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Sauna temazcal: reconexão espiritual e purificação energética

(Foto: reprodução)

Por Bruno Gurgel

A sauna temazcal ou tenda de suor, como é conhecida popularmente, é um banho de vapor tradicional de povos ameríndios, que proporciona limpeza, relaxamento, equilíbrio entre o corpo e a mente, além de outros benefícios físicos e espirituais. A cerimônia ritualística possui um caráter espiritual de cura e purificação energética. É uma representação do útero da mãe terra, onde cada pessoa é concebida. Durante o processo se tem a interação dos quatros elementos, terra, fogo, água e ar.

O ritual de sauna temazcal da Floresta Urbana – Sombra do Cajueiro, em Fortaleza, acontece dentro de uma oca construída de superadobe em forma circular, onde as/os participantes sentam na terra e no centro são depositadas pedras aquecidas no fogo. Sobre as pedras é comum ter ervas medicinais e essências. A água é jogada aos poucos sobre as pedras quentes, produzindo um vapor que vai tomando toda a oca. Os benefícios são muitos, pois esse vapor é capaz de relaxar, limpar as vias respiratórias, dilatar os vasos sanguíneos, eliminar toxinas através do suor, entre outros.

Após sair da sauna e depois de tomar um banho frio, a sensação de relaxamento e tranquilidade é notória nas pessoas. É possível perceber uma melhora na qualidade de nossos pensamentos e emoções. É aconselhável beber bastante água antes da sessão e as contraindicações são as mesmas para saunas tradicionais.

No vídeo abaixo, você pode acompanhar um pouco como se dá o processo ritualístico da sauna temazcal. Se deseja experimentar os benefícios da sauna temazcal em Fortaleza, entra em contato com a Floresta Urbana – Sombra do Cajueiro.

Bruno Gurgel é publicitário e videomaker 

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Renovar a esperança, se ajuntar em um grande mutirão…

Comunidades, agricultoras/es, organizações da sociedade civil e pesquisadoras/es se encontraram em Santa Quitéria para refletir, debater e traçar linhas de ação sobre os impactos da mineração no Ceará.

(Fotos: Coletivo Urucum)

Por Thiago Silveira

Mariana, em Minas Gerais, teve sua história marcada para sempre com o maior crime ambiental do Brasil. Um rio de lama, uma imensidão de rejeitos de minério que devastou tudo que encontrou pela frente. Lama que afogou a vida dos animais, das plantas e a vida da gente daquele lugar. Vidas matadas e vidas marcadas com um marrom cor de terra que não sai na água. Não importa o quanto lave. Ficará lá, como tatuagem.

Isso não pode ser esquecido, é preciso reverberar cada vez mais. Mariana evidenciou as inúmeras tragédias já ocorridas e não publicizadas e outras tantas que podem ocorrer por todo o país. Vidas ameaçadas todos os dias por um único motivo: o capital em detrimento das pessoas, da biodiversidade, da vida.

Em Santa Quitéria, no sertão do Ceará, a 222 quilômetros de Fortaleza, onde o sol chega cedo e marca presença na pele dos desavisados, a ameaça da mineração é uma constante na vidas das pessoas. Lá, querem explorar fosfato e urânio. Mais uma vez, com o discurso do desenvolvimento a todo custo, como se o convívio com o semiárido já não fosse uma prova mais que prática do verdadeiro desenvolvimento praticado e necessário para a região.

Com o objetivo de articular cada vez mais o povo das comunidades que podem ser atingidas com esse projeto e que já estão sendo impactadas com outras minerações no estado, a Articulação Antinuclear do Ceará realizou sua III Jornada junto ao I Encontro Estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). Gente que se ajuntou para tensionar a não concretização da exploração da Jazida de Itataia, em Santa Quitéria e para estudar, partilhar e pensar estratégias de qualificação do debate e linhas de ação quanto aos impactos da mineração do Estado.

Roda de debates e partilha de saberes

Com a participação de aproximadamente 200 pessoas vindas de vários territórios e mais de dez municípios e um público predominantemente jovem, durante três dias, foram apresentados relatos, estudos e vivências de pesquisadores(as) e comunidades desenvolvidos ao longo dos últimos anos, tanto em Santa Quitéria como em Caetité, na Bahia.

Entre as rodas de conversa, uma análise de conjuntura feita na manhã do primeiro dia pela engenheira e militante social Soraya Tupinambá e por Antônia Ivaneide (Neném), do MST, ajudou a entender o atual contexto sociopolítico do Brasil. Além disso, foi apresentado um panorama sobre a “questão mineral no Brasil e no Ceará” com Charles Trocate, do MAM nacional; Raquel Rigotto, do Núcleo Tramas/UFC; Francisco Eufrásio, do Assentamento Morrinhos (Santa Quitéria); Cacique Lucélia Pankará, da Aldeia Serrote dos Campos (Itacuruba) e Francisco Pinheiro, do Sindicato dos/as Trabalhadores/as Rurais de Quiterianópolis.

nuclear-nao-iii“Eu venho da margem do Rio São Francisco, de uma cidade muito pequena, mas impactada por um projeto tão grande. Há cinco anos estamos na luta e não deixamos acontecer a construção da usina nuclear na nossa comunidade”, partilhou a Cacique Lucélia.

Na manhã do segundo dia de encontro, foi apresentado um painel de pesquisas sobre a ameaça nuclear, abordando dois eixos: “A construção social do risco de contaminação ambiental e humana dos trabalhadores/as da INB e moradores/as do entorno da mina de urânio em Caetité, Bahia”, facilitado pela professora Cláudia de Oliveira, da UFBA, e a “Construção compartilhada de conhecimentos – universidade, territórios e o debate sobre os riscos do Projeto Santa Quitéria”, debatido por Renata Catarina, do Núcleo Tramas/UFC. Houve, ainda, um momento de contextualização do processo de chegada da INB em Caetité e dos processos de resistência construídos pela Articulação Antinuclear Brasileira, espaço apresentado por Zoraide Vilas Boas.

Projeto Santa Quitéria

Proposto pelo Consórcio Santa Quitéria – firmado entre a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e a Galvani Indústria, Comércio e Serviços S/A -, o Projeto Santa Quitéria pretende extrair urânio e fosfato da Jazida de Itataia, a maior mina de urânio do Brasil. O objetivo é produzir 1.600 toneladas de concentrado de urânio e 1.050.000 toneladas de derivados fosfatados por ano, destinados à geração de energia nuclear e à fabricação de fertilizantes e ração animal para o agronegócio.

Com 20 anos de vida útil, o projeto pretende transportar o concentrado de urânio através do Porto do Mucuripe (em Fortaleza) e, caso entre em operação, deixará pilhas de rejeito com material radioativo no Sertão Central do Ceará.

Uma das principais ameaças do empreendimento é o consumo intensivo de água, estimado em 911.800 litros por hora. Isso representa um aumento de 400% sobre a demanda do Açude Edson Queiroz, de onde se prevê transportar a água através de uma adutora.

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Os sem fome

(Pintura: Iberê Camargo)

Por Vanessa Dourado

No Brasil de 2016, muitas pessoas, orgulhosas de sua posição emergente, foram às ruas para pedir menos direitos aos famintos. A bronca é imaginar que alguém quer levar alguma vantagem. Cada centavo destinado às políticas públicas de inclusão social é imaginado como um absurdo sem precedentes por esta mesma elite que faz doações às instituições de caridade quando Noel chega, em dezembro, para amolecer o coração dos mais infelizes.

Os membros da elite também não querem saber de pobres na universidade. A população brasileira é composta de 53,6% de pessoas negras – segundo dados do IBGE -, mas no grupo dos mais ricos os brancos são 85,7%. As desigualdades de renda e de realidade não podem ser vistas pelas janelas dos emergentes que clamam pelo fim das injustiças. E resulta desagradável dividir a sala da universidade pública com cotistas sem mérito. A meritocracia nunca foi um problema para quem sempre teve as panelas e os bolsos cheios.

Os Sem Fome querem o fim da democracia e não precisam de ciência para entender que a competição deve ser cultuada. Defensores do capitalismo, os Sem Fome querem um país sem escadas e a manutenção dos privilégios dos meritocraticamente bem-nascidos.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Comunidades ameaçadas pela mineração no Ceará participam de encontro em Santa Quitéria

Com a expectativa de receber 250 pessoas vindas de vários municípios cearenses, o encontro pretende discutir os impactos da mineração no estado e propor ações de visibilidade das comunidades atingidas (Foto: Mídia Ninja)

O município de Santa Quitéria, a 222 quilômetros de Fortaleza, receberá, entre os dias 10 e 12 de novembro, o I Encontro Estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e a III Jornada Antinuclear do Ceará. Com o tema “Pela soberania popular na mineração. Nuclear não!”, o Encontro e a Jornada discutirão os impactos e os riscos da mineração e darão visibilidade às alternativas construídas por diferentes territórios impactados por essa atividade no estado.

O encontro é uma iniciativa da Articulação Antinuclear do Ceará e representa uma continuidade de duas jornadas antinucleares já realizadas com o objetivo de debater o Projeto Santa Quitéria, empreendimento que pretende realizar a exploração e o beneficiamento de urânio e fosfato no município.

Este ano, o diferencial é que também reunirá comunidades, movimentos sociais e organizações de outras partes do estado em um momento de formação, intercâmbio de experiências e articulação. “Em 2016, a III Jornada vem se somando com a articulação do I Encontro Estadual do MAM, o que significa dizer que avançamos para levantarmos a bandeira antimineração juntamente com outras regiões do estado do Ceará. Nesse sentido, aos poucos, vamos somando forças a partir das comunidades”, destaca Erivan Silva, da Cáritas de Sobral e do MAM-CE.

