Dadá-e-Corisco

Suçuarana, entre veredas e trincheiras

Dadá e Corisco no centro da imagem (Fotos: autores desconhecidos/acerco da Fundação Joaquim Nabuco)

Por Augusto Azevedo

Manhã estranha, mais uma vez sentia que o tempo não era bom. Além do seu preparo, sua sensitividade sempre tinha contribuído pra sua preservação e de quem mais estivesse junto. O que sentia naquela manhã havia de ser levado em consideração.

Foi uma travessia difícil e um confronto sobre-humano, que exigia disposição e sapiência típicas de quem sobrevivia no sertão, principalmente de quem levava a vida daquele jeito, correndo de volante, enfurnada em veredas, se embrenhando nos matos. Pra sobreviver a uma batalha daquelas tinha que ser ela ou está com essa força da natureza que até hoje faz o vento soprar de respeito e admiração.

A finda da saga se deu na Pacheco, só que foi na Lagoa da Serra que tudo se alterou. Maciço cerco de volantes. Dos sete do bando três correram, mas quem era pra ter ficado ficou e enfrentou como tinha que ser.

O cerco se fechou rápido e logo os lados se entrincheiraram. Vendo o cônjuge mal posicionado e as balas passando ela gritou sem parar de apertar o gatilho da pistola:

- Rapaz, saia daí. Tô falando pra você, saia daí.

Enquanto atirava com parabellum viu os dois destemidos companheiros eliminados ao chão e Corisco – o responsável por aquilo tudo, que a sequestrou, a violentou e que acabou com a paz de seus familiares – trocar o pente do fuzil e ser inutilizado à bala, com uma mão atravessada e um punho dependurado por pele e tendões, clamar por seu socorro.

Num ia ficar só olhando aquilo e esgotou os três pentes de sua pistola parabellum no confronto, então a suçuarana que ela sempre foi resolveu aquilo, se apegou com o que tinha e correu pra cima dos volante enfrentando rajada de metralhadora na pedrada. Não ia abrir da luta porque estava sem bala, continuou o combate usando pedras.

Aliando seu sexto sentido mais que aguçado a um senso estrategista raro e uma coragem inexplicável ganhou espaço e pode se aproximar do cônjuge, que atordoado pelo alvejo sofrido seria fatalmente abatido se não fosse pela intervenção de quem tinha feito tanto mal. Tomou pra si seu fuzil e tornou a ir pra cima daquela força militar movida por vingança e pelo interesse no espólio dos cabras derrubados.

- Eu não disse? Eu falei pra você sair daqui?

Afastando aquela praga de soldado, todos com metralhadoras, pôs valentemente Corisco no ombro e fugiu pelas veredas que apareceram.

Muita coisa estava por acontecer até sua captura, mas a partir dali Dadá se tornou a maior e derradeira liderança do que chamam até hoje de cangaço.

Dadá Grávida Autor - Desconhecido, Acervo - Fundação Joaquim Nabuco - Recife, PEAs persigas jamais apaziguaram, queixosos sob o coito do estado brasileiro, alegando vingança e reinstituição de  bens tomaram tudo que podiam dela e de seus familiares. Sua força foi outra coisa que nunca acabou, a estilista e costureira mais requisitada dos bandos que teve contato sustentou a família trabalhando como costureira, na periferia de Salvador. Como as demais mulheres que viveram entre veredas e trincheiras, tendo as crianças no meio do mato, sem as menores condições de criá-las, Dona Sérgia Ribeiro da Silva, mulher negra e pobre de país subdesenvolvido criou seus dezesseis netos trabalhando com costura.

Como passou a ter uma relação de tolerância com José Rufino, oficial chefe da volante responsável pela morte de Corisco e de sua prisão na Fazenda Pacheco, que impediu que sua tropa estraçalhasse a Suçuarana do Sertão ali mesmo na Pacheco e que perto da morte solicitou uma visita sua para pedir perdão por toda persiga empreendida, Dadá passou a ter certo respeito até de outros militares. Antes eles só tinham pavor mesmo.

Convidada a uma solenidade em um quartel na Bahia, logo após demonstrar que ainda tinha melhor tiro do que qualquer um dali se aproximou dela um militar reformado, mancando de uma perna, afirmando:

- Você é a Dadá e eu sou um homem que você deixou aleijado em confronto.

Ela de pronto indagou o senhor:

- O senhor tem certeza que quem atirou no senhor fui eu mesma? Sabe o que é? Eu não me lembro de ter atirado em perna de ninguém não. Se fosse eu quem tivesse atirado no senhor, o senhor certamente não estaria falando aqui não.

Augusto Azevedo é estudioso da fenomenologia referente ao que é conhecido vulgarmente como pobres de direita

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Bruta flor

(Ilustração: Telma Weber)

Nagle Melo

Tornar-se mulher nunca foi um mar de rosas. Fomos e somos bruxas. Queimadas na Inquisição, subjugadas e subestimadas durante todo o processo de construção familiar, desrespeitadas em todos os sentidos. Desde sempre e até hoje.

Durante um bom tempo não fomos donas de nós mesmas; de nossos desejos; de nosso sexo; de nosso corpo; de nossas profissões, de nossas artes. Nem do nosso tempo, nem do nosso ócio. Mas, não seria esta uma reflexão que muito bem cabe em nossa realidade atual? A luta continua.

Anais Nin, Simone de Beauvoir, Virgínia Woolf e tantas outras nos abriram caminhos de possibilidades de ser e estar no mundo. Caminhos estes que, em pleno século XXI, em nossa sociedade brasileira, estão cada vez mais tortuosos no sentido de incompreensão e de promoção de pensamentos equivocados a respeito da figura mulher.

Mulher sair à rua sozinha, vestida do jeito que bem entender é sinônimo de assédio sexual. Mulher ir a um bar sozinha, beber ou fazer qualquer outra coisa, significa dizer que ela, obrigatoriamente, está interessada nos homens que lá se encontram. Mulher que transa no primeiro encontro não merece respeito. Mulher que é autêntica, que grita, que fala palavrão não é mulher. Mulher que tem formação superior, carreira de prestígio, experiência de trabalho, ganha menos do que homens que se encontram na mesma posição que ela. Mulher é má. Homem é bom ou, “é homem, né?!”.

Vivemos sob uma realidade completamente machista. Tão machista, que nos ataca, nos constitui e nos transforma em mulheres machistas. Então, não é somente difícil se tornar mulher, mas também, e principalmente, se tornar mulher que tenha consciência de si e do outro enquanto outro (seja este homem ou mulher), deixando de lado a ideia de coisificação do sujeito.

Chegou a hora em que precisamos transformar ou até mesmo transcender a ideia que temos de nós mesmas e da nossa condição no mundo para que o nosso pensamento e prática atinja uma maturidade que modifique de fato o mundo. Lutar por condições de igualdade de direitos é uma prática que deve ser realizada por todos. Não basta que o homem diga que não é machista porque ama as mulheres. Amar no discurso é poesia. Amar na prática é respeito.

Nagle Melo é psicóloga, amante do ócio e escreve o que seu coração grita

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Tributo a Raul Seixas

Murais do coletivo Acidum (Fotos: João Ernesto)

João Ernesto

A chama do primeiro cigarro demorou mais que eu esperava. Planos de pegar o primeiro trem da estação de Natal até Ceará-Mirim em um sábado foram ficando para o de meio dia e quarenta. Vencer uma guerra lutando sozinho não estava nos planos, Nanda e Ygor tinham umas histórias daquele centro. Na cabeça havia umas músicas, uma em especial, do Sergio Sampaio dizendo que viajou de trem. Desde cedo, logo depois de acordar, a cantoria acompanhou os movimentos da manhã. Ceará-Mirim já me parecia um nome curioso, um pequeno Ceará vizinho à capital potiguar e é lá onde acontece a vigésima nona edição do Tributo a Raul Seixas, dito por muitos como o maior tributo do Brasil ao cantor baiano.

Admito que não me ative cronologicamente aos atos narrados aqui, o único fio condutor que bem lembro foram sentimentos, algo entre a alegria e a solidariedade esteve presente até a última cerveja tomada na cidade natal do time Globo Futebol Clube naquele dezoito de agosto. O Centro e a cidade alta, no museu da cultura popular Djalma Maranhão havia um grande mural com intervenções do Coletivo Acidum, amigos artistas que enchem os olhos de quem passa. Por onde andariam Robézio e Thereza? Registra e vamos informar o horário certo do próximo trem, tudo certo. Tempo de tomar um goró no bar do Litrão, pertinho da estação da Ribeira. Cerveja gelada nos copos e o dia se desenrolava como um gole pra uma goela seca.

As veias abertas de um dia em homenagem ao cantor baiano. Latinhas na mão e vamos pegar o trem. Primeiro vagão cantando músicas de Raul Seixas, de Aluga-se a Malandrinha (sim, teve tempo de cantar à capela o reggae de outro baiano, Edson Gomes). Nas conversas dentro do trem deu pra saber algumas coisas do vigésimo nono tributo ao Maluco Beleza: “o trem não era esse novo não, é a primeira vez que a gente tá indo de ar-condicionado”. Algo talvez considerado bom por alguém naquele vagão, provavelmente que não fosse ao tributo, porque pra boa parte dos instigados para ir ao evento era mais interessante o trem antigo: “o antigo era melhor, ele era aberto, a gente podia fumar e tudo”.

Na segurança do vagão tava Éder, primeira vez trabalhando no dia do tributo. Achando curioso, mas também já preparado pra lotação espontânea daquele dia. Ele, com um semblante tranquilo, conversou um pouco sobre como geralmente são os sábados naquele trem que depois soube que era um VLT. Ygor começou a ser Buda e prender a bexiga por pelo menos uma hora. Silencioso a maior parte do caminho por conta da vontade de mijar nos primeiros minutos de viagem. Sim, era mais de uma hora de trem e ele foi concentrando as energias pra hora certa. Passa o tempo e as cantorias, vamos pra estação de Ceará-mirinense.

cronica_jao2Engraçado notar como um evento que acontece há vinte e nove anos mantém uma tradição interessante: aglomerar pessoas de muitas idades, um aperitivo contra a caretice. Dos cabelos grisalhos a rostos sem barba, grupos de amigos tomando de Heineken a vinho barato, fumando careta e o cigarrinho do índio. Em uma mesma estação de trem existia um clima bonito de solidariedade até pra ajudar pessoas desconhecidas a manter um mínimo de privacidade para mijar na rua (independente de certo e errado, havia um motivo de solidariedade nessas pequenas manifestações de gentileza).

Umas moscas pousavam nas idéias. Pensamentos contemplativos muitos naquela tarde e sol a pino. Uma mosca questão perambulando a cabeça, perguntando quantos outros dias do ano as pessoas se destacam para ser mais solidárias com as outras. Quantos dias paramos o nosso tempo pra isso, mesmo inconscientemente? Ouvi muito naquele dia conversando com gente no meio da rua, muitos relatos, “olha, é a décima vez que venho aqui, nunca vi um relato de violência, de roubo. Todo mundo vem na paz”. Com as variantes de umas palavras, essa era a afirmação constante, nenhum fugiu a isso.

Sei lá, décima latinha. O canto da cabeça tá ficando quente e o pensamento no que escrever quando chegar em casa. A gente prefere deixar essas impressões do caminho por onde puder, a chegada traz um ponto em comum e as pessoas estão sempre em trânsito. Ano que vem vai ser o trigésimo tributo e muita dessa gente não estará mais aqui, outras tantas virão. Preciso lembrar que quando começar a estacionar a solidariedade pode ser um clímax genial para o nosso pensamento, pequenas certezas que o mundo nos oferece. Que a mensagem de um artista possa ajudar a fazer o pessoal jogar junto, jogar pra frente. Daqui um tempo vem eleição e com ela toda essa história de mentira, de disputa por poder. Ficam uns ensinamentos de horizontalidade que o social pode oferecer na música, na poesia, na vida.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

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Casamento de Raposa

Por Thiago Noronha

Quando eu era criança, eu achava que o Sol e a Chuva eram inimigos e ficavam brigando entre si.

O Sol era o mais poderoso de todos. Uma projeção de herói dourado e fortão. A Chuva era fraca, mas traiçoeira. Uma mulher bonita de cabelos brancos, vestindo trapos cinzas rasgados e escondendo punhais de prata nas dobras do tecido.

Por fatores meteorológicos da cidade onde nasci, a Chuva vinha pouco, e à noite: o sereno. Tímida, usufruindo da fraqueza noturna de seu adversário. E nunca chovia forte durante o dia, mesmo nos meses mais chuvosos. Chuva forte eram as da madrugada.

As nuvens roxas eram o exército da Mulher Cinza. Os trovões, fortes guerreiros. Os ventos eram apenas vítimas, pois esses eram amigos leais dos dias ensolarados. O sol não precisava de exércitos, matava as nuvens a espadadas flamejantes.

Os dias nublados eram os dias em que a Chuva havia derrotado o Sol. Eu odiava dias de chuva, pois significavam que o meu “super-herói” favorito tinha perdido. Mas ele estava apenas se recuperando. Voltaria com tudo. Em dias nublados as nuvens se reproduzem e tomam todo o céu. E até as pobres estrelas, que só têm a noite, vêem-se vítimas da cruel mulher sem compaixão e seu exército de corpulentos guerreiras roxas.

Se os dias nublados eram consecutivos, eu dizia que o Sol tinha sido gravemente ferido e estava demorando mais para se recuperar. Mas quando voltava, dava uma surra tão pesada na Chuva que essa, muitas vezes, não aparecia por semanas.

Aí, vi na TV que o sol estava fazendo maldades no sertão. Fiquei magoado. Traído. Torci pela Mulher Cinza. Mas foi só por um tempo.

A covardia maior vinha quando a Chuva atacava nos finais de semana. Durante a semana, o Sol tá lá, como todos os adultos, trabalhando, vigiando. No final de semana, o Sol tira a armadura, põe uma bermuda, toma uma cerveja antes do almoço, vai para a praia. Atacar o Sol nesses dias é uma puta maldade.

Aí, fui a uma missa no dia de São José. Nesse dia, todo mundo reza pela vitória da Chuva para que as plantas não morram de sede. Aí eu achava que São José sempre “descia” dia 19 de março e se juntava a Chuva para lutar contra o Sol e ajudar os humanos. Lá estava eu forçado a torcer contra o meu ídolo imaginário, novamente. E São José deve ser um grande guerreiro, porque lembro de dias chuvosos e notícias esperançosas na TV.

Uma vez choveu no casamento de uma prima do lado materno. Segundo minha mãe, choveu naquele casamento porque a noiva não tinha feito a promessa da noiva.

— O que é a promessa da noiva?

— A noiva, meses antes de casar, passa um dia inteiro numa igreja rezando para que não venha chuva no dia do casamento. E para não engordar também.

Então Deus mandava um guerreiro muito poderoso que ficava guardando aquele dia contra os ataques da chuva.

Quando a noiva tinha feito a promessa e mesmo assim chovia, é porque ela não era pura. Eu não entendi isso mas não questionei.

Hoje em dia, as mulheres, pela “impureza” geracional ou por preguiça de irem à igreja, preferem ambientes cobertos.

Aí, fui em Belém e vi que lá a Chuva havia achado um dos pontos fracos do Sol e todos os dias o derrotava no fim de tarde.

Na Irlanda, o exército de nuvens da chuva é mais resistente e forte, pensei eu aos vinte e dois.

No verão carioca, torce-se por um ataque surpresa e rápido da chuva para enfraquecer o sol, aprendi aos vinte e três.

Bom mesmo é quando o sol e a chuva brincam juntos no céu. Fazem as pazes por breves instantes. E todo o céu fica bonito. É hora de sair na rua de pés descalços e tomar banho de chuva. Pisar com força nas poças de água. Casamento de Raposa.

Essas raposas devem ser muito impuras ou nada religiosas, concluo, aos vinte e cinco.

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

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Para Ler No Vaso

Por Thiago Noronha

Os banheiros são os cômodos mais sinceros de uma casa. Um banheiro diz muito sobre os usuários e suas rotinas. Pego-me a recordar, na manhã de uma quarta nada especial, dos muitos banheiros em que já estive.

Certa vez, mataram um homem dentro do banheiro de um bar na esquina da minha casa. Briga de bar, concluíram durante as incontáveis narrações do ocorrido. E, naquela época, em que a publicidade era algo tão rudimentar na periferia de Fortaleza, o “conta-reconta” gerou um movimento de curiosos que iam tomar aquela cervejinha no bar e entre um assunto e outro, olhar de relance a porta do tal banheiro. O bar acabou mudando o nome de ‘Bar Irmãos Peixoto’ para ‘Bar do Banheiro’. Muito bêbado metido a valente segurou xixi só para não se pôr à prova das tais histórias do banheiro assombrado.

Quando se ia mijar, tinha que dizer bem baixinho três vezes: ‘com licença seu homem do banheiro’. Se você cagava no banheiro, a alma do tal do homem te puxava para dentro do vaso pelas tripas. Talvez fosse verídico, ou talvez o dono do bar quisesse evitar entupimentos e apenas criou a história toda.
Uma vez, dividi apartamento com duas irmãs que compartilhavam um quarto. Impossibilitadas de encontros sexuais em suas camas, pela presença da irmã, não eram raras as vezes em que eu acordava pelos gemidos abafados vindos do banheiro. Era interessante e curioso. Sempre me perguntava onde elas se apoiavam para o sexo se tudo ali era sempre tão gelado, até que, em um momento epifânico, encarei a tábua de passar roupa inocentemente, e desde sempre, guardada atrás da porta do banheiro. Lembro dos tons alaranjados da almofada daquela tábua. Por muitas vezes a imagem dela montada no centro do banheiro me veio à cabeça.

” – Quem nunca transou num banheiro né?!… químico”

Um amigo muito estranho, muito mesmo, narrou-me, certa vez, todas as informações que ele sabia sobre os moradores da casa em que vivia: uma republica universitária. As marcas favoritas de camisinha de cada um. O ciclo menstrual das mulheres. A alimentação e saúde intestinal. A quantidade de vezes por dia em que o china se masturbava e jogava os lencinhos umedecidos impregnados de porra no cesto de lixo, deixando toda aquele cheiro de punheta alheia. O tempo que cada um leva para evacuar. As mudanças de perfume. Depilação. Uma das garotas toma banhos longos em dias tristes. Ele é muito estranho, esse meu amigo.

“- O que você está esperando de um sábado quando raspa o saco às 18:55?”

Lembro de, nostalgicamente, perguntar a minha mãe qual tinha sido o momento mais feliz que ela lembrava de ter tido comigo. Ela respondeu que foi quando eu era criancinha; em um banheiro.
A primeira vez em que eu aprendi a cagar no vaso. Veio nela todo o sentimento de que nunca mais precisaria trocar uma fralda na vida. Foi lindo e libertador, ela disse. Eu lembro que eu gostava de apertar a descarga, mas não alcançava. Aí ela me levantava no colo e dizia:

– Um homem deve se livrar das próprias merdas.

– Tchau merda!

Meu amigo, o estranho, até hoje dá tchau para a merda no vaso. Às vezes, distraído, diz ‘falou’ ou ‘até’, ‘valeu’, ‘é nós!’.

Na parte de trás da porta do banheiro da firma, frases motivacionais para você bater as metas. No banheiro da igreja, um questionamento em piloto vermelho: Deus existe mesmo? Na terceira cabine do banheiro masculino do terceiro andar da faculdade de história, uma frase rápida e direta avisa que o Paulo aparece todas as sextas-feiras às 20h e chupa até as bolas.

Um antigo colega de trabalho tinha o costume de ouvir tango enquanto cagava. Era interessante abrir a porta do banheiro da firma e ouvir toda aquela sofrência argentina vinda de um dos privados. Deve haver alguém por aí que caga ao som de Maiara e Maraísa. E gente que transa ouvido Roberto Carlos. Essa é a graça do mundo: tem de tudo.
Na firma, já se comentava do costume acústico envolvendo as cagadas do fulano lá. Ganhou o apelido de Gardel. O Gardel é um cara legal, mas tudo o que me vem à cabeça quando vejo uma foto dele no Instagram é o tango da defecação.

