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Tributo a Raul Seixas

Murais do coletivo Acidum (Fotos: João Ernesto)

João Ernesto

A chama do primeiro cigarro demorou mais que eu esperava. Planos de pegar o primeiro trem da estação de Natal até Ceará-Mirim em um sábado foram ficando para o de meio dia e quarenta. Vencer uma guerra lutando sozinho não estava nos planos, Nanda e Ygor tinham umas histórias daquele centro. Na cabeça havia umas músicas, uma em especial, do Sergio Sampaio dizendo que viajou de trem. Desde cedo, logo depois de acordar, a cantoria acompanhou os movimentos da manhã. Ceará-Mirim já me parecia um nome curioso, um pequeno Ceará vizinho à capital potiguar e é lá onde acontece a vigésima nona edição do Tributo a Raul Seixas, dito por muitos como o maior tributo do Brasil ao cantor baiano.

Admito que não me ative cronologicamente aos atos narrados aqui, o único fio condutor que bem lembro foram sentimentos, algo entre a alegria e a solidariedade esteve presente até a última cerveja tomada na cidade natal do time Globo Futebol Clube naquele dezoito de agosto. O Centro e a cidade alta, no museu da cultura popular Djalma Maranhão havia um grande mural com intervenções do Coletivo Acidum, amigos artistas que enchem os olhos de quem passa. Por onde andariam Robézio e Thereza? Registra e vamos informar o horário certo do próximo trem, tudo certo. Tempo de tomar um goró no bar do Litrão, pertinho da estação da Ribeira. Cerveja gelada nos copos e o dia se desenrolava como um gole pra uma goela seca.

As veias abertas de um dia em homenagem ao cantor baiano. Latinhas na mão e vamos pegar o trem. Primeiro vagão cantando músicas de Raul Seixas, de Aluga-se a Malandrinha (sim, teve tempo de cantar à capela o reggae de outro baiano, Edson Gomes). Nas conversas dentro do trem deu pra saber algumas coisas do vigésimo nono tributo ao Maluco Beleza: “o trem não era esse novo não, é a primeira vez que a gente tá indo de ar-condicionado”. Algo talvez considerado bom por alguém naquele vagão, provavelmente que não fosse ao tributo, porque pra boa parte dos instigados para ir ao evento era mais interessante o trem antigo: “o antigo era melhor, ele era aberto, a gente podia fumar e tudo”.

Na segurança do vagão tava Éder, primeira vez trabalhando no dia do tributo. Achando curioso, mas também já preparado pra lotação espontânea daquele dia. Ele, com um semblante tranquilo, conversou um pouco sobre como geralmente são os sábados naquele trem que depois soube que era um VLT. Ygor começou a ser Buda e prender a bexiga por pelo menos uma hora. Silencioso a maior parte do caminho por conta da vontade de mijar nos primeiros minutos de viagem. Sim, era mais de uma hora de trem e ele foi concentrando as energias pra hora certa. Passa o tempo e as cantorias, vamos pra estação de Ceará-mirinense.

cronica_jao2Engraçado notar como um evento que acontece há vinte e nove anos mantém uma tradição interessante: aglomerar pessoas de muitas idades, um aperitivo contra a caretice. Dos cabelos grisalhos a rostos sem barba, grupos de amigos tomando de Heineken a vinho barato, fumando careta e o cigarrinho do índio. Em uma mesma estação de trem existia um clima bonito de solidariedade até pra ajudar pessoas desconhecidas a manter um mínimo de privacidade para mijar na rua (independente de certo e errado, havia um motivo de solidariedade nessas pequenas manifestações de gentileza).

Umas moscas pousavam nas idéias. Pensamentos contemplativos muitos naquela tarde e sol a pino. Uma mosca questão perambulando a cabeça, perguntando quantos outros dias do ano as pessoas se destacam para ser mais solidárias com as outras. Quantos dias paramos o nosso tempo pra isso, mesmo inconscientemente? Ouvi muito naquele dia conversando com gente no meio da rua, muitos relatos, “olha, é a décima vez que venho aqui, nunca vi um relato de violência, de roubo. Todo mundo vem na paz”. Com as variantes de umas palavras, essa era a afirmação constante, nenhum fugiu a isso.

Sei lá, décima latinha. O canto da cabeça tá ficando quente e o pensamento no que escrever quando chegar em casa. A gente prefere deixar essas impressões do caminho por onde puder, a chegada traz um ponto em comum e as pessoas estão sempre em trânsito. Ano que vem vai ser o trigésimo tributo e muita dessa gente não estará mais aqui, outras tantas virão. Preciso lembrar que quando começar a estacionar a solidariedade pode ser um clímax genial para o nosso pensamento, pequenas certezas que o mundo nos oferece. Que a mensagem de um artista possa ajudar a fazer o pessoal jogar junto, jogar pra frente. Daqui um tempo vem eleição e com ela toda essa história de mentira, de disputa por poder. Ficam uns ensinamentos de horizontalidade que o social pode oferecer na música, na poesia, na vida.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

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Casamento de Raposa

Por Thiago Noronha

Quando eu era criança, eu achava que o Sol e a Chuva eram inimigos e ficavam brigando entre si.

O Sol era o mais poderoso de todos. Uma projeção de herói dourado e fortão. A Chuva era fraca, mas traiçoeira. Uma mulher bonita de cabelos brancos, vestindo trapos cinzas rasgados e escondendo punhais de prata nas dobras do tecido.

Por fatores meteorológicos da cidade onde nasci, a Chuva vinha pouco, e à noite: o sereno. Tímida, usufruindo da fraqueza noturna de seu adversário. E nunca chovia forte durante o dia, mesmo nos meses mais chuvosos. Chuva forte eram as da madrugada.

As nuvens roxas eram o exército da Mulher Cinza. Os trovões, fortes guerreiros. Os ventos eram apenas vítimas, pois esses eram amigos leais dos dias ensolarados. O sol não precisava de exércitos, matava as nuvens a espadadas flamejantes.

Os dias nublados eram os dias em que a Chuva havia derrotado o Sol. Eu odiava dias de chuva, pois significavam que o meu “super-herói” favorito tinha perdido. Mas ele estava apenas se recuperando. Voltaria com tudo. Em dias nublados as nuvens se reproduzem e tomam todo o céu. E até as pobres estrelas, que só têm a noite, vêem-se vítimas da cruel mulher sem compaixão e seu exército de corpulentos guerreiras roxas.

Se os dias nublados eram consecutivos, eu dizia que o Sol tinha sido gravemente ferido e estava demorando mais para se recuperar. Mas quando voltava, dava uma surra tão pesada na Chuva que essa, muitas vezes, não aparecia por semanas.

Aí, vi na TV que o sol estava fazendo maldades no sertão. Fiquei magoado. Traído. Torci pela Mulher Cinza. Mas foi só por um tempo.

A covardia maior vinha quando a Chuva atacava nos finais de semana. Durante a semana, o Sol tá lá, como todos os adultos, trabalhando, vigiando. No final de semana, o Sol tira a armadura, põe uma bermuda, toma uma cerveja antes do almoço, vai para a praia. Atacar o Sol nesses dias é uma puta maldade.

Aí, fui a uma missa no dia de São José. Nesse dia, todo mundo reza pela vitória da Chuva para que as plantas não morram de sede. Aí eu achava que São José sempre “descia” dia 19 de março e se juntava a Chuva para lutar contra o Sol e ajudar os humanos. Lá estava eu forçado a torcer contra o meu ídolo imaginário, novamente. E São José deve ser um grande guerreiro, porque lembro de dias chuvosos e notícias esperançosas na TV.

Uma vez choveu no casamento de uma prima do lado materno. Segundo minha mãe, choveu naquele casamento porque a noiva não tinha feito a promessa da noiva.

— O que é a promessa da noiva?

— A noiva, meses antes de casar, passa um dia inteiro numa igreja rezando para que não venha chuva no dia do casamento. E para não engordar também.

Então Deus mandava um guerreiro muito poderoso que ficava guardando aquele dia contra os ataques da chuva.

Quando a noiva tinha feito a promessa e mesmo assim chovia, é porque ela não era pura. Eu não entendi isso mas não questionei.

Hoje em dia, as mulheres, pela “impureza” geracional ou por preguiça de irem à igreja, preferem ambientes cobertos.

Aí, fui em Belém e vi que lá a Chuva havia achado um dos pontos fracos do Sol e todos os dias o derrotava no fim de tarde.

Na Irlanda, o exército de nuvens da chuva é mais resistente e forte, pensei eu aos vinte e dois.

No verão carioca, torce-se por um ataque surpresa e rápido da chuva para enfraquecer o sol, aprendi aos vinte e três.

Bom mesmo é quando o sol e a chuva brincam juntos no céu. Fazem as pazes por breves instantes. E todo o céu fica bonito. É hora de sair na rua de pés descalços e tomar banho de chuva. Pisar com força nas poças de água. Casamento de Raposa.

Essas raposas devem ser muito impuras ou nada religiosas, concluo, aos vinte e cinco.

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

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Para Ler No Vaso

Por Thiago Noronha

Os banheiros são os cômodos mais sinceros de uma casa. Um banheiro diz muito sobre os usuários e suas rotinas. Pego-me a recordar, na manhã de uma quarta nada especial, dos muitos banheiros em que já estive.

Certa vez, mataram um homem dentro do banheiro de um bar na esquina da minha casa. Briga de bar, concluíram durante as incontáveis narrações do ocorrido. E, naquela época, em que a publicidade era algo tão rudimentar na periferia de Fortaleza, o “conta-reconta” gerou um movimento de curiosos que iam tomar aquela cervejinha no bar e entre um assunto e outro, olhar de relance a porta do tal banheiro. O bar acabou mudando o nome de ‘Bar Irmãos Peixoto’ para ‘Bar do Banheiro’. Muito bêbado metido a valente segurou xixi só para não se pôr à prova das tais histórias do banheiro assombrado.

Quando se ia mijar, tinha que dizer bem baixinho três vezes: ‘com licença seu homem do banheiro’. Se você cagava no banheiro, a alma do tal do homem te puxava para dentro do vaso pelas tripas. Talvez fosse verídico, ou talvez o dono do bar quisesse evitar entupimentos e apenas criou a história toda.
Uma vez, dividi apartamento com duas irmãs que compartilhavam um quarto. Impossibilitadas de encontros sexuais em suas camas, pela presença da irmã, não eram raras as vezes em que eu acordava pelos gemidos abafados vindos do banheiro. Era interessante e curioso. Sempre me perguntava onde elas se apoiavam para o sexo se tudo ali era sempre tão gelado, até que, em um momento epifânico, encarei a tábua de passar roupa inocentemente, e desde sempre, guardada atrás da porta do banheiro. Lembro dos tons alaranjados da almofada daquela tábua. Por muitas vezes a imagem dela montada no centro do banheiro me veio à cabeça.

” – Quem nunca transou num banheiro né?!… químico”

Um amigo muito estranho, muito mesmo, narrou-me, certa vez, todas as informações que ele sabia sobre os moradores da casa em que vivia: uma republica universitária. As marcas favoritas de camisinha de cada um. O ciclo menstrual das mulheres. A alimentação e saúde intestinal. A quantidade de vezes por dia em que o china se masturbava e jogava os lencinhos umedecidos impregnados de porra no cesto de lixo, deixando toda aquele cheiro de punheta alheia. O tempo que cada um leva para evacuar. As mudanças de perfume. Depilação. Uma das garotas toma banhos longos em dias tristes. Ele é muito estranho, esse meu amigo.

“- O que você está esperando de um sábado quando raspa o saco às 18:55?”

Lembro de, nostalgicamente, perguntar a minha mãe qual tinha sido o momento mais feliz que ela lembrava de ter tido comigo. Ela respondeu que foi quando eu era criancinha; em um banheiro.
A primeira vez em que eu aprendi a cagar no vaso. Veio nela todo o sentimento de que nunca mais precisaria trocar uma fralda na vida. Foi lindo e libertador, ela disse. Eu lembro que eu gostava de apertar a descarga, mas não alcançava. Aí ela me levantava no colo e dizia:

– Um homem deve se livrar das próprias merdas.

– Tchau merda!

Meu amigo, o estranho, até hoje dá tchau para a merda no vaso. Às vezes, distraído, diz ‘falou’ ou ‘até’, ‘valeu’, ‘é nós!’.

Na parte de trás da porta do banheiro da firma, frases motivacionais para você bater as metas. No banheiro da igreja, um questionamento em piloto vermelho: Deus existe mesmo? Na terceira cabine do banheiro masculino do terceiro andar da faculdade de história, uma frase rápida e direta avisa que o Paulo aparece todas as sextas-feiras às 20h e chupa até as bolas.

Um antigo colega de trabalho tinha o costume de ouvir tango enquanto cagava. Era interessante abrir a porta do banheiro da firma e ouvir toda aquela sofrência argentina vinda de um dos privados. Deve haver alguém por aí que caga ao som de Maiara e Maraísa. E gente que transa ouvido Roberto Carlos. Essa é a graça do mundo: tem de tudo.
Na firma, já se comentava do costume acústico envolvendo as cagadas do fulano lá. Ganhou o apelido de Gardel. O Gardel é um cara legal, mas tudo o que me vem à cabeça quando vejo uma foto dele no Instagram é o tango da defecação.

Encaro o espelho e seus inúmeros pingos de pasta de dente. O que o seu banheiro diria sobre você?

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

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Minha Vida é uma arte

Um dos trabalhos artísticos de Wesley com fogo

Por Wesley D´Amico

Minha Vida é uma arte.

Tive que sujar as mãos de graxa, cortar lenha, derreter metais, e fazer joias, para um dia ser artista plástico, todas essas profissões me ajudaram com arte.

Usei a mecânica para fazer meus quadros com geometria.

Usei meus meses de lenhador para fazer meus cartões de visita de madeira.

Usei meus meses com fundição para fazer uma tela que resistisse ao fogo.

Usei meu curso de joalheria para fazer micro arte.

Comecei minha vida na graxa de Deus, isso mesmo, não é graça de Deus, é graxa mesmo, preta e suja, e nunca pensei em colorir minha vida, estava feliz sendo mecânico, mas a vida tinha planos para mim. Assim estou hoje, sendo um artista plástico com desafios de mercado, sem vender, sobrevivo da mecânica e uso o dinheiro da mecânica para conseguir manter a arte.

Não para por aí, quando eu tinha ateliê um senhor me disse que minhas telas eram de “nível galeria”. Então mandei e-mail para maioria das galerias de São Paulo, sem sucesso, recebi as respostas assim: “minha galeria está lotada”, “minhas paredes estão lotadas”, “o quadro de artistas está completo”, “sua arte não é perfil da galeria”, fora as outras que não responderam, mas não desisti, fui lá pessoalmente, de cara já escutei um “Wesley, não é o artista que vem até a galeria, quando ele é bom, a galeria vai até o artista”.

Outra coisa: para expor em galeria, tem que pagar, e não é barato e não tem garantia de venda. Desde 2004 trabalho com arte, moro atualmente no interior de São Paulo e nunca imaginei ser um artista plástico, quando morava em São Paulo sempre passava na frente de museus e nunca me chamou atenção e hoje saio de Mombuca para visitar museus de São Paulo.

Confesso que pela minha dificuldade de mercado e de críticas, a arte não me atrai por sua história e dificuldade. Mas aos 5 anos gostava de desmontar meus carrinhos para ver como funcionava e aos 10 fiz meu primeiro barco, ficou incrível, minha tia tentou vender e sem sucesso deixou em um bar para decorar e tentar vender, lembro que era muito caro, mas até hoje não sei que fim deu.

Para fazer esse barco caminhava por sete quarteirões para chegar a uma marcenaria e pedir folhas finas de madeira cerejeira. Depois da dificuldade de venda, acho que desanimei de fazer algo assim, mas lembro que quando peguei um ônibus com a minha tia para levar o barco para uma cliente, os passageiros perguntavam quem havia feito e me deram parabéns. Mas a cliente da minha tia não comprou o barco. Acho que era de um time de futebol que ela não gostou.

Sou Wesley D’Amico, artista brasileiro, nascido em 1978.

Conheça mais do trabalho do artista:

https://issuu.com/wesleydamico/docs/codigo_para_minha_alma 

wesleydamico@gmai.com

 

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O espaço de Jangu

(Foto: Johnny Herman)

Por Rômulo Silva

Jangu fitou os olhos na avenida fronteiriça.

Dois rios paralelos e barulhentos. Um deságua sentido Bom Jardim – parente próximo de Jangu, quem sabe… o outro corre para os braços do irmão Curió – sangue latino e ainda por cima cantor. Não se ouve música, só luto: 12 de novembro de 2015, a maior chacina da história do Ceará jamais será esquecida. Seus algozes, inclusive, estão em liberdade, enquanto onze jovens estão encerrados na sepultura nos levando a gritar contra as injustiças e negligências praticadas pelo Estado. Jangu caminha ao lado da guerreira Dona Edna Carla (mãe de Alef Souza Cavalcante), transformando dia após dia “luto em luta”.

Embora ambos os rios sejam conhecidos como “Perimetral” – estamos no perímetro – , que recentemente alguém teve a ousadia, covardia, aliás, de batizá-los de “Presidente Costa e Silva” – até hoje o AI-5 elimina as liberdades públicas e democráticas (palavrões para o jovem negro Jangu). “Querem ressuscitar Costa e Silva? Desejam oficializar o que nunca acabou?”, não foram estas as perguntas de Jangu.

O concreto do rio se dissolve, evapora entre fluxos de vida ou de morte – termos que Jangu não faz distinção, tudo para jovens como ele é ensaio e é valendo, intenso. Vem um sonho e um desejo, ambos são atravessados pelas condições materiais, pelo preço que se pode pagar.

Do lado de lá do rio está escrito a palavra “União” – esta palavra está picotada de recados outros, desejos outros, inquietações outras – rebeldia e autonomia – vontade de potência!

O ninho utópico que Jangu visita, habita inclusive, é marcado pelos abraços demorados; rede tecida por fios [in]visíveis, amarradas por nós (nós?) da Tribo. Jangu pára por um instante e pergunta-se: que Tribo é esta? Ela parece não ter nome e talvez não queira um, mas está lá, ela existe porque Jangu existe.

Jangu, vez ou outra navega por mares pouco desbravados; viagem sem malas prontas. Jangu não é o único jovem a desejar conhecer mundos outros, experimentar outros mundos e sair de si mesmo, alcançar o que chamamos genericamente de liberdade. Corpos utópicos caminhando sobre veredas heterotópicas…

O jovem Jangu prova e sente na pele e no estômago a força do deus Capital. Sobre este deus não sabemos se ele é um velhinho que possui barba branca, se é um homem de meia idade burocrata ou se é um bicho, uma sanguessuga, talvez? Para Jangu analisar do que é feito esse bicho não importa agora. O que conta é a oportunidade dada. De onde ela vem, o que ela me proporciona? Ela mata o filho negro do “bicho Capital” chamado Fome? Entre promessas e filas, a oportunidade vem através do “corre do louco” empregatício [in] visível – o preço do sangue que escorre arquibancadas. Jangu vive! Salve salve Jonas Skilf e Alef Lorim.

Jangu, às vezes sem saber, cospe na cara da hipocrisia religiosa e quebra os códigos morais e hierárquicos das Fortalezas. Quem disse que alimento pra cabeça não mata a fome de ninguém? Quem foi o pilantra que disse isso aí?

O ninho utópico existe dentro e fora da mente de Jangu. Ele pode ser a bela vista, pode ser o nascer e pôr-do-sol: a soma dos abraços esperançosos, do racha improvisado em círculos. Pode ser palco da noite ensolarada: razão dos bailes autônomos. “- Chega aê no rolezinho ou no reggae pra dançar agarradinho.” Arena das resistências por vezes planejadas, o espaço outro onde somos lançados para fora de nós mesmos.

Jangu carrega consigo sorrisos espontâneos e gestos aleatórios, [in]definidos em si. Beija na boca do garoto e da garota e celebra o amor. O corpo castigado e criminalizado é uma festa intensa. De Jangu transborda sentimentos que não cabe dentro de si – não cabe em um poema ou em uma prosa; mas pode ser visto [percebido] na lágrima incontida e compartilhada, no repartir do pão das memórias feitas do concreto [dos afetos].

Jan [janelas] / gu [guris] / ru [rua] / ssu [suave].

Rômulo Silva é morador do Jangu e mestrando em Sociologia

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No presídio o comunismo é mais legítimo do que na universidade

Por Jardson Remido

Ontem conversando com a minha companheira sobre os amargos que passei nas grades insalubres do sistema socioeducativo inútil, discorri sobre a união, o agregar, o repartir. Falei quando fui pra tranca onde só tinha uma pedra – local onde os internos dormem, onde a estrutura se parece mais um túmulo – pra dez elementos. Nos interlúdios da madrugada, os semelhantes alternavam os locais onde descansavam, iam dois pra pedra, e os demais se deitavam no chão molhado, imundo. Alguns deitavam perto do banheiro, a privada, que chamamos bojo, era no chão, onde os ratos faziam integração de cela em cela usando o buraco da privada como canal de ligação. Um interno foi mordido por um rato, na orelha, com risco de adquirir leptospirose. E eu peguei uma impingem na região das pernas.

Acordávamos quatro da matina pra tomar uma ducha rápida com duração rígida de um minuto. Voltávamos pra cela, e nos enxugávamos pulando até secarmos. A gente tinha que esperar o chão secar, pra gente deitar. Deitávamos um perto do outro pra produzir calor. Nossa merenda era água suja, o almoço às 11h e a janta às 19h. Depois disso era troca de ideia, pra nos conhecermos, formar e fortificar vínculos. Depois de dois dias, subi pra ala mais “saudável”, e não recebi visita da minha mãe durante esse período de crise existencial. Na minha compreensão, ela não tinha estruturas emocionais e psicológicas de me visitar. Fiquei depressivo, chorei, um cara que não conhecia e nem sabia o nome chorou comigo. Lia livros paradidáticos que pegava escondido e uma bíblia empoeirada. Fazia artesanatos. Comia 6, 7 vezes por dia. Meus semelhantes fortaleciam, me doando lanche extra, recheados, doces, refrigerantes. Doavam desodorante, colchão, roupas e escova de dente. Na hora da merenda, que a gente promovia antes de dormir, a gente repartia a risca, bem certim, ali era o comunismo na prática e não sabia eu.

A gente escrevia, cantava RAP colado na grade. Orávamos todos juntos. Nosso patrimônio era a Fé. Me identificava com os demais, me via em cada semblante portador de olhar indefinido e sorriso cicatrizado. Minha saúde mental estava em estado muito delicado, mas graças a Deus que me presenteou com meus semelhantes, fui resistindo, eles me faziam companhia, oravam por mim, se preocupavam comigo, perguntavam se eu já tinha me alimentado. Aprendi muito valor, muito conceito, aprendi que somos um organismo, a união. Quando ganhei o ofício de soltura, muitos se emocionaram, resmungando saudades e reivindicando me ver fora do crime. Enfim. O que quero trazer é que no presídio o comunismo é mais legítimo do que na universidade. E a verdade está do lado dos oprimidos. Deus pôs a poesia no meu caminho, pra não atravessar o do playboy gritando o assalto, dando tiro. Amém? Amemos!

Jardson Remido é poeta marginal, de rua, trocou a quadrada na cintura pelo livro na mochila

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Democracia I

Por Vanessa Dourado

Os anos tinham passado, ela não percebeu que foi morrendo aos poucos. Não percebeu que o interesse já não era o mesmo, que as pessoas só queriam usá-la para garantir sua própria satisfação. Insistiu, resistiu. Ameaçada, quis falar, denunciar, protestar. Não deu certo. Todos viam. Ninguém admitia, porém. Não queriam perdê-la, mas ela tinha se transformado naquilo que fizeram dela. Meio ao desespero, reinventou-se. Mas não conseguiu reencontrar a si mesma. Queria acabar logo com tudo aquilo. Queria nascer de novo. Queria sentir a liberdade das ruas, os gritos dos pássaros, o encontro com o mundo. Mas não queria o mesmo mundo, aquele velho mundo já não era mais para ela.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Os idiotas (II)

(Pintura: Iberê Camargo)

Por Vanessa Dourado

Já passado o momento da doutrinação midiática – coisa que não precisou de muito tempo, pois havia pouca capacidade analítica -, os idiotas começaram a fazer as reformas. Estas, que até então serviam para melhorar algo que não andava bem, passaram a ser um instrumento de lesa-inteligência, mas os idiotas doutrinados não podiam perceber o que estava acontecendo.

Alguém gritou que o papel higiênico acabaria rapidamente e que não haveria mais comida nas gôndolas dos mercados, todos alarmados resolveram apoiar as tais reformas, já imaginando como seria o mundo sem que suas necessidades básicas fossem atendidas. Mas também gritou alguém que as passagens para Miami ficariam mais baratas e que o caviar seria vendido a preço de banana. Um alvoroço, todos compraram o jornal do dia seguinte, aplaudindo as Santas Reformas.

Era preciso mais ainda, era preciso ser idiota desde pequeno, ainda no berço. Essa doutrinação era muito necessária, disse alguém. Resolveram dar um jeito nisso e em um banquete, que deixaria Platão envergonhado, foram felizes por duas décadas.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Os idiotas (I)

(Pintura: Iberê Camargo)

Por Vanessa Dourado

Em um lugar distante do mundo conhecido, alguém disse que as pessoas não podiam falar o que pensavam. Isso porque não sabiam se o que as pessoas pensavam era o que a maioria das pessoas andava pensando sobre o que a maioria das pessoas deveria pensar.

Meses antes do decreto da mordaça, os meios de comunicação decidiram o que a maioria deveria pensar, para poupar tempo e eliminar a confusão. Afinal, essa coisa de pensar é algo muito complexo e era melhor ajudar os idiotas que não podiam pensar sozinhos.

Os idiotas ficaram muito agradecidos porque enfim alguém percebeu que eles eram idiotas e que necessitavam de orientação especial. Muito solidários, os meios de comunicação pediram ajuda para as grandes corporações a fim de melhor definir o que os idiotas deveriam pensar.

As corporações ficaram muito agradecidas e pediram aos idiotas que impedissem que os demais pensassem sozinhos. Assim, sendo todos idiotas, seriam mais felizes e não precisariam gastar tempo à toa com pensamentos.

Desde então, os livres pensadores passaram a ser chamados de terroristas e os idiotas ganharam status de super-heróis.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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As baratas, as pessoas e a modernidade: uma nada convencional releitura kafkiana

Por Artur Pires

Havia muitos anos que não ia ao zoológico. Algo para mais de uma década. Mas dia desses estava em Brasília, e os cicerones brasilienses me recomendaram uma visita ao zoo, falando das muitas espécies que encontraria por lá. Fui sozinho. Não me preparei psicologicamente para a surpresa que me acometeria. Como havia mais de dez anos que não fazia tal “passeio”, a última vez em que fui era outro. Como diz Belchior, “no presente, a mente, o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

A primeira parada foi numa área onde habitava um tigre branco. Aquela imagem lancina n’alma até agora: o animal, magro para um bicho daquele porte, dava voltas circulares ao redor de seu confinamento. Voltas e mais voltas, numa atitude obsessiva. Em um dado momento, nossos olhos fitaram-se mutuamente. Vi tristeza e angústia. Imaginei o tigre branco correndo em liberdade, caçando, trepando-se em árvores, vivendo e morrendo em sua natureza primordial. Liberdade. Ali, naquele instante, tive a exata dimensão do que estava ajudando a reproduzir com aquela visita. Uma barbárie. É isso o que legitimamos ao vivenciar como lazer espaços que escravizam animais.

Pensei em desistir, mas decidi ir em frente. Sabia que a minha derradeira ida a um local como aquele não seria em vão. Quis experimentar o desconforto ao deparar com os demais bichos e seus comportamentos obsessivos e estressados para que aquela oportunidade, que exigiu um encouraçamento momentâneo, servisse para uma elaboração interior que resgatasse parte da minha humanidade perdida ali. Uma turma escolar de pré-adolescentes gritava transtornadamente a cada encontro com os grandes felinos, que eram acordados de seus cochilos com sons estridentes:

-Aaahhhhhhhhhhhhhhh!!! Um tigre, um tigre, tia!

- É, um tigre.  Ei, ei, não pode jogar pipoca pra ele. Sai daí menino, só pode chegar até aqui.

As escolas têm um papel decisivo nesse comportamento. Turmas e turmas são organizadas sistematicamente para essa atividade quase “curricular”. A pedagogia hegemônica tem uma função central no processo de desumanização moderno. Entre as descobertas infantis e as atividades de lazer proporcionadas pela educação escolar e também pelas famílias “cidadãs” está o deleite com a escravidão de animais. Ora, de que vale saber sobre as características biológico-comportamentais de um tigre e vê-lo in loco se não pudermos perceber a anormalidade que é o seu aprisionamento? Se não pudermos sentir empaticamente a dor e o banzo do tigre enjaulado?

Após cerca de uma hora de “passeio”, as plaquinhas do zoo informando que os bichos eram bem alimentados e recebiam treinamentos para adaptarem-se aos novos “lares” não me convenceram. Constatei sofrimento, estresse, movimentos obsessivos e olhares desesperançosos dos animais. O homo urbanus desenvolveu-se em crescente dessincronia com as leis da Natureza. Enjaula animais para o seu divertimento e lazer. Engaiola passarinhos para que eles só possam cantar privativamente. Corta as asas dos papagaios para que eles não possam voar e fiquem restritos à família prisioneira. Tudo isso levado a cabo com uma “naturalidade” extrema. Espelho da desumanização que toca o mundo com açoite!

Aliás, indo mais além, há pessoas que simpatizam profundamente com animais domésticos, como gatos e cachorros, mas que não perdem uma única oportunidade para matar uma formiga, uma aranha, uma muriçoca, um rato, uma barata… Pelo contrário, repousa nelas um prazer em esmagar com o chinelo aquela baratinha que corre para debaixo do sofá, ou aquela formiguinha que ataca o açúcar! “Eu amo animais, inclusive tenho um cachorrinho, mas essa aranha caranguejeira… poff!”, diz e faz a pessoa comum.

Não estou aqui defendendo o convívio encantado com animais peçonhentos e transmissores de doenças. Sublinho que, em verdade e a priori – quer queira ou não! –, já há um convívio equilibrado, quase imperceptível, no qual baratas, formigas e pequenas aranhas vivem nos lares humanos às escondidas, sem serem incomodadas. O que problematizo é que há maneiras e mais maneiras para, em casos-limite, expulsar certos insetos, aracnídeos ou roedores das casas, mas a única opção pensada é sempre a morte desses bichos. Já ouvi pessoas dizendo do “prazer” que é matar muriçocas e outros insetos com raquete elétrica. Leram bem? “Prazer” em matar! Uma coisa é, num ato reflexo, dar um tapa na parte do seu corpo que está sendo picada e por vezes acertar o mosquito, outra bem diferente é sair, feito “maníaco da raquete”, caçando insetos de forma psicopata para matá-los. Há, portanto, uma clara seletividade e hierarquia de quais bichos merecem preservação e quais merecem a morte. Mas, aceite!, a barata e você têm o mesmo direito à vida!

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A Metamorfose, de Kafka, o caixeiro viajante Gregor Samsa, que certo dia acordou transformado numa barata gigante, tenta uma reaproximação com os pais e a irmã (Foto: Christophe Huet)

Muitas pessoas dirão que querer igualar um humano a uma barata é por demais exagerado. Essas pessoas realmente se julgam superiores às baratas, como a insensível família de Gregor Samsa, no romance de Kakfa. No mais das vezes, é por uma questão elementar e banal: o tamanho. “Salvem as baleias, exterminem as baratas”. Animais de centímetros são quase sempre matáveis para essas pessoas: muriçocas, baratas, mosquitos, moscas, lagartas, formigas… com exceção das abelhas, porque essas produzem mel (e, portanto, a relação se dá de forma utilitarista), e das borboletas, com toda sua popularidade retratada em desenhos, lendas e filmes infantis como criaturas “fofinhas” ou fadas disfarçadas.

Outro álibi é que insetos, como o aedes aegypti, são causadores de doenças. Ora, a espécie que tem causado mais enfermidades e destruição no planeta é a humana e nem por isso pensa-se em exterminá-la (quer dizer, se não for de uma subespécie “bandida”, dizem as turmas “justiceiras”). A maior incidência do “mosquito da dengue” nos países tropicais nas últimas décadas é consequência das ações humanas. O mosquito, de origem africana e que está em terras americanas desde o século XVI, tornou-se mais resistente e nocivo devido ao uso de inseticidas químicos para combatê-lo. Ou seja, transformou-se um inseto de convivência equilibrada com o ser humano por séculos (no caso africano, por milênios) num monstrinho geneticamente modificado por aditivos químicos. E aí o único método adotado para lidar com a questão é exterminá-lo, mas não se pensa em parar a produção de inseticidas químicos. (Sem falar no poder das agências midiáticas em gerar pânico social, uma vez que lucram com a espetacularização dessas “epidemias”. O “fenômeno” da zika, por exemplo, do jeito que foi retratado midiaticamente supunha a ideia de uma imensa e incontrolável epidemia. Super Zika! Meses depois, pouquíssimo se fala no assunto, e as pessoas seguem normalmente suas rotinas). Essa lógica de intervenção desequilibrada da ação humana no meio natural vale para o aumento de ratos, baratas, moscas, etc.

Reitero: não estou promovendo um relação ingênua com animais peçonhentos e transmissores de doenças, mas propondo uma tentativa de reconciliação. Há casos, de infestação, por exemplo, em que se fazem necessários métodos radicais de combate. Mas são situações-limites, excepcionais. O que trago à discussão é a propensão condicionada a matar gratuitamente pequenos invertebrados e roedores como se fossem coisas descartáveis. É preciso, portanto, não uma relação encantada, mas naturalizada, de respeito aos “seres desimportantes”, como bem poetizou o mestre Manoel de Barros. “Desimportantes” para o humanoide, diga-se por oportuno, porque para a Vida têm a mesma relevância que eu e você.

Noutra vezes, usa-se a cultura humana para justificar uma suposta e dedutiva superioridade existencial sobre os animais “irracionais”: “Inventamos o avião, o computador, o satélite, logo…”. É uma argumentação paupérrima que diz muito do homo academicus, forjado pela racionalidade formal e instrumental, que não reflete a sua existência a partir de uma cosmovisão unificada, mas, pelo contrário, pensa a tecnologia científica como separada da Natureza. E aí se esquece de prezar mais os insetos que os aviões, como novamente nos ensinou o poeta, do alto de sua sabença espiritual.

Em síntese, a barata e o homo a-sapiens, para usar um exemplo-limite, têm formas biologicamente diferentes, mas em essência e qualidade para a Vida atualizam constantemente o mesmo mistério universal de nascer, crescer, alimentar-se, reproduzir-se e morrer. São apenas projeções e manifestações diferenciadas de uma mesma realidade: a Vida. Penso que Kafka, sob uma perspectiva invertida e surrealista, brincou com isso n’A metamorfose, numa reflexão contundente e angustiada sobre a condição moderna do ser humano.

O fato é que para a Natureza não há existência mais importante que outra. Seja esta o sol, um ser humano, um animal, uma planta, um búzio na praia, ou o vento brincante que passeia entre os manguezais e as dunas da Sabiaguaba, saboreando o tempo e deitando-se no mar! Quem faz essa distinção hierárquica é o homo a-sapiens! O “urbanoide” está terrivelmente desconectado dessa Unidade cosmológica, uma vez que, ainda embriagado pelo Iluminismo, pensa ser o umbigo universal, mesmo após Copérnico ter dito ainda no século XVI que a terra não era o centro do universo.

 

Há um tempo, numa noite de Lua crescente, nessas madrugadas em que ela, branqueada e brilhosa, parece nos sorrir, avistei um guaxinim andando pela rua. Os guaxinins são cada vez mais raros em Fortaleza, expulsos de seus matagais pelo processo predatório de especulação imobiliária. Mas nessa noite vi um, grandão, que caminhava em seu descompasso. O olhei atônito. Nunca havia visto um bicho daquele in loco, marchando em sua exuberância e exotismo. Admirei-o em sua naturalidade.

- Olha mah, um guaxinim!, disse, boquiaberto, olhos bem atentos e arregalados aos seus movimentos.

- Vixi, é mermo. Lá na Levada ainda aparece é muito!

(A “Levada” é uma região brejeira na Cidade dos Funcionários – bairro da zona sul de Fortaleza, onde passa um córrego que vem da Messejana e deságua no rio Cocó. Recentemente, foi “urbanizada” e o córrego foi canalizado, assim como seu matagal totalmente transformado em concreto. Os guaxinins que antes viviam por lá sumiram).

Voltando ao dia da lua sorridente, o guaxinim aparentava tranquilidade, mas quando avistou-nos recolheu-se ao terreno baldio próximo, farejando perigo. O encontro durou poucos segundos. Mas o suficiente para que eu o visse em sua liberdade e natureza espontânea. Parece uma besteira piegas, mas eu sempre recordo esse dia como algo muito bonito que vivi!

Artur Pires é sonhador e Tricolor de Aço; gosta de literatura, de jogar bola, surfar, e de pular da ponte velha – ahh, e de escrever quando dá vontade!