Pawel Kuczynski

Fábrica de fazer de conta

(Ilustração: Pawel Kuczynski)

Por Guilherme Fernandes Leite

A fábrica acorda cedo demais todos os dias. Ela nunca grita som algum. Apenas mantém alta uma coluna de fumaça escura e silente. O portão segue entreaberto, quase dando as boas vindas, como uma arapuca, que sequestra a liberdade e transforma os cantos em lamento e posteriormente em nada, nem mesmo um eco. O sol se ergue amarelo e laranja, por trás das nuvens, como um estudante tímido sem interesse.

As pessoas chegam em suas bicicletas silenciosas ou com passos arrastados, sempre em silêncio. Otários como eu, que não possuem ambição ou aptidão. Mas não hoje. Eu observo agachado atrás de uma pequena moita, como um cagão que se alarma com o vento, as mulheres de ombros largos e quadris disformes chegarem. E os homens de cabeça baixa e ombros caídos.

O único ruído naquela manhã é do homem de bigode. Ele orienta, xinga, repele. Aquele homem sim tem ambição. Dá para ver em seus olhos, azul cinzento da cor de uma garoupa. Como todo homem que sabe o que quer, ele herdou aquela vaga na fábrica sendo filho de uma puta qualquer. Todo herdeiro sabe dar bons conselhos sobre como a vida é difícil e de como é possível superar toda a merda que engolimos.

Aquela era minha hora de entrar, depois que todo mundo estava nos seus postos. Enfim a fábrica fechava o grande portão gradeado e o ‘bigode’ cruzava o braço a espera dos retardatários com um sorriso pateta no rosto. O herdeiro se realizava naquele momento. Ele podia colocar em prática a sua experiência e sua significância de mosca tomava grandeza de homem batalhador e sincero. Um paizão para todos os renegados.

Ele fazia os atrasados aguardarem no sol até o último chegar e começava: – Amigos. Atrasados novamente, eu nem sei por onde começar. Como vocês acham que eu cheguei até aqui? (Com o teu pai fodendo a sua tia). Eu espero mais de vocês, vejam o meu exemplo. Eu chego aqui antes de todo mundo, sempre com um sorriso no rosto, e sou o último a sair. E muitas vezes passo a madrugada pensando em como fazer a fábrica funcionar melhor (ou se masturbando). Meu sonho é ver vocês tomarem o meu lugar. (O único modo de eu tomar o teu lugar é comendo a sua mãe). Mas do jeito que vocês vão, não chegarão tão longe. (De fato, ficando 10 horas dentro de um galpão é que vamos longe na vida).

Eu nunca tive a coragem de falar nada daquilo. Quem não tem ambição não tem coragem para muitas coisas. A fábrica então nos abraçava, deixando um perfume de suor e castanha impregnado nas roupas. Ao fim do expediente eu rumava em direção ao centro daquela pequena cidade, invejando os bêbados e vagabundos que jogavam dominó. Que coragem. Mas, aos olhos do herdeiro, eu deveria dar graças a deus por ter um emprego que me permite a ocupação do tempo.

Cada dia que passava eu me tornava mais silencioso, me tornava um com os meus colegas , um com o herdeiro, um com a enorme fábrica. Como toda morte silenciosa, a fábrica matava a longo prazo. Tornando-nos inúteis a nós mesmos. O relógio que antes marcava o compasso, agora silenciou junto. As chamas estalavam e a fumaça erguia mais longa, mais espessa e mais alegre. Da moita eu observava tudo.

Guilherme Fernandes Leite é jornalista e escritor, seja lá o que isto quer dizer neste país…

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Madeixas

(Pintura: Viktor Sheleg)

Por Vanessa Dourado

Pesava tanto. O pior era ter de aguentar as pessoas perguntarem se ela era crente. Aquilo a deixava bastante chateada. Lembrava-se da época em que frequentou uma igreja evangélica que ficava perto da sua casa, a qual também ficava perto da casa da amante do pastor que morava na esquina.

Naquela época, aprendeu que o pecado era seletivo e que tudo era possível, até mesmo pagá-lo de forma facilitada e em várias parcelas. Assim ficava mais confortável pecar. Não sabia se era do conhecimento de todo mundo o fato de o pastor ter uma amante, se simplesmente fingiam não saber por conveniência, ou se era melhor pensar que não eram tão pecadoras as pobres ovelhas. Já que o Santo Ungido do Senhor pecava, o pecado dos menos condecorados não poderia ser assim tão grave.

Quando ela usava saias longas, aí é que diziam mesmo “Uma serva!”, mas, na verdade, ela usava saias longas para poder não usar calcinha. As saias longas, diferente das curtas, evitavam incidentes desagradáveis como os provocados pelos ventos inconsequentes que poderiam deixá-la constrangida na rua.

Mas o tema era perceber as leituras distorcidas. Ela ainda não tinha se acostumado, depois de tanto tempo usando os cabelos curtos, com aquela cabeleira toda. Pesava tanto.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Um curta-metragem de fúria em primeira pessoa

(Pintura: Regina Parra)

Por Rodrigo Novaes de Almeida

“Say what again! I dare you! I double dare you, motherfucker!”

[Diga isso de novo! Eu te desafio! Eu te duplo desafio, seu filho da puta!]

(Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, EUA, 1994)

 

Capítulo 1 — A blitzkrieg

Eu era uma criança que desejava crescer logo, odiava não ser levado a sério pelos adultos. Eu enxergava o desdém nos seus olhos. Tinha vontade de matar todos eles. O sentimento mudou um pouco aos doze anos, quando ganhei de dia da criança minha primeira arma de fogo. A pistola era maior do que o meu antebraço. Não sei o motivo de lembrar disso agora. Estou escondido nesse quarto, faz um calor filho da puta, o ar abafado, escuto os caras lá fora me caçando. Roubei um táxi, o desgraçado do taxista tentou pegar alguma coisa debaixo do banco, dei uma coronhada na cabeça dele e arranquei ele do carro. Gritava “meu tresoitão! meu tresoitão!” Enfiei a mão debaixo do banco e o berro estava lá. Otário. Perdeu, alemão. Só que duzentos metros à frente a rua estava interditada por três viaturas. Larguei o carro na pista e corri. Não conheço a região. Nem sei o nome do bairro. Lugar fodido de gente fodida. Ruas praticamente desertas. Cruzei com quatro desgraçados, queriam dinheiro. Dei um tiro na cabeça de cada um. Pá, pá, pá, pá. Peguei a grana deles, umas notas de duzentos vermelhas que nunca vi. Depois entrei numa caçamba de caminhão. Ele parou nalgum lugar, desci, entrei num prédio, atravessei um pátio, espécie de jardim interno, saí noutra rua deserta, foi quando peguei o táxi, quero dizer, roubei. Agora me acharam, quebraram os vidros das janelas, a fumaça é pra sufocar e meus olhos ardem pra caralho. Não enxergo mais porra nenhuma. Liguei um foda-se e estou dando tiro no erro pra ver se levo alguns comigo. Perdi pra blitzkrieg desses filhos da puta de farda. Já era.

Capítulo 2 — A goteira

Acordei de madrugada com o barulho de goteira no banheiro. O ralo do apartamento de cima entupiu de novo. O merdinha do síndico não faz porra nenhuma, o zelador é um filho da puta que finge trabalhar, está sempre na portaria conversando com a moça da limpeza. Os dois devem foder escondidos na escada do prédio. Perdi o sono. Peguei a garrafa de Red Label, tomei um trago e fui limpar a Beretta. Removi o carregador e coloquei ele sobre a mesa de jantar. Esvaziei a câmara e puxei o ferrolho pra trás. A goteira continuava lá no banheiro. Caralho. Liguei o laptop e deixei tocando umas músicas do Leonard Cohen no Youtube. Acionei pra baixo as travas laterais da arma, depois separei o ferrolho da armação, pressionei pra frente a mola e a guia de mola e retirei o cano. Aquela tarefa e a música me acalmaram um pouco. Não tive pressa de terminar a limpeza. Por fim, a arma montada novamente, usei uma flanela pra remover o excesso de óleo. Cuido bem dela. Coloquei mais uma dose de uísque, peguei o computador e fui pro sofá. Abri outra janela do navegador da internet. Xvídeos. Nada de novinha ou velha demais. Bati pra uma chupada atrás de uma árvore em um parque. Banal. Era um vídeo tosco feito com celular. Coloquei o laptop de lado e liguei a tevê. O barulho da goteira me incomodava e me deixava mais puto com os merdas do condomínio. Pensei no cara que apaguei semana passada. Era só um rosto. É só um rosto sempre. Não quero saber nem o nome do sujeito, se tem família, se é bicha, motivos de encomendar sua morte nem pensar. Foda-se. Recebo os vinte mil e passar bem. Só um taxista desgraçado que apaguei na raiva por causa de três pratas. Eu não estava num bom dia. Agora espero clarear pra tocar lá no apartamento do síndico.

Capítulo 3 — O tresoitão

Era feriado de Natal e eu viajava com mulher e filha pequena. Foram seis horas suando frio dentro do ônibus, nervoso pra caralho. Ainda por cima, a patroa tinha que comentar antes de embarcarmos, ao ver um inspetor de polícia, que passou por revista uma vez naquela mesma rodaviária, que se zangou por terem aberto sua mala e visto suas calcinhas, “algumas já bastante velhas” — ralhou ela —, “o que encontrariam ali?”, “armas, drogas?”, “nem bebo, um saco, viu!” E assim fiquei nervoso, nervoso pra caralho, me esforçando pra que ela não percebesse, e comecei a andar prum lado e pro outro, vendo se algum ônibus estava prestes a ser revistado por algum inspetor de polícia. Tenho carro, é um táxi, e não pego estrada com ele. Aproveitei pra deixar na revisão. Melhor assim, pensei. Então embrulhei como se fosse pra presente o livro falso que servia de cofre com o tresoitão do meu pai dentro, e guardei tudo numa mala com muitos presentes. Desejava aquele bicho preto fosco desde garoto. Aos doze ou treze anos descobri por acaso uma chave que abria a gaveta da escrivaninha do velho. A arma ficava lá e a chave passou a ser um segredinho meu naqueles nem tão inocentes anos. E agora que ele tinha morrido o tresoitão era finalmente meu. Mamãe, concentrada em seu luto, nem soube de nada e, se soubesse — ou sentisse falta daquele revólver que nunca gostou que o meu pai mantivesse em sua casa —, certamente sentiria alívio por eu ter tirado ele de lá. Era um tresoitão antigo mas funcionava bem. Certa vez, sozinho em casa, eu tinha uns dezessete anos, coloquei música alta, televisão berrando, fechei janelas e pow!, um cheiro de pólvora do caralho no quarto. Fiquei de pau duro e, resultado, bati uma punheta. E este foi um Natal de merda, triste, o pai morto há duas semanas, a mãe sob efeito de medicação forte, os sobrinhos melequentos, filhos do meu irmão, tocando o terror debaixo da mesa da ceia, um calor filho da puta e a comida estragando em cima da mesa, a tia gorda reclamando do governo, um primo o tempo inteiro tirando naco de comida de entre os dentes com o dedo, enfim, um Natal de merda e eu feliz pra cacete porque aquele tresoitão antigo do meu pai agora era meu. No final das contas, correu tudo uma maravilha, sem revistas na rodoviária e nenhum imprevisto na estrada. Guardei o cofre camuflado de livro na parte de cima do meu armário, sem a arma dentro. Ela está embaixo do meu assento no táxi. Por via das dúvidas, sabe?

Rodrigo Novaes de Almeida nasceu no Rio de Janeiro, em 1976, e vive em São Paulo. É escritor e jornalista. Autor de Rapsódias — Primeiras histórias breves (contos, 2009), A saga de Lucifere (novela, 2009), Carnebruta (contos, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, 2012).

miseria

Na busca do Nike, morreu de chinelo

Por Jardson Remido

 

“Compre! Compre! Adquira o novo par de nike”

- Pooorra, que pisante roxeda, ladrão. Mãe! Mãe! Tem um pisante roxeda, passou na TV, compra pra mim?

- Menino, o que é pisante pelo amor de Deus?

- Ô mãe, pisante é tênis. É um da Nike.

- Quê??? Isso é mais do que meu salário, infelizmente não tem como eu comprar, filhote.

- …

Glauber sai do barraco e vê Jorge com o par de tênis que tanto deseja.

- Oh o Glauber, chega aê dazaria!

- Porra, como tu conseguiu esses pisante, menor?

- Ooooh, tô no movimento, altamente envolvido, vendendo, arrebentando nos papelote.

- Como consigo?

- Entra no movimento, menor.

- Pode ser agora?

- Rapaz… pode.

- Pois vai, me arranja o ferro.

- Hã?

- Me arranja o ferro.

- Eita, pois vai menor, sangue no zói.

Glauber foi pra Avenida Perimetral, meter assalto. A vítima reage. Ele mata. Ele foge. Troca tiro com a polícia e morre. Mais um sugado pela propaganda da Nike.

Jardson Remido é poeta marginal, de rua, trocou a quadrada na cintura pelo livro na mochila

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E agora José?

(Pintura: “Boemia”, de Julia Aumüller)

Por Rodrigo Novaes de Almeida

Era final de abril do ano de dois mil e dezesseis de Nosso Senhor. Estavam em um pé-sujo na rua atrás da universidade, nas imediações do Largo de São Francisco, Rio de Janeiro. Bebiam cerveja e comiam uma porção de linguiça calabresa acebolada. Uma prostituta já bastante velha tentava fazer comunicação visual com qualquer um dos dois. Tinha um puteiro rançoso sobre o bar, subindo uma escada estreita pela calçada. Ela estava do outro lado da rua encostada em um carro. Fumava. Usava um batom vermelho escarlate — “evidentemente”, pensou José, distraído, quando se deu conta de que encarava a prostituta velha de volta. Virou-se, então, para o amigo. A mulher ainda fez um gesto obsceno na direção deles, jogou a guimba no chão e passou a encarar alguns homens que passavam na rua.

— Não ouviu porra nenhuma do que eu disse. — Falou Leon.

— O que você disse? — Perguntou José.

— Eu disse que a única saída agora é a gente pegar em armas, porra.

— Armas?

— É, porra. O que há com você?

— Que armas, rapaz? Você pensa que vão fazer revolução com canivetes, facas de cozinha e estilingues? Porque quem tem armas de fogo no país é a direita.

— Tem razão. Mas, e agora?

— E agora? E agora? Vocês só sabem falar e agora?

— Tem que existir uma saída, porra.

— Tem.

— Tem o quê?

— Uma saída, porra.

— Qual? Para de fazer suspense! Diz, aí.

— A gente precisa derrubar o estatuto do desarmamento junto com os caras.

— O quê? Ficou maluco? Foi pra extrema-direita, Zé? Porra, eu estou bebendo com um filho da puta de um fascista aqui?

— Hein, relaxa, Leon. E não grita.

— Não grita? Olha a merda que você está falando.

— Cala a boca e escuta. Penso nisso há mais de uma década, desde que a esquerda chegou ao poder sentando à mesa pra conciliar com o capital.

— O que é, então? Fala…

— Se é pra fazer direito, que agora derrubem o estatuto do desarmamento de vez e armem e treinem cada sindicalista desse país, cada sem terra, cada sem teto, cada trabalhador consciente de classe. Que infiltrem camaradas na base das forças armadas e coloquem gente em posições estratégicas das polícias. Então que comecem a cortar cabeças. Banqueiro. Industrial. Empresário. Só pra começar.

José parou de falar. Leon olhava para o amigo sem nada dizer. Ficaram assim quase um minuto.

— Mas, claro, nada disso vai acontecer. — Disse, por fim, José.

— Claro, nada disso vai acontecer. — Repetiu Leon, soturno. — Vladimir, desce outra gelada aqui, por favor.

Ficaram sem falar mais alguns minutos. A prostituta continuava no mesmo lugar e fumava outro cigarro — “era o capitalismo decrépito”, pensou José. Foi Leon quem quebrou o silêncio dessa vez:

— Porra, Zé, você é perigoso pra caralho.

 

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e jornalista nascido no Rio de Janeiro, Brasil (1976). Autor de Rapsódias – Primeiras histórias breves (contos, 2009), Carnebruta (contos, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, 2012). Site: http://www.rodrigonovaesdealmeida.com/

 

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Os bárbaros chegaram

Por Rodrigo Novaes de Almeida

Começou jovem na empresa há mais de vinte anos. Chegou a diretor. Era amigo dos donos e se considerava um deles também. Mas os verdadeiros donos se cansaram do negócio e venderam a empresa para um grupo grande do país. O diretor farejou a oportunidade de crescer dentro daquele grupo e, como se costuma dizer, vestiu a camisa. “Novos colaboradores, vamos pagar menos, não importa como era antes, temos margem para cortar.” E os novos empregados chegavam contratados por dois terços do salário habitual. “Nada de direitos. Gente folgada, precisa mostrar serviço antes de vir com essa conversa de direitos. Competência é o que exigimos. Meritocracia é tudo. Vamos, ao trabalho. Sem férias, décimo terceiro, fundo de garantia, nada de distração, nada de supérfluo. Trabalho, trabalho. Vamos fazer aquele contratinho básico de prestação de serviço. Vacilou é rua. Assim é mais fácil, cancela o contrato de Fulano e pronto. Está muito lento? Dispensa. Aquele ali, quem é?” Trabalha a dez metros do diretor, todo dia, há mais de um ano. “Manda um e-mail: ‘Não precisamos mais dos seus serviços, Sicrana do financeiro vai acertar com você, está dispensado.’ E assim a máquina funciona, vencemos cada crise com eficiência e mostramos resultado, vamos trabalhar.” Passa ano. Reunião dos diretores, multinacional interessada em comprar todo o grupo. Outra oportunidade, calculou ele. “Mais cortes, mais otimização. Como adoro esta palavra: ‘otimização’. Digo, repito, durmo com ela, sonho com ela, acordo com ela. Faço a barba com ela também. Especialmente a barba.” Burburinho nos corredores, funcionários demais indo ao café. “Os colaboradores estão preocupados, senhor.” “Vamos levá-los a um bom restaurante, tudo pago. Vamos acalmar a equipe. Precisamos de mais sinergia, principalmente agora com essa fusão. Pensando bem, esse restaurante vai sair caro, temos que pensar na empresa. A empresa sempre em primeiro lugar. Tem a pizzaria aqui perto. É mais em conta.” Gastar com essa gente, céus. Gente folgada, pensou. “A bebida é por fora. Cada um que pague a sua e quem ficar bêbado, rua.” E toda a equipe é tranquilizada, pausa para fotos, sorrisos, “mostrem os dentes”, “as oportunidades serão para todos, empresa multinacional”, “espanhóis, ingleses, americanos?” Alguém soltou, quase-chiado, “estadunidenses”. “O quê?” “Nada, não.” “Quem são?” “Os bárbaros estão chegando”, entredentes. “Quem?” “Os bárbaros, esquece.” Ruídos. Todos falavam ao mesmo tempo à mesa da pizzaria. No outro dia, reuniões, intermináveis reuniões. E o diretor com camisa nova. Gravata nova, italiana. Sapato também, italiano. Calça. Cinto. “O que foi?” “Precisamos cortar. Há colaboradores para as mesmas funções.” “Vamos cortar.” “Mas é véspera de Natal, senhor.” “E daí? Manda todo mundo embora. Espera! Sou cristão, merda. Faz o seguinte, desliga primeiro os terceirizados, imediatamente.” “E os demais, senhor?” “Até o Carnaval a gente dispensa.” “Mais de duzentos, senhor.” “Já dá para fazer bloco. Não gostam de uma rua? Então. Meu feriado é em Búzios.” Meses depois, “o que foi agora?” “É o gringo, senhor.” “O que ele quer?” “Falar com o senhor.” “Boa tarde, tudo bem, dois diretores, uma diretoria, muito obrigado, passar bem.” Mais de vinte anos se passaram e os bárbaros chegaram.

