras, o que procuro dizer é que a sociedade que não oferece aos seus membros, e em especial, aos mais jovens, oportunidades suficientes para a excitação agradável de uma luta que não existe, mas pode envolver, força e técnica corporal pode, indevidamente, arriscar-se a entorpecer a vida dos seus membros; pode não proporcionar corretivos complementares suficientes para as tensões não excitantes produzidas pelas rotinas regulares da vida social”.

A Torcida Organizada já é a estrutura de conflito mimético que proporciona a excitação agradável necessária para aliviar o stress deste agrupamento social em particular. O que é pungente na política atual de combate à violência é a proibição do mecanismo em si, que não diminui em nada a real violência cotidiana da cidade, ou mesmo em dias de jogos. As disputas que as T.Os. geram são de ordem prioritariamente simbólicas, portanto, propícias a incorporar conflitos de naturezas outras, como as de ordem religiosa, tradicional, financeira e principalmente de ordem territorial, mais vulgar, portanto, mais frequentes.

Sendo as torcidas mecanismos de sociabilidades, não há efeito minimizador dos quadros conflitivos, no caso de extinção destas; assim como não houve efeito quando da proibição dos bailes funk a partir de 2001 na cidade de Fortaleza. Entretanto, a organização dos bailes não tinha influência nos agentes sociais que o habitavam; já as torcidas detêm estrutura que potencialmente acessam, através do capital social, os agentes em questão.

Daqui por diante frisaremos a ideia de um modo particular dos torcedores se socializarem. A formação das torcidas é composta por grupos divididos por bairros; não raro podemos visualizar a mesma distribuição cartográfica da cidade em que a torcida foi fundada. A Torcida Uniformizada do Fortaleza era dividida por núcleos, podendo cada núcleo ser formado por um ou mais bairros da cidade ou por cidades inteiras do interior, como o 2° núcleo que era composto pelos componentes moradores do bairro Pio XII, ou o 8° referente aos moradores do Pirambu, os moradores da Caucaia e Aquiraz, zona metropolitana da capital, 69° e 55° núcleos, respectivamente. No ano de 2004, a TUF contava com mais de 60 núcleos, hoje a torcida é composta por mais de 80.

A composição da torcida Cearamor não difere muito, somando número muito semelhante de subdivisões. Cada uma destas conta com o que seus componentes chamam de “cabeça”, membro que é responsável por um núcleo ou bairro. Estes são escolhidos por sua distinção frente aos demais, através de sua influência, poder de persuasão e comando que exercem nos componentes do grupo. Não se trata de uma eleição democrática em que todos votam, mas na escolha consensual cotidiana em que o “cabeça” está sendo colocado à prova a cada decisão tomada, a cada percurso proposto. Ser “cabeça” de bairro é mais que impor suas vontades, trata-se majoritariamente de perpetuar a coesão do seu grupo, de ser escutado e respeitado por todos, sendo, não raramente, árbitro de conflitos.

A proposta de mediação de conflitos é um importante método pacificador das comunidades em permanente tensão. Contudo, existem diversas formas de sua aplicação que se distinguem tanto pelos locais, quanto pelos métodos. Assim, afirmo com convicção que não há meios para desenvolver metodologia eficaz que não sejam através de análise empírica da forma de sociabilidade em que se pretende intervir.

[1] FONTE: Tabela 2.2.2 Mapa da Violência 2014

2 FONTE: Tabela 3.1.4 Mapa da Violência 2014

Materiais complementares:

Mapa da Violência 2014: http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2014/Mapa2014_JovensBrasil_Preliminar.pdf

THOMPSON, Hunter S. Hell’s Angels, Trad. Ludimila Hashimoto, Porto Alegre, RS: L&PM, 2010.

FERNANDES, Kamila. Folha de São Paulo, 2001 http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u24097.shtml

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, Tradução: Fernando Tomaz (Portugês de Portugal) – 15ª ed. – Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2011

ELIAS, Norbert. A busca da excitação. Lisboa: Difusão Editorial, 1992.

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