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O espaço de Jangu

(Foto: Johnny Herman)

Por Rômulo Silva

Jangu fitou os olhos na avenida fronteiriça.

Dois rios paralelos e barulhentos. Um deságua sentido Bom Jardim – parente próximo de Jangu, quem sabe… o outro corre para os braços do irmão Curió – sangue latino e ainda por cima cantor. Não se ouve música, só luto: 12 de novembro de 2015, a maior chacina da história do Ceará jamais será esquecida. Seus algozes, inclusive, estão em liberdade, enquanto onze jovens estão encerrados na sepultura nos levando a gritar contra as injustiças e negligências praticadas pelo Estado. Jangu caminha ao lado da guerreira Dona Edna Carla (mãe de Alef Souza Cavalcante), transformando dia após dia “luto em luta”.

Embora ambos os rios sejam conhecidos como “Perimetral” – estamos no perímetro – , que recentemente alguém teve a ousadia, covardia, aliás, de batizá-los de “Presidente Costa e Silva” – até hoje o AI-5 elimina as liberdades públicas e democráticas (palavrões para o jovem negro Jangu). “Querem ressuscitar Costa e Silva? Desejam oficializar o que nunca acabou?”, não foram estas as perguntas de Jangu.

O concreto do rio se dissolve, evapora entre fluxos de vida ou de morte – termos que Jangu não faz distinção, tudo para jovens como ele é ensaio e é valendo, intenso. Vem um sonho e um desejo, ambos são atravessados pelas condições materiais, pelo preço que se pode pagar.

Do lado de lá do rio está escrito a palavra “União” – esta palavra está picotada de recados outros, desejos outros, inquietações outras – rebeldia e autonomia – vontade de potência!

O ninho utópico que Jangu visita, habita inclusive, é marcado pelos abraços demorados; rede tecida por fios [in]visíveis, amarradas por nós (nós?) da Tribo. Jangu pára por um instante e pergunta-se: que Tribo é esta? Ela parece não ter nome e talvez não queira um, mas está lá, ela existe porque Jangu existe.

Jangu, vez ou outra navega por mares pouco desbravados; viagem sem malas prontas. Jangu não é o único jovem a desejar conhecer mundos outros, experimentar outros mundos e sair de si mesmo, alcançar o que chamamos genericamente de liberdade. Corpos utópicos caminhando sobre veredas heterotópicas…

O jovem Jangu prova e sente na pele e no estômago a força do deus Capital. Sobre este deus não sabemos se ele é um velhinho que possui barba branca, se é um homem de meia idade burocrata ou se é um bicho, uma sanguessuga, talvez? Para Jangu analisar do que é feito esse bicho não importa agora. O que conta é a oportunidade dada. De onde ela vem, o que ela me proporciona? Ela mata o filho negro do “bicho Capital” chamado Fome? Entre promessas e filas, a oportunidade vem através do “corre do louco” empregatício [in] visível – o preço do sangue que escorre arquibancadas. Jangu vive! Salve salve Jonas Skilf e Alef Lorim.

Jangu, às vezes sem saber, cospe na cara da hipocrisia religiosa e quebra os códigos morais e hierárquicos das Fortalezas. Quem disse que alimento pra cabeça não mata a fome de ninguém? Quem foi o pilantra que disse isso aí?

O ninho utópico existe dentro e fora da mente de Jangu. Ele pode ser a bela vista, pode ser o nascer e pôr-do-sol: a soma dos abraços esperançosos, do racha improvisado em círculos. Pode ser palco da noite ensolarada: razão dos bailes autônomos. “- Chega aê no rolezinho ou no reggae pra dançar agarradinho.” Arena das resistências por vezes planejadas, o espaço outro onde somos lançados para fora de nós mesmos.

Jangu carrega consigo sorrisos espontâneos e gestos aleatórios, [in]definidos em si. Beija na boca do garoto e da garota e celebra o amor. O corpo castigado e criminalizado é uma festa intensa. De Jangu transborda sentimentos que não cabe dentro de si – não cabe em um poema ou em uma prosa; mas pode ser visto [percebido] na lágrima incontida e compartilhada, no repartir do pão das memórias feitas do concreto [dos afetos].

Jan [janelas] / gu [guris] / ru [rua] / ssu [suave].