Durante a programação, estão previstas a apresentação de pesquisas sobre a contaminação ambiental e humana causada pela mineração de urânio; o lançamento de materiais de comunicação e a realização de atividades culturais. De acordo com Erivan Silva, a jornada e o encontro esperam fortalecer os diferentes sujeitos que denunciam os impactos da atividade mineral e lutam para garantir o direito de participar das decisões acerca dos empreendimentos que podem afetar seus territórios: “vamos juntos construindo caminhos, articulando pessoas, defendendo a cultura viva das comunidades que têm seus modos de vida ameaçados pelas mineradoras”, conclui.

Articulação Antinuclear do Ceará e MAM

A Articulação Antinuclear do Ceará surgiu em 2011 e reúne o Movimento dos(as) Trabalhadores(as) Rurais Sem Terra (MST); a Comissão Pastoral da Terra (CPT); a Cáritas Diocesana de Sobral; o Núcleo Trabalho, Meio Ambiente e Saúde (Tramas), da Universidade Federal do Ceará; o Coletivo Urucum – Comunicação, Direitos Humanos e Justiça e representantes das comunidades que podem ser atingidas pelo Projeto Santa Quitéria. Articula-se, ainda, ao Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

Projeto Santa Quitéria

Proposto pelo Consórcio Santa Quitéria – firmado entre a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e a Galvani Indústria, Comércio e Serviços S/A -, o Projeto Santa Quitéria pretende extrair urânio e fosfato da Jazida de Itataia, a maior mina de urânio do Brasil. O objetivo é produzir 1.600 toneladas de concentrado de urânio e 1.050.000 toneladas de derivados fosfatados por ano, destinados à geração de energia nuclear e à fabricação de fertilizantes e ração animal para o agronegócio.

Com 20 anos de vida útil, o projeto pretende transportar o concentrado de urânio através do Porto do Mucuripe (em Fortaleza) e, caso entre em operação, deixará pilhas de rejeito com material radioativo no Sertão Central do Ceará.

Uma das principais ameaças do empreendimento é o consumo intensivo de água, estimado em 911.800 litros por hora. Isso representa um aumento de 400% sobre a demanda do Açude Edson Queiroz, de onde se prevê transportar a água através de uma adutora.

Em fase de licenciamento junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a viabilidade hídrica do Projeto Santa Quitéria tem sido questionada pelo órgão ambiental, pelo Ministério Público Federal  e pelas 42 comunidades que podem ser diretamente atingidas.

Segundo o Portal Hidrológico do Ceará, em 2014, o volume do Edson Queiroz estava em 24,53%. Em 2015, diminuiu para 15,48% e, hoje, está em 11,35%. Para se ter uma ideia do que isso significa, enquanto o Projeto Santa Quitéria pretende consumir o equivalente a 125 carros-pipa por hora, o Assentamento Morrinhos, localizado a 4 km da jazida, tem sido abastecido por 26 carros-pipa por mês.

Programação

Dia 10, quinta-feira:

10h30m – Mesa: Análise de Conjuntura da Realidade Brasileira e Debate. Facilitadores(as): Soraya Tupinambá (Mandato É tempo de resistência”) e Pedro Neto (MST).

14h – Mesa Temática: A questão mineral no Brasil e no Ceará. Facilitadores(as): Raquel Rigotto (Núcleo Tramas-UFC), Charles Trocate (MAM Nacional).

20h – Lançamento da História em Quadrinhos “Em defesa da vida, da água e por justiça ambiental” e do vídeo “2ª Jornada Antinuclear do Ceará”; realização de sarau de poesias.

Dia 11, sexta-feira:

8h20min – Painel para apresentação de pesquisas sobre a ameaça nuclear.

  1. A construção Social do Risco de Contaminação Ambiental e Humana dos trabalhadores da INB e moradores/as do entorno da mina de urânio em Caetité, Bahia. Professora Claudia de Oliveira da UFBA.
  2. Construção compartilhada de conhecimentos – Universidade, territórios e o debate sobre os riscos do projeto Santa Quitéria – Danielli Costa e Raquel Rigotto do Núcleo Tramas/UFC.

14h – Planejamento do MAM/CE

20h – Noite Cultural (músicas, poesias e arte)

Dia 12/11, sábado:

8h30m – Ato público contra a mineração.

Contatos:

Renata Catarina: 85 99605.0161

Iara Fraga: 85 9826.5543

Erivan Silva: 85 99795.9452

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Campeão mundial

Por Vanessa Dourado

A América Latina é a região com o maior número de assassinatos de ambientalistas. O Brasil deixou de ser o favorito nos campos de futebol para ser o campeão em mortes de defensores da Pachamama. Só no ano de 2015 “marcou” 50 mortes – segundo dados da Global Witness. Estes indesejados sujeitos que defendem os bens comuns – algo que parece um tanto quanto pós-moderno na visão de muitas pessoas (os indígenas que não ouçam!) – são um desagradável enclave para os crimes ambientais que movimentam vários bilhões de dólares sagrados ao custo de sangue indígena e de ecologistas, que não é verde e nem da gringa, porém muito necessário para manter os padrões.

Enquanto todos lamentam o rebaixamento do Brasil na S&P, com manchetes espalhadas desde The New York Times até o mais chinfrim do bairro, ao sangue derramado pela luta ambiental, nem uma nota de rodapé. Estes meios, financiados pelos “outros” os quais são financiados pela agroindústria e pela mineração, não enxergam as vidas dos que lutam por justiça e nem podem dar muito espaço. Afinal, se já fazem tanto barulho sendo tão poucos, imagine se a moda pega.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

 

 

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Fossa de bananeiras: por uma nova relação ecológica

(Foto: Reprodução vídeo)

Por Bruno Gurgel

Pensar em transformar a maneira como a gente se relaciona com a natureza é imprescindível para criar novas relações sociais, baseadas numa cultura de respeito aos recursos naturais. Essas práticas não estão apartadas do nosso cotidiano, mesmo para as pessoas que vivem em áreas urbanas. Tem um pequeno quintal em casa? Pois a bacia de evapotranspiração (BET), tanque de evapotranspiração (TEvap) ou “fossa de bananeiras”, como é conhecida popularmente, é uma alternativa sustentável para o tratamento domiciliar do esgoto sanitário. Nesse sistema, os resíduos humanos são transformados em nutrientes,  a água envolvida não gera nenhum efluente, o que evita a poluição e contaminação do solo, das águas superficiais e do lençol freático. O reaproveitamento de materiais é uma outra grande vantagem, pois se utiliza de objetos sem valor e sem um destino sustentável, como pneus, palhas de coqueiros, entulhos, restos de obra etc., transformando o que seria considerado “lixo” em matéria-prima.

O sistema consiste em um tanque impermeabilizado, preenchido com diferentes camadas, onde se recebe o efluente dos vasos sanitários e os resíduos são decompostos por bactérias anaeróbicas, que trabalham sem a presença do ar. Após a decomposição, o material se transforma em biofertilizantes e ascende junto com a água até as camadas superiores do filtro, onde são absorvidas pelas plantas. A preferência por bananeiras se dá por conta do seu crescimento rápido, sua alta demanda por água, sua capacidade de transpiração da água absorvida e por possuir raízes rasas.

No vídeo abaixo, você pode acompanhar um pouco como se dá o processo de construção de uma fossa de bananeiras, numa vivência facilitada pelo biólogo Carlos Piffero Câmara e realizada na Floresta Urbana Sombra do Cajueiro, em Fortaleza (CE), no último mês de junho.

 

Bruno Gurgel é publicitário e videomaker

Você vai nascer, mulher!

Buceta Universo(Desêin: Ramon Sales)

Por Vanessa Dourado

Você vai nascer, mulher. Logo quando chegar ao mundo, alguém vai dizer que você é uma princesinha. Todas as suas roupas serão cor-de-rosa. Farão um furo em sua orelha e colocarão um adorno delicado para que todas as pessoas percebam que você é uma menina, e não um menino.

Logo depois, você ganhará várias bonecas, todas lindas. Você olhará para este objeto e entenderá como as mulheres devem ser, como deve ser o corpo, os cabelos, a pele, a roupa, a maneira de se colocar no mundo.

Você vai ouvir as pessoas falarem sobre a sua aparência e sobre o seu cheiro. Vão dizer que deve emagrecer, que deve cuidar dos cabelos, das unhas, prestar muita atenção na roupa com a qual sairá à rua. Será elogiada quando for uma menina boazinha e olhos de inquisição a condenarão quando você for rebelde, independente e questionadora. Sendo branca, terá mais sorte.  O mundo será mais gentil e agradável. Se você for negra, ouvirá – por toda a vida – vários comentários sobre os seus cabelos e sobre partes específicas do seu corpo.

A relação com os meninos será complicada. Eles farão comentários sobre você, mas raramente falarão com você diretamente. Sua forma será sempre mais importante que a sua voz. Por isso, aprenderá que deve falar menos. Aprenderá que, para não ser invisível, deverá ter uma forma que agrade. Os centros de estética e os salões de beleza farão parte do seu cotidiano. Por onde você for, encontrará exemplos de como cuidar da aparência. Quanto melhor for a sua forma, de acordo com o padrão colocado, mais inserida na sociedade você será. Só assim você será feliz.

Você vai ser sempre vista como uma potencial mãe e esposa. Deverá ser delicada, amorosa, desejável, uma boa cuidadora, um poço de compreensão e compaixão. Se você gostar de meninas, será hostilizada pelos meninos e isolada pelas meninas. Se vir a si mesma como um menino, será considerada um extraterrestre. Se gostar de meninas e meninos, será vista como incapaz de decidir sobre a sua sexualidade. Sua vida afetiva será sempre jogada à discussão coletiva, você terá sua privacidade invadida e sua intimidade achincalhada em rodas de conversas e mesas de bar.

Se você gostar de sexo, será uma puta. Se não gostar, será uma frígida. Se casar com um homem e tiver uma família, será uma mulher de respeito.  Se não quiser mais o casamento, será insensível, acusada de ser egoísta e não pensar no bem-estar dos filhos. Se for deixada, será sempre questionada sobre o que você fez para provocar isso.

Um dia pode ser que você não goste mais de ser esta mulher. Cansada, você tentará ir contra tudo isso. Será chamada de louca e histérica. Nos momentos em que sentir desespero por não saber de onde vieram todos estes padrões e regras e se sentir triste por isso, será acusada de estar fazendo drama. Muitas vezes dirão que você está se vitimizando.  Não entendendo bem o que fazer, você vai procurar saber mais sobre a vida e como você gostaria de vivê-la.  Vai descobrir histórias incríveis, vai querer ser outra mulher. Entendendo como gostaria de estar nos espaços, você vai mudar, vai procurar outras mulheres que tenham o mesmo desejo. Juntas vocês vão quebrar padrões. Serão hostilizadas, diminuídas, agredidas, desafiadas.

Você nunca mais será uma mulher ideal. Seus verbos nunca mais serão conjugados em primeira pessoa do singular. Você nunca mais estará sozinha, pensará sozinha, viverá sozinha. Você vai nascer, mulher.  

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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“Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer”

A pequena Inaê nasceu em casa após 10 horas de trabalho de parto (Foto: Artur Pires)

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

(Parte IV da reportagem “Aurora de sonhação: As raízes de um mundo novo)

A partir das últimas décadas do século XIX, nas nações europeias, a medicina começou a levar os partos, antes majoritariamente domiciliares, para os hospitais. Hoje, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 84% dos partos realizados na rede privada no Brasil são cesáreas. No Sistema Único de Saúde (SUS), esse índice cai para 40%, mas ainda continua muito acima da taxa entre 10% e 15% recomendada pela OMS. O Brasil é o país com o maior número percentual de cesáreas no mundo, com 57% dos nascimentos sendo realizados através desse procedimento cirúrgico invasivo e antinatural. Com o intento de diminuir essa taxa, no ano passado, a Agência Nacional de Saúde (ANS) estabeleceu regras para as operadoras de planos a fim de estimular o parto natural.

Para a bióloga e doula Liana Queiroz, o parto humanizado é uma maneira de resgatar a natureza sagrada do nascimento e, à medida que a mãe é totalmente atuante nessa parição, empoderá-la enquanto ser que gera outra vida. De acordo com ela, quando os hospitais abarcaram a tarefa de trazer as pessoas ao mundo, mecanizando o processo, a parteira foi substituída pelo(a) médico(a) e a doula, que “é como se fosse aquela vizinha e amiga que dava o suporte no processo de parto”, desapareceu. O filme O Renascimento do Parto, de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, aborda essa questão de maneira aprofundada.

A artesã Bruna Ianara, de 23 anos, e o professor e músico Renan Rebouças, de 27, tiveram a pequena Inaê, de 1 ano, em casa, na companhia de Liana e enfermeiras obstetras. Bruna comenta que o trabalho de parto durou 10 horas, e proporcionou-lhe um “renascimento”. “Foi muito forte, muito intenso; é pura emoção, intuição, consciência corporal…”, relembra, afagando com carinho a filha, que se lança em caras e bocas para mim, fazendo graça. Renan ressalta que o homem pode se entregar à experiência também, e vivê-la com intensidade: “Eu entrei em trabalho de parto junto com a Bruna, as funções são complementares, gritava junto com ela, não parei um minuto durante o trabalho, e aparei a Inaê”.

(Info: Rafael Salvador)
(Info: Rafael Salvador)

À primeira vista, falar sobre parto humanizado pode parecer destoante de tudo o que vínhamos discutindo ao longo da reportagem. Mas, definitivamente, não é. Não à toa o obstetra francês Michel Odent, um dos defensores mundiais do parto domiciliar, disse que “para mudar o mundo, é preciso primeiro mudar a forma de nascer”. A epidemia de cesáreas em todo o planeta tem indissociável relação com o homo urbanus e seu modo de vida em crescente dessincronia com as leis da natureza. Essa espécie urbanoide tenta acelerar a noção de tempo-espaço de diversas formas, busca dissimular, com procedimentos cirúrgicos e entorpecimentos anestésicos, as dores existenciais da vida, estas sem as quais não aprendemos-a-viver. O parto humanizado é um ato de coragem e empoderamento, é a Vida prenhe de sentido, nos ensinando na prática aquilo que ela manifesta de mais essencial, seu sagrado mistério de nascer e morrer. “Quando a mulher pare naturalmente, morre ali uma mulher e nasce outra”, exclama Bruna.

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Parte IV da reportagem “Aurora de sonhação: as raízes de um mundo novo”, publicada na  Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 ( pgs. 10 a 26) (aqui, versão PDF).

Veja abaixo as outras partes:

Parte I (introdução)

Parte II: “O sertão é dentro da gente”

Parte III: Cidade: por uma nova prática socioecológica

Parte V: Nos caminhos da autogestão

Parte VI: “Nós por Nós”: A Senzala subverte a Casa-Grande

Parte VII: Democracia representativa e burguesia: uma relação de cumplicidade

Parte VIII [final]: Voar rumo à liberdade

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Aurora de sonhação: As raízes de um mundo novo

(Foto: Artur Pires)

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

Intolerância racial, religiosa, étnica, política e de gênero; mulheres sendo mortas por serem… mulheres; homossexuais sendo mortas(os) por serem… homossexuais; indígenas e agricultoras(es) sendo massacradas(os) e expulsas(os) de suas terras para dar lugar aos grandes latifúndios monocultores; pescadoras(es) perdendo seus pedaços de chão para os resorts à beira-mar; crianças fazendo malabarismo nos sinais de trânsito para conseguir alimento ou crack; pessoas dormindo embaixo de marquises e viadutos e disputando restos de comida com gatos e cachorros nos lixões; moradoras(es) de favelas sendo enxotadas(os) de suas casas para a construção de estádios, avenidas e viadutos; a polícia matando seis pobres todo dia; áreas verdes e parques ecológicos sendo derrubados para a construção de arranha-céus; genocídio e encarceramento em massa da população periférica em nome da “guerra às drogas”; falsas polarizações ideológicas que disfarçam a unidade da miséria moral da política tradicional; lei antiterrorismo e tantas outras falácias jurídico-legislativas que servem tão somente ao controle social da pobreza e da revolta; pessoas morrendo nas filas dos hospitais públicos porque faltam remédios, leitos e estruturas mínimas de atendimento de urgência e emergência; cidades consumidas pela poluição, pelo trânsito sufocante, pela violência difusa (advinda da desigualdade social), pela especulação imobiliária via urbanismo predatório; centros urbanos tornando-se majoritariamente redes de sociabilidade mediadas pelo consumo; pessoas sendo ressignificadas como coisas consumidoras

Todas essas mazelas sócio-históricas endossadas por um fictício “Estado Democrático de Direito” (e suas instituições legislativas, executivas e judiciárias), legitimadas por uma narrativa midiática fascista, um “consenso fabricado” – como disse Chomsky –, e entorpecidas pela ilusão publicitária, que, ao usar técnicas rebuscadas de manipulação e fetiche, transforma tudo o que não é vivo num simulacro artificial da vida permeado pelo consumo.

Não há respiro à liberdade na tão alardeada “democracia representativa”. O povo não está representado nela, nem nas instâncias ilusórias de “participação popular” e tampouco nas eleições. Este regime de poder não promove a igualdade; pelo oposto: garante privilégios atávicos a uma elite patriarcal. A democracia representativa é, na verdade, uma mera construção teórico-jurídica, completamente apartada da prática social. Na pragmática real, o que existe é a tirania democrática, encoberta e “colorida” por uma elaboração discursiva padronizada, que tergiversa e persuade com uma retórica fabricada por marqueteiros(as) e políticos(as) profissionais. Essa mentira é tão insustentável na prática que as vítimas sacrificiais que desapareciam e eram mortas na ditadura, por exemplo, continuam sumindo e morrendo atualmente, sob o véu da “democracia”. A diferença é que nas décadas de 1960/70, além das pessoas pobres, negras, indígenas, quilombolas, etc., também desapareciam intelectuais e universitárias. Hoje, a classe média foi poupada desse modelo de truculência estatal, mas as populações indígenas, quilombolas, e das favelas nunca souberam, em termos de modus operandi do Estado, o que é o fim da violência institucional (vide o Exército – no Rio de Janeiro – e a PM invadindo as favelas em todo o país e ativando um estado de exceção ou as incontáveis ações truculentas de “reintegração de posse”, muitas com mortes, capitaneadas pelas polícias Federal e estaduais contra comunidades indígenas e quilombolas).

Que fique claro: a ditadura civil-militar foi um regime hediondo e odioso, profundamente corrupto, que censurou a arte e o livre direito à expressão e manifestação, institucionalizou a tortura (física e psicológica) e matou, por isso deixou marcas indeléveis na sociedade brasileira, e cujos algozes e torturadores deveriam ter sido punidos rigorosamente – a exemplo do que ocorreu nos vizinhos Argentina e Chile –, não fosse a benevolência das leis nacionais (e a anistia de 1979). Contudo, a democracia que surgiu posteriormente precisa ser também problematizada, pois ela manteve os mesmos privilégios atávicos aos grupos empresariais e midiáticos que apoiaram o regime ditatorial e, no que diz respeito ao controle social capitaneado pelo seu aparelho repressor, reproduz sobre as populações vulneráveis os mesmos métodos violentos e, por meio de uma verborragia discursiva, simula uma fictícia igualdade jurídica que não existe na prática. É sob a tutela “democrática” e do “Estado de Direito”, por exemplo, que o morador de rua Rafael Braga Vieira foi condenado a cinco anos de prisão, sem direito a recorrer em liberdade, por portar desinfetante e água sanitária durante manifestação no Rio de Janeiro em junho de 2013; ao passo que os(as) diretores(as) da Vale e da Samarco, que poluíram com lama tóxica o rio Doce e destruíram milhares de vidas de pessoas, animais e plantas, estão inimputáveis. A balança da “Justiça democrática” muda de peso de acordo com circunstâncias sociais e econômicas. Thoreau, em A desobediência civil, afirma que o “Estado de Direito” é uma ficção.

