Calma

Romã, um bichinho

Por Mariana Amaral

Bicho solto aprisionam. Docilizam, poem fôrma, limitam,
estrangulam, sacrificam e depois dão fé.
Alimentam o bicho de migalhas, ele não pode se fartar,
mas ainda assim fica bonito. Bonito e  duro.
Se disse duro era pra dizer puro.
E mesmo em meio a isso tudo o peste do bicho se cria.
No vento, no vacilo, na ventania. Mal respirou e já vai voar.
Volta aqui, bichinho. Aí é alto, é inseguro, faz frio, é escuro,
talvez vazio, você pode se perder.
Penso um pouco…
Na verdade, vai, bichinho.
Espalha a semente, que um dia essa gente aprende a te ter sem
te prender.
Vai, mas volta algum dia, pra contar que o mundo é mais que isso,
que tem gente diferente da gente, que prende a saudade no teu lugar.
Agora vai. Vai vivendo do teu jeito, que eu vou vivendo do meu jeito,
tentando me soltar.
Quem sabe um dia a gente se encontre pelos ares,
e de toda a liberdade a gente faça pouso,
sem se sacrificar.

Mariana Amaral é uma mistura de dengo, cores, cheiros, sabores, linguagens, tatos, riscos, encontros e amores. Fragmentos de mares, por do sol, vento, nuvem e intensidades. Psicóloga por profissão.

fortaleza

Encontro

(Foto: Drawlio Joca)

Por Graça Moreira

Encontro com o Universo…
Encontro com o novo ano….
Encontro com novos desejos e novos desafios…
Encontro consigo…

E….. o Encontro com o outro?
Este se dá quando se vive o mesmo momento!
Foi o que pensei.
Mas, com um olhar um pouco mais além,
Vejo o quanto de responsabilidade tenho na construção deste encontro, pois
A minha sensibilidade ao outro é a chave que abre o seu coração para o nosso encontro
A minha alegria só é mais intensa se conseguir contagiar o outro
A minha carência me sensibiliza para a carência do outro.

E alimentando-se nesta troca, onde
A minha tristeza é mais aliviada quando entendida pela experiência da tristeza do outro
A minha beleza só existe se refletida na lente do outro,
Numa mais profunda busca de sintonia,
Através do ir e vir de sentimentos e palavras, expressas ou caladas,
O Encontro com o outro me reafirma enquanto ser!

Graça Moreira é psicóloga

violeiro

O desenho segundo C.H.L.

(Pintura: Almeida Junior)

Por Vanessa Dourado

Encontrei abrigo em seus abraços.
Suas mãos de desenho fazem cócegas em minha imaginação.
Por isso dou risada embaixo de seu chuveiro.
Encontro lágrimas de prazer entre seus cobertores.
Porque o prazer e a dor são complementares.

Caminhei ruas desproporcionais pela noite.
Seus sorrisos espontâneos abrem ideias de brincadeira em mim.
Ainda sinto dores nas pernas.
Lembro da alegria sob o céu escuro
rasgado pelo nosso cinismo
e pela realidade que nos atravessa,
responsável, entre outras tantas coisas,
pelo nosso encontro e encantamento pelo outro.

Olhei dentro de seus olhos.
Eles são grandes e curiosos.
Infantis – como traduziu Caetano.
Suas observações retiram todas minhas máscaras.
Assim, talvez, você não possa rabiscar
o complexo existir de nós em nós.

Mas nada disso importa.
Esta máquina imaginária é um teste para a eternidade.
O que é o risco e a letra
diante do papel de nossas almas
prontas para voar por abismos.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Mais um ano

(Foto: Artur Pires)

Por Graça Moreira

Gratidão ao ano que finda,
Pelos bons momentos
Que nos trouxeram alegrias;
Pelos presentes indesejados
Que nos deixaram ensinamentos.

Gratidão sempre
Pelos equívocos praticados
Que nos ativaram a humildade
Pelos instantes de sabedoria
Que elevaram o nosso ser.

Esperança que acende no novo ano,
Atraindo dias de sol
Para iluminar nossa alma,
E noites serenas
Para inspirar nossos sonhos.

Esperança maior em nosso agir,
Com sorrisos abertos e olhares sensíveis
Que aproximem corações diversos;
Cultivando atitudes de grandeza humana
Para abraçarmos a paz e vivermos o amor!

Graça Moreira é psicóloga

flor

A Flor do meu caminho!

(Foto: Graça Moreira)

Por Graça Moreira 

E lá está ela!
De longe atraindo meu olhar.
Linda, imponente e forte,
Beleza natural que fascina quem a encontra.

Eis que nasce do desejo de ser
E cresce na determinação de permanecer.
Abraçando firme o tronco escurecido e queimado do sol
Acaricia colorindo e alegrando o seu lenho.

Exuberante e atrevida, desafia a dependência.
Como que ciente do seu valor no universo
Parece mostrar-se prova
De que a natureza vai além do homem.

Encravada em seu destino, suave e decididamente segue
Indo até onde seu o ciclo lhe permite,
Mas ficando eternamente viva
Na fotografia do meu arquivo, da minha mente!

Graça Moreira é psicóloga

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A criança em nós

(Pintura: La cometa, Ignacio Pinazo Camarlench)

Por Graça Moreira

Olhos de mar e sorriso de algodão doce
Verde, azul, rosa ou lilás
Trazendo o colorido que imaginar
Logo se mostra espontânea e cativante
Mesmo com jeito tímido de chegar.

Olhar que ilumina e reluz
Numa mistura de inocência e curiosidade
Com naturalidade põe-se a perguntar
O que quer saber e até o que não interessa
Querendo a atenção pra si conquistar.

A criança interna não cuidada
Perde seu jeito puro de ser
Retrai-se no coração do adulto
Tolhendo a fonte da alegria
Semente que lhe faz florescer.

Cuidar da criança em nós
É abraçar a fantasia em todos os tons
Cultivar suavidade no olhar e leveza no sentir
Aproveitando o momento sem ontem nem amanhã
É Viver uma grande brincadeira e com prazer, o simples curtir!

Graça Moreira é psicóloga

eu-nao-consigo-descreverii

Eu não consigo descrever

(Foto: Matheus Guerra)

Por Leo Silva

Estou bem
estou bem,
estou bem,

observo os olhares das pessoas
fico na minha, penso
o que se passa naquele momento
fico na minha, penso.

normalmente,
avoaçado
eu escrevo dilaceradamente,
são os pensamentos querendo sair
são as vivências
que tens me colocado aqui,

me ausento de tudo
até de mim,
a digitação acelerada
repassa o que se passa
o sentimento do olhar,
do suor que corre abaixo do cabelo arrupiado
a quentura que está no corpo
por ter acabado de chegar
de uma volta de bike

normalmente,
eu não escrevo quando tou bem,
não consigo passar este sentimento,
são semanas que tento,
porém,
eu
acho
que
nenhuma dessas palavras
consegue passar a imensa alegria
que tenho passado
há dias

são vivências, sentimentos, conversas
embriaguez, café,
e assim vai,
o que sinto por dentro,
mesmo não demonstrando
pessoalmente
é o que importa,
não estou triste,
não estou sério
não estou com fome,
apenas
observo
e deixo
aquela vivência
me animar,
mesmo eu não mostrando a
quem
está do
meu
lado.

eu não consigo
descrever
o que se passa
nas alegrias
da vida

Leo Silva, o ser aleatório

feminismo

Padrão ideal

Por Vanessa Dourado 

Cabelos desgrenhados, raramente arrumados
Sem cor definida
Uns fios brancos e tantos outros coloridos
Corpo irregular
Cheio de curvas e montanhas e picos
Unhas naturais
Às vezes feitas e às vezes descascadas
Por vezes curtas e mal cuidadas
Olhos grandes
Quase nunca pintados
Um pouco de miopia e astigmatismo
Postura de criança
Elegância indiscreta
Dessa sem salto ou qualquer outro recurso
Pés descascados
Cheios de chão
Duros do caminhar demasiado
Rosto quase sempre assim
Cheio de sardas
E nunca disfarçado
Pernas grossas
Umas varizes aqui e outras ali
E celulite, tem um bocado
Papas na língua
Não tem não
Fala o que sente
Reserva também não tem
Faz o que quer
Mas não culpa ninguém
Vão dizer talvez que não seja
Do mais “alto padrão”
Mas nem liga não
Segue feliz sendo o que é
Sem limitação

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

manoel-de-barros-l

Ao poeta com carinho

Por Vanessa Dourado

Para Manoel de Barros

A poesia chora por seu encantador de palavras
Quem poderá conhecê-la de tal forma?
Descrevê-la com tamanha ternura e exatidão?
Hão de cantar os pássaros em sua homenagem
Farão dança as borboletas coloridas
E até mesmo os caramujos dançarão
E o sol guardará para sempre o segredo do mar
Amanhecerá sozinho o quintal sem contemplação
Ah, se esse quintal falasse, diria para levá-lo para lá
Minha pergunta, poeta, é essa:
Quem inventou a morte?
Tenho certeza que poeta não foi, não

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana