luiza

Luiza: novo romance infantojuvenil de literatura negra

Luiza é o um livro infanto-juvenil escrito por Plinio Camillo com ilustrações de Thiene Magalhães e publicado pela Editora Kazuá

De acordo com Luiza Lobo, “a literatura negra é aquela desenvolvida por autor negro ou mulato que escreva sobre sua raça dentro do significado do que é ser negro, da cor negra, de forma assumida, discutindo os problemas que a concernem: religião, sociedade, racismo. Ele tem que se assumir como negro”.

Sinopse:

Luiza, negra de avó e mãe.

Narrar os mitos também é consolar os vencidos

Luiza, a mais nova de contadoras de história.

Sonhar é sair do lugar

Luiza, obrigada a fugir de Efegô, é capturada e escravizada por mais de dez anos.

Inventariar a tradição alegra as subidas e nas descidas da existência.”

Luiza durante uma grande surra revê parentes, irmãs e orixás.

Temos que estar atentas para quem vamos contar. Onde e quando. Por que e para que!

Luiza, uma homenagem a mães, irmãs, primas, filhas e mulheres com que aprendemos muitos.

Minhas filhas, creiam, não existe contar sem aprender com cada palavra que se desenha, quem nos ouve se comove e apreende.”

“Luiza” é a personificação de várias Luizas, mulheres guerreiras, aguerridas e lutadoras por natureza.

“Luiza” é uma ode ao empoderamento do povo negro, desde a mais tenra infância e discute questão de matrizes africanas.

“Luiza” põe em pauta o acesso às culturas que foram invisibilizadas ao longo dos processos de colonização.

“Luiza” – A oralidade é responsável por grande parte das informações – principalmente as ancestrais – que hoje conhecemos. Foi desta forma que povos contaram, geração a geração, suas histórias. Essa a ancestralidade é preservada e ensinada, de maneira didática, aos novos e novas personagens que no futuro darão sequência a essa história.

 

Para degustação I

O CAMINHO

Segue apreciando a trilha.
Está, como nunca antes, animada e imensamente confiante.

Depois da segunda curva, é supreendida: encontra Logun Edé que lhe sorri. Luiza o reconhece pelo cheiro de maçã verde e de pêssego amarelo.

Logun Edé tem os mesmos olhos da finada mãe de Luiza e os mesmos braços resistentes do pai.

Luiza sente uma grande vontade de queixar-se!
Até gritar.
Até gemer.
Até a dor sair!

Ele a abraça.

Ela se alegra e é como se vissem todos os dias!!

— Você está bem?
— Aqui estou sim!!
— Minha pequena, você está em Orum, o mundo dos espíritos!

Maravilhada Luiza aprecia a paisagem!

— Você não é a única Luiza daqui, sabia?
— Verdade?!?
— Há outras, mais altas, mais claras, mais escuras ou mais velhas. Algumas mais serenas, mais calejadas, mais agitadas, mais crédulas, mais comedidas, mais zelosas, mais falantes, mais despreocupadas e mais sagazes. Todas sim homenagens a primeira Luiza que fundou Efegô — Sorriem
— Onde estão? — Logun Edé pegando a sua mão a conduz. — Onde vamos? — Luiza está imensamente feliz.
— Navegar — o orixá ri com os olhos.

Os rios e as cachoeiras param em veneração.
Logun ô akofá!!!
As nascentes e lagoas entoam alegria.
Logun ô akofá!!!

Em terra, deslizam como se somente quisessem aproveitar a melodiosa companhia um do outro. Apreciar o macio caminho. Logun Edé lhe conta que estão em Orum, o mundo dos espíritos.
Para degustação II
ORUM

A terra dos céus.
Terra de tantos céus como contas do colar de Oxum.

Logun Edé fala também da vida nova que ali desponta para a Luiza.

Luiza encantada pede se pode contar a história que sua mãe lhe ensinou sobre Logun Edé.

— Sempre esperei ouvir de você … recite para mim, por favor – — o orixá senta à sobre de uma árvore e se prepara para ouvir atentamente.

No fundo tem o silêncio.
A calmaria das águas ajuda a não pensar.

Ficar longe.
Muito arêrê e muita gritaria.
Oxum por ser a mais…
Oxóssi por ser o mais…
Muitas brigas e nenhuma por ele.

Ilá!!

O fundo do rio está perto do silêncio.
Dentro o banzé ficou longe.

Caça melhor que muitos.
Porém quem conquista o melhor ekó??
Oxóssi!

É dá água mais que todos.
Mas os ejás saúdam?
Somente Oxum.

Nunca erra um alvo, mas vacila perto do seu pai.
Entende dos rios e dos bichos d’águas, mas é um bobo perto de sua mãe.
Conhece sobre os caminhos, porém bem menos que ele: Oxóssi.
Adivinha todas as trilhas da alma, mas ela é mais precisa. Salve Oxum!
Chega primeiro e seu pai sempre já lá esteve.
É belo, ativo, porém sua mãe é a odara.
Nem para ele olham.

Pai??
Mãe??

O fundo a paz inunda.
Do fundo veio a pureza.
Limpa e fluida.
Tempo sumido.

Sentem sua falta.
Mãe se desespera.
Oxossi berra um grito que até chega em Efegô.

Pai implora.
Oxum está desesperada como nunca antes esteve.
Filho??

Filho!??

Clamam pelo maior.
Olurum atende pois tinha outras obrigações para o menino
Olurum ergue Logun Edé.

Que agora pode se fazer pequeno.
Grande Menina.
Menino.
Gente.
Filho.

Pai caçador e mãe d’água agradecem.
Oxum e Oxóssi comemoram.

Logun Edé.
Ri de ser querido.
Veio a alegria quando
Olurum sussurrou que ele é a melhor parte dos dois.

 

Ilustradora

Thiene Magalhães é designer, artista plástica e ilustradora. Hoje residindo no centro de São Paulo, quando criança, morou em Ribeirão Pires, no ABC Paulista. Antiga parceira da Kazuá, ela também assina, além da direção de arte em diversos livros do catálogo da editora, a ilustração das obras “Cidade dos Canais”, de Madô Martins, “Cachinhos de Uva e os Três Ursos” e “A menina que furtou o Sol”, de Max Dias, “Demorei a gostar de Elis”, de Alexandra Lopes da Cunha e “Um Saci em Sampa”, de Luciano Nunes. O processo de criação das aquarelas que compõe o livro LUIZA são parte de um laboratório feito em São Paulo e concluído na Bahia, onde pôde conhecer melhor os preceitos da religiosidade afro-brasileira.

O escrivinhadeiro

Plinio Camillo nasceu em Ribeirão Preto em 1960, reside em São Paulo desde 1984, tendo vivido em Campinas entre 1998 a 2001. Ator, educador social ( atuou com crianças e adolescentes de rua ), roteirista e hoje trabalha na área de comunicação.

Aos três anos descobriu que as letras tinham significados.

Aos cinco, a interrogação.

Aos nove, não era sintético.

Aos doze, quis ser metonímia.

Aos quinze, conquistou a exclamação.

Aos dezessete, viu os morfemas.

Aos dezoito, foi liberado do tiro de guerra, virou perífrase.

Aos vinte, estava no palco.

Aos vinte e dois, se enxergou como um advérbio.

Aos vinte e cinco, desenredou a Lingüística.

Aos vinte e sete, redescobriu o eufemismo.

Aos trinta, a e a onomatopeia.

Aos trinta e dois, melhorou a minha caligrafia.

Aos trinta e cinco, recebeu o maior presente: aquela que lhe trouxe a felicidade.

Aos trinta e seis, não morreu como ameaçava o anacoluto.

Aos quarenta, desvendou uma ligeira maturidade e ironia.

Aos quarenta e cinco, recebeu o prazer de viver no adjunto adverbial de companhia.

Aos quarenta e sete abreviou o seu discurso.

Aos cinquenta, toma remédio para pressão e usa óculos até para atender telefone.

Hoje, com quase sessenta, se diverte cometendo escritos.

 

EXPERIÊNCIA LITERÁRIA – Livros Publicados

ABIGAIL coletânea de contos (diversos autores) – Editora Terracota

O NAMORADO DO PAPAI RONCA – romance infantojuvenil – ProAC 2012 – Editora Prólogo – Selo Mundomundano

ASSIM VOCÊ ME MATA – coletânea de contos (diversos autores) – Editora Terracota

CORAÇÃO PELUDO - coletânea de contos – Editora Kazuá

OUTRAS VOZES - coletânea de contos sobre o negro escravizado no Brasil – 11Editora

DESCONTOS DE FADAS – coletânea de contos (diversos autores) – Alink Editora

PRIMEIRAMENTE – coletânea de contos (diversos autores) – Alink Editora

ESCANGALHAR – Organizador: coletânea de contos (diversos autores) – Resultado da Oficina de contos promovidos pela Editora Kazuá

DE RUA – coletânea de contos sobre meninos de rua em parceria com Júlio Dias – Editora Kazuá

BOMBONS SORTIDOS – coletânea de contos divididos em dez livros: Amargo, Ao Leite, Castanhas, Mel, Pimenta, Crocante, Meio Amargo, Meio Doce, Recheados e Trufados. – Editora Kazuá

 

Contatos

 

Plínio Camillo – Email: pcamillo60@uol.com.brTelefone: 11 996279640

Editora Kazuá – Email:contato@ediotrakazua.com.brTelefone: 11 33372899

 

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“Amanhã quero ser vento”: Michel Yakini dá voz à periferia em seu primeiro romance

Amanhã quero ser vento dá voz a personagens da periferia e traz temas como homofobia, aborto e violência contra mulheres (Foto: Sônia Bischain) 

Autor de livros de contos, crônicas e poemas, Michel Yakini – um dos nomes mais atuantes no movimento de literatura das periferias de São Paulo – lançou seu primeiro romance, Amanhã quero ser vento, que conta a história de Manandí, jovem mulher que deixa marido e filhas em uma pequena cidade e se muda para a metrópole em busca de si mesma. A protagonista enfrenta as durezas da vida na periferia e encontra amparo na amizade de uma recém-conhecida, Márcia, com quem acaba tendo um relacionamento amoroso.

O enredo é firmado em desencontros e desamores, em uma narrativa que dá voz a personagens da periferia e traz fragmentos de prosa poética do narrador. Texto arrojado e sensível de Yakini, que trata também de temas como machismo, homofobia, prostituição, aborto, drogas, violência contra as mulheres e as populações periféricas.