Rômulo Silva é morador do Jangu e mestrando em Sociologia

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No presídio o comunismo é mais legítimo do que na universidade

Por Jardson Remido

Ontem conversando com a minha companheira sobre os amargos que passei nas grades insalubres do sistema socioeducativo inútil, discorri sobre a união, o agregar, o repartir. Falei quando fui pra tranca onde só tinha uma pedra – local onde os internos dormem, onde a estrutura se parece mais um túmulo – pra dez elementos. Nos interlúdios da madrugada, os semelhantes alternavam os locais onde descansavam, iam dois pra pedra, e os demais se deitavam no chão molhado, imundo. Alguns deitavam perto do banheiro, a privada, que chamamos bojo, era no chão, onde os ratos faziam integração de cela em cela usando o buraco da privada como canal de ligação. Um interno foi mordido por um rato, na orelha, com risco de adquirir leptospirose. E eu peguei uma impingem na região das pernas.

Acordávamos quatro da matina pra tomar uma ducha rápida com duração rígida de um minuto. Voltávamos pra cela, e nos enxugávamos pulando até secarmos. A gente tinha que esperar o chão secar, pra gente deitar. Deitávamos um perto do outro pra produzir calor. Nossa merenda era água suja, o almoço às 11h e a janta às 19h. Depois disso era troca de ideia, pra nos conhecermos, formar e fortificar vínculos. Depois de dois dias, subi pra ala mais “saudável”, e não recebi visita da minha mãe durante esse período de crise existencial. Na minha compreensão, ela não tinha estruturas emocionais e psicológicas de me visitar. Fiquei depressivo, chorei, um cara que não conhecia e nem sabia o nome chorou comigo. Lia livros paradidáticos que pegava escondido e uma bíblia empoeirada. Fazia artesanatos. Comia 6, 7 vezes por dia. Meus semelhantes fortaleciam, me doando lanche extra, recheados, doces, refrigerantes. Doavam desodorante, colchão, roupas e escova de dente. Na hora da merenda, que a gente promovia antes de dormir, a gente repartia a risca, bem certim, ali era o comunismo na prática e não sabia eu.

A gente escrevia, cantava RAP colado na grade. Orávamos todos juntos. Nosso patrimônio era a Fé. Me identificava com os demais, me via em cada semblante portador de olhar indefinido e sorriso cicatrizado. Minha saúde mental estava em estado muito delicado, mas graças a Deus que me presenteou com meus semelhantes, fui resistindo, eles me faziam companhia, oravam por mim, se preocupavam comigo, perguntavam se eu já tinha me alimentado. Aprendi muito valor, muito conceito, aprendi que somos um organismo, a união. Quando ganhei o ofício de soltura, muitos se emocionaram, resmungando saudades e reivindicando me ver fora do crime. Enfim. O que quero trazer é que no presídio o comunismo é mais legítimo do que na universidade. E a verdade está do lado dos oprimidos. Deus pôs a poesia no meu caminho, pra não atravessar o do playboy gritando o assalto, dando tiro. Amém? Amemos!

Jardson Remido é poeta marginal, de rua, trocou a quadrada na cintura pelo livro na mochila

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Democracia I

Por Vanessa Dourado

Os anos tinham passado, ela não percebeu que foi morrendo aos poucos. Não percebeu que o interesse já não era o mesmo, que as pessoas só queriam usá-la para garantir sua própria satisfação. Insistiu, resistiu. Ameaçada, quis falar, denunciar, protestar. Não deu certo. Todos viam. Ninguém admitia, porém. Não queriam perdê-la, mas ela tinha se transformado naquilo que fizeram dela. Meio ao desespero, reinventou-se. Mas não conseguiu reencontrar a si mesma. Queria acabar logo com tudo aquilo. Queria nascer de novo. Queria sentir a liberdade das ruas, os gritos dos pássaros, o encontro com o mundo. Mas não queria o mesmo mundo, aquele velho mundo já não era mais para ela.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Os idiotas (II)

(Pintura: Iberê Camargo)

Por Vanessa Dourado

Já passado o momento da doutrinação midiática – coisa que não precisou de muito tempo, pois havia pouca capacidade analítica -, os idiotas começaram a fazer as reformas. Estas, que até então serviam para melhorar algo que não andava bem, passaram a ser um instrumento de lesa-inteligência, mas os idiotas doutrinados não podiam perceber o que estava acontecendo.

Alguém gritou que o papel higiênico acabaria rapidamente e que não haveria mais comida nas gôndolas dos mercados, todos alarmados resolveram apoiar as tais reformas, já imaginando como seria o mundo sem que suas necessidades básicas fossem atendidas. Mas também gritou alguém que as passagens para Miami ficariam mais baratas e que o caviar seria vendido a preço de banana. Um alvoroço, todos compraram o jornal do dia seguinte, aplaudindo as Santas Reformas.

