mulheres

Curso sobre encarceramento feminino está com inscrições abertas

Por Alma Preta

As inscrições para o curso online “Marcadores Sociais de Mulheres Encarceradas: gênero, classe, raça, sexualidade e etarismo” estão abertas até o dia 29 de Junho. O curso será realizado a partir do dia 20 do mesmo mês e será ministrado pela professora e antropóloga Isadora Assis Bandeira, abordando o sistema prisional a partir de classe, raça, gênero e sexualidade, utilizando discussões antropológicas e sociais de interseccionalidade.

Disponibilizado na plataforma Mooddle, o curso é realizado pelo Coletivo Di Jeje, coordenado pela pesquisadora Jaque Conceição.  O objetivo é compreender a realidade de mulheres encarceradas, com ênfase na mulher negra, maioria no sistema prisional feminino brasileiro. Com essa distinção, deve abordar a possível diferença de intensidade de punição.

Isadora de Assis Bandeira,  curadora do curso, é graduada em Antropologia pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). O foco da formação da pesquisadora é a “Diversidade Cultural Latino-Americana”, com especialização em gênero, diversidade sexual, raça e encarceramento e  mestrado na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

O Coletivo Di Jeje oferece cursos com temas associados à condição da mulher negra e da comunidade negra, cujo objetivo central é a mudança da realidade. “O que a gente espera é que os nossos cursos tragam elementos para a compreensão e o avanço da realidade. No caso da mulher negra e da mulher negra encarcerada, a perspectiva do curso é analisar essas condições para encontrar formas de avançar e modificar essa realidade”, afirma Jaque Conceição, pesquisadora e coordenadora do curso.

Para ela, a política de encarceramento em massa é utilizada em diversos países como processo de limpeza de pobres e miseráveis da sociedade: “No nosso país, por causa da questão racial e da diáspora africana, esse encarceramento em massa se faz com a população negra, mas em países como a China, a Índia, e outros da Ásia e até da própria África, a política de encarceramento é uma política de limpeza da pobreza e da população vulnerável. É um desenho do capital mundial, não é uma coisa que só acontece no Brasil”.

Apesar de ser uma estratégia geral observada no mundo, a coordenadora acredita que é necessário observar as especificidades brasileiras, em especial a da mulher negra, para compreender os processos de maneira apurada: “A invisibilidade trazida pelo racismo intensifica a necessidade dessa discussão da mulher negra no sistema prisional. É muito mais [uma forma de] compreender quais são os processos que o racismo desdobra dentro da lógica da justiça, uma vez que todos os sistemas coercitivos ou de controle sempre vão ser uma resposta às demandas que o capitalismo traz. Ora de inculcação, ora de conformação, ora de manipulação dentro da lógica do modo de produção. Então o processo de analisar as condições das mulheres e negras dentro do sistema prisional é pensar como se dá essa lógica do racismo e do machismo”.

Você pode realizar sua inscrição no seguinte link: https://goo.gl/nIxLvR.

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Curso online debate perspectiva brasileira no Feminismo Negro

Coletivo Di Jejê pretende abordar bases teóricas, demandas atuais e os movimentos políticos pautados pela vertente dentro da realidade brasileira (Foto: divulgação)

Vinícius Martins

O Feminismo Negro tornou-se importante campo de debates e afirmações para lutas históricas das mulheres negras no Brasil. Entender suas peculiaridades e bases teóricas em uma perspectiva brasileira é a proposta do curso online “A história do Feminismo Negro no Brasil”, do Coletivo Di Jejê. As inscrições vão até o dia 10 de maio e podem ser feitas aqui.

Diferente das concepções tradicionais de feminismo, o Feminismo Negro busca discutir gênero, raça e classe conjuntamente. De modo distinto ao de mulheres brancas e homens negros, as mulheres negras possuem demandas sociais específicas.

A atividade fica disponível na plataforma Moodle a partir do dia 15 de maio. As aulas podem ser feitas de acordo com a rotina dos participantes, durante os 45 dias de curso. Dividido em quatro módulos, o conteúdo terá apoio e tutoria de Jaqueline Conceição, articuladora do Di Jejê.

Ela afirma que o curso pretende delimitar as demandas e pontos de vista sobre o feminismo negro a partir de uma ótica brasileira: “o campo do feminismo negro no Brasil, do ponto de vista do fazer acadêmico, é um campo em disputa e também é um campo em aberto. Não é um campo metodologicamente demarcado e configurado. Há uma influência muito grande do pensamento norte-americano nas pesquisas e no modo que essa pesquisa é feita pelas pesquisadoras brasileiras”.

O objetivo do curso é apresentar como o Feminismo Negro se configura e se organiza do ponto de vista acadêmico. A atividade toma como base um resgate histórico inerente a luta de mulheres negras no Brasil.

De modo geral, a luta negra no país se pauta de uma perspectiva ancestral, através do culto, dos costumes, modos de vida e da resistência política, cultural e histórica. “Um curso que paute o feminismo negro pressupõe entender o processo de luta e articulação das mulheres negras, seguindo a premissa dessa ancestralidade, que faz parte do nosso modo de ser e estar aqui no Brasil”, afirma Jaqueline.