“Uma combinação explosiva de temas que atravessam muitas mulheres e são abordados aqui por um narrador transgênero sem demonstrar, em momento algum, a suspeita de um olhar masculino como pano de fundo”, registra a professora de Literatura Brasileira e Portuguesa na Universidade de Buenos Aires, Lucía Tennina, que prefacia a obra.

Capa Amanhã quero ser ventoNa construção narrativa do romance, o autor se vale de uma escrita muito próxima da oralidade e apresenta personagens cativantes como o botequineiro Sêobetolô, com suas observações perspicazes sobre as pessoas e a vida, a contadora de estórias Donanina, com seus “causos” que se avizinham da poesia, Wanda, a abortadeira, que faz programas sexuais para complementar a renda, entre outros.

O livro Amanhã quero ser vento está pode ser adquirido no site da 11 Editora (www.11editora.com.br).

O autor

Michel Yakini é escritor, artista-educador e produtor cultural. Colunista da revista on-line Palavra Comum (Galícia – Espanha) e cofundador do Sarau Elo da Corrente no bairro de Pirituba, que faz parte do movimento de literatura das periferias de São Paulo.

Desenvolve atividades relacionadas à cultura negra, periférica e criação literária, ministrando cursos, oficinas, palestras e recitais de poesia. Participou de atividades literárias em Cuba, Argentina, México, França, Alemanha, Espanha, Paraguai e Chile.
Autor de Desencontros (contos, 2007); Acorde um verso(poesia, 2012); Crônicas de um Peladeiro (crônicas, 2014) e co-organizador da antologia bilíngue on-line Letras e Becos – Literatura das periferias de São Paulo(2017).

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Quando a realidade mais parece ficção, a literatura é a melhor bússola

A distopia nossa de cada dia em 50 minicontos

É possível resumir uma época, o período atual da História brasileira, em formas curtas sem perder a essência pelo caminho? Desse questionamento surge Pequenas doses de grandes anacronismos, gestado para dizer mais nas entrelinhas do que nas palavras escritas.

Com milhares de opiniões diariamente pairando pelas redes sociais, tantas notícias – fakes ou não, com narrativas tendenciosas ou independentes – circulando pela internet, os 50 minicontos que fazem parte do ebook são uma pequena (sem trocadilhos) tentativa de enxergar a nossa realidade com novos olhares: algumas vezes com ironia, outras com delicadeza, às vezes até com certo humor; mas, acima disso, com senso crítico.

Da política aos fatos mais cotidianos, das angústias da alma às indignações coletivas, de assuntos polêmicos a quase unanimidades. Tudo está contido em Pequenas doses de grandes anacronismos, porém ao mesmo tempo há um vazio; não por falta de espaço ou de vontade do autor, mas porque só a visão de quem lê pode completar o que ficou por ser dito.

O tamanho dos contos e o projeto gráfico diferenciado (em formato horizontal) visa atrair um público amplo, desde os leitores mais assíduos até aqueles que tem menor apetite pelos livros mas frequentam as redes sociais – e leem muita coisa, mesmo que de outros tipos.

Pequenas doses… é leitura fluída sem ser fugaz. Ampla sem deixar de ser profunda. É a vida como ela não é – e deveria ser.

Pequenas doses de grandes anacronismos Minicontos – 54 páginas – Produção independente/download gratuito – 2018 (abaixo):

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Sobre o autor

Rodrigo Zafra Toffolo nasceu em Santos (SP) em 1984. Formado em jornalismo pela UniSantos, é escritor independente e roteirista de audiovisual. Publicou Um dia na vida (contos, 2013), Forjando Mundos (coletânea de contos e poesias, 2014) e Condenados: o crime é apenas uma parte do quebra-cabeça (novela, 2015). Site: rztoffolo.wordpress.com

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Salém é aqui. Sempre será?

Augusto Azevedo

Para minhas irmãs e irmãos venezuelanos em situação de refúgio e miséria.

No início de 1953 estreava em Nova York a peça As Bruxas de Salém de autoria de Arthur Miller. A obra trata de acontecimentos ocorridos em 1692 no então povoado de Salém, no estado de Massachussets, em que, a partir da descoberta de um rito pagão realizado por jovens mulheres na floresta, algumas das participantes, impressionadas, entram em estado de choque ocasionando uma série de violentas consequências ao povo que por ali morava.

A obra, que é um clássico da dramaturgia estadunidense e, por que não dizer ocidental, merece atenção não apenas pela constituição instigante de suas cenas em que o autor projeta com muita habilidade uma narrativa escrita, mas com imenso potencial cênico, como todos os grandes clássicos da dramaturgia universal, e sim por sua disposição crítica fomentando reflexões a respeito de questões como histeria coletiva e dissimulação contextualizadas no medo de bruxaria, além de apontamentos a respeito do papel do poder da religião em relação aos poderes políticos e judiciários naquela região no período mencionado.

Entretanto, ouso afirmar que As Bruxas de Salém ainda tem muito a ensinar, por exemplo, aos EUA e a países de economia e cultura influenciadas por eles, como é o caso de uma país profundamente subdesenvolvido conhecido como o Brasil.

Uma das coisas mais assombrosas – e geniais – da peça é a maneira como seu autor expõe a sucessão de acontecimentos dando à narrativa um ritmo e uma verossimilhança bem peculiares. Nada mais desconcertante e tenebroso do que uma acusação. Quem já foi acusado injustamente sabe que não há psicológico que dê jeito e é aí que se destaca a qualidade descritiva de Arthur Miller que, sem fazer grandes segredos, consegue envolver o leitor na trama mexendo e comprometendo a psique mais bem trabalhada que se disponha a acompanhar a obra.

Público e personagens sofrem com as levianas acusações e seus brutais efeitos. A angústia ocasionada pela falsidade das personagens que criminalizam outras é tão pesada quanto à empatia criada por conta da inocência de quem está sendo julgado, preso e executado sem o menor direito à defesa.

Abigail, personagem muito semelhante ao Iago da tragédia Otelo de William Shakespeare, se comporta como uma verdadeira líder comunitária aplicada em fazer o mal; dá tudo de si para alcançar seus objetivos, agindo de modo frio e calculista como uma verdadeira psicopata efetivando seu plano de assassinatos em série.

Porém o que mais causa inquietação na peça é sua concretude atemporal, ou seja, a noção passada e confirmada de que por mais bizarras que sejam as atitudes de Abigail há quem acredite, confie e estimule tal personagem a seguir com seus sórdidos planos, legitimando a farsa e trilhando para o caminho da humilhação pública, da tortura e da morte quem venha a se contrapor ao que Abigail realiza quase nunca só. Proporcionar histeria coletiva e agir de modo dissimulado são poderes da personagem que cinicamente se veste de uma fragilidade bem estratégica para conseguir o que quer.

Tal como o Iago de Shakespeare, a personagem se mostra irredutível e tudo que vem dela não aspira a menor confiança ou aceitação, isso da parte de alguns, pois como na vida real e vale ressaltar que As Bruxas de Salém se trata de uma narrativa criada a partir de eventos históricos, tem quem se afeiçoe ao comportamento de Abigail, seja se deixando levar pelo teatro forjado por ela ou na pretensão de tomar algum proveito das situações elaboradas pela moça.

Analisar o papel de Abigail na obra não se trata de se render ao modo binário de ver e agir sobre as coisas como é muito comum na contemporaneidade e na história da humanidade de uma maneira geral, nem tampouco apostar no maniqueísmo como formato para encarar a vida, resolver problemas, averiguar tramas, estudar personagens e sim ter a consciência do pragmatismo de Abigail e de figuras do tipo para atingir seus objetivos.

Quantas Abigails estiveram presentes na constituição do golpe militar-civil de 1964? Na Guerra do Vietnã? Nas chacinas da Candelária, da Messejana? Será que quem liga ou manda mensagem “dando a fita” para as execuções não possui nada de Abigail? Quem foi lá no Oriente Médio armar e dá treinamento a grupos milicianos não tem nada a ver com a moça? A situação da África desde o processo de colonização não se assemelha com a de Salémno século dezessete?

Os poderes evocados por Abigail – Abby, para os íntimos –, vinculados à dissimulação e histeria coletiva não são características restritas à moça, pelo contrário, muita coisa ruim aconteceu no mundo por conta disso e não adianta se fazer de extraterrestre e relativizar o que acontece de ruim no mundo, essa consciência é inegável e o próprio desenvolvimento do capitalismo, em suas diversas fases, se apropria de instante em instante desses poderes para o alcance de suas metas, lucrativas a uma minoria e letal para todo o resto.

Os equívocos ou excessos de Abigail, além da predisposição do povoado em “ir com a cabeça dos outros” foram os verdadeiros responsáveis pelo pânico e desconfiança extrema e acusativa que tomou conta de Salém, exatamente como ocorre na política brasileira e países afins, uma vez que os políticos instauram a corrupção como estrutura determinante, assumem discurso anticorrupção sem o menor pudor ou receio. Não importa se é uma mentira inacreditável, o que importa é deter os meios aptos a impor a mentira como verdade absoluta, inquestionável, irreparável.

Narrativa bizarra, mundo tão quanto. O bizarro não é algo chapado, unilateral, ao contrário do que muitos pensam o bizarro, pelo menos no que concerne à língua portuguesa, diferente do grotesco que é relativo ao ridículo, tem sentido ambíguo, pode ser algo próximo ao estranho, não convencional, esquisito, mas também pode ser algo atraente, que chame atenção, que seja admirável.

Então, não à toa se pode presenciar a identificação ou admiração de algo ou alguém por alguns, enquanto a repulsão por parte de outros, como no caso de políticos consagrados por discursos de ódio, incitação à violência, exaltação da insipiência, rechaçados ou condenados por algumas pessoas e idolatrados por outras.

Sendo assim é possível afirmar que a expulsão dos venezuelanos refugiados do estado de Roraima foi um evento bizarro. Além de solidariedade e revolta a expulsão dos venezuelanos gerou uma incontrolável vontade de vomitar da parte de quem tem ainda alguma vergonha na cara e sangue nas veias, porém, essa mesma expulsão conforta o coração e afaga o ego da tralha fascista que não se importa com a vida de ninguém, principalmente de quem esteja numa situação socialmente inferior – tal como os políticos e Abby fazem – e que por meio de acusações rasas, sem consistência alguma, como a do roubo de empregos, empreendem força contra mulheres e crianças indefesas.

Num sei se isso cansa mais do que machuca, o que sei é que a Sociedade do Espetáculo brilhantemente teorizada por Guy Debord, tem muito de Salém, e que a culpa jamais deve recair apenas nas Abigails da vida, quem come esse partido também é responsável pelo terror.

A Salém reapresentada por Arthur Miller é o espelho do estado de exceção imposto às economias fragilizadas, precarizadas ou mesmo destruídas pelo grande capital por meio de seus donos e vassalos; cabe a cada um(a) de nós agir como Abigail ou como quem enfrentou as armações de Salém.

Augusto Azevedo é estudioso da fenomenologia referente ao que é conhecido vulgarmente como pobres de direita

abusivo

Criança e Consumo lança campanha de denúncia contra o Mc Lanche Feliz

Ação baseia-se no exemplo de um cidadão brasiliense que denunciou a publicidade infantil abusiva da rede ao unir brinquedo a produtos alimentícios

Após constatar a exposição de brinquedos próxima ao balcão de atendimento de uma das lojas da rede de fast food McDonald’s em Brasília, um cidadão brasiliense denunciou ao Ministério Público a estratégia da empresa de direcionar publicidade às crianças. O Criança e Consumo, do Instituto Alana, foi procurado pelo órgão para contribuir com informações e, inspirado nessa ação, resolveu ajudar outros cidadãos a replicar a ação. O programa lançou a campanha “Abusivo Tudo Isso”, nas redes sociais.

A campanha propõe a assinatura de uma petição com denúncia para a Secretaria Nacional do Consumidor, do Ministério da Justiça, com cópia para o SAC do McDonald’s, que trata dos principais argumentos pelos quais a prática da empresa de anunciar e comercializar brinquedos com o intuito de promover seus produtos alimentícios para crianças é abusiva, ilegal e deve acabar. Ainda, estimula que os participantes compartilhem a mobilização, de forma a alcançar um número maior de cidadãos.

“Nós recebemos, o tempo todo, mensagens em nosso site, redes sociais e e-mail de pessoas indignadas com as estratégias publicitárias abusivas direcionadas às crianças por essa rede de fast food. E a denúncia deste cidadão nos inspirou a criar uma ferramenta para que reclamações semelhantes cheguem a um órgão responsável por sua fiscalização. Queremos que as pessoas saibam do seu poder de mobilização e denúncia e que a empresa tome conhecimento do descontentamento gerado por suas ações”, explica Ekaterine Karageorgiadis, advogada e coordenadora do Criança e Consumo.

Já existe consenso, entre especialistas, de que a comercialização de brinquedos por redes de fast food estimula o consumo excessivo e habitual de produtos alimentícios com altos teores de sódio, açúcar e gorduras, sendo extremamente prejudicial à saúde das crianças. A obesidade infantil e as doenças crônicas associadas são um problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Sem uma mudança de hábitos e práticas de mercado, em menos de uma década a obesidade pode atingir 11,3 milhões de crianças brasileiras.

Além disso, o fato de esses brinquedos serem exclusivos e colecionáveis faz com que a criança seja diretamente incentivada a consumir muitas “promoções” no curto espaço de tempo em que são oferecidas. Depois de conseguir o primeiro brinquedo da série, em geral, a criança quer completar a coleção e o apelo para que mãe, pai ou responsável compre os demais itens pode gerar estresse familiar.

Não à toa, o ministro do Superior Tribunal de Justiça, (STJ), Herman Benjamin, em julgamento de caso sobre publicidade direcionada a crianças, afirmou: “significa reconhecer que a autoridade para decidir sobre a dieta dos filhos é dos pais. E nenhuma empresa comercial e nem mesmo outras que não tenham interesse comercial direto, têm o direito constitucional ou legal assegurado de tolher a autoridade e bom senso dos pais”.

Vale lembrar que as famílias brasileiras se posicionam majoritariamente contra a publicidade direcionada a crianças, especialmente quando se trata de venda casada de brinquedos com produtos alimentícios não-saudáveis. A iniciativa é uma tentativa de dar voz à população no seu desejo  de defender a infância.

Recentemente, o Criança e Consumo lançou a campanha “Abusivo Tudo Isso”, para incentivar que pais, mães, responsáveis por crianças ou pessoas em geral (que discordem das ações de direcionamento de  publicidade abusiva ao público infantil), possam denunciar o MC Lanche Feliz ao Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor). A ideia da campanha é facilitar para que os adultos (que discordem da prática de anunciar e comercializar brinquedos com o intuito de promover seus produtos alimentícios para crianças) manifestem seu posicionamento, inclusive perante a empresa, que recebe uma cópia dos emails.

Conheça a campanha: http://criancaeconsumo.org.br/abusivo-tudo-isso/

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“A Escola é Nóis”: Berro facilita projeto de Educomunicação no Bom Jardim

(Foto: Geovana/ Revista Berro)

Olha que notícia massa, galera! Se assentem e tomem tento para lê-la! Ontem, 11 de setembro, iniciamos o “A Escola é Nóis”, um projeto de educomunicação e direitos humanos de 60 horas que será realizado pelos próximos três meses na Escola de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) Santo Amaro, no Bom Jardim, bairro da zona oeste de Fortaleza (CE). A iniciativa é uma parceria entre o Instituto Dragão do Mar – por meio do Centro Cultural do Bom Jardim (CCBJ) – e a Berro.

Ao longo dos próximos meses, vamos desenvolver junto com os/as estudantes – uma turma de aproximadamente 25 discentes – a elaboração de um jornal escolar impresso, a montagem de uma rádio-escola, a criação de um blog, com acompanhamento nas redes sociais, e o gerenciamento de softwares para captação e edição audiovisual em dispositivos móveis (smartphones e tablets). A ideia fundamental da formação é que, ao final do projeto, os/as jovens, com média de idade entre 15 e 18 anos, além de pensarem a comunicação social a partir de uma perspectiva crítica e reflexiva, mantenham autonomamente a continuação dos produtos comunicacionais desenvolvidos (nas linguagens de impresso, rádio e internet) e estejam aptos a compartilharem os saberes, conhecimentos e técnicas aos/às demais colegas. Não é massa? A gente da Berro está super instigado, porque temos um montão de coisas a trocar com essas meninas e meninos, muito a aprender, muito a repassar!

A Lorena Estephany, de 17 anos, que cursa o 3º ano do Ensino Médio, também está instigada! Ela nos contou que resolveu fazer o curso porque queria ampliar seus conhecimentos, já que aprender coisas novas é algo que a motiva. “Comunicação é uma coisa que eu gosto”, comenta Lorena, com um brilho no olho que transmite toda sua potência juvenil. O Sterlan Moreira, também de 17 anos, que está no 9º ano do Ensino Fundamental, nos disse que, por mais que ele queira através do projeto aprimorar-se profissionalmente e aprender a falar em público, o principal mesmo é “conviver com as pessoas, fazer amizades novas”. De nossa parte, já ganhou amigos novos, viu Sterlan? Aliás, a fala do Sterlan é bem representativa. De quê adianta absorver novos saberes e conhecimento se esquecemos de cultivar a amizade nas relações interpessoais, né?

2O diretor da escola Santo Amaro, Marcos Matias, 36 anos, acredita na possibilidade da educação pública propor e formar estudantes com uma leitura crítica e dialógica sobre as questões sociais. É por isso que ele está dando todo o apoio ao projeto. “É preciso tratar esses meninos e meninas como gente, ter um olhar diferenciado para eles. Acredito que [com o curso] vão começar a refletir e elaborar melhor suas próprias questões, vão perceber o mundo através da linguagem, seja ela escrita ou oral”, diz Marcos.

A Berro é uma revista em movimento. Comunicação-movimento! Ela sai do papel, sai da internet, e vai ao encontro das pessoas, no rumo dos processos de construção coletiva, porque é nisso que acreditamos! Se, infelizmente, não temos dinheiro para lançar novas edições impressas (isso é uma peleja, minha gente!), não estamos parados. Caminhar nas trilhas da construção de um mundo justo, fraterno e igualitário é, possivelmente, a razão de existir dessa revistinha enxerida. Que tenhamos sempre a força da sonhação (sonho + ação)! Oxalá!

 

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Arte urbana como “manifestação necessária”

Por Artur Pires

Odylo Falcão rabiscava nas paredes de casa e da escola quando meninote. Ali começava a ser formado o artista que hoje pinta as paredes do Rio de Janeiro com cores, formas e sabores, compondo uma estética de feição singular, com forte marca autoral.

Já realizou três exposições, uma desenho, em pastel seco, e duas de pintura, em acrílico. Ademais, cria murais em paredes, muros, tapumes e outras superfícies, como pintura em porta de aço. Sempre que pode, rabisca palavras que viram crônicas e poemas. De acordo com ele, “as linhas do mundo vão guiando o seu olhar e você descobre um jeito novo de traduzi-las. Fiz cursos, conversei com artistas, mas procurei um olhar próprio, autoral, que me fizesse feliz com as minhas experiências”.

As referências artísticas de Odylo Falcão são transversais, do grafite ao desenho, da pintura à ilustração. Mas também as artes plásticas clássicas: “Volpi, Picasso, Matisse, Van Gogh e vários têm um lugar especial na minha memória gráfica”, conta. “Minha arte é autobiográfica, transformo meu filho Gabriel de 11 anos em personagem, assim como minha esposa Rita, e me represento nos pássaros, por achar que assim ganho toda liberdade para voar bem alto”, suspira alçando vôos sem asas.

Com relação à arte urbana, o artista acredita que “é uma manifestação necessária, e por vezes a única galeria de arte para muitos, por vários motivos. Minha mensagem é estética e tanto nas cores como no preto e branco, vou criando um mundo de formas simples, como uma grande ilustração a céu aberto. Se está na rua, um território livre, está exposto a todo tipo de crítica, e também é um agente transformador da paisagem e que leva reflexão além da melhora visual do local”. Por mais riscos nos muros! Gritos escritos nas paredes das urbes!

Mais sobre o artista:

CAPA - SOM D_LUNA - NESSE TREM

Som D’Luna lança seu primeiro CD apostando na renovação da música popular brasileira

Gravado em João Pessoa, com lançamento nas plataformas digitais e em formato físico, “NESSE TREM” reúne composições e arranjos dos gêmeos paraibanos Vitor e Diogo Luna, em 11 faixas que passeiam pelo baião, samba, soul, funk e balada

A nova MPB ganha frescor paraibano em dobro com o lançamento do disco NESSE TREM, do Som D’Luna, formado pelos gêmeos Vitor e Diogo Luna. De João Pessoa, os irmãos, que decidiram caminhar juntos pela música, lançam o seu primeiro CD gravado em estúdio, totalmente autoral, renovando o cenário nacional da música popular brasileira, em composições que vão desde o baião ao soul/funk.

Com 11 faixas e produzido no estúdio Gota Sonora, em João Pessoa, o NESSE TREM carrega uma variedade de estilos diferentes, conectados por timbres, histórias, texturas e arranjos. Um disco que guarda os olhares dos gêmeos sobre a vida, sobre os amores, as paixões que os fazem vibrar e acordar dispostos, sobre enxergar com esperança cada recorte das horas. “Esse disco é uma tentativa de escancarar uma relação entre nós e as sonoridades que nos fizeram chegar a decisão da música”, afirmam. “Dormimos e acordamos pensando em dividir aquilo que amamos fazer e achamos que não tem algo que descreva melhor esse momento do que: uma incessante busca de sempre fazer música com o coração. Fazer esse trabalho com toda entrega possível”.

Sob direção geral do paulista Jader Finamore (os Fulano), mixagem de Renato Oliveira e arranjos de Vitor Luna e Diogo Luna, Jader Finamore e Ítalo Viana (baixista), o disco foi finalizado junto a uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo. Fazem parte do disco ainda, os bateristas Thiago Jorge, Herbert José e Gilson Machado, os tecladistas Uaná Barreto e Renato Oliveira, o percussionista paulista Luccas Martins (Serelepe), além do saxofonista Joab Andrade, o trompetista Emanoel Barros, o trombonista Sabiano Araújo, o violoncelista Tom Drummond, o flautista Renan Rezende e o clarinetista Thompson Moura. Violões e guitarras por conta dos irmãos gêmeos.

Vitor e Diogo Luna

Nascidos e residindo em João Pessoa (Paraíba), os irmãos começaram sua história profissionalmente com apresentações em bares locais, casamentos, recepções e festas fechadas. Com o tempo, um repertório autoral ganhou corpo e, em 2013, uma nova percepção sobre o mercado se consolidou buscando novos caminhos, que vieram em seguida, em 2014, com uma apresentação na Usina Cultural Energisa (João Pessoa –PB) e, logo depois, a pedido de um produtor musical, um período em Portugal, onde realizaram apresentações em diversas casas, inclusive na Avenida da Liberdade, principal avenida de Lisboa.

De volta ao Brasil, gravaram em home studio e de forma independente o EP “Secura”, formado por 7 faixas autorais e executadas de forma acústica, basicamente vozes, violões e, em algumas canções, percussão. O EP foi importante para os irmãos se tornarem conhecidos na cidade, com músicas tocando em diversas rádios locais e virtuais, com destaque para o single “Mais Ninguém”, gravado depois da estreia do disco, atingindo uma divulgação inesperada na programação diária das emissoras e redes sociais.

Onde ouvir:

Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=XHoO1QzEQWQ&list=PLouDNR7V98FIcx9PKvS2g2wbLgjhTywvz

Spotify

https://open.spotify.com/artist/4aEdUmMWyf5gu6Zw58Z96M?si=R6sfOaMlRCCRiI_KrImWfg

Deezer

https://www.deezer.com/en/artist/14480423

Imusic

https://itunes.apple.com/br/album/nesse-trem/1367777775

Download completo: www.somdluna.com.br

galeano

Eduardo Galeano: um contador de histórias escondidas

Por Vanessa Dourado

A América Latina e suas Histórias mais profundas, mais sentidas pelos corpos e pelas almas de seus habitantes. Esta é, sem dúvida, a temática mais marcante no trabalho do escritor uruguaio Eduardo Galeano.

As palavras peregrinas de Galeano levam o leitor para uma viagem pelos detalhes culturais dos territórios e para um interessante despertar de ideias. As provocações articuladas com uma suave ironia e duras críticas com relação à localização sócio-política da América Latina no mundo são disparadores para reflexões e questionamentos.

Muitas negações, rechaços e denúncias estão presentes na literatura do escritor – que gostaria de ter sido jogador de futebol. A crítica à igreja como instituição colonizadora, alienante e normalizante, o desprezo pelo academicismo e o olhar sensível sobre a condição das mulheres na sociedade, são características marcantes e presentes em toda sua obra.

Os desenhos que ilustram as surpreendentes páginas de seus livros guardam uma vontade de resgatar antepassados e fazem um despretensioso culto ao misticismo ameríndio.

Ler Galeano é como adentrar a uma cozinha na qual se prepara variados pratos e onde se sentem vários aromas diferentes. Seu peculiar estilo de escrever transita entre a poesia, o relato e jornalismo-histórico. Seus textos relatam a dura realidade vivida pelos povos latino-americanos, a herança colonial deixada pelo descobrimento das terras que nunca foram perdidas, mas também relatam as resistências, a alegria, as cores e os sons daqueles que entendem seus territórios como extensão dos próprios corpos.

Os vínculos afetivos, presentes em muitos de seus textos, são relatados através das relações entre as personagens, pelas formas de se afetarem, pela simplicidade complexa de suas relações corpóreas, uma conversa entre corpos traduzida em insuficientes palavras.

O autor é, sobretudo, um curioso que compartilha suas descobertas. Isso faz com que a leitura de seus livros seja uma experiência única. Ler Galeano é desvendar as gavetas de seu imaginário e de sua existência intelectual nos mais diversos níveis – desde o mais sensível ao mais articulado diagnóstico da realidade concreta. No entanto, a sensação é a de ter uma conversa relaxada em um café com algum amigo querido, ouvir suas experiências cotidianas e as impressões que lhe atravessam.

Apesar da difícil tarefa escolhida – ou pela qual foi escolhido -, o autor consegue não resignar-se e transforma cada frase de seus característicos curtos textos em uma espécie de esperança-poética-realista que caminha rumo a uma utopia que permite sonhar de olhos abertos.

O vocabulário simples – e nem por isso pouco articulado – revela um caçador de palavras, e de Histórias, que quer ser compreendido, mais que precisamente lido ou reconhecido. Todavia, é difícil não reconhecer sua autenticidade e sua impactante forma de fazer com que o leitor questione seus próprios paradigmas. Para ler Galeano é necessário estar preparado para questionar a si mesmo, para desconstruir e reconstruir ideias e para colocar-se também como escritor de uma História coletiva, escrita no agora.

Vanessa Dourado é escritora, bissexual e feminista latino-americana

*Publicado originalmente na revista portuguesa InComunidade

FNDC lança relatório sobre violações à liberdade de expressão

Por FNDC

FNDCCom quase 70 casos relatados, documento será encaminhado a organismos internacionais de direitos humanos

Na semana em que a campanha Calar Jamais! completa exatamente um ano de lançamento, o Fórum Nacional pela Democratização (FNDC) publica o balanço das violações à liberdade de expressão registradas ao longo desse período. O relatório “Calar Jamais! – Um ano de denúncias contra violações à liberdade de expressão“, disponível em versão digital, documenta cerca de 70 casos apurados, organizados em sete categorias: 1) Violações contra jornalistas, comunicadores sociais e meios de comunicação; 2) Censura a manifestações artísticas; 3) Cerceamento a servidores públicos; 4) Repressão a protestos, manifestações, movimentos sociais e organizações políticas; 5) Repressão e censura nas escolas; 6) Censura nas redes sociais; e 7) Desmonte da comunicação pública.

O conjunto das violações comprova que práticas de cerceamento à liberdade de expressão que, já ocorriam no Brasil – por exemplo, em episódios constantes de violência a comunicadores e repressão às rádios comunitárias –, encontraram um ambiente propício para se multiplicar após a chegada de Michel Temer ao poder, por meio de um golpe parlamentar-jurídico-midiático, que resultou na multiplicação de protestos contra as medidas adotadas pelo governo federal e pelo Congresso Nacional.

São histórias de repressão que se capilarizaram em todas as regiões, em cidades grandes e pequenas, praticados pelos mais diferentes atores. Além das tradicionais forças de segurança e de governos e parlamentares, o autoritarismo da censura tem chegado a grandes empresas, direções de escolas até a cidadãos comuns, que tem feito uso do Poder Judiciário para calar aqueles de quem discordam. Assim, manifestações de intolerância religiosa, política e cultural, fruto do avanço conservador no país e de um discurso do ódio reproduzido muito tempo e de maneira sistemática pelos meios de comunicação hegemônicos, têm se espraiado.

Como lembra a apresentação do relatório, casos como o do jovem pernambucano Edvaldo Alves, morto em decorrência de um tiro de bala de borracha enquanto protestava justamente contra a violência, ou do estudante universitário Mateus Ferreira da Silva, que teve traumatismo craniano após ser atingido com um golpe na cabeça durante manifestação em Goiânia, deixaram de ser raridade. A publicação também traz o registro da invasão da Escola Florestan Fernandes, do MST, pela polícia; da condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães; e do flerte de Temer com a suspensão dos direitos constitucionais, por meio do decreto presidencial de 24 de maio passado, que declarou Estado de Defesa e autorizou a ação das Forças Armadas para garantir a “ordem” no país.

Na avaliação da Coordenação Executiva do FNDC, desde o lançamento da campanha Calar Jamais!, o que se registrou foi assustador. “Denúncias chegavam constantemente, e cada vez mais diversificadas. Não era apenas a quantidade de casos que alarmava, mas os diferentes tipos de violações, que se sucediam progressivamente, cada vez mais graves”, afirma a entidade em trecho de apresentação do relatório.

O mais preocupante é que os casos sistematizados pelo Fórum relatam apenas as denúncias que chegaram até à campanha, especialmente em decorrência da sua própria visibilidade na mídia e na internet. Pelo quadro apresentado, portanto, é razoável imaginar que dezenas de outros episódios certamente ocorreram e não alcançaram qualquer repercussão no país. Outros seguem em curso, como projetos de lei para proibir manifestações artísticas ou estudantes que ainda respondem a processos por terem ocupado escolas contra a PEC 55. Também segue o desmonte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde os registros de assédio moral e censura contra jornalistas e radialistas, praticados pela direção nomeada por Temer, são quase diários. Tudo diante da omissão ou conivência de quem deveria defender a liberdade de expressão no país.

Além de cobrar publicamente a responsabilidade dos agentes internos responsáveis pelos ataques à liberdade de expressão constatadas, a campanha Calar Jamais! e o FNDC pretendem levar o relatório para autoridades nacionais e organismos internacionais de defesa de direitos humanos. E, assim, quem sabe, condenar o Estado brasileiro nas cortes internacionais por estas violações.

Baixe em anexo o relatório “Calar Jamais! – Um ano de denúncias contra violações à liberdade de expressão”.

Conheça a campanha, denuncie, divulgue e compartilhe!

Sem liberdade de expressão, não há democracia!