Em resumo, as consequências sócio-históricas apresentadas nos parágrafos anteriores deixam claro que o Estado Democrático de Direito é um conto de fadas que não tem base concreta para garantir os direitos humanos nem a relação harmoniosa com a natureza. Nesse sentido, cabe dizer que uma manifestação a favor desse modelo tirânico de democracia é tão genérica, inócua e vazia de significado prático quanto uma contra a corrupção.

Entretanto, dentro do contexto por mudanças transformadoras e estruturais, há uma riqueza de possibilidades que enchem de coragem e luta nossos corações. São pessoas, grupos e movimentos que, ao proporem se libertar das inclusões enganadoras do sistema político tradicional, conjugam os verbos sonhar e agir na primeira pessoa do plural: nós sonhamos e agimos! Pensei em nominá-las sementes, mas eis que brotaram, já sentem a respiração e a seiva da vida e, assim como as raízes vegetais estão para as plantas, são o alicerce para a construção de um devir possível para a humanidade: são as raízes de um mundo novo!

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* Parte I da reportagem “Aurora de sonhação: as raízes de um mundo novo”, publicada na  Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 ( pgs. 10 a 26) (aqui, versão PDF).

Veja abaixo as outras partes:

Parte II: “O sertão é dentro da gente”

Parte III: Cidade: por uma nova prática socioecológica

Parte IV: “Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer”

Parte V: Nos caminhos da autogestão

Parte VI: “Nós por Nós”: A Senzala subverte a Casa-Grande

Parte VII: Democracia representativa e burguesia: uma relação de cumplicidade

Parte VIII [final]: Voar rumo à liberdade

 

seu francisco

Voar rumo à liberdade

Seu Francisco Assis, em busca de liberdade: “A terra é um direito nosso, tem que ser distribuída” (Foto: João Ernesto)

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

(Parte VIII [final] da reportagem “Aurora de sonhação: As raízes de um mundo novo)

Para sermos livres, não há respostas prontas em cartilhas ou em programas de como fazer. Cada pessoa é apta a tomar as rédeas desse processo consigo mesma. Algumas relações sociais podem auxiliar na caminhada rumo à liberdade, uma vez que fogem do autoritarismo, da representatividade privilegiada, da hierarquia, do centralismo, da burocracia e do partidarismo/sectarismo (aqui entendido como aquilo que parte, que separa). Estas relações podem ser tentadas em qualquer ação cotidiana, seja nas famílias, nas interações de amizade e afetivo-amorosas (casamentos, namoros, “ficas”, etc.), nas escolas, nas comunidades, nos coletivos e movimentos sociais, enfim, na vida em geral.

a) Horizontalidade

Nesta relação social, não há hierarquias nem existem chefes ou líderes com privilégios que decidem por todo o grupo. Pelo contrário, as decisões são tomadas coletivamente (em assembleias, nos casos de grupos sociais maiores), nas quais todas e todos têm iguais direitos a defender suas posições. As tarefas são divididas de modo que nenhuma se estabeleça como mais importante ou superior a outra. Ninguém manda em ninguém. Todo mundo se ajuda, em livre cooperação. Horizontalidade é a humildade de construir igualitariamente com outras pessoas – e não, hierarquicamente, se arvorar representante ou líder delas.

b) Descentralização

Aqui, não há um “diretório central”, uma “entidade” ou um “líder” que centralize as decisões. As representações personificadas ou “lideranças” devem ser sempre sem privilégios, transitórias e efêmeras; surgem espontaneamente no grupo (ou na relação) para resolver uma questão específica ou desempenhar determinada função (nem mais nem menos importante que as outras) e logo depois devem ser naturalmente descartadas enquanto lideranças (ou representantes). A relação descentralizada sem lideranças cristalizadas (fixas) permite maior dinamismo de ação e uma distribuição equilibrada de poderes. Nela, as possibilidades de criação e manutenção de direitos são mais presentes, pois todas as pessoas se autorrepresentam.

c) Autonomia

Autonomia é reconhecer-se como potencialmente livre e capaz de lutar por uma sociedade justa, sem preconceitos e opressões. É pensar livremente (sem se deixar influenciar pelos padrões e “modas” dominantes). É ter controle sobre si mesma(o). É ter consciência de que, para mudar o mundo ou relações de opressão, não é necessário um representante, um(a) líder com privilégios ou um “político(a) profissional”, mas sim pessoas autônomas que queiram construir juntas, em solidariedade orgânica, em formato de mutirão.

d) Autogestão

O ser humano, após a fase inicial de sua vida social (infância e pré-adolescência), tem todas as capacidades naturais para autogerir-se. Naturais porque são dadas pela Natureza. É não há nenhum exagero nessa frase. Nosso corpo autogere-se desde que basicamente se estrutura: as células se autorregulam coletivamente e as reações químicas dos órgãos em relação uns com os outros são mutuamente cooperativas. A autogestão está em nós! Ela é irmã da autonomia, porque também tem consciência da capacidade de ser livre e de construir em mutualidade, em cooperação solidária. Autogestão é não mandar nem ser mandada(o). É colaborar livre e horizontalmente para fazer aquilo que temos de fazer: caminhar em sincronia com as leis naturais da Vida: cooperação, amor, justiça, igualdade, fraternidade…

Voar rumo à liberdade

Quando eu olho para a sociedade hoje e vejo toda a barbárie reinante, fortifico-me no que aprendi com o jagunço Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas: “O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando… o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Não há saídas prontas, estanques, permanentes para a Vida, por isso é preciso estar de alma aberta às suas infinitas possibilidades de semear o novo. Assim, as experiências retratadas nessa reportagem tentam e perseveram no sentido de criar novas formas de ação no mundo (sem a mediação por hierarquias ou burocracias), de sonhar e agir para que venha à tona essa nova sociedade. Todas as pessoas, grupos e movimentos mostrados aqui, em que pese as diferenças de ação, almejam a liberdade e sabem que, apesar de não sentirem seu gosto totalmente, enamoram-se de seu aroma e caminham na vereda da esperança, rumo ao vazio das descobertas, porque, como disse Dostoiévski, “o vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas” e “para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio”. O vazio abre clareiras, como sublinhou Certeau.

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Que juntas e juntos construamos o mundo novo! (Foto: Artur Pires)

Todas as vezes que penso em desesperançar, lembro das crianças do Lagamar, em Fortaleza, brincando e ensinando a viver em meio à enchente que invadia suas casas; e dos beija-flores que vêm bicar as papoulas aqui no jardim; recordo dos olhos de nuvens (é quando enxergamos mais longe) da Ivânia, do Ciclovida, falando de autogestão; e do sorriso radiante do seu Zé, do Brotando Emancipação, quando apanhou da horta a grande melancia. Mentalizo o seu Francisco Assis, do Raízes da Praia, e sua firmeza de espírito ao dizer que vai lutar até o fim por um pedaço de chão; lembro da menina Ana Rosa, de 7 anos, me ensinando que os animais para serem felizes não precisam de nenhuma dessas parafernálias eletrônicas e mobiliadas que enchemos nas nossas casas. E, ao lembrar e escrever, choro! Choro porque encontro beleza em tudo isso. E sinto que a beleza não está distante de nenhum de nós. E aí renasço! E percebo que não posso entregar meu estar no mundo a ninguém. Quero me lançar no vazio do voo rumo à liberdade. Quero ser também uma raizinha de um mundo novo: enraizar, brotar e … voar! Quero ajudar a construir uma nova forma de ser com as pessoas e o mundo, uma maneira de pensar revigorada, baseada no amor, na ecologia, na liberdade e numa estética que liberte. Que ajamos – e voemos! – em comunhão. Eu, você, nós, elas e eles. Que, juntas e juntos, construamos a alvorada do amanhã e conjuguemos a Vida à base de sonho e ação: será a nossa Aurora de Sonhação!

S’intere mais:

livros1984 (George Orwell)

A arte de viver para as novas gerações (Raoul Vaneigem)

A desobediência civil (Henry Thoreau)

A invenção do cotidiano: artes de fazer (Michel de Certeau)

A revolução dos bichos (George Orwell)

A sociedade do espetáculo (Guy Debord)

Admirável mundo novo (Aldous Huxley)

O direito à cidade (Henri Lefebvre)

Os excluídos do interior (Pierre Bourdieu)

Pé na estrada (Jack Kerouac)

Sociedade sem escolas (Ivan Illich)

Utopia e Paixão (Roberto Freire)

Walden – A vida nos bosques (Henry Thoreau)

 

 

filmeA Batalha de Seattle (Stuart Townsend)

Ciclovida (Matt e Loren Feinstein)

Compartilha Ciclovida: A construção da autonomia no semiárido (Paolo Viola)

Consenso Fabricado – Chomsky e a Mídia (Stephen Stills)

O Veneno está na Mesa I (Silvio Tendler)

O Veneno está na Mesa II (Silvio Tendler)

O Renascimento do Parto (Érica de Paula e Eduardo Chauvet)

O que aprendi com a desescolarização (Luiza de Castro)

Onze: A maior chacina da história do Ceará (Nigéria, Voz e Vez das Comunidades, Zóio)

Ser e vir a ser (Clara Bellar)

 

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Parte VIII [final] da reportagem “Aurora de sonhação: as raízes de um mundo novo”, publicada na  Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 ( pgs. 10 a 26) (aqui, versão PDF).

Veja abaixo as outras partes:

Parte I (introdução)

Parte II: “O sertão é dentro da gente”

Parte III: Cidade: por uma nova prática socioecológica

Parte IV: “Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer”

Parte V: Nos caminhos da autogestão

Parte VI: “Nós por Nós”: A Senzala subverte a Casa-Grande

Parte VII: Democracia representativa e burguesia: uma relação de cumplicidade