Alma Preta

Acompanhe também a Alma Pretauma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil.

ibama

Articulação Antinuclear do Ceará lança carta ao IBAMA para que licenciamento ambiental de mineração de urânio e fosfato no Ceará seja cancelado

Por Thiago Silveira

Formada por movimentos sociais, grupos de pesquisa e comunidades do Sertão Central, a Articulação Antinuclear do Ceará (AACE) atua desde 2011 denunciando os impactos do Projeto Santa Quitéria, empreendimento que pretende explorar a Jazida de Itataia, a 222 Km de Fortaleza, para produzir anualmente 1.600 toneladas de concentrado de urânio e 1.050.000 toneladas de derivados fosfatados destinados à energia nuclear e ao agronegócio. Para visibilizar as irregularidades do projeto, que está em processo de licenciamento ambiental no IBAMA, a organização acaba de lançar uma carta à sociedade.

O documento aponta que o Projeto Santa Quitéria atingirá diretamente 156 comunidades camponesas, mais de sessenta municípios e três bacias hidrográficas do Ceará, consumindo 1 milhão e 100 mil litros de água por hora. O gasto equivale a 125 carros-pipa a cada sessenta minutos e corresponde a um aumento de 400% sobre a demanda do Açude Edson Queiroz, de onde se pretende retirar a água através de uma adutora. Enquanto isso, assentamentos próximos à jazida sobrevivem com 14 carros-pipa por mês.

Além da injustiça hídrica, a carta assinala que o Projeto Santa Quitéria deixará pilhas e barragem de rejeitos com mais de 29 milhões de toneladas de metros cúbicos, material radioativo que será espalhado pelo estado e provocará a contaminação das águas, da vegetação, do solo e dos alimentos. Apresenta, ainda, as diferentes pesquisas que indicam a relação entre exploração de urânio e aumento dos casos de câncer.

A advogada Renata Maia, do Coletivo Flor de Urucum, é uma das redatoras do documento e alerta que Fortaleza também estará na rota de contaminação, pois o concentrado de urânio e os derivados fosfatados produzidos em Santa Quitéria serão destinados, por via rodoviária, até o Porto do Mucuripe. “No total, estão programados quatro carregamentos de concentrado de urânio por ano, cada um com 25 contêineres que levarão 15 toneladas de produtos radioativos para a capital cearense. Apesar disso, estudos do Núcleo Tramas (UFC) revelam que a INB e a Galvani, proponentes do empreendimento, não caracterizam Fortaleza como área diretamente afetada pelo projeto e sequer enviaram ao IBAMA um Plano de Segurança para o transporte dos produtos”, destaca.

A carta ressalta, ainda, que, em setembro de 2016, o próprio IBAMA emitiu um Parecer Técnico contrário ao empreendimento. O Parecer atesta, entre outras irregularidades, a não comprovação da viabilidade hídrica, a péssima localização das pilhas de rejeitos, a ausência de medidas de mitigação quanto à possível contaminação das comunidades mais próximas e a falta de autorizações do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). Mesmo assim, até hoje, a Direção do IBAMAnão se pronunciou formalmente.

“Apesar das falhas dos estudos apresentados pelas empresas e dos impactos socioambientais – reconhecidos, inclusive, pelo IBAMA -, o Projeto Santa Quitéria não tem sido discutido com a população e a Direção da autarquia ambiental ainda não se manifestou sobre o arquivamento de seu licenciamento”, declara Iara Fraga, do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM-CE).

“Diante disso, a carta da AACE sintetiza as principais irregularidades do Projeto Santa Quitéria e convoca o apoio nacional e internacional para requerer à Direção do IBAMA o indeferimento da mineração de urânio e fosfato no Ceará”, conclui Erivan Silva, que também integra o MAM-CE.

O documento estará disponível para assinaturas de instituições e pessoas físicas até o final de abril e poderá ser acessado no site e na página do Facebook do Coletivo Flor de Urucum: www.urucum.org. As assinaturas também poderão ser enviadas para coletivourucum@gmail.com.

Articulação Antinuclear do Ceará

ibama2Compõem a Articulação Antinuclear do Ceará (AACE) as comunidades do entorno da Jazida de Itataia, o Movimento de Trabalhadores(as) Rurais Sem Terra (MST), o Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Cáritas Diocesana de Sobral, o Coletivo Flor de Urucum – Direitos Humanos, Comunicação e Justiça e o Núcleo Trabalho, Meio Ambiente, Saúde (TRAMAS), da Universidade Federal do Ceará. Desde 2011, a AACE atua com a defesa dos direitos territoriais das populações que podem ser atingidas pela mineração de urânio e fosfato no Ceará e, desde 2016, está à frente da “Campanha Ceará Antinuclear: em defesa da vida, da água e por justiça ambiental”. Entre suas principais atividades, destaca-se a promoção de espaços de intercâmbio de experiências, a formação em direitos humanos e a difusão de informações para a sociedade.

Mais informações:

Renata Maia (85 9 9600.6066) – Advogada do Coletivo Flor de Urucum – Direitos Humanos, Comunicação e Justiça.

Iara Fraga (85 98126.5543) – Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

Reprodução Facebook Mateus Leandro 03

Sabiaguaba Lixo Zero

Autogestão de coletivo promove limpeza do Rio Cocó em Fortaleza

Por Dani Guerra

Assistir ao sol se pondo no Rio Cocó na mata é de alegrar o coração. A beira do rio que corre para o mar atrai turistas e moradores para as barracas na areia. No entanto, entre o paredão e o lounge, a poluição resultante da ação humana começa a afetar as vidas no rio e entorno. Sentindo o sumiço dos siris, caranguejos e peixes, um grupo de nativos da comunidade Boca da Barra, pescadores submarinos e de mergulhadores organiza o Coletivo Sabiaguaba Lixo Zero.

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Foto: Nil Cerqueira

 

“A gente tem uma visão totalmente diferenciada de uma pessoa que vem para praia”- reflete Roniele Sousa, nativo da Sabiaguaba e coordenador da ação – “estava pescando e sempre vinha lixo na tarrafa, começamos a articular essa limpeza porque sabemos que quando a gente limpa o rio também limpa a nossa casa”.

As fotos na rede social de Mateus Leandro contrastam a beleza da foz do rio e o pneu de trator tirado do fundo dele. De acordo com o pescador submarino, os sacos não foram suficientes para tanto lixo, necessitando outros encontros. Interrogado sobre o que mais chamou a atenção dele no primeiro dia de limpeza, relembra: “Seringas com agulhas, numa área de 50 metros”.

Reprodução Facebook Mateus Leandro 02
Foto: Reprodução Facebook

“A poluição no Rio Cocó não se produz sozinha, a poluição somos nós, os seres humanos, que achamos que um papelzinho de bombom, ou uma garrafinha não vai fazer a diferença, mas aquilo vai se acumulando nos lugares, no fundo do rio e vai matando a vida que ali existe” – questiona Mateus. Enquanto isso, os peixes e os mariscos migram: “Eles vão para o mar que lá mesmo sendo poluído não é tão poluído como a foz do rio que recebe o esgoto e a sujeira dos banhistas”.

O Coletivo Sabiaguaba Lixo Zero mostra a possibilidade de coexistência entre populações tradicionais e áreas de conservação ambiental. Em 2016, o Governo do Estado do Ceará contestou a permanência de 150 pessoas da comunidade Boca da Barra da Sabiaguaba que estariam dentro da poligonal do Parque do Cocó. Após mobilização popular e institucional, Roniele explica que os moradores estão à espera do decreto, que incluirá artigo garantindo a permanência da comunidade.

A ideia do Sabiaguaba Lixo Zero começou com uma ação, virou coletivo e, agora traz articulação de movimentos para a preservação das áreas verdes da cidade.  Os números divulgados na página do projeto alarmam, mais de 1700 quilos de lixo retirados das margens e manguezal do Rio Cocó e da Praia da Sabiaguaba. Sacolas, garrafas e outros descartáveis são destinados a cooperativa de catadores, uma parceria com o Projeto Verdeluz.

Para Roniele, a novidade rende conscientização: “Quando você chega na beira da praia, todo mundo quer saber o que está acontecendo, e a gente começa a falar do lixo, você começa a ver crianças, adultos colhendo lixos, é uma parte interessante porque a pessoa que está vendo o lixo”.

Outras informações:
Sabiaguaba Nativa
Sabiaguaba Lixo Zero

 

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O Grito: poesia emoldurada em cartões

(Foto: frente do cartão poético “Grito de Tantos”, de Sidneia Simões)

Os jornalistas mineiros Alexandre Toledo, Fátima Vianna, Hila Rodrigues, Laudeir Borges e Sidneia Simões, com experiência em várias áreas da Comunicação e da Cultura, formaram o coletivo O Grito. A proposta do grupo é lançar no mercado editorial um produto que dá novo uso a uma mídia prática, portátil, mas pouco explorada em suas imensas possibilidades. A iniciativa se apropria do formato dos cartões postais, comuns na divulgação turística e comercial, para utilizá-lo como suporte para conteúdos literários.

Literatura em 10 x 15

O projeto leva o nome do grupo: O Grito. A primeira edição chega com cinco cartões em papel de alta qualidade, no formato 10cm x 15cm. Eles são comercializados conjuntamente, uma vez que os postais se comunicam e se complementam. Cada conjunto de cinco postais,
acondicionada em envelope com a logomarca do coletivo, é vendida por R$ 15,00 + despesas postais.

O mote desta edição é a memória. Em desenho, aquarela, fotografia e artes gráficas, ela é renasce em textos sobre a infância, o crescer, a sociedade, a morte, o despertar. Mas, n’O Grito, lembrança não é nostalgia; a inspiração vem do passado para ressoar no presente – o tempo é hoje; e os postais d’O Grito trazem um olhar poético sobre questões de agora e de sempre.

Palavra, corpo, diferença, resistência, tantos

Em poesia, prosa e design gráfico, O Grito abre espaço para os invisíveis da sociedade de consumo, para o corpo e sua libertação de posturas e gestos condicionados, para o mundo interior, para a vida social e seus conflitos. Cada escritor assina um dos cartões.

Laudeir Borges abre a série com o Grito da Palavra. Que zumbe, mia, pia, chia, ruge, trina e berra, late, grasna, guincha e grunhe, cacareja, relincha e sibila a voz dos mil bichos a povoar as paisagens de dentro.

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Frente do cartão poético de Fátima Vianna

Fátima Vianna grita o Corpo: insuflado, animado, animal. Corpo que, na aventura de crescer, desenrola o próprio novelo em planícies e arquipélagos, abismos, montanhas e cidades.

Dessas e de outras paragens ecoa o Grito de Tantos. Na fala de Sidneia Simões, os sem-nome, sem-rosto, sem-voz, os só-corpo se erguem do cotidiano para proclamar: eu sou!

A partir de um crime inominável, o assassinato de um jovem professor universitário,  Alexandre Toledo repudia a intolerância que encara o diverso como inimigo, faz do outro… não ser. Grito da Diferença.

Hila Rodrigues abraça a diferença e conclama: nós somos agora! Nós estamos aqui! Mãos dadas, pés na terra, o Grito da Resistência é o suspiro de outros mundos possíveis.

Para contatos com a galera d´O Grito, mandem email para postaldogrito@gmail.com

 

Repentistas

Os poetas do repente são uma espécie em extinção

Manuel e Vicente, numa cantoria de repente (Fotos: Jesus Carlos)

Por Bruno Cirillo

Dentro de um bar modesto na rua da Abolição, no Centro de São Paulo, Manuel Soares e Vicente Reinaldo ajeitam-se ao lado da máquina de caçar níqueis para dar início à cantoria. A única mordomia dos repentistas, com mais de trinta anos de carreira, é uma dose de conhaque de alcatrão com algumas gotas de limão. O chapéu (um prato coberto por um pano) fica exposto em cima da mesa – o cachê espontâneo, segundo eles, costuma pagar bem. Antes mesmo do show começar, os clientes, entre eles um casal, seis homens jogando baralho e um peruano que faz mímicas no balcão, já depositaram ali algumas notas para o couvert.

“Eu nem ouso chamar de show, chamo de cantoria, porque é entre os amigos”, diz Vicente, 59, nascido em Caririaçu, Ceará. Ainda jovem, o repentista deixou a terra natal em busca de oportunidades em Brasília e, depois de viver onze anos na capital federal, se mudou para São Paulo. Já se apresentou até em velório na Lapa, sempre em dupla, e jamais desgrudou da viola de doze cordas, equipada com caixas de som circulares que dispensam amplificadores. Manuel Soares, de Sumé, Paraíba, empunha um instrumento quase igual. “A cantoria popular não convida o grande público. Eu gosto porque é um grupo selecionado, fiel”, ele comenta.

O paraibano começa o repente enfatizando que “o que faço eu da vida/ é luta pra defender a cultura”. Na base do improviso, ele brinca com as palavras: “cantar, muita gente canta/ o difícil é improvisar”. Vicente responde em sequência, mantendo as rimas o quanto possível. A disputa de versos se prolonga por mais de uma hora, até que o cearense anuncia que vai cantar uma música de sua autoria, com letra pronta, para encerrar o duelo. A canção traduz o tema maior dessa tradição poética: a saudade da terra natal – “Capim Verdão” é uma homenagem à memória dos migrantes nordestinos:

Me considero um bom sertanejo

Eu não reclamo da minha vida, não

Planto a semente lá no meu roçado

Nasce saudade no meu coração

Chuva que apaga a poeira

Que molha a barreira

Do meu ribeirão

Bate com velocidade

Apaga a saudade

Do meu coração

“A saudade, a saudade”, desabafa um dos cliente mais velhos do bar, encostado no balcão, com chapéu de sertanejo e uma expressão dura no rosto marcado pelo tempo. Sua nostalgia é da época que os retirantes trouxeram o repente para São Paulo, na onda migratória que começou nos anos 1950 e se manteve num fluxo intenso até os 1970. “A cantoria se desenvolveu muito aqui. É como se fosse o forró: antigamente quase ninguém gostava, mas virou uma epidemia. O repente, hoje, está no SESC, na Secretaria de Cultura, na biblioteca e na Rádio Imprensa, que fica em plena avenida Paulista”, afirma Manuel, referindo-se ao programa Viola & Repentistas, transmitido nos domingos, às 9h, na 102,5 fm.

Contudo, se a cantoria ocupa uma hora da programação semanal de emissora, o forró preenche todo o resto da grade horária. A mesma relação de importância pode ser observada nas casas de show de inspiração nordestina, onde o repente é um gênero cada vez mais raro. No Centro de Tradições Nordestinas (CTN), maior referência paulistana da cultura do Nordeste, que comemorou 25 anos de atividade em outubro (mês do Dia do Nordestino, no 8), a organização convidou cantores de arrocha e duplas sertanejas, como Pablo e Jorge & Mateus, para montar sua programação especial. Não deixou absolutamente nenhum espaço para os repentistas. O antigo encontro anual do repente, na mesma casa, aconteceu pela última vez em 2014. E os poetas tiveram que se reunir no coreto (o segundo palco do centro cultural).

A diretora artística do CTN, Lucélia Silveira, se refere ao repente como um biólogo descreveria uma espécie ameaçada de extinção: “A gente mantém ele vivo pra que não caia no esquecimento. Temos que mostrá-lo pra geração de hoje, senão ele morre.” Segundo ela, na ausência absoluta de novos repentistas, a tradição musical é mantida pelos mesmos cantadores que migraram do Nordeste para São Paulo há 50 anos. “Os jovens estão preferindo o sertanejo, eles não têm interesse no repente. A gente precisa colocar na cabeça deles que faz parte da cultura”, diz Lucélia.

Repentistas - SP
Sebastião Marinho, fundador da extinta União dos Cantadores de Repente (Ucran): ““O repente é nada mais, nada menos que a linha mais forte da cultura do Nordeste”

Quem ainda dá as caras no CTN, feito um resistente da cultura popular, é o poeta Sebastião Marinho, fundador da extinta União dos Cantadores de Repente (Ucran). Numa rua do Glicério, a fachada da associação criada em 1º de maio de 1988, de cara pra rua, parece resistir ao tempo que engoliu tudo à sua volta, como um fóssil. Ponto de chegada dos migrantes nordestinos nos anos em que Paulo Maluf governou São Paulo (1969-1971) – numa medida segregacionista, o político teria transferido o desembarque de ônibus que vinham do Nordeste para o Glicério, “desagando” a rodoviária do Tietê –, o bairro passa atualmente por um processo de reocupação visivelmente liderado pelos imigrantes haitianos.

“As primeiras cantorias foram feitas na Serra do Teixeira, na Paraíba, durante o século 19”, contou Marinho no quintal da antiga Ucran, hoje sua casa, onde ele mora com a mulher e o filho. “O repente é nada mais, nada menos que a linha mais forte da cultura do Nordeste”, defendeu. Cantador experiente, o poeta veio para a capital paulista em 1976, de Solânia (PB); sentiu que “tinha um trabalho a fazer” e resolveu ficar na cidade. “A Ucran foi criada pra dar representatividade à viola em São Paulo, que hoje tem mais repentistas que as capitais do Nordeste”, ele afirmou. Atualmente inativa, a associação chegou a reunir mais de mil sócios ativos nos anos 1970.

Em matéria de repente, Sebastião é um especialista à altura dos eruditos da poesia formal. Segundo ele, o repentismo remete às trovas medievais e obedece a regras rigorosas de rima, métrica e oração (o tema das canções). As formas poéticas variam de tamanho, sendo as mais populares a sextilha (seis versos com sete sílabas cada) e o decassílabo (forma utilizada por Camões em As Lusíadas, e que Alceu Valença costuma utilizar em suas canções, segundo Sebastião). Há formas complicadas, como o “pé-quebrado”, que intercala versos longos e curtos. O jornalista Assis Ângelo, especialista no tema, afirma que já foram criadas mais de 60 modalidades, embora esse número, segundo ele, tenha diminuído drasticamente nos últimos anos, conforme agravou-se a perda de interesse pela tradição.

Ângelo lamenta: “Os repentistas são hoje, mais do que nunca, desconhecidos do grande público. Esses caras não estão nos meios de comunicação – infelizmente, porque são uma raça fabulosa de poetas. Eles estão escondidos, ou para serem descobertos, ou porque já não há uma renovação da categoria”. O pesquisador, autor de um livro sobre a presença de repentistas e cordelistas em São Paulo, observa que os cantadores em atividade, hoje em dia, são os mesmos que já faziam parte do universo do repente décadas atrás.

No Pernambuco, estado vizinho à Paraíba e que divide com ela o status de berço do repente, a Secretaria de Cultura faz esforços para preservar a memória das cantorias populares. Recentemente, concedeu o título de Patrimônio Vivo da Cultura à repentista Maria Alexandrina, conhecida como Mocinha de Passira. Sua música mais famosa tem 40 mil visualizações no Youtube e se chama “Os direitos da mulher”. É um repente de Martelo Alagoano (uma das formas poéticas da cantoria popular, cujas estrofes improvisadas devem acabar, numa rima, com a repetição do décimo verso: “os dez pés de martelo alagoano”).

A mulher já foi muito escravizada

E só agora ela está se libertando

Os níveis do homem acompanhando

Mas ainda é vítima de piadas

O machista quase não lhe agrada

Porque é exigente e desumano

Só ele pensa em ser leviano

Farra e paquera mais de cem

Esse mesmo direito a mulher tem

Nos dez pés de martelo alagoano

Nos dez pés de martelo alagoano

Feminista nordestina, Mocinha é uma das maiores representantes da arte. Começou a cantar com 13 anos e se sustentou a vida inteira assim: “nunca vendi laranja nem pipoca”, orgulha-se ela, contando que viajou o Brasil por causa da música. “Sou como um passarinho que saiu do ninho e nunca mais voltou. Vum-vum, saí cantando por aí.” Nos últimos dois anos, ela fez turnê em São Paulo e se apresentou na TV, sendo entrevistada pelo showman Danilo Gentilli – “as perguntas dele eram bestas”. Citando associações de cantadores na Bahia, Piauí e Ceará, que diferente da Ucran ainda estão em pleno funcionamento, ela duvida que o repente vá morrer, mas enxerga os riscos.

“Os cantores escolhem um ponto e ficam naquela mesmice, naquela rotina. Tem que espalhar os pontos de apresentação, com três ou quatro apresentações por ano em cada lugar”, aconselha Mocinha, que considera a falta de apoio público e de divulgação na imprensa dois obstáculos para a popularização das cantorias. Ela acredita que, por se tratar de uma tradição regional secular, o repente devia ser passado, de algum modo, nas escolas. “Se chegarmos na TV, vamos tomar tudo, porque é de repente”, aposta.

Em relação à mídia, há um meio inesperado onde o repente, entrincheirado, mantém certa resistência cultural: o Facebook. Criada por um comunicador de Brasília, filho de cearenses, a página “Um repente por dia” faz jus ao nome, sem pular nenhum dia, e acumula 80 mil curtidas – índice próximo ao da página de Bossa Nova (89 mil). “Aqui na capital federal o espírito nordestino é muito presente porque a mão de obra para levantar Brasília contou muito com os nordestinos, e grande parte acabou ficando por aqui”, lembra Ailton Mesquita, o criador da página, por e-mail: “O repente, assim como outras manifestações da cultura popular nordestina, diz muito sobre o estilo de vida do nosso povo. O repentista é aquele que desafia, que improvisa e leva adiante o linguajar tradicional e também o humor, que são fortes características do brasileiro, inclusive daqueles que passam dificuldades mas fazem disso sua arte.”

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Sauna temazcal: reconexão espiritual e purificação energética

(Foto: reprodução)

Por Bruno Gurgel

A sauna temazcal ou tenda de suor, como é conhecida popularmente, é um banho de vapor tradicional de povos ameríndios, que proporciona limpeza, relaxamento, equilíbrio entre o corpo e a mente, além de outros benefícios físicos e espirituais. A cerimônia ritualística possui um caráter espiritual de cura e purificação energética. É uma representação do útero da mãe terra, onde cada pessoa é concebida. Durante o processo se tem a interação dos quatros elementos, terra, fogo, água e ar.

O ritual de sauna temazcal da Floresta Urbana – Sombra do Cajueiro, em Fortaleza, acontece dentro de uma oca construída de superadobe em forma circular, onde as/os participantes sentam na terra e no centro são depositadas pedras aquecidas no fogo. Sobre as pedras é comum ter ervas medicinais e essências. A água é jogada aos poucos sobre as pedras quentes, produzindo um vapor que vai tomando toda a oca. Os benefícios são muitos, pois esse vapor é capaz de relaxar, limpar as vias respiratórias, dilatar os vasos sanguíneos, eliminar toxinas através do suor, entre outros.

Após sair da sauna e depois de tomar um banho frio, a sensação de relaxamento e tranquilidade é notória nas pessoas. É possível perceber uma melhora na qualidade de nossos pensamentos e emoções. É aconselhável beber bastante água antes da sessão e as contraindicações são as mesmas para saunas tradicionais.

No vídeo abaixo, você pode acompanhar um pouco como se dá o processo ritualístico da sauna temazcal. Se deseja experimentar os benefícios da sauna temazcal em Fortaleza, entra em contato com a Floresta Urbana – Sombra do Cajueiro.

Bruno Gurgel é publicitário e videomaker 

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Renovar a esperança, se ajuntar em um grande mutirão…

Comunidades, agricultoras/es, organizações da sociedade civil e pesquisadoras/es se encontraram em Santa Quitéria para refletir, debater e traçar linhas de ação sobre os impactos da mineração no Ceará.

(Fotos: Coletivo Urucum)

Por Thiago Silveira

Mariana, em Minas Gerais, teve sua história marcada para sempre com o maior crime ambiental do Brasil. Um rio de lama, uma imensidão de rejeitos de minério que devastou tudo que encontrou pela frente. Lama que afogou a vida dos animais, das plantas e a vida da gente daquele lugar. Vidas matadas e vidas marcadas com um marrom cor de terra que não sai na água. Não importa o quanto lave. Ficará lá, como tatuagem.

Isso não pode ser esquecido, é preciso reverberar cada vez mais. Mariana evidenciou as inúmeras tragédias já ocorridas e não publicizadas e outras tantas que podem ocorrer por todo o país. Vidas ameaçadas todos os dias por um único motivo: o capital em detrimento das pessoas, da biodiversidade, da vida.

Em Santa Quitéria, no sertão do Ceará, a 222 quilômetros de Fortaleza, onde o sol chega cedo e marca presença na pele dos desavisados, a ameaça da mineração é uma constante na vidas das pessoas. Lá, querem explorar fosfato e urânio. Mais uma vez, com o discurso do desenvolvimento a todo custo, como se o convívio com o semiárido já não fosse uma prova mais que prática do verdadeiro desenvolvimento praticado e necessário para a região.

Com o objetivo de articular cada vez mais o povo das comunidades que podem ser atingidas com esse projeto e que já estão sendo impactadas com outras minerações no estado, a Articulação Antinuclear do Ceará realizou sua III Jornada junto ao I Encontro Estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). Gente que se ajuntou para tensionar a não concretização da exploração da Jazida de Itataia, em Santa Quitéria e para estudar, partilhar e pensar estratégias de qualificação do debate e linhas de ação quanto aos impactos da mineração do Estado.

Roda de debates e partilha de saberes

Com a participação de aproximadamente 200 pessoas vindas de vários territórios e mais de dez municípios e um público predominantemente jovem, durante três dias, foram apresentados relatos, estudos e vivências de pesquisadores(as) e comunidades desenvolvidos ao longo dos últimos anos, tanto em Santa Quitéria como em Caetité, na Bahia.

Entre as rodas de conversa, uma análise de conjuntura feita na manhã do primeiro dia pela engenheira e militante social Soraya Tupinambá e por Antônia Ivaneide (Neném), do MST, ajudou a entender o atual contexto sociopolítico do Brasil. Além disso, foi apresentado um panorama sobre a “questão mineral no Brasil e no Ceará” com Charles Trocate, do MAM nacional; Raquel Rigotto, do Núcleo Tramas/UFC; Francisco Eufrásio, do Assentamento Morrinhos (Santa Quitéria); Cacique Lucélia Pankará, da Aldeia Serrote dos Campos (Itacuruba) e Francisco Pinheiro, do Sindicato dos/as Trabalhadores/as Rurais de Quiterianópolis.

nuclear-nao-iii“Eu venho da margem do Rio São Francisco, de uma cidade muito pequena, mas impactada por um projeto tão grande. Há cinco anos estamos na luta e não deixamos acontecer a construção da usina nuclear na nossa comunidade”, partilhou a Cacique Lucélia.

Na manhã do segundo dia de encontro, foi apresentado um painel de pesquisas sobre a ameaça nuclear, abordando dois eixos: “A construção social do risco de contaminação ambiental e humana dos trabalhadores/as da INB e moradores/as do entorno da mina de urânio em Caetité, Bahia”, facilitado pela professora Cláudia de Oliveira, da UFBA, e a “Construção compartilhada de conhecimentos – universidade, territórios e o debate sobre os riscos do Projeto Santa Quitéria”, debatido por Renata Catarina, do Núcleo Tramas/UFC. Houve, ainda, um momento de contextualização do processo de chegada da INB em Caetité e dos processos de resistência construídos pela Articulação Antinuclear Brasileira, espaço apresentado por Zoraide Vilas Boas.

Projeto Santa Quitéria

Proposto pelo Consórcio Santa Quitéria – firmado entre a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e a Galvani Indústria, Comércio e Serviços S/A -, o Projeto Santa Quitéria pretende extrair urânio e fosfato da Jazida de Itataia, a maior mina de urânio do Brasil. O objetivo é produzir 1.600 toneladas de concentrado de urânio e 1.050.000 toneladas de derivados fosfatados por ano, destinados à geração de energia nuclear e à fabricação de fertilizantes e ração animal para o agronegócio.

Com 20 anos de vida útil, o projeto pretende transportar o concentrado de urânio através do Porto do Mucuripe (em Fortaleza) e, caso entre em operação, deixará pilhas de rejeito com material radioativo no Sertão Central do Ceará.

Uma das principais ameaças do empreendimento é o consumo intensivo de água, estimado em 911.800 litros por hora. Isso representa um aumento de 400% sobre a demanda do Açude Edson Queiroz, de onde se prevê transportar a água através de uma adutora.

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Os sem fome

(Pintura: Iberê Camargo)

Por Vanessa Dourado

No Brasil de 2016, muitas pessoas, orgulhosas de sua posição emergente, foram às ruas para pedir menos direitos aos famintos. A bronca é imaginar que alguém quer levar alguma vantagem. Cada centavo destinado às políticas públicas de inclusão social é imaginado como um absurdo sem precedentes por esta mesma elite que faz doações às instituições de caridade quando Noel chega, em dezembro, para amolecer o coração dos mais infelizes.

Os membros da elite também não querem saber de pobres na universidade. A população brasileira é composta de 53,6% de pessoas negras – segundo dados do IBGE -, mas no grupo dos mais ricos os brancos são 85,7%. As desigualdades de renda e de realidade não podem ser vistas pelas janelas dos emergentes que clamam pelo fim das injustiças. E resulta desagradável dividir a sala da universidade pública com cotistas sem mérito. A meritocracia nunca foi um problema para quem sempre teve as panelas e os bolsos cheios.

Os Sem Fome querem o fim da democracia e não precisam de ciência para entender que a competição deve ser cultuada. Defensores do capitalismo, os Sem Fome querem um país sem escadas e a manutenção dos privilégios dos meritocraticamente bem-nascidos.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Comunidades ameaçadas pela mineração no Ceará participam de encontro em Santa Quitéria

Com a expectativa de receber 250 pessoas vindas de vários municípios cearenses, o encontro pretende discutir os impactos da mineração no estado e propor ações de visibilidade das comunidades atingidas (Foto: Mídia Ninja)

O município de Santa Quitéria, a 222 quilômetros de Fortaleza, receberá, entre os dias 10 e 12 de novembro, o I Encontro Estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e a III Jornada Antinuclear do Ceará. Com o tema “Pela soberania popular na mineração. Nuclear não!”, o Encontro e a Jornada discutirão os impactos e os riscos da mineração e darão visibilidade às alternativas construídas por diferentes territórios impactados por essa atividade no estado.

O encontro é uma iniciativa da Articulação Antinuclear do Ceará e representa uma continuidade de duas jornadas antinucleares já realizadas com o objetivo de debater o Projeto Santa Quitéria, empreendimento que pretende realizar a exploração e o beneficiamento de urânio e fosfato no município.

Este ano, o diferencial é que também reunirá comunidades, movimentos sociais e organizações de outras partes do estado em um momento de formação, intercâmbio de experiências e articulação. “Em 2016, a III Jornada vem se somando com a articulação do I Encontro Estadual do MAM, o que significa dizer que avançamos para levantarmos a bandeira antimineração juntamente com outras regiões do estado do Ceará. Nesse sentido, aos poucos, vamos somando forças a partir das comunidades”, destaca Erivan Silva, da Cáritas de Sobral e do MAM-CE.

Durante a programação, estão previstas a apresentação de pesquisas sobre a contaminação ambiental e humana causada pela mineração de urânio; o lançamento de materiais de comunicação e a realização de atividades culturais. De acordo com Erivan Silva, a jornada e o encontro esperam fortalecer os diferentes sujeitos que denunciam os impactos da atividade mineral e lutam para garantir o direito de participar das decisões acerca dos empreendimentos que podem afetar seus territórios: “vamos juntos construindo caminhos, articulando pessoas, defendendo a cultura viva das comunidades que têm seus modos de vida ameaçados pelas mineradoras”, conclui.

Articulação Antinuclear do Ceará e MAM

A Articulação Antinuclear do Ceará surgiu em 2011 e reúne o Movimento dos(as) Trabalhadores(as) Rurais Sem Terra (MST); a Comissão Pastoral da Terra (CPT); a Cáritas Diocesana de Sobral; o Núcleo Trabalho, Meio Ambiente e Saúde (Tramas), da Universidade Federal do Ceará; o Coletivo Urucum – Comunicação, Direitos Humanos e Justiça e representantes das comunidades que podem ser atingidas pelo Projeto Santa Quitéria. Articula-se, ainda, ao Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

Projeto Santa Quitéria

Proposto pelo Consórcio Santa Quitéria – firmado entre a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e a Galvani Indústria, Comércio e Serviços S/A -, o Projeto Santa Quitéria pretende extrair urânio e fosfato da Jazida de Itataia, a maior mina de urânio do Brasil. O objetivo é produzir 1.600 toneladas de concentrado de urânio e 1.050.000 toneladas de derivados fosfatados por ano, destinados à geração de energia nuclear e à fabricação de fertilizantes e ração animal para o agronegócio.

Com 20 anos de vida útil, o projeto pretende transportar o concentrado de urânio através do Porto do Mucuripe (em Fortaleza) e, caso entre em operação, deixará pilhas de rejeito com material radioativo no Sertão Central do Ceará.

Uma das principais ameaças do empreendimento é o consumo intensivo de água, estimado em 911.800 litros por hora. Isso representa um aumento de 400% sobre a demanda do Açude Edson Queiroz, de onde se prevê transportar a água através de uma adutora.

Em fase de licenciamento junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a viabilidade hídrica do Projeto Santa Quitéria tem sido questionada pelo órgão ambiental, pelo Ministério Público Federal  e pelas 42 comunidades que podem ser diretamente atingidas.

Segundo o Portal Hidrológico do Ceará, em 2014, o volume do Edson Queiroz estava em 24,53%. Em 2015, diminuiu para 15,48% e, hoje, está em 11,35%. Para se ter uma ideia do que isso significa, enquanto o Projeto Santa Quitéria pretende consumir o equivalente a 125 carros-pipa por hora, o Assentamento Morrinhos, localizado a 4 km da jazida, tem sido abastecido por 26 carros-pipa por mês.

Programação

Dia 10, quinta-feira:

10h30m – Mesa: Análise de Conjuntura da Realidade Brasileira e Debate. Facilitadores(as): Soraya Tupinambá (Mandato É tempo de resistência”) e Pedro Neto (MST).

14h – Mesa Temática: A questão mineral no Brasil e no Ceará. Facilitadores(as): Raquel Rigotto (Núcleo Tramas-UFC), Charles Trocate (MAM Nacional).

20h – Lançamento da História em Quadrinhos “Em defesa da vida, da água e por justiça ambiental” e do vídeo “2ª Jornada Antinuclear do Ceará”; realização de sarau de poesias.

Dia 11, sexta-feira:

8h20min – Painel para apresentação de pesquisas sobre a ameaça nuclear.

  1. A construção Social do Risco de Contaminação Ambiental e Humana dos trabalhadores da INB e moradores/as do entorno da mina de urânio em Caetité, Bahia. Professora Claudia de Oliveira da UFBA.
  2. Construção compartilhada de conhecimentos – Universidade, territórios e o debate sobre os riscos do projeto Santa Quitéria – Danielli Costa e Raquel Rigotto do Núcleo Tramas/UFC.

14h – Planejamento do MAM/CE

20h – Noite Cultural (músicas, poesias e arte)

Dia 12/11, sábado:

8h30m – Ato público contra a mineração.

Contatos:

Renata Catarina: 85 99605.0161

Iara Fraga: 85 9826.5543

Erivan Silva: 85 99795.9452