Era preciso mais ainda, era preciso ser idiota desde pequeno, ainda no berço. Essa doutrinação era muito necessária, disse alguém. Resolveram dar um jeito nisso e em um banquete, que deixaria Platão envergonhado, foram felizes por duas décadas.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Os idiotas (I)

(Pintura: Iberê Camargo)

Por Vanessa Dourado

Em um lugar distante do mundo conhecido, alguém disse que as pessoas não podiam falar o que pensavam. Isso porque não sabiam se o que as pessoas pensavam era o que a maioria das pessoas andava pensando sobre o que a maioria das pessoas deveria pensar.

Meses antes do decreto da mordaça, os meios de comunicação decidiram o que a maioria deveria pensar, para poupar tempo e eliminar a confusão. Afinal, essa coisa de pensar é algo muito complexo e era melhor ajudar os idiotas que não podiam pensar sozinhos.

Os idiotas ficaram muito agradecidos porque enfim alguém percebeu que eles eram idiotas e que necessitavam de orientação especial. Muito solidários, os meios de comunicação pediram ajuda para as grandes corporações a fim de melhor definir o que os idiotas deveriam pensar.

As corporações ficaram muito agradecidas e pediram aos idiotas que impedissem que os demais pensassem sozinhos. Assim, sendo todos idiotas, seriam mais felizes e não precisariam gastar tempo à toa com pensamentos.

Desde então, os livres pensadores passaram a ser chamados de terroristas e os idiotas ganharam status de super-heróis.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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As baratas, as pessoas e a modernidade: uma nada convencional releitura kafkiana

Por Artur Pires

Havia muitos anos que não ia ao zoológico. Algo para mais de uma década. Mas dia desses estava em Brasília, e os cicerones brasilienses me recomendaram uma visita ao zoo, falando das muitas espécies que encontraria por lá. Fui sozinho. Não me preparei psicologicamente para a surpresa que me acometeria. Como havia mais de dez anos que não fazia tal “passeio”, a última vez em que fui era outro. Como diz Belchior, “no presente, a mente, o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

A primeira parada foi numa área onde habitava um tigre branco. Aquela imagem lancina n’alma até agora: o animal, magro para um bicho daquele porte, dava voltas circulares ao redor de seu confinamento. Voltas e mais voltas, numa atitude obsessiva. Em um dado momento, nossos olhos fitaram-se mutuamente. Vi tristeza e angústia. Imaginei o tigre branco correndo em liberdade, caçando, trepando-se em árvores, vivendo e morrendo em sua natureza primordial. Liberdade. Ali, naquele instante, tive a exata dimensão do que estava ajudando a reproduzir com aquela visita. Uma barbárie. É isso o que legitimamos ao vivenciar como lazer espaços que escravizam animais.

Pensei em desistir, mas decidi ir em frente. Sabia que a minha derradeira ida a um local como aquele não seria em vão. Quis experimentar o desconforto ao deparar com os demais bichos e seus comportamentos obsessivos e estressados para que aquela oportunidade, que exigiu um encouraçamento momentâneo, servisse para uma elaboração interior que resgatasse parte da minha humanidade perdida ali. Uma turma escolar de pré-adolescentes gritava transtornadamente a cada encontro com os grandes felinos, que eram acordados de seus cochilos com sons estridentes:

-Aaahhhhhhhhhhhhhhh!!! Um tigre, um tigre, tia!

- É, um tigre.  Ei, ei, não pode jogar pipoca pra ele. Sai daí menino, só pode chegar até aqui.

As escolas têm um papel decisivo nesse comportamento. Turmas e turmas são organizadas sistematicamente para essa atividade quase “curricular”. A pedagogia hegemônica tem uma função central no processo de desumanização moderno. Entre as descobertas infantis e as atividades de lazer proporcionadas pela educação escolar e também pelas famílias “cidadãs” está o deleite com a escravidão de animais. Ora, de que vale saber sobre as características biológico-comportamentais de um tigre e vê-lo in loco se não pudermos perceber a anormalidade que é o seu aprisionamento? Se não pudermos sentir empaticamente a dor e o banzo do tigre enjaulado?

Após cerca de uma hora de “passeio”, as plaquinhas do zoo informando que os bichos eram bem alimentados e recebiam treinamentos para adaptarem-se aos novos “lares” não me convenceram. Constatei sofrimento, estresse, movimentos obsessivos e olhares desesperançosos dos animais. O homo urbanus desenvolveu-se em crescente dessincronia com as leis da Natureza. Enjaula animais para o seu divertimento e lazer. Engaiola passarinhos para que eles só possam cantar privativamente. Corta as asas dos papagaios para que eles não possam voar e fiquem restritos à família prisioneira. Tudo isso levado a cabo com uma “naturalidade” extrema. Espelho da desumanização que toca o mundo com açoite!

Aliás, indo mais além, há pessoas que simpatizam profundamente com animais domésticos, como gatos e cachorros, mas que não perdem uma única oportunidade para matar uma formiga, uma aranha, uma muriçoca, um rato, uma barata… Pelo contrário, repousa nelas um prazer em esmagar com o chinelo aquela baratinha que corre para debaixo do sofá, ou aquela formiguinha que ataca o açúcar! “Eu amo animais, inclusive tenho um cachorrinho, mas essa aranha caranguejeira… poff!”, diz e faz a pessoa comum.

Não estou aqui defendendo o convívio encantado com animais peçonhentos e transmissores de doenças. Sublinho que, em verdade e a priori – quer queira ou não! –, já há um convívio equilibrado, quase imperceptível, no qual baratas, formigas e pequenas aranhas vivem nos lares humanos às escondidas, sem serem incomodadas. O que problematizo é que há maneiras e mais maneiras para, em casos-limite, expulsar certos insetos, aracnídeos ou roedores das casas, mas a única opção pensada é sempre a morte desses bichos. Já ouvi pessoas dizendo do “prazer” que é matar muriçocas e outros insetos com raquete elétrica. Leram bem? “Prazer” em matar! Uma coisa é, num ato reflexo, dar um tapa na parte do seu corpo que está sendo picada e por vezes acertar o mosquito, outra bem diferente é sair, feito “maníaco da raquete”, caçando insetos de forma psicopata para matá-los. Há, portanto, uma clara seletividade e hierarquia de quais bichos merecem preservação e quais merecem a morte. Mas, aceite!, a barata e você têm o mesmo direito à vida!

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A Metamorfose, de Kafka, o caixeiro viajante Gregor Samsa, que certo dia acordou transformado numa barata gigante, tenta uma reaproximação com os pais e a irmã (Foto: Christophe Huet)

Muitas pessoas dirão que querer igualar um humano a uma barata é por demais exagerado. Essas pessoas realmente se julgam superiores às baratas, como a insensível família de Gregor Samsa, no romance de Kakfa. No mais das vezes, é por uma questão elementar e banal: o tamanho. “Salvem as baleias, exterminem as baratas”. Animais de centímetros são quase sempre matáveis para essas pessoas: muriçocas, baratas, mosquitos, moscas, lagartas, formigas… com exceção das abelhas, porque essas produzem mel (e, portanto, a relação se dá de forma utilitarista), e das borboletas, com toda sua popularidade retratada em desenhos, lendas e filmes infantis como criaturas “fofinhas” ou fadas disfarçadas.

Outro álibi é que insetos, como o aedes aegypti, são causadores de doenças. Ora, a espécie que tem causado mais enfermidades e destruição no planeta é a humana e nem por isso pensa-se em exterminá-la (quer dizer, se não for de uma subespécie “bandida”, dizem as turmas “justiceiras”). A maior incidência do “mosquito da dengue” nos países tropicais nas últimas décadas é consequência das ações humanas. O mosquito, de origem africana e que está em terras americanas desde o século XVI, tornou-se mais resistente e nocivo devido ao uso de inseticidas químicos para combatê-lo. Ou seja, transformou-se um inseto de convivência equilibrada com o ser humano por séculos (no caso africano, por milênios) num monstrinho geneticamente modificado por aditivos químicos. E aí o único método adotado para lidar com a questão é exterminá-lo, mas não se pensa em parar a produção de inseticidas químicos. (Sem falar no poder das agências midiáticas em gerar pânico social, uma vez que lucram com a espetacularização dessas “epidemias”. O “fenômeno” da zika, por exemplo, do jeito que foi retratado midiaticamente supunha a ideia de uma imensa e incontrolável epidemia. Super Zika! Meses depois, pouquíssimo se fala no assunto, e as pessoas seguem normalmente suas rotinas). Essa lógica de intervenção desequilibrada da ação humana no meio natural vale para o aumento de ratos, baratas, moscas, etc.

Reitero: não estou promovendo um relação ingênua com animais peçonhentos e transmissores de doenças, mas propondo uma tentativa de reconciliação. Há casos, de infestação, por exemplo, em que se fazem necessários métodos radicais de combate. Mas são situações-limites, excepcionais. O que trago à discussão é a propensão condicionada a matar gratuitamente pequenos invertebrados e roedores como se fossem coisas descartáveis. É preciso, portanto, não uma relação encantada, mas naturalizada, de respeito aos “seres desimportantes”, como bem poetizou o mestre Manoel de Barros. “Desimportantes” para o humanoide, diga-se por oportuno, porque para a Vida têm a mesma relevância que eu e você.

Noutra vezes, usa-se a cultura humana para justificar uma suposta e dedutiva superioridade existencial sobre os animais “irracionais”: “Inventamos o avião, o computador, o satélite, logo…”. É uma argumentação paupérrima que diz muito do homo academicus, forjado pela racionalidade formal e instrumental, que não reflete a sua existência a partir de uma cosmovisão unificada, mas, pelo contrário, pensa a tecnologia científica como separada da Natureza. E aí se esquece de prezar mais os insetos que os aviões, como novamente nos ensinou o poeta, do alto de sua sabença espiritual.

Em síntese, a barata e o homo a-sapiens, para usar um exemplo-limite, têm formas biologicamente diferentes, mas em essência e qualidade para a Vida atualizam constantemente o mesmo mistério universal de nascer, crescer, alimentar-se, reproduzir-se e morrer. São apenas projeções e manifestações diferenciadas de uma mesma realidade: a Vida. Penso que Kafka, sob uma perspectiva invertida e surrealista, brincou com isso n’A metamorfose, numa reflexão contundente e angustiada sobre a condição moderna do ser humano.

O fato é que para a Natureza não há existência mais importante que outra. Seja esta o sol, um ser humano, um animal, uma planta, um búzio na praia, ou o vento brincante que passeia entre os manguezais e as dunas da Sabiaguaba, saboreando o tempo e deitando-se no mar! Quem faz essa distinção hierárquica é o homo a-sapiens! O “urbanoide” está terrivelmente desconectado dessa Unidade cosmológica, uma vez que, ainda embriagado pelo Iluminismo, pensa ser o umbigo universal, mesmo após Copérnico ter dito ainda no século XVI que a terra não era o centro do universo.

 

Há um tempo, numa noite de Lua crescente, nessas madrugadas em que ela, branqueada e brilhosa, parece nos sorrir, avistei um guaxinim andando pela rua. Os guaxinins são cada vez mais raros em Fortaleza, expulsos de seus matagais pelo processo predatório de especulação imobiliária. Mas nessa noite vi um, grandão, que caminhava em seu descompasso. O olhei atônito. Nunca havia visto um bicho daquele in loco, marchando em sua exuberância e exotismo. Admirei-o em sua naturalidade.

- Olha mah, um guaxinim!, disse, boquiaberto, olhos bem atentos e arregalados aos seus movimentos.

- Vixi, é mermo. Lá na Levada ainda aparece é muito!

(A “Levada” é uma região brejeira na Cidade dos Funcionários – bairro da zona sul de Fortaleza, onde passa um córrego que vem da Messejana e deságua no rio Cocó. Recentemente, foi “urbanizada” e o córrego foi canalizado, assim como seu matagal totalmente transformado em concreto. Os guaxinins que antes viviam por lá sumiram).

Voltando ao dia da lua sorridente, o guaxinim aparentava tranquilidade, mas quando avistou-nos recolheu-se ao terreno baldio próximo, farejando perigo. O encontro durou poucos segundos. Mas o suficiente para que eu o visse em sua liberdade e natureza espontânea. Parece uma besteira piegas, mas eu sempre recordo esse dia como algo muito bonito que vivi!

Artur Pires é sonhador e Tricolor de Aço; gosta de literatura, de jogar bola, surfar, e de pular da ponte velha – ahh, e de escrever quando dá vontade!

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Surrealismo

(Pintura: Vladimir Kush)

Por Airton Lima

 

Surrealismo

substantivo, masculino

 

1.linguagem

2.signo

3.forma de expressão

4.viagem, delírio

 

Duas vertentes, ao meu entender, assimétricas, permeiam o vir-a-ser da coisa surreal. Invocando a arte de Maria Martins, onde a obra reflete a metamorfose dos corpos que têm vida: quando o homem, o animal e/ou vegetal, ao interagirem fisicamente entre si (um defunto em decomposição sobre um solo coberto de sementes, que por sua vez, aparecem germinando sobre restos de corpos espalhados pelas aves), dando vida às coisas.

Imbricada a esta imagem de mutação temos a imagem do casulo de borboleta, d’onde busco criar uma imagem do que ocorre em seu interior, e com isto dá expressão ao que entendo ser a manifestação do surrealismo.

…ou,

_o que nos chega por representação/imagem surreal?

_Imaginantes do mundo!… (precisamos aprisionar na mente…) Que coisa se faz entre a lagarta e a borboleta.

_Onde?… Uma analogia do casulo com o processo criador do minotauro?

… O capricórnio, a psicodelia…

Sem sair do casulo, e buscando a ilustração ideal de inspiração dadaísta, revejo o reflexo “pink floyd”… ilustrando assim o que exponho como a outra ideia de surreal.

… Imagem aprisionada na mente, deste casulo, pode, agora!, sair um enorme dragão. Deste, tudo é possível sair, pois que, sendo de inspiração dadaísta, nasce da imaginação, que por sua vez, se faz fruto de psicoativo e/ou psicodelia.

Pois que se tratando de psicodelia, está permeada pelo predomínio dos estados alterados da mente (ñ se perdendo de vista que imagem é experiência humana sem a qual não há o que representar), pois que do nada não se tira nada. Nesta, uma liberdade desenfreada de misturar coisas com outras coisas, simplesmente produzem coisas.

Desses estados alterados da mente, do casulo, que outrora saíra borboletas, agora sai um enorme dragão. Dali… daquele casulo alterado na mente, de agora em diante, de tudo é possível sair, pois que só depende daquele quem cria a coisa, o psicoativo.

Airton Lima é natural do materialismo dialético e vive na busca do entendimento sobre a técnica do ator vivo, pratica o teatro de um só homem e/ou de um homem só 

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Jessica Jones: de mulher para mulher?

Por Tomaz Amorim

Como escrever sobre um seriado de grande projeção criado e protagonizado por mulheres sem reduzi-lo exclusivamente a esta feliz excepcionalidade? Um dos problemas da sub-representação de grupos na produção cultural é sua típica redução na recepção. Como se Jessica Jones falasse apenas de e para mulheres. A amplitude das questões sobre as quais obras assim tratam é de antemão limitada ao grupo social do qual seus produtores – ou seu público-(não-)alvo – fazem parte. O mesmo não se dá com obras-padrão, produzidas por grupos super-representados, privilegiados que, embora sejam numericamente minorias (o famoso 1%, em tantos aspectos), falam e são escutados como representantes da maioria. Assim, no mundo dos super-heróis Super-Homem e Homem-Aranha, embora tenham sido produzidos pelo mesmo perfil que encarnam, estadunidenses masculinos e brancos, são recebidos como representantes universais das aspirações de todas as pessoas quando superam seus dilemas e traumas pessoais ou se sacrificam em prol do bem comum, enquanto a Mulher Maravilha ou a Spider Gwen são tomadas como representantes das mulheres e das questões e aspirações específicas das mulheres. O mesmo acontece com negros, LGBTs e outros grupos comumente tomados como “minorias”. O exemplo mais recente deste fenômeno é Sam Wilson, o herói negro que se tornou o novo Capitão América no mundo dos quadrinhos Marvel. Tanto na recepção interna da obra, pela população estadunidense fictícia que não se reconhece mais no herói, quanto na recepção crítica externa à obra, o Capitão América deixou de ser o símbolo que unificava todo o país para se tornar, contraditoriamente, o representante ao mesmo tempo da minoria negra e de todo o país. Esta inadequação levanta várias hipóteses: será que o Capitão América anterior, homem branco, na verdade não representava apenas uma parte da população enquanto era falsamente tomado como representante de todos? Ou será que o problema está no ideal de nação (ou de sujeito), já não compatível com o século XXI?

Como escapar então desta redução generalizada? Se o caráter universalista das obras já não é mais possível ou, pelo menos, não é mais o exclusivo, como escapar da crítica e da recepção cultural de nichos? Como superar a redução, por exemplo, de uma obra ao seu público-(não-)alvo? Como assistir a um seriado como Jessica Jones sem reduzi-lo às típicas expectativas de um seriado de mulheres? Há afinal um universal comunicável em cada específico? No limite, o que as obras têm a dizer sobre o que eu não sou? A mudança na posição padrão daqueles que eram antes super-representados na posição de protagonistas, e agora aparecem também como coadjuvantes ou mesmo vilões, tem algo a lhes dizer? Ela diverte, emociona, faz pensar, critica? Evidentemente! O que é novidade para eles, sempre foi regra para a maioria das pessoas, os sub-representados, que sempre se relacionou com a alta cultura e a cultura de massas ou se reconhecendo em um protagonista diferente de si “universalizado” ou se identificando na sua representação tipicamente  secundarizada ou vilanizada. A possibilidade de se identificar com o outro (a mulher, o negro, x trans, etc) ensina mais do que a identificação sempre consigo mesmo. E é mais profunda. Entender seu papel social – o de companheiro em uma relação – não como o herói de sempre que salva a mocinha, mas também como o vilão que a persegue, pune e tortura é pedagógico – e realista. Esta variação é positiva e assustadora para quem esteve acostumado a se ver sempre representado de forma mais positiva do que a sua posição na sociedade realmente é. A virada representativa, que só tem crescido nas duas últimas décadas, tem em Jessica Jones uma de suas melhores representantes na indústria da cultura.

O enredo de Jessica Jones não surpreende em sua estrutura macro: ainda é um seriado sobre uma super-heroína, felizmente com pouco uso de super efeitos especiais, aprendendo a usar seus poderes para combater um super-vilão muito mau (forçadamente e com pouca personalidade, salvo apenas pela excelente atuação de David Tennant). Nas partes mais internas do roteiro, no entanto, a série surpreende: cada parte previsível tem uma continuação inesperada. A fotografia segue a mesma dualidade: é exagerada, clichê, mas delicada e parte componente da narrativa. Mantém-se a estrutura como série, confortável para o público do Netflix e da Marvel, mas no nível dos episódios aparecem surpresas interessantes. Jessica Jones tem uma superfície de seriado de super-heróis, mas é muito mais um drama sobre a superação – o processo de resistência, libertação e cura, nunca completamente realizado – de relacionamentos abusivos. O foco é a violência psicológica de homens contra mulheres, mas não se reduz a isto. A manutenção dos papéis de dominador e dominado, e a luta, aparece na relação entre casais lésbicos, mãe e filha, filho e pai e até no nível individual, no caso da luta de viciados contra a dependência química. O seriado é pedagógico sem ser panfletário. Ao invés de um marido manipulador, que distorce informações e manipula psicologicamente sua companheira, um super-vilão com o poder de forçar as pessoas a fazerem o que ele quer. Ao invés de um romântico apaixonado, um mimado que não perdoa a mulher por não se interessar por ele (e por acender seu desejo, pecado original clássico na  liturgia do machismo). Ao invés da negação social, como no típico “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, uma alegoria: uma delegacia cheia de policiais que testemunham a agressão e segundos depois explodem em gargalhadas se esquecendo do que aconteceu. Ao invés do maníaco, um namorado atencioso, que revela o caráter secreto do primeiro no segundo. As denúncias culturais da crítica feminista, racial e pós-colonial finalmente colhem seus frutos: em nenhum momento as mulheres são salvas por homens, mas o contrário acontece. O seriado mostra o aborto justo de um feto fruto de um estupro. As mulheres não se masculinizam para vencer os homens vilões: se apoiam. A super-força de Jessica não é fálica, impositora, é criativa, irônica, protetora.  O seriado tem uma profusão realista, finalmente, de atores negros, latinos e asiáticos. E para os nerds menos tímidos: finalmente boas cenas de sexo entre pessoas com super-poderes! A graça e o interesse que o Homem-Aranha introduziu no mundo dos quadrinhos com seus pequenos problemas de adolescente, sua falta de dinheiro, seu luto interminável pelo Tio Ben, isto tudo em oposição ao invencível Super-Homem, encontra agora uma graça e um interesses semelhantes, mas ainda mais expandidos, em Jessica Jones, a mulher quase normal que luta contra o seu passado – tristemente tão reconhecível, tão identificável para tantas e tantos – que não quer ir embora.

Tomaz Amorim é poeta, faz doutorado em literatura e pensa misturadamente sobre três coisas: arte, amor e justiça social; é também autor do blog 3 parágrafos de crítica.

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Bendito seja

Por Patrícia Mirelly

Benditos sejam os afetos cotidianos, a prosa desinteressada, a vida que não é desperdiçada pela pressa dos dias;
Benditos sejam os braços que abraçam sem medo de sufocar;
Benditas sejam as palavras ditas em silêncio, num olhar sereno, que nos faz descansar;
Benditos sejam os pensamentos positivos que controlam o juízo do medo de errar;
Bendito seja o café na mesa, o radinho na cozinha, tocando música boa para a alma encantar;
Bentido seja o livro na cabeceira, o abajur na mesa, para as histórias “alumiar”;
Bendita seja essa vida da gente e tudo o que o coração sente sem nada cobrar.

Patrícia Mirelly é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Cariri (UFCA)

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Cidade-dormitório

Por Tomaz Amorim

O termo cidade-dormitório se refere a municípios e bairros de grandes metrópoles onde a inexistência de uma esfera social autônoma exige que seus moradores saiam da cidade durante a maior parte do dia para buscar trabalho, educação e lazer em outros lugares (na maioria das vezes, a horas de distância de lá) e voltem apenas de noite e/ou nos fins de semana para suas casas. O próprio termo já designa uma diminuição brutal na ideia de cidade: de um aglomerado de habitações e instituições, mistas de espaço público e privado, em que a vida coletiva de uma sociedade se desenvolve em uma troca constante, a um aglomerado de habitações, com esporádicos comércios e reduzidos espaços públicos, ligados a uma rede de transporte que leva seus sonolentos habitantes para a vida coletiva em outro lugar. Se é verdade que a cidade é uma forma histórica de habitação ligada ao desenvolvimento econômico e sua concentração por grupos em regiões específicas, se é verdade que a forma cidade talvez seja um dos empecilhos principais para se pensar uma organização coletiva mais justa e ecológica, também é verdade que ela possibilitou uma troca entre pessoas e culturas em uma escala até então inédita, com resultados tão fantásticos e contraditórios quanto a produção cultural dos grandes impérios (Romano, Inca, Mali, etc) e os horizontes cobertos de barracões nas favelas em plena expansão do terceiro mundo no terceiro milênio. A cidade-dormitório é a redução destas possibilidades à mera habitação privada: cidade que não é aldeia, nem roda, nem ágora, mas apenas quarto de repouso do trabalhador. Ela poderia ser chamada também de cidade adormecida, aquela que dorme durante as noites quando seus cansados habitantes voltam das cidades vizinhas, aquela que dorme durante o dia quando é esvaziada pela quase ausência de seus habitantes.

O fluxo constante de pessoas para fora da cidade, seja para atividades de trabalho e estudo ou de lazer, faz com que não haja uma cena comercial ou cultural na própria cidade. Assim, seus trabalhadores e estudantes se relacionam com pessoas de outras cidades em outras cidades e quase nunca com pessoas da cidade-dormitório, nela. (Para os que ficam, a vida pública é reduzida à vida de bairro, se é que o bairro não tenha sido ainda transformado em condomínio ou em favela). O efeito produzido por este deslocamento é uma alienação tanto do espaço, quanto dos seus co-cidadãos. De forma compreensível, o sujeito que se dirige à metrópole ou ao centro, imagina que deixa para trás os outros cidadãos. Do esquecimento de que a maioria dos outros habitantes também sai, surge uma caraterística distintiva da personalidade do cidadão da cidade-dormitório: um tipo de arrogância contra seus patrícios. Se esquecendo que, por definição, quase todos saem, este cidadão adormecido – com a percepção alienada para seus arredores, ligada apenas no fora, no longe -  imagina que é o único que viu o mundo em pleno funcionamento, as possibilidades da metrópole, o mundo acelerado do trabalho e da cultura e sua troca incessante. No fim, uma cidade de pessoas que coletivamente se acham individualmente mais cosmopolitas e menos provincianas do que seus pares. Uma população, portanto, irônica: co-isolada, co-condescendente, co-arrogante. O efeito político previsível do transplante da vida pública local para outros lugares diversos é a prevalência da política privada, familiar, baseada em velhas oligarquias e seus parceiros de “negócios” sustentados pela frágil máquina pública. Como debater política com meus conterrâneos se frequentamos praças de cidades diferentes?

A máquina colonial, em pleno funcionamento, opera um tipo específico de tráfico humano: o de potencial. O Brasil, por exemplo, exporta brasileiros talentosos para países do primeiro mundo. Lá, imagina-se, eles terão maior possibilidade de desenvolverem seus trabalhos. O país estrangeiro ganha, o brasileiro ganha – o Brasil perde. Esta fuga de potencial também caracteriza a cidade-dormitório. Sem espaço para desenvolver suas habilidades e o estilo de vida que mais lhe agrada, geração após geração abandona a cidade em busca de lugares que lhe convenham mais. O movimento se retro-alimenta, cada geração que abandona o lugar ajuda a manter o vácuo que expelirá também a geração futura. O caráter de cidade-dormitório permanece, assim, inalterado. Uma única geração que ficasse e ajudasse a construir na cidade uma manifestação específica, local, coletiva, a partir das demandas das pessoas que habitam ali e da experiência adquirida fora, em outros centros, poderia interromper este ciclo. Tornar cada periferia e cada cidade-dormitório em um centro vivo de si mesmo, em diálogo permanente com os outros, seria a tarefa desta geração. Não um retorno conservadorista, bairrista, mas uma abertura verdadeira, que só pode haver a partir de si, ao mesmo tempo, cosmopolita e local. Este seria um tipo de sonho para acordar as cidades adormecidas.

Tomaz Amorim é poeta, faz doutorado em literatura e pensa misturadamente sobre três coisas: arte, amor e justiça social; e é autor do blog 3 parágrafos de crítica.