22_Hemmes

Esquisito Tempo

Graça Moreira

Definir….tem como?
Fugaz, impreciso, precioso.
Não tem cor, nem forma,
Mas na saudade tem sabor.
Não tem peso, nem rastro,
Mas deixa marcas,
na pele e na alma.
É doença na ânsia,
É cura na paciência,
É futuro na esperança,
É passado que nos ensina.
Se nos falta, reclamamos,
Se nos sobra, desperdiçamos.
Com o vento se vai,
Levando a vida,
deixando a lembrança.
Obstinado, jamais para,
Não nos impedindo de parar nele.
É presente, é agora, é já…
E ……foi.
Graça Moreira é psicológa

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Dói o código

(Ilustração: Regina Parra)

João Ernesto

Doi o código
um porão mal iluminado
uma cena penumbra do primeiro corte.
A sala de jantar está cheia
os homens códigos com cabelos bem aparados
as mulheres enchem os pratos dos maridos
das crianças crescidas e mal humoradas.
É uma outra cena da Casa dos Mortos.

Aos desajustados, “Pau! Mata!”
A não ser que seja seu sobrinho
e só atropelou porque bebeu demais
“menino bom”.
“Todo mundo tem direito de errar”
a frase mais seletiva do brasileiro.

Toma uma bala
acerta teu primeiro erro
A qual você mataria?
Com quantos anos você morreria?
Pode falar alto, ninguém vai te ouvir nesse porão
a mais de sete palmos.
Em tempo, quais crimes são dignos de punição?
Juntando tudo dá pelo menos uma carabina na sua boca
vai, quantos vocês morreriam?
Uma bala na testa marcada
Faca,
dezessete filhos de Aureliano
tocando o gelo frio do chão.
Podia ser o seu dente quebrado
sua uretra
seus mamilos
invadidos com o pedaço de arame,
conhecendo o lodo sob a mira do Brilhante.

Segue o Brasil nadando no sangue seco
Sem nenhum medo
de pés descalços sobre ladrilho de navalha
segue a onda
os cães agora
sendo caravana
e em nosso peito de madeira de lei
que pode ser talhado, mas nunca corroído
esse botão de sentir dor,
de ficar espremido enquanto todo mundo grita
lobotomia rasgando idéias e jogando aos porcos

e tudo doendo escrevendo de tinta vermelha o último ato.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

Revolução

Pau-Brasil

Diane Southier

Mercado escravista
Escravidão colonial
Colônia extrativista
Capitalismo brutal

Capacho de espírito
Entreguista moral
Puxa-saco de gringo
É a elite local

Golpes de estado
Estado desigual
Os juros mais altos
Ao grande capital

Desigualdade econômica
Política e social
A sociedade é irônica
A ironia é mortal

É o Brasil à lenha
Em pleno ano eleitoral
No nosso nome
Tem o nome de um pau

Perseguição ideológica
Ideologia neutral
Neutro de cu é rola
O pau é também cultural

Controle da informação
Informação ficcional
A fome não é ficção
Nem a morte é banal

Apagão de combustível
Aluguel nacional
O desemprego é temível
O desgoverno, fatal

O estado é de exceção
A exceção é total
Toda prisão é política
Nem toda política, imoral

Não romantizar as massas
Num estado policial
Nem irracionais julgá-las
Ir além da greve geral!

Criar e articular
A diversidade real
É o poder popular
Democrático e radical

Lula Livre!
Marielle Vive!
Abaixo o golpe do capital!

Diane Southier é socióloga e poeta em construção

liberdade

Em tempos assim

Vanessa Dourado

Amar em tempos assim é essencial
E não interessa se vai ser invisível
É necessário cantar como Whitman
Morder os dedos logo de manhã

Amar hoje, amanhã e depois
Deixar tudo o que não foi
Caminhar como gato de rua
Transar até secar a lua

Passear por estes pântanos
E não cair em seus encantos
Que o ego também é dor
Mas o avesso é bicolor

Em tempos assim
Abraçar o estranho
Para engravidar o tempo
Para ocupar o vão

A revolução sempre foi um prato malcomido

 

Vanessa Dourado é escritora, bissexual e feminista latino-americana

esvazie-se

Travessia

Por Graça Moreira

Um caminho, o meu mais.
Mais experiência e mais vida
acrescentando sabedoria,
linha tênue que separa
a ânsia do buscar
e a tranquilidade do deixar vir,
a força do conduzir
e a calmaria do deixar-se levar.
E num aprendizado incessante
os desejos são transformados,
os valores são revistos.
A tolerância é um filtro
a paciência é melhor abrigada
a urgência desacelera.

O olhar já não é o mesmo,
agora, mais complacente, mais sereno.
O futuro é construído no presente
o presente é ser, é estar, é tudo.

Graça Moreira é psicóloga

liberdade

Liberdade para amar

Por Diane Southier

Queremos liberdade para amar!
Pelo fim da miséria da monogamia
Pra mim, pra você, em todo lugar:
Múltiplos amores e autonomia!

O casamento mata a paixão
Nos dá uma falsa segurança
Comprime a vida na aliança
Aperta, sufoca o coração

Mas engana-se quem pensa
Que ser livre é não ter compromisso
Pra amar não peça licença
Não cultive um sentimento omisso

Eu quero compromisso de lealdade
Amar até não poder mais
Não se trata de fidelidade
É amar além do que se pensa capaz.

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Nos faltan los puentes

(Foto: Artur Pires)

Por Diane Southier

¿Es posible el conocimiento sin el lenguaje?
Habla, escritura, cuerpo, gestos… comunicación
Es todo así tan distinto en el humano viaje
Culturas marcadas, individuos en objeción…
¡Miraje!
Palabra viva en connotación

Mirando cerca lo que uno siente
Son multitudes de amor…
Identidades,
Dolor.
¿Somos así tan diferentes?
¿O sólo nos faltan los puentes?

noite-estrelada

Lo indecible [o... Lenguaje y Libertad]

(Pintura: “Noite Estrelada”, de Van Gogh)

Por Diane Southier

¿Cuál es el límite de la retórica?
Me mata, me construye
es mi historia.
Cuentos del dolor
del vacío que hay que llenar
Metáforas del amor
de lo que no se puede hablar
Pero…
¿Por qué no lo podemos decir?
Ética, moral, comunidad
Palabra, omisión… ¿verdad?
Todo es hecho de nada [¡suerte!] y devenir
Práctica y teoría…
¡Praxis!
Filosofía.

22_Hemmes

Sobre abismos e utopias

(Foto: Artur Pires)

Por Diane Southier

Espero que o abismo
do qual sinto estar me aproximando
de falta de alternativas
de contingência quase absoluta
continue se afastando como o horizonte
conforme eu caminho.
O horizonte
ele sim
pleno em possibilidades…
Tenho sentido um constante pesar
sobre até onde alcança minha visão nessa caminhada
condicionada pela máxima extensão do futuro
e sua limitação perversa pelo presente.
Se eu der um salto cairei no abismo
ou poderei transpô-lo?
Existe horizonte sem abismo?
No limite, a morte.
No limiar, a liberdade.
Só uma delas existe, a outra é utopia:
horizonte necessário, articulação saudável
entre o presente inescapável e o futuro [im]possível.
À minha utopia, paradoxalmente
parece nesse momento restar-lhe
apenas
o aqui e o agora.

feira

Domingo-feira

(Ilustração: Sales)

Por Daniel Sansil

- bicicleta é?
- Ei, ei, ei, papagaio?
- Monto som de carro, viu?
- Áaaaaaagua!

eu sigo desviando
logo, logo, me canso
e me lembro da infância
“- olha pai um ganso!”

A feira da Parangaba
todo dia de domingo
se eu visse meu pai indo
já ia me arrumando

Eu não gostava de ver
os bichin tudo morrendo
mas a vida é cruel
isso eu fui aprendendo

Aprendi a não comprar
coisa de qualquer um
aprendi que existe amor
por trás de tanto enganador

Tem panelada boa
num digo o endereço
se não todo mundo vai
e logo aumenta o preço

Vez em quando passava
um capricho de fulô
num era cabra falador
mas admirado espiava

às vez aparecia poeta
eu via até cantoria
e hoje insisto em poesia
que a feira é uma festa

Daniel Sansil é isso, aquilo, acaso