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Arte urbana como “manifestação necessária”

Por Artur Pires

Odylo Falcão rabiscava nas paredes de casa e da escola quando meninote. Ali começava a ser formado o artista que hoje pinta as paredes do Rio de Janeiro com cores, formas e sabores, compondo uma estética de feição singular, com forte marca autoral.

Já realizou três exposições, uma desenho, em pastel seco, e duas de pintura, em acrílico. Ademais, cria murais em paredes, muros, tapumes e outras superfícies, como pintura em porta de aço. Sempre que pode, rabisca palavras que viram crônicas e poemas. De acordo com ele, “as linhas do mundo vão guiando o seu olhar e você descobre um jeito novo de traduzi-las. Fiz cursos, conversei com artistas, mas procurei um olhar próprio, autoral, que me fizesse feliz com as minhas experiências”.

As referências artísticas de Odylo Falcão são transversais, do grafite ao desenho, da pintura à ilustração. Mas também as artes plásticas clássicas: “Volpi, Picasso, Matisse, Van Gogh e vários têm um lugar especial na minha memória gráfica”, conta. “Minha arte é autobiográfica, transformo meu filho Gabriel de 11 anos em personagem, assim como minha esposa Rita, e me represento nos pássaros, por achar que assim ganho toda liberdade para voar bem alto”, suspira alçando vôos sem asas.

Com relação à arte urbana, o artista acredita que “é uma manifestação necessária, e por vezes a única galeria de arte para muitos, por vários motivos. Minha mensagem é estética e tanto nas cores como no preto e branco, vou criando um mundo de formas simples, como uma grande ilustração a céu aberto. Se está na rua, um território livre, está exposto a todo tipo de crítica, e também é um agente transformador da paisagem e que leva reflexão além da melhora visual do local”. Por mais riscos nos muros! Gritos escritos nas paredes das urbes!

Mais sobre o artista:

CAPA - SOM D_LUNA - NESSE TREM

Som D’Luna lança seu primeiro CD apostando na renovação da música popular brasileira

Gravado em João Pessoa, com lançamento nas plataformas digitais e em formato físico, “NESSE TREM” reúne composições e arranjos dos gêmeos paraibanos Vitor e Diogo Luna, em 11 faixas que passeiam pelo baião, samba, soul, funk e balada

A nova MPB ganha frescor paraibano em dobro com o lançamento do disco NESSE TREM, do Som D’Luna, formado pelos gêmeos Vitor e Diogo Luna. De João Pessoa, os irmãos, que decidiram caminhar juntos pela música, lançam o seu primeiro CD gravado em estúdio, totalmente autoral, renovando o cenário nacional da música popular brasileira, em composições que vão desde o baião ao soul/funk.

Com 11 faixas e produzido no estúdio Gota Sonora, em João Pessoa, o NESSE TREM carrega uma variedade de estilos diferentes, conectados por timbres, histórias, texturas e arranjos. Um disco que guarda os olhares dos gêmeos sobre a vida, sobre os amores, as paixões que os fazem vibrar e acordar dispostos, sobre enxergar com esperança cada recorte das horas. “Esse disco é uma tentativa de escancarar uma relação entre nós e as sonoridades que nos fizeram chegar a decisão da música”, afirmam. “Dormimos e acordamos pensando em dividir aquilo que amamos fazer e achamos que não tem algo que descreva melhor esse momento do que: uma incessante busca de sempre fazer música com o coração. Fazer esse trabalho com toda entrega possível”.

Sob direção geral do paulista Jader Finamore (os Fulano), mixagem de Renato Oliveira e arranjos de Vitor Luna e Diogo Luna, Jader Finamore e Ítalo Viana (baixista), o disco foi finalizado junto a uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo. Fazem parte do disco ainda, os bateristas Thiago Jorge, Herbert José e Gilson Machado, os tecladistas Uaná Barreto e Renato Oliveira, o percussionista paulista Luccas Martins (Serelepe), além do saxofonista Joab Andrade, o trompetista Emanoel Barros, o trombonista Sabiano Araújo, o violoncelista Tom Drummond, o flautista Renan Rezende e o clarinetista Thompson Moura. Violões e guitarras por conta dos irmãos gêmeos.

Vitor e Diogo Luna

Nascidos e residindo em João Pessoa (Paraíba), os irmãos começaram sua história profissionalmente com apresentações em bares locais, casamentos, recepções e festas fechadas. Com o tempo, um repertório autoral ganhou corpo e, em 2013, uma nova percepção sobre o mercado se consolidou buscando novos caminhos, que vieram em seguida, em 2014, com uma apresentação na Usina Cultural Energisa (João Pessoa –PB) e, logo depois, a pedido de um produtor musical, um período em Portugal, onde realizaram apresentações em diversas casas, inclusive na Avenida da Liberdade, principal avenida de Lisboa.

De volta ao Brasil, gravaram em home studio e de forma independente o EP “Secura”, formado por 7 faixas autorais e executadas de forma acústica, basicamente vozes, violões e, em algumas canções, percussão. O EP foi importante para os irmãos se tornarem conhecidos na cidade, com músicas tocando em diversas rádios locais e virtuais, com destaque para o single “Mais Ninguém”, gravado depois da estreia do disco, atingindo uma divulgação inesperada na programação diária das emissoras e redes sociais.

Onde ouvir:

Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=XHoO1QzEQWQ&list=PLouDNR7V98FIcx9PKvS2g2wbLgjhTywvz

Spotify

https://open.spotify.com/artist/4aEdUmMWyf5gu6Zw58Z96M?si=R6sfOaMlRCCRiI_KrImWfg

Deezer

https://www.deezer.com/en/artist/14480423

Imusic

https://itunes.apple.com/br/album/nesse-trem/1367777775

Download completo: www.somdluna.com.br

galeano

Eduardo Galeano: um contador de histórias escondidas

Por Vanessa Dourado

A América Latina e suas Histórias mais profundas, mais sentidas pelos corpos e pelas almas de seus habitantes. Esta é, sem dúvida, a temática mais marcante no trabalho do escritor uruguaio Eduardo Galeano.

As palavras peregrinas de Galeano levam o leitor para uma viagem pelos detalhes culturais dos territórios e para um interessante despertar de ideias. As provocações articuladas com uma suave ironia e duras críticas com relação à localização sócio-política da América Latina no mundo são disparadores para reflexões e questionamentos.

Muitas negações, rechaços e denúncias estão presentes na literatura do escritor – que gostaria de ter sido jogador de futebol. A crítica à igreja como instituição colonizadora, alienante e normalizante, o desprezo pelo academicismo e o olhar sensível sobre a condição das mulheres na sociedade, são características marcantes e presentes em toda sua obra.

Os desenhos que ilustram as surpreendentes páginas de seus livros guardam uma vontade de resgatar antepassados e fazem um despretensioso culto ao misticismo ameríndio.

Ler Galeano é como adentrar a uma cozinha na qual se prepara variados pratos e onde se sentem vários aromas diferentes. Seu peculiar estilo de escrever transita entre a poesia, o relato e jornalismo-histórico. Seus textos relatam a dura realidade vivida pelos povos latino-americanos, a herança colonial deixada pelo descobrimento das terras que nunca foram perdidas, mas também relatam as resistências, a alegria, as cores e os sons daqueles que entendem seus territórios como extensão dos próprios corpos.

Os vínculos afetivos, presentes em muitos de seus textos, são relatados através das relações entre as personagens, pelas formas de se afetarem, pela simplicidade complexa de suas relações corpóreas, uma conversa entre corpos traduzida em insuficientes palavras.

O autor é, sobretudo, um curioso que compartilha suas descobertas. Isso faz com que a leitura de seus livros seja uma experiência única. Ler Galeano é desvendar as gavetas de seu imaginário e de sua existência intelectual nos mais diversos níveis – desde o mais sensível ao mais articulado diagnóstico da realidade concreta. No entanto, a sensação é a de ter uma conversa relaxada em um café com algum amigo querido, ouvir suas experiências cotidianas e as impressões que lhe atravessam.

Apesar da difícil tarefa escolhida – ou pela qual foi escolhido -, o autor consegue não resignar-se e transforma cada frase de seus característicos curtos textos em uma espécie de esperança-poética-realista que caminha rumo a uma utopia que permite sonhar de olhos abertos.

O vocabulário simples – e nem por isso pouco articulado – revela um caçador de palavras, e de Histórias, que quer ser compreendido, mais que precisamente lido ou reconhecido. Todavia, é difícil não reconhecer sua autenticidade e sua impactante forma de fazer com que o leitor questione seus próprios paradigmas. Para ler Galeano é necessário estar preparado para questionar a si mesmo, para desconstruir e reconstruir ideias e para colocar-se também como escritor de uma História coletiva, escrita no agora.

Vanessa Dourado é escritora, bissexual e feminista latino-americana

*Publicado originalmente na revista portuguesa InComunidade

FNDC lança relatório sobre violações à liberdade de expressão

Por FNDC

FNDCCom quase 70 casos relatados, documento será encaminhado a organismos internacionais de direitos humanos

Na semana em que a campanha Calar Jamais! completa exatamente um ano de lançamento, o Fórum Nacional pela Democratização (FNDC) publica o balanço das violações à liberdade de expressão registradas ao longo desse período. O relatório “Calar Jamais! – Um ano de denúncias contra violações à liberdade de expressão“, disponível em versão digital, documenta cerca de 70 casos apurados, organizados em sete categorias: 1) Violações contra jornalistas, comunicadores sociais e meios de comunicação; 2) Censura a manifestações artísticas; 3) Cerceamento a servidores públicos; 4) Repressão a protestos, manifestações, movimentos sociais e organizações políticas; 5) Repressão e censura nas escolas; 6) Censura nas redes sociais; e 7) Desmonte da comunicação pública.

O conjunto das violações comprova que práticas de cerceamento à liberdade de expressão que, já ocorriam no Brasil – por exemplo, em episódios constantes de violência a comunicadores e repressão às rádios comunitárias –, encontraram um ambiente propício para se multiplicar após a chegada de Michel Temer ao poder, por meio de um golpe parlamentar-jurídico-midiático, que resultou na multiplicação de protestos contra as medidas adotadas pelo governo federal e pelo Congresso Nacional.

São histórias de repressão que se capilarizaram em todas as regiões, em cidades grandes e pequenas, praticados pelos mais diferentes atores. Além das tradicionais forças de segurança e de governos e parlamentares, o autoritarismo da censura tem chegado a grandes empresas, direções de escolas até a cidadãos comuns, que tem feito uso do Poder Judiciário para calar aqueles de quem discordam. Assim, manifestações de intolerância religiosa, política e cultural, fruto do avanço conservador no país e de um discurso do ódio reproduzido muito tempo e de maneira sistemática pelos meios de comunicação hegemônicos, têm se espraiado.

Como lembra a apresentação do relatório, casos como o do jovem pernambucano Edvaldo Alves, morto em decorrência de um tiro de bala de borracha enquanto protestava justamente contra a violência, ou do estudante universitário Mateus Ferreira da Silva, que teve traumatismo craniano após ser atingido com um golpe na cabeça durante manifestação em Goiânia, deixaram de ser raridade. A publicação também traz o registro da invasão da Escola Florestan Fernandes, do MST, pela polícia; da condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães; e do flerte de Temer com a suspensão dos direitos constitucionais, por meio do decreto presidencial de 24 de maio passado, que declarou Estado de Defesa e autorizou a ação das Forças Armadas para garantir a “ordem” no país.

Na avaliação da Coordenação Executiva do FNDC, desde o lançamento da campanha Calar Jamais!, o que se registrou foi assustador. “Denúncias chegavam constantemente, e cada vez mais diversificadas. Não era apenas a quantidade de casos que alarmava, mas os diferentes tipos de violações, que se sucediam progressivamente, cada vez mais graves”, afirma a entidade em trecho de apresentação do relatório.

O mais preocupante é que os casos sistematizados pelo Fórum relatam apenas as denúncias que chegaram até à campanha, especialmente em decorrência da sua própria visibilidade na mídia e na internet. Pelo quadro apresentado, portanto, é razoável imaginar que dezenas de outros episódios certamente ocorreram e não alcançaram qualquer repercussão no país. Outros seguem em curso, como projetos de lei para proibir manifestações artísticas ou estudantes que ainda respondem a processos por terem ocupado escolas contra a PEC 55. Também segue o desmonte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde os registros de assédio moral e censura contra jornalistas e radialistas, praticados pela direção nomeada por Temer, são quase diários. Tudo diante da omissão ou conivência de quem deveria defender a liberdade de expressão no país.

Além de cobrar publicamente a responsabilidade dos agentes internos responsáveis pelos ataques à liberdade de expressão constatadas, a campanha Calar Jamais! e o FNDC pretendem levar o relatório para autoridades nacionais e organismos internacionais de defesa de direitos humanos. E, assim, quem sabe, condenar o Estado brasileiro nas cortes internacionais por estas violações.

Baixe em anexo o relatório “Calar Jamais! – Um ano de denúncias contra violações à liberdade de expressão”.

Conheça a campanha, denuncie, divulgue e compartilhe!

Sem liberdade de expressão, não há democracia!

mulheres

Curso sobre encarceramento feminino está com inscrições abertas

Por Alma Preta

As inscrições para o curso online “Marcadores Sociais de Mulheres Encarceradas: gênero, classe, raça, sexualidade e etarismo” estão abertas até o dia 29 de Junho. O curso será realizado a partir do dia 20 do mesmo mês e será ministrado pela professora e antropóloga Isadora Assis Bandeira, abordando o sistema prisional a partir de classe, raça, gênero e sexualidade, utilizando discussões antropológicas e sociais de interseccionalidade.

Disponibilizado na plataforma Mooddle, o curso é realizado pelo Coletivo Di Jeje, coordenado pela pesquisadora Jaque Conceição.  O objetivo é compreender a realidade de mulheres encarceradas, com ênfase na mulher negra, maioria no sistema prisional feminino brasileiro. Com essa distinção, deve abordar a possível diferença de intensidade de punição.

Isadora de Assis Bandeira,  curadora do curso, é graduada em Antropologia pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). O foco da formação da pesquisadora é a “Diversidade Cultural Latino-Americana”, com especialização em gênero, diversidade sexual, raça e encarceramento e  mestrado na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

O Coletivo Di Jeje oferece cursos com temas associados à condição da mulher negra e da comunidade negra, cujo objetivo central é a mudança da realidade. “O que a gente espera é que os nossos cursos tragam elementos para a compreensão e o avanço da realidade. No caso da mulher negra e da mulher negra encarcerada, a perspectiva do curso é analisar essas condições para encontrar formas de avançar e modificar essa realidade”, afirma Jaque Conceição, pesquisadora e coordenadora do curso.

Para ela, a política de encarceramento em massa é utilizada em diversos países como processo de limpeza de pobres e miseráveis da sociedade: “No nosso país, por causa da questão racial e da diáspora africana, esse encarceramento em massa se faz com a população negra, mas em países como a China, a Índia, e outros da Ásia e até da própria África, a política de encarceramento é uma política de limpeza da pobreza e da população vulnerável. É um desenho do capital mundial, não é uma coisa que só acontece no Brasil”.

Apesar de ser uma estratégia geral observada no mundo, a coordenadora acredita que é necessário observar as especificidades brasileiras, em especial a da mulher negra, para compreender os processos de maneira apurada: “A invisibilidade trazida pelo racismo intensifica a necessidade dessa discussão da mulher negra no sistema prisional. É muito mais [uma forma de] compreender quais são os processos que o racismo desdobra dentro da lógica da justiça, uma vez que todos os sistemas coercitivos ou de controle sempre vão ser uma resposta às demandas que o capitalismo traz. Ora de inculcação, ora de conformação, ora de manipulação dentro da lógica do modo de produção. Então o processo de analisar as condições das mulheres e negras dentro do sistema prisional é pensar como se dá essa lógica do racismo e do machismo”.

Você pode realizar sua inscrição no seguinte link: https://goo.gl/nIxLvR.

A_história_do_Feminismo_Negro_no_BrasilII

Curso online debate perspectiva brasileira no Feminismo Negro

Coletivo Di Jejê pretende abordar bases teóricas, demandas atuais e os movimentos políticos pautados pela vertente dentro da realidade brasileira (Foto: divulgação)

Vinícius Martins

O Feminismo Negro tornou-se importante campo de debates e afirmações para lutas históricas das mulheres negras no Brasil. Entender suas peculiaridades e bases teóricas em uma perspectiva brasileira é a proposta do curso online “A história do Feminismo Negro no Brasil”, do Coletivo Di Jejê. As inscrições vão até o dia 10 de maio e podem ser feitas aqui.

Diferente das concepções tradicionais de feminismo, o Feminismo Negro busca discutir gênero, raça e classe conjuntamente. De modo distinto ao de mulheres brancas e homens negros, as mulheres negras possuem demandas sociais específicas.

A atividade fica disponível na plataforma Moodle a partir do dia 15 de maio. As aulas podem ser feitas de acordo com a rotina dos participantes, durante os 45 dias de curso. Dividido em quatro módulos, o conteúdo terá apoio e tutoria de Jaqueline Conceição, articuladora do Di Jejê.

Ela afirma que o curso pretende delimitar as demandas e pontos de vista sobre o feminismo negro a partir de uma ótica brasileira: “o campo do feminismo negro no Brasil, do ponto de vista do fazer acadêmico, é um campo em disputa e também é um campo em aberto. Não é um campo metodologicamente demarcado e configurado. Há uma influência muito grande do pensamento norte-americano nas pesquisas e no modo que essa pesquisa é feita pelas pesquisadoras brasileiras”.

O objetivo do curso é apresentar como o Feminismo Negro se configura e se organiza do ponto de vista acadêmico. A atividade toma como base um resgate histórico inerente a luta de mulheres negras no Brasil.

De modo geral, a luta negra no país se pauta de uma perspectiva ancestral, através do culto, dos costumes, modos de vida e da resistência política, cultural e histórica. “Um curso que paute o feminismo negro pressupõe entender o processo de luta e articulação das mulheres negras, seguindo a premissa dessa ancestralidade, que faz parte do nosso modo de ser e estar aqui no Brasil”, afirma Jaqueline.

Alma Preta

Acompanhe também a Alma Pretauma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil.

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Articulação Antinuclear do Ceará lança carta ao IBAMA para que licenciamento ambiental de mineração de urânio e fosfato no Ceará seja cancelado

Por Thiago Silveira

Formada por movimentos sociais, grupos de pesquisa e comunidades do Sertão Central, a Articulação Antinuclear do Ceará (AACE) atua desde 2011 denunciando os impactos do Projeto Santa Quitéria, empreendimento que pretende explorar a Jazida de Itataia, a 222 Km de Fortaleza, para produzir anualmente 1.600 toneladas de concentrado de urânio e 1.050.000 toneladas de derivados fosfatados destinados à energia nuclear e ao agronegócio. Para visibilizar as irregularidades do projeto, que está em processo de licenciamento ambiental no IBAMA, a organização acaba de lançar uma carta à sociedade.

O documento aponta que o Projeto Santa Quitéria atingirá diretamente 156 comunidades camponesas, mais de sessenta municípios e três bacias hidrográficas do Ceará, consumindo 1 milhão e 100 mil litros de água por hora. O gasto equivale a 125 carros-pipa a cada sessenta minutos e corresponde a um aumento de 400% sobre a demanda do Açude Edson Queiroz, de onde se pretende retirar a água através de uma adutora. Enquanto isso, assentamentos próximos à jazida sobrevivem com 14 carros-pipa por mês.

Além da injustiça hídrica, a carta assinala que o Projeto Santa Quitéria deixará pilhas e barragem de rejeitos com mais de 29 milhões de toneladas de metros cúbicos, material radioativo que será espalhado pelo estado e provocará a contaminação das águas, da vegetação, do solo e dos alimentos. Apresenta, ainda, as diferentes pesquisas que indicam a relação entre exploração de urânio e aumento dos casos de câncer.