Encaro o espelho e seus inúmeros pingos de pasta de dente. O que o seu banheiro diria sobre você?

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

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Minha Vida é uma arte

Um dos trabalhos artísticos de Wesley com fogo

Por Wesley D´Amico

Minha Vida é uma arte.

Tive que sujar as mãos de graxa, cortar lenha, derreter metais, e fazer joias, para um dia ser artista plástico, todas essas profissões me ajudaram com arte.

Usei a mecânica para fazer meus quadros com geometria.

Usei meus meses de lenhador para fazer meus cartões de visita de madeira.

Usei meus meses com fundição para fazer uma tela que resistisse ao fogo.

Usei meu curso de joalheria para fazer micro arte.

Comecei minha vida na graxa de Deus, isso mesmo, não é graça de Deus, é graxa mesmo, preta e suja, e nunca pensei em colorir minha vida, estava feliz sendo mecânico, mas a vida tinha planos para mim. Assim estou hoje, sendo um artista plástico com desafios de mercado, sem vender, sobrevivo da mecânica e uso o dinheiro da mecânica para conseguir manter a arte.

Não para por aí, quando eu tinha ateliê um senhor me disse que minhas telas eram de “nível galeria”. Então mandei e-mail para maioria das galerias de São Paulo, sem sucesso, recebi as respostas assim: “minha galeria está lotada”, “minhas paredes estão lotadas”, “o quadro de artistas está completo”, “sua arte não é perfil da galeria”, fora as outras que não responderam, mas não desisti, fui lá pessoalmente, de cara já escutei um “Wesley, não é o artista que vem até a galeria, quando ele é bom, a galeria vai até o artista”.

Outra coisa: para expor em galeria, tem que pagar, e não é barato e não tem garantia de venda. Desde 2004 trabalho com arte, moro atualmente no interior de São Paulo e nunca imaginei ser um artista plástico, quando morava em São Paulo sempre passava na frente de museus e nunca me chamou atenção e hoje saio de Mombuca para visitar museus de São Paulo.

Confesso que pela minha dificuldade de mercado e de críticas, a arte não me atrai por sua história e dificuldade. Mas aos 5 anos gostava de desmontar meus carrinhos para ver como funcionava e aos 10 fiz meu primeiro barco, ficou incrível, minha tia tentou vender e sem sucesso deixou em um bar para decorar e tentar vender, lembro que era muito caro, mas até hoje não sei que fim deu.

Para fazer esse barco caminhava por sete quarteirões para chegar a uma marcenaria e pedir folhas finas de madeira cerejeira. Depois da dificuldade de venda, acho que desanimei de fazer algo assim, mas lembro que quando peguei um ônibus com a minha tia para levar o barco para uma cliente, os passageiros perguntavam quem havia feito e me deram parabéns. Mas a cliente da minha tia não comprou o barco. Acho que era de um time de futebol que ela não gostou.

Sou Wesley D’Amico, artista brasileiro, nascido em 1978.

Conheça mais do trabalho do artista:

https://issuu.com/wesleydamico/docs/codigo_para_minha_alma 

wesleydamico@gmai.com

 

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O espaço de Jangu

(Foto: Johnny Herman)

Por Rômulo Silva

Jangu fitou os olhos na avenida fronteiriça.

Dois rios paralelos e barulhentos. Um deságua sentido Bom Jardim – parente próximo de Jangu, quem sabe… o outro corre para os braços do irmão Curió – sangue latino e ainda por cima cantor. Não se ouve música, só luto: 12 de novembro de 2015, a maior chacina da história do Ceará jamais será esquecida. Seus algozes, inclusive, estão em liberdade, enquanto onze jovens estão encerrados na sepultura nos levando a gritar contra as injustiças e negligências praticadas pelo Estado. Jangu caminha ao lado da guerreira Dona Edna Carla (mãe de Alef Souza Cavalcante), transformando dia após dia “luto em luta”.

Embora ambos os rios sejam conhecidos como “Perimetral” – estamos no perímetro – , que recentemente alguém teve a ousadia, covardia, aliás, de batizá-los de “Presidente Costa e Silva” – até hoje o AI-5 elimina as liberdades públicas e democráticas (palavrões para o jovem negro Jangu). “Querem ressuscitar Costa e Silva? Desejam oficializar o que nunca acabou?”, não foram estas as perguntas de Jangu.

O concreto do rio se dissolve, evapora entre fluxos de vida ou de morte – termos que Jangu não faz distinção, tudo para jovens como ele é ensaio e é valendo, intenso. Vem um sonho e um desejo, ambos são atravessados pelas condições materiais, pelo preço que se pode pagar.

Do lado de lá do rio está escrito a palavra “União” – esta palavra está picotada de recados outros, desejos outros, inquietações outras – rebeldia e autonomia – vontade de potência!

O ninho utópico que Jangu visita, habita inclusive, é marcado pelos abraços demorados; rede tecida por fios [in]visíveis, amarradas por nós (nós?) da Tribo. Jangu pára por um instante e pergunta-se: que Tribo é esta? Ela parece não ter nome e talvez não queira um, mas está lá, ela existe porque Jangu existe.

Jangu, vez ou outra navega por mares pouco desbravados; viagem sem malas prontas. Jangu não é o único jovem a desejar conhecer mundos outros, experimentar outros mundos e sair de si mesmo, alcançar o que chamamos genericamente de liberdade. Corpos utópicos caminhando sobre veredas heterotópicas…

O jovem Jangu prova e sente na pele e no estômago a força do deus Capital. Sobre este deus não sabemos se ele é um velhinho que possui barba branca, se é um homem de meia idade burocrata ou se é um bicho, uma sanguessuga, talvez? Para Jangu analisar do que é feito esse bicho não importa agora. O que conta é a oportunidade dada. De onde ela vem, o que ela me proporciona? Ela mata o filho negro do “bicho Capital” chamado Fome? Entre promessas e filas, a oportunidade vem através do “corre do louco” empregatício [in] visível – o preço do sangue que escorre arquibancadas. Jangu vive! Salve salve Jonas Skilf e Alef Lorim.

Jangu, às vezes sem saber, cospe na cara da hipocrisia religiosa e quebra os códigos morais e hierárquicos das Fortalezas. Quem disse que alimento pra cabeça não mata a fome de ninguém? Quem foi o pilantra que disse isso aí?

O ninho utópico existe dentro e fora da mente de Jangu. Ele pode ser a bela vista, pode ser o nascer e pôr-do-sol: a soma dos abraços esperançosos, do racha improvisado em círculos. Pode ser palco da noite ensolarada: razão dos bailes autônomos. “- Chega aê no rolezinho ou no reggae pra dançar agarradinho.” Arena das resistências por vezes planejadas, o espaço outro onde somos lançados para fora de nós mesmos.

Jangu carrega consigo sorrisos espontâneos e gestos aleatórios, [in]definidos em si. Beija na boca do garoto e da garota e celebra o amor. O corpo castigado e criminalizado é uma festa intensa. De Jangu transborda sentimentos que não cabe dentro de si – não cabe em um poema ou em uma prosa; mas pode ser visto [percebido] na lágrima incontida e compartilhada, no repartir do pão das memórias feitas do concreto [dos afetos].

Jan [janelas] / gu [guris] / ru [rua] / ssu [suave].

Rômulo Silva é morador do Jangu e mestrando em Sociologia

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No presídio o comunismo é mais legítimo do que na universidade

Por Jardson Remido

Ontem conversando com a minha companheira sobre os amargos que passei nas grades insalubres do sistema socioeducativo inútil, discorri sobre a união, o agregar, o repartir. Falei quando fui pra tranca onde só tinha uma pedra – local onde os internos dormem, onde a estrutura se parece mais um túmulo – pra dez elementos. Nos interlúdios da madrugada, os semelhantes alternavam os locais onde descansavam, iam dois pra pedra, e os demais se deitavam no chão molhado, imundo. Alguns deitavam perto do banheiro, a privada, que chamamos bojo, era no chão, onde os ratos faziam integração de cela em cela usando o buraco da privada como canal de ligação. Um interno foi mordido por um rato, na orelha, com risco de adquirir leptospirose. E eu peguei uma impingem na região das pernas.

Acordávamos quatro da matina pra tomar uma ducha rápida com duração rígida de um minuto. Voltávamos pra cela, e nos enxugávamos pulando até secarmos. A gente tinha que esperar o chão secar, pra gente deitar. Deitávamos um perto do outro pra produzir calor. Nossa merenda era água suja, o almoço às 11h e a janta às 19h. Depois disso era troca de ideia, pra nos conhecermos, formar e fortificar vínculos. Depois de dois dias, subi pra ala mais “saudável”, e não recebi visita da minha mãe durante esse período de crise existencial. Na minha compreensão, ela não tinha estruturas emocionais e psicológicas de me visitar. Fiquei depressivo, chorei, um cara que não conhecia e nem sabia o nome chorou comigo. Lia livros paradidáticos que pegava escondido e uma bíblia empoeirada. Fazia artesanatos. Comia 6, 7 vezes por dia. Meus semelhantes fortaleciam, me doando lanche extra, recheados, doces, refrigerantes. Doavam desodorante, colchão, roupas e escova de dente. Na hora da merenda, que a gente promovia antes de dormir, a gente repartia a risca, bem certim, ali era o comunismo na prática e não sabia eu.

A gente escrevia, cantava RAP colado na grade. Orávamos todos juntos. Nosso patrimônio era a Fé. Me identificava com os demais, me via em cada semblante portador de olhar indefinido e sorriso cicatrizado. Minha saúde mental estava em estado muito delicado, mas graças a Deus que me presenteou com meus semelhantes, fui resistindo, eles me faziam companhia, oravam por mim, se preocupavam comigo, perguntavam se eu já tinha me alimentado. Aprendi muito valor, muito conceito, aprendi que somos um organismo, a união. Quando ganhei o ofício de soltura, muitos se emocionaram, resmungando saudades e reivindicando me ver fora do crime. Enfim. O que quero trazer é que no presídio o comunismo é mais legítimo do que na universidade. E a verdade está do lado dos oprimidos. Deus pôs a poesia no meu caminho, pra não atravessar o do playboy gritando o assalto, dando tiro. Amém? Amemos!

Jardson Remido é poeta marginal, de rua, trocou a quadrada na cintura pelo livro na mochila

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Democracia I

Por Vanessa Dourado

Os anos tinham passado, ela não percebeu que foi morrendo aos poucos. Não percebeu que o interesse já não era o mesmo, que as pessoas só queriam usá-la para garantir sua própria satisfação. Insistiu, resistiu. Ameaçada, quis falar, denunciar, protestar. Não deu certo. Todos viam. Ninguém admitia, porém. Não queriam perdê-la, mas ela tinha se transformado naquilo que fizeram dela. Meio ao desespero, reinventou-se. Mas não conseguiu reencontrar a si mesma. Queria acabar logo com tudo aquilo. Queria nascer de novo. Queria sentir a liberdade das ruas, os gritos dos pássaros, o encontro com o mundo. Mas não queria o mesmo mundo, aquele velho mundo já não era mais para ela.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Os idiotas (II)

(Pintura: Iberê Camargo)

Por Vanessa Dourado

Já passado o momento da doutrinação midiática – coisa que não precisou de muito tempo, pois havia pouca capacidade analítica -, os idiotas começaram a fazer as reformas. Estas, que até então serviam para melhorar algo que não andava bem, passaram a ser um instrumento de lesa-inteligência, mas os idiotas doutrinados não podiam perceber o que estava acontecendo.

Alguém gritou que o papel higiênico acabaria rapidamente e que não haveria mais comida nas gôndolas dos mercados, todos alarmados resolveram apoiar as tais reformas, já imaginando como seria o mundo sem que suas necessidades básicas fossem atendidas. Mas também gritou alguém que as passagens para Miami ficariam mais baratas e que o caviar seria vendido a preço de banana. Um alvoroço, todos compraram o jornal do dia seguinte, aplaudindo as Santas Reformas.

Era preciso mais ainda, era preciso ser idiota desde pequeno, ainda no berço. Essa doutrinação era muito necessária, disse alguém. Resolveram dar um jeito nisso e em um banquete, que deixaria Platão envergonhado, foram felizes por duas décadas.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana