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Os sem fome

(Pintura: Iberê Camargo)

Por Vanessa Dourado

No Brasil de 2016, muitas pessoas, orgulhosas de sua posição emergente, foram às ruas para pedir menos direitos aos famintos. A bronca é imaginar que alguém quer levar alguma vantagem. Cada centavo destinado às políticas públicas de inclusão social é imaginado como um absurdo sem precedentes por esta mesma elite que faz doações às instituições de caridade quando Noel chega, em dezembro, para amolecer o coração dos mais infelizes.

Os membros da elite também não querem saber de pobres na universidade. A população brasileira é composta de 53,6% de pessoas negras – segundo dados do IBGE -, mas no grupo dos mais ricos os brancos são 85,7%. As desigualdades de renda e de realidade não podem ser vistas pelas janelas dos emergentes que clamam pelo fim das injustiças. E resulta desagradável dividir a sala da universidade pública com cotistas sem mérito. A meritocracia nunca foi um problema para quem sempre teve as panelas e os bolsos cheios.

Os Sem Fome querem o fim da democracia e não precisam de ciência para entender que a competição deve ser cultuada. Defensores do capitalismo, os Sem Fome querem um país sem escadas e a manutenção dos privilégios dos meritocraticamente bem-nascidos.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Campeão mundial

Por Vanessa Dourado

A América Latina é a região com o maior número de assassinatos de ambientalistas. O Brasil deixou de ser o favorito nos campos de futebol para ser o campeão em mortes de defensores da Pachamama. Só no ano de 2015 “marcou” 50 mortes – segundo dados da Global Witness. Estes indesejados sujeitos que defendem os bens comuns – algo que parece um tanto quanto pós-moderno na visão de muitas pessoas (os indígenas que não ouçam!) – são um desagradável enclave para os crimes ambientais que movimentam vários bilhões de dólares sagrados ao custo de sangue indígena e de ecologistas, que não é verde e nem da gringa, porém muito necessário para manter os padrões.

Enquanto todos lamentam o rebaixamento do Brasil na S&P, com manchetes espalhadas desde The New York Times até o mais chinfrim do bairro, ao sangue derramado pela luta ambiental, nem uma nota de rodapé. Estes meios, financiados pelos “outros” os quais são financiados pela agroindústria e pela mineração, não enxergam as vidas dos que lutam por justiça e nem podem dar muito espaço. Afinal, se já fazem tanto barulho sendo tão poucos, imagine se a moda pega.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

 

 

Você vai nascer, mulher!

Buceta Universo(Desêin: Ramon Sales)

Por Vanessa Dourado

Você vai nascer, mulher. Logo quando chegar ao mundo, alguém vai dizer que você é uma princesinha. Todas as suas roupas serão cor-de-rosa. Farão um furo em sua orelha e colocarão um adorno delicado para que todas as pessoas percebam que você é uma menina, e não um menino.

Logo depois, você ganhará várias bonecas, todas lindas. Você olhará para este objeto e entenderá como as mulheres devem ser, como deve ser o corpo, os cabelos, a pele, a roupa, a maneira de se colocar no mundo.

Você vai ouvir as pessoas falarem sobre a sua aparência e sobre o seu cheiro. Vão dizer que deve emagrecer, que deve cuidar dos cabelos, das unhas, prestar muita atenção na roupa com a qual sairá à rua. Será elogiada quando for uma menina boazinha e olhos de inquisição a condenarão quando você for rebelde, independente e questionadora. Sendo branca, terá mais sorte.  O mundo será mais gentil e agradável. Se você for negra, ouvirá – por toda a vida – vários comentários sobre os seus cabelos e sobre partes específicas do seu corpo.

A relação com os meninos será complicada. Eles farão comentários sobre você, mas raramente falarão com você diretamente. Sua forma será sempre mais importante que a sua voz. Por isso, aprenderá que deve falar menos. Aprenderá que, para não ser invisível, deverá ter uma forma que agrade. Os centros de estética e os salões de beleza farão parte do seu cotidiano. Por onde você for, encontrará exemplos de como cuidar da aparência. Quanto melhor for a sua forma, de acordo com o padrão colocado, mais inserida na sociedade você será. Só assim você será feliz.

Você vai ser sempre vista como uma potencial mãe e esposa. Deverá ser delicada, amorosa, desejável, uma boa cuidadora, um poço de compreensão e compaixão. Se você gostar de meninas, será hostilizada pelos meninos e isolada pelas meninas. Se vir a si mesma como um menino, será considerada um extraterrestre. Se gostar de meninas e meninos, será vista como incapaz de decidir sobre a sua sexualidade. Sua vida afetiva será sempre jogada à discussão coletiva, você terá sua privacidade invadida e sua intimidade achincalhada em rodas de conversas e mesas de bar.

Se você gostar de sexo, será uma puta. Se não gostar, será uma frígida. Se casar com um homem e tiver uma família, será uma mulher de respeito.  Se não quiser mais o casamento, será insensível, acusada de ser egoísta e não pensar no bem-estar dos filhos. Se for deixada, será sempre questionada sobre o que você fez para provocar isso.

Um dia pode ser que você não goste mais de ser esta mulher. Cansada, você tentará ir contra tudo isso. Será chamada de louca e histérica. Nos momentos em que sentir desespero por não saber de onde vieram todos estes padrões e regras e se sentir triste por isso, será acusada de estar fazendo drama. Muitas vezes dirão que você está se vitimizando.  Não entendendo bem o que fazer, você vai procurar saber mais sobre a vida e como você gostaria de vivê-la.  Vai descobrir histórias incríveis, vai querer ser outra mulher. Entendendo como gostaria de estar nos espaços, você vai mudar, vai procurar outras mulheres que tenham o mesmo desejo. Juntas vocês vão quebrar padrões. Serão hostilizadas, diminuídas, agredidas, desafiadas.

Você nunca mais será uma mulher ideal. Seus verbos nunca mais serão conjugados em primeira pessoa do singular. Você nunca mais estará sozinha, pensará sozinha, viverá sozinha. Você vai nascer, mulher.  

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

A cultura do estupro

Buceta Universo(Desêin: Ramon Sales)

Por Vanessa Dourado

vanessadourado66@hotmail.com

Nas últimas semanas, várias manifestações contra a cultura do estupro circularam pelas redes sociais. O caso da jovem de 16 anos que foi estuprada por 33 homens, no Rio de Janeiro, chocou o país. Foram dias de reflexão, de muita revolta e, principalmente, de educação. As feministas e os movimentos feministas aproveitaram o acontecimento para trazer um pouco mais de informação sobre o tema, as reações demonstram que a sociedade ainda não compreende o que é a cultura do estupro e como ela é reproduzida diariamente, gerando a falsa ideia de que certa vulnerabilidade cria uma classe de mulheres estupráveis.

No Brasil, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada e apenas 35% dos casos são denunciados. Além da falta de estrutura para o acolhimento das mulheres vítimas de violência, já que em muitos casos as delegacias não estão preparadas para o atendimento, muitas agressões não são denunciadas porque a vítima sente vergonha de dizer que sofreu um estupro. Não são poucos os relatos de mulheres que chegaram à delegacia e foram indagadas sobre sua vestimenta, como se o ato de estuprar fosse, na verdade, uma resposta a uma provocação emitida pela vítima.

As mulheres são atravessadas por uma violência simbólica que é reproduzida na sociedade de diversas formas, compreende um conjunto de padrões sociais passados através de canais de comunicação dominantes e de massas, que validam e legitimam estes padrões. As mulheres usadas como propaganda de marcas, que supostamente seriam de consumo masculino, transformam-se, no imaginário dos homens, no próprio produto, no objeto de prazer. As propagandas que disseminam a ideia da violência contra a mulher como sendo um ato de empoderamento masculino, de demonstração de superioridade, reforçam a narrativa de que toda mulher precisa de um homem forte, um macho. E não são poucas as pessoas que acreditam que o sonho de toda mulher é ser forçada a praticar relações sexuais não consentidas – ou seja, de sofrerem estupro.

Buceta UniversoEssa mulher, que passa a ser corpo desprovido de alma, é vista como instrumento de satisfação masculina. Os homens acreditam que as mulheres escolhem roupas, maquiagens, lugares e têm certos comportamentos com um único objetivo: provocá-los. Por isso, também acreditam que podem violar este corpo que pede para ser usado. É neste momento em que a violência simbólica se concretiza em violência física e, muitas vezes, faz com que a própria vítima acredite que teve culpa por ser estuprada.

No caso das mulheres negras, a objetificação é ainda maior. Não somente por uma questão de classe – já que a maior parcela da população negra brasileira é empobrecida, marginalizada e a que sofre mais violência -, mas também pelo seu lugar ocupado por vários anos na história: a de escrava sexual.

A cultura do estupro precisa ser combatida. O feminismo deve ser apoiado por todas as pessoas que desejam viver em um mundo com menos violência. O primeiro passo é entender como os padrões machistas e patriarcais são inseridos na sociedade e, sobretudo, não reproduzi-los.

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Artigo publicado na Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 ( pg. 30) (aqui, versão PDF).