A advogada Renata Maia, do Coletivo Flor de Urucum, é uma das redatoras do documento e alerta que Fortaleza também estará na rota de contaminação, pois o concentrado de urânio e os derivados fosfatados produzidos em Santa Quitéria serão destinados, por via rodoviária, até o Porto do Mucuripe. “No total, estão programados quatro carregamentos de concentrado de urânio por ano, cada um com 25 contêineres que levarão 15 toneladas de produtos radioativos para a capital cearense. Apesar disso, estudos do Núcleo Tramas (UFC) revelam que a INB e a Galvani, proponentes do empreendimento, não caracterizam Fortaleza como área diretamente afetada pelo projeto e sequer enviaram ao IBAMA um Plano de Segurança para o transporte dos produtos”, destaca.

A carta ressalta, ainda, que, em setembro de 2016, o próprio IBAMA emitiu um Parecer Técnico contrário ao empreendimento. O Parecer atesta, entre outras irregularidades, a não comprovação da viabilidade hídrica, a péssima localização das pilhas de rejeitos, a ausência de medidas de mitigação quanto à possível contaminação das comunidades mais próximas e a falta de autorizações do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). Mesmo assim, até hoje, a Direção do IBAMAnão se pronunciou formalmente.

“Apesar das falhas dos estudos apresentados pelas empresas e dos impactos socioambientais – reconhecidos, inclusive, pelo IBAMA -, o Projeto Santa Quitéria não tem sido discutido com a população e a Direção da autarquia ambiental ainda não se manifestou sobre o arquivamento de seu licenciamento”, declara Iara Fraga, do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM-CE).

“Diante disso, a carta da AACE sintetiza as principais irregularidades do Projeto Santa Quitéria e convoca o apoio nacional e internacional para requerer à Direção do IBAMA o indeferimento da mineração de urânio e fosfato no Ceará”, conclui Erivan Silva, que também integra o MAM-CE.

O documento estará disponível para assinaturas de instituições e pessoas físicas até o final de abril e poderá ser acessado no site e na página do Facebook do Coletivo Flor de Urucum: www.urucum.org. As assinaturas também poderão ser enviadas para coletivourucum@gmail.com.

Articulação Antinuclear do Ceará

ibama2Compõem a Articulação Antinuclear do Ceará (AACE) as comunidades do entorno da Jazida de Itataia, o Movimento de Trabalhadores(as) Rurais Sem Terra (MST), o Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Cáritas Diocesana de Sobral, o Coletivo Flor de Urucum – Direitos Humanos, Comunicação e Justiça e o Núcleo Trabalho, Meio Ambiente, Saúde (TRAMAS), da Universidade Federal do Ceará. Desde 2011, a AACE atua com a defesa dos direitos territoriais das populações que podem ser atingidas pela mineração de urânio e fosfato no Ceará e, desde 2016, está à frente da “Campanha Ceará Antinuclear: em defesa da vida, da água e por justiça ambiental”. Entre suas principais atividades, destaca-se a promoção de espaços de intercâmbio de experiências, a formação em direitos humanos e a difusão de informações para a sociedade.

Mais informações:

Renata Maia (85 9 9600.6066) – Advogada do Coletivo Flor de Urucum – Direitos Humanos, Comunicação e Justiça.

Iara Fraga (85 98126.5543) – Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

Reprodução Facebook Mateus Leandro 03

Sabiaguaba Lixo Zero

Autogestão de coletivo promove limpeza do Rio Cocó em Fortaleza

Por Dani Guerra

Assistir ao sol se pondo no Rio Cocó na mata é de alegrar o coração. A beira do rio que corre para o mar atrai turistas e moradores para as barracas na areia. No entanto, entre o paredão e o lounge, a poluição resultante da ação humana começa a afetar as vidas no rio e entorno. Sentindo o sumiço dos siris, caranguejos e peixes, um grupo de nativos da comunidade Boca da Barra, pescadores submarinos e de mergulhadores organiza o Coletivo Sabiaguaba Lixo Zero.

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Foto: Nil Cerqueira

 

“A gente tem uma visão totalmente diferenciada de uma pessoa que vem para praia”- reflete Roniele Sousa, nativo da Sabiaguaba e coordenador da ação – “estava pescando e sempre vinha lixo na tarrafa, começamos a articular essa limpeza porque sabemos que quando a gente limpa o rio também limpa a nossa casa”.

As fotos na rede social de Mateus Leandro contrastam a beleza da foz do rio e o pneu de trator tirado do fundo dele. De acordo com o pescador submarino, os sacos não foram suficientes para tanto lixo, necessitando outros encontros. Interrogado sobre o que mais chamou a atenção dele no primeiro dia de limpeza, relembra: “Seringas com agulhas, numa área de 50 metros”.

Reprodução Facebook Mateus Leandro 02
Foto: Reprodução Facebook

“A poluição no Rio Cocó não se produz sozinha, a poluição somos nós, os seres humanos, que achamos que um papelzinho de bombom, ou uma garrafinha não vai fazer a diferença, mas aquilo vai se acumulando nos lugares, no fundo do rio e vai matando a vida que ali existe” – questiona Mateus. Enquanto isso, os peixes e os mariscos migram: “Eles vão para o mar que lá mesmo sendo poluído não é tão poluído como a foz do rio que recebe o esgoto e a sujeira dos banhistas”.

O Coletivo Sabiaguaba Lixo Zero mostra a possibilidade de coexistência entre populações tradicionais e áreas de conservação ambiental. Em 2016, o Governo do Estado do Ceará contestou a permanência de 150 pessoas da comunidade Boca da Barra da Sabiaguaba que estariam dentro da poligonal do Parque do Cocó. Após mobilização popular e institucional, Roniele explica que os moradores estão à espera do decreto, que incluirá artigo garantindo a permanência da comunidade.

A ideia do Sabiaguaba Lixo Zero começou com uma ação, virou coletivo e, agora traz articulação de movimentos para a preservação das áreas verdes da cidade.  Os números divulgados na página do projeto alarmam, mais de 1700 quilos de lixo retirados das margens e manguezal do Rio Cocó e da Praia da Sabiaguaba. Sacolas, garrafas e outros descartáveis são destinados a cooperativa de catadores, uma parceria com o Projeto Verdeluz.

Para Roniele, a novidade rende conscientização: “Quando você chega na beira da praia, todo mundo quer saber o que está acontecendo, e a gente começa a falar do lixo, você começa a ver crianças, adultos colhendo lixos, é uma parte interessante porque a pessoa que está vendo o lixo”.

Outras informações:
Sabiaguaba Nativa
Sabiaguaba Lixo Zero

 

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O Grito: poesia emoldurada em cartões

(Foto: frente do cartão poético “Grito de Tantos”, de Sidneia Simões)

Os jornalistas mineiros Alexandre Toledo, Fátima Vianna, Hila Rodrigues, Laudeir Borges e Sidneia Simões, com experiência em várias áreas da Comunicação e da Cultura, formaram o coletivo O Grito. A proposta do grupo é lançar no mercado editorial um produto que dá novo uso a uma mídia prática, portátil, mas pouco explorada em suas imensas possibilidades. A iniciativa se apropria do formato dos cartões postais, comuns na divulgação turística e comercial, para utilizá-lo como suporte para conteúdos literários.

Literatura em 10 x 15

O projeto leva o nome do grupo: O Grito. A primeira edição chega com cinco cartões em papel de alta qualidade, no formato 10cm x 15cm. Eles são comercializados conjuntamente, uma vez que os postais se comunicam e se complementam. Cada conjunto de cinco postais,
acondicionada em envelope com a logomarca do coletivo, é vendida por R$ 15,00 + despesas postais.

O mote desta edição é a memória. Em desenho, aquarela, fotografia e artes gráficas, ela é renasce em textos sobre a infância, o crescer, a sociedade, a morte, o despertar. Mas, n’O Grito, lembrança não é nostalgia; a inspiração vem do passado para ressoar no presente – o tempo é hoje; e os postais d’O Grito trazem um olhar poético sobre questões de agora e de sempre.

Palavra, corpo, diferença, resistência, tantos

Em poesia, prosa e design gráfico, O Grito abre espaço para os invisíveis da sociedade de consumo, para o corpo e sua libertação de posturas e gestos condicionados, para o mundo interior, para a vida social e seus conflitos. Cada escritor assina um dos cartões.

Laudeir Borges abre a série com o Grito da Palavra. Que zumbe, mia, pia, chia, ruge, trina e berra, late, grasna, guincha e grunhe, cacareja, relincha e sibila a voz dos mil bichos a povoar as paisagens de dentro.

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Frente do cartão poético de Fátima Vianna

Fátima Vianna grita o Corpo: insuflado, animado, animal. Corpo que, na aventura de crescer, desenrola o próprio novelo em planícies e arquipélagos, abismos, montanhas e cidades.

Dessas e de outras paragens ecoa o Grito de Tantos. Na fala de Sidneia Simões, os sem-nome, sem-rosto, sem-voz, os só-corpo se erguem do cotidiano para proclamar: eu sou!

A partir de um crime inominável, o assassinato de um jovem professor universitário,  Alexandre Toledo repudia a intolerância que encara o diverso como inimigo, faz do outro… não ser. Grito da Diferença.

Hila Rodrigues abraça a diferença e conclama: nós somos agora! Nós estamos aqui! Mãos dadas, pés na terra, o Grito da Resistência é o suspiro de outros mundos possíveis.

Para contatos com a galera d´O Grito, mandem email para postaldogrito@gmail.com

 

Repentistas

Os poetas do repente são uma espécie em extinção

Manuel e Vicente, numa cantoria de repente (Fotos: Jesus Carlos)

Por Bruno Cirillo

Dentro de um bar modesto na rua da Abolição, no Centro de São Paulo, Manuel Soares e Vicente Reinaldo ajeitam-se ao lado da máquina de caçar níqueis para dar início à cantoria. A única mordomia dos repentistas, com mais de trinta anos de carreira, é uma dose de conhaque de alcatrão com algumas gotas de limão. O chapéu (um prato coberto por um pano) fica exposto em cima da mesa – o cachê espontâneo, segundo eles, costuma pagar bem. Antes mesmo do show começar, os clientes, entre eles um casal, seis homens jogando baralho e um peruano que faz mímicas no balcão, já depositaram ali algumas notas para o couvert.

“Eu nem ouso chamar de show, chamo de cantoria, porque é entre os amigos”, diz Vicente, 59, nascido em Caririaçu, Ceará. Ainda jovem, o repentista deixou a terra natal em busca de oportunidades em Brasília e, depois de viver onze anos na capital federal, se mudou para São Paulo. Já se apresentou até em velório na Lapa, sempre em dupla, e jamais desgrudou da viola de doze cordas, equipada com caixas de som circulares que dispensam amplificadores. Manuel Soares, de Sumé, Paraíba, empunha um instrumento quase igual. “A cantoria popular não convida o grande público. Eu gosto porque é um grupo selecionado, fiel”, ele comenta.

O paraibano começa o repente enfatizando que “o que faço eu da vida/ é luta pra defender a cultura”. Na base do improviso, ele brinca com as palavras: “cantar, muita gente canta/ o difícil é improvisar”. Vicente responde em sequência, mantendo as rimas o quanto possível. A disputa de versos se prolonga por mais de uma hora, até que o cearense anuncia que vai cantar uma música de sua autoria, com letra pronta, para encerrar o duelo. A canção traduz o tema maior dessa tradição poética: a saudade da terra natal – “Capim Verdão” é uma homenagem à memória dos migrantes nordestinos:

Me considero um bom sertanejo

Eu não reclamo da minha vida, não

Planto a semente lá no meu roçado

Nasce saudade no meu coração

Chuva que apaga a poeira

Que molha a barreira

Do meu ribeirão

Bate com velocidade

Apaga a saudade

Do meu coração

“A saudade, a saudade”, desabafa um dos cliente mais velhos do bar, encostado no balcão, com chapéu de sertanejo e uma expressão dura no rosto marcado pelo tempo. Sua nostalgia é da época que os retirantes trouxeram o repente para São Paulo, na onda migratória que começou nos anos 1950 e se manteve num fluxo intenso até os 1970. “A cantoria se desenvolveu muito aqui. É como se fosse o forró: antigamente quase ninguém gostava, mas virou uma epidemia. O repente, hoje, está no SESC, na Secretaria de Cultura, na biblioteca e na Rádio Imprensa, que fica em plena avenida Paulista”, afirma Manuel, referindo-se ao programa Viola & Repentistas, transmitido nos domingos, às 9h, na 102,5 fm.

Contudo, se a cantoria ocupa uma hora da programação semanal de emissora, o forró preenche todo o resto da grade horária. A mesma relação de importância pode ser observada nas casas de show de inspiração nordestina, onde o repente é um gênero cada vez mais raro. No Centro de Tradições Nordestinas (CTN), maior referência paulistana da cultura do Nordeste, que comemorou 25 anos de atividade em outubro (mês do Dia do Nordestino, no 8), a organização convidou cantores de arrocha e duplas sertanejas, como Pablo e Jorge & Mateus, para montar sua programação especial. Não deixou absolutamente nenhum espaço para os repentistas. O antigo encontro anual do repente, na mesma casa, aconteceu pela última vez em 2014. E os poetas tiveram que se reunir no coreto (o segundo palco do centro cultural).

A diretora artística do CTN, Lucélia Silveira, se refere ao repente como um biólogo descreveria uma espécie ameaçada de extinção: “A gente mantém ele vivo pra que não caia no esquecimento. Temos que mostrá-lo pra geração de hoje, senão ele morre.” Segundo ela, na ausência absoluta de novos repentistas, a tradição musical é mantida pelos mesmos cantadores que migraram do Nordeste para São Paulo há 50 anos. “Os jovens estão preferindo o sertanejo, eles não têm interesse no repente. A gente precisa colocar na cabeça deles que faz parte da cultura”, diz Lucélia.

Repentistas - SP
Sebastião Marinho, fundador da extinta União dos Cantadores de Repente (Ucran): ““O repente é nada mais, nada menos que a linha mais forte da cultura do Nordeste”

Quem ainda dá as caras no CTN, feito um resistente da cultura popular, é o poeta Sebastião Marinho, fundador da extinta União dos Cantadores de Repente (Ucran). Numa rua do Glicério, a fachada da associação criada em 1º de maio de 1988, de cara pra rua, parece resistir ao tempo que engoliu tudo à sua volta, como um fóssil. Ponto de chegada dos migrantes nordestinos nos anos em que Paulo Maluf governou São Paulo (1969-1971) – numa medida segregacionista, o político teria transferido o desembarque de ônibus que vinham do Nordeste para o Glicério, “desagando” a rodoviária do Tietê –, o bairro passa atualmente por um processo de reocupação visivelmente liderado pelos imigrantes haitianos.

“As primeiras cantorias foram feitas na Serra do Teixeira, na Paraíba, durante o século 19”, contou Marinho no quintal da antiga Ucran, hoje sua casa, onde ele mora com a mulher e o filho. “O repente é nada mais, nada menos que a linha mais forte da cultura do Nordeste”, defendeu. Cantador experiente, o poeta veio para a capital paulista em 1976, de Solânia (PB); sentiu que “tinha um trabalho a fazer” e resolveu ficar na cidade. “A Ucran foi criada pra dar representatividade à viola em São Paulo, que hoje tem mais repentistas que as capitais do Nordeste”, ele afirmou. Atualmente inativa, a associação chegou a reunir mais de mil sócios ativos nos anos 1970.

Em matéria de repente, Sebastião é um especialista à altura dos eruditos da poesia formal. Segundo ele, o repentismo remete às trovas medievais e obedece a regras rigorosas de rima, métrica e oração (o tema das canções). As formas poéticas variam de tamanho, sendo as mais populares a sextilha (seis versos com sete sílabas cada) e o decassílabo (forma utilizada por Camões em As Lusíadas, e que Alceu Valença costuma utilizar em suas canções, segundo Sebastião). Há formas complicadas, como o “pé-quebrado”, que intercala versos longos e curtos. O jornalista Assis Ângelo, especialista no tema, afirma que já foram criadas mais de 60 modalidades, embora esse número, segundo ele, tenha diminuído drasticamente nos últimos anos, conforme agravou-se a perda de interesse pela tradição.

Ângelo lamenta: “Os repentistas são hoje, mais do que nunca, desconhecidos do grande público. Esses caras não estão nos meios de comunicação – infelizmente, porque são uma raça fabulosa de poetas. Eles estão escondidos, ou para serem descobertos, ou porque já não há uma renovação da categoria”. O pesquisador, autor de um livro sobre a presença de repentistas e cordelistas em São Paulo, observa que os cantadores em atividade, hoje em dia, são os mesmos que já faziam parte do universo do repente décadas atrás.

No Pernambuco, estado vizinho à Paraíba e que divide com ela o status de berço do repente, a Secretaria de Cultura faz esforços para preservar a memória das cantorias populares. Recentemente, concedeu o título de Patrimônio Vivo da Cultura à repentista Maria Alexandrina, conhecida como Mocinha de Passira. Sua música mais famosa tem 40 mil visualizações no Youtube e se chama “Os direitos da mulher”. É um repente de Martelo Alagoano (uma das formas poéticas da cantoria popular, cujas estrofes improvisadas devem acabar, numa rima, com a repetição do décimo verso: “os dez pés de martelo alagoano”).

A mulher já foi muito escravizada

E só agora ela está se libertando

Os níveis do homem acompanhando

Mas ainda é vítima de piadas

O machista quase não lhe agrada

Porque é exigente e desumano

Só ele pensa em ser leviano

Farra e paquera mais de cem

Esse mesmo direito a mulher tem

Nos dez pés de martelo alagoano

Nos dez pés de martelo alagoano

Feminista nordestina, Mocinha é uma das maiores representantes da arte. Começou a cantar com 13 anos e se sustentou a vida inteira assim: “nunca vendi laranja nem pipoca”, orgulha-se ela, contando que viajou o Brasil por causa da música. “Sou como um passarinho que saiu do ninho e nunca mais voltou. Vum-vum, saí cantando por aí.” Nos últimos dois anos, ela fez turnê em São Paulo e se apresentou na TV, sendo entrevistada pelo showman Danilo Gentilli – “as perguntas dele eram bestas”. Citando associações de cantadores na Bahia, Piauí e Ceará, que diferente da Ucran ainda estão em pleno funcionamento, ela duvida que o repente vá morrer, mas enxerga os riscos.

“Os cantores escolhem um ponto e ficam naquela mesmice, naquela rotina. Tem que espalhar os pontos de apresentação, com três ou quatro apresentações por ano em cada lugar”, aconselha Mocinha, que considera a falta de apoio público e de divulgação na imprensa dois obstáculos para a popularização das cantorias. Ela acredita que, por se tratar de uma tradição regional secular, o repente devia ser passado, de algum modo, nas escolas. “Se chegarmos na TV, vamos tomar tudo, porque é de repente”, aposta.

Em relação à mídia, há um meio inesperado onde o repente, entrincheirado, mantém certa resistência cultural: o Facebook. Criada por um comunicador de Brasília, filho de cearenses, a página “Um repente por dia” faz jus ao nome, sem pular nenhum dia, e acumula 80 mil curtidas – índice próximo ao da página de Bossa Nova (89 mil). “Aqui na capital federal o espírito nordestino é muito presente porque a mão de obra para levantar Brasília contou muito com os nordestinos, e grande parte acabou ficando por aqui”, lembra Ailton Mesquita, o criador da página, por e-mail: “O repente, assim como outras manifestações da cultura popular nordestina, diz muito sobre o estilo de vida do nosso povo. O repentista é aquele que desafia, que improvisa e leva adiante o linguajar tradicional e também o humor, que são fortes características do brasileiro, inclusive daqueles que passam dificuldades mas fazem disso sua arte.”