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e jornalista nascido no Rio de Janeiro, Brasil (1976). Autor de Rapsódias – Primeiras histórias breves (contos, 2009), Carnebruta (contos, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, 2012). Site: http://www.rodrigonovaesdealmeida.com/

O Fuxico

O fuxico

(Desêin: Ramon Sales)

Por Augusto Azevedo

- Sabe rezar?

Naquelas circunstâncias esse era o único questionamento que o defensor conseguia fazer. Tudo tinha ido longe demais e por mais que aquele renomado advogado não estivesse ali na condição de favor, pois estava sendo pago e assessorado por companheirxs do acusado e ativistas envolvidos no caso, a defesa estava sendo inviabilizada pela aberta perseguição que seu cliente sofria.

- Fica frio, doutor, você já fez tudo que pôde – falou o acusado, estranhamente conformado com a situação, fazendo recomendações referentes às ações em prol da sua liberdade, mas expressou acima de tudo gratidão, pelo que estava sendo feito por ele, e preocupação, pois sabia que não era só a sua vida que tinha se tornado um inferno a partir do seu processo de incriminação e prisão.

Quando um dos melhores advogados criminalistas da região pede para seu cliente rezar, sabendo que uma injusta condenação ocorreria é porque o negócio tinha ficado irreversível. Não era só aquele jovem, estudante, trabalhador, réu primário, arrimo de família, menor de vinte e um anos, que estava sendo condenado, era todo um posicionamento social. A divergência estrutural ligada à permanência ou ao fim do Estado parecia se esmagar naquela situação, onde o Estado existia e estava condenando um inocente, como milhares de inocentes são condenados ao encarceramento, mas naquele caso era um verdadeiro cala-boca, uma demonstração de desproporção de força das instâncias repressivas em detrimento aos movimentos sociais, que além de perdidos na ausência de horizonte político, imerso à dissimulação burocrática, não faziam outra coisa a não ser reagir às iniciativas que conduziam ao seu extermínio. Muita coisa foi feita para a liberdade do rapaz, no entanto até pra libertar um preso político o ego dxs envolvidxs e o interesse institucional fortaleciam a penalização do acusado. Uma sociedade estruturada na bandidagem não pouparia esforço para punir o pior bandido já criado nos últimos anos.

O simplismo impregnado nas leituras políticas não permitia que situações explícitas de perseguições ideológicas fossem apreciadas e respondidas de modo sério, consequente. Na real, o apreço pela vaidade e o compromisso com a própria conta bancária tornavam sádicos eufóricos e progressistas ambiciosos na mesma coisa, independente do ponto de vista, dos mitos coordenativos, da cor da camisa ou da bandeira, ambos defendiam arregaçadamente o mesmo projeto, a mesma sociabilidade.

A personificação da luta projetou a ascensão de muitos oportunistas, desencadeou embates, rachas; fortaleceu monstros, consagrou medíocres, tornou a demagogia categoria do exercício político. As alternativas políticas arrojadas, nutridas pela valorização da autonomia e das diferenças eram convertidas em ameaça terrorista e aquelxs que camuflavam suas identidades eram personificadxs naquilo que há de pior, de mal, de ruim, de ameaçador, de apavorantemente desestabilizador. A negação da identidade e da autoria apresentava caminhos outros de confronto, porém um jovem estava preso, sendo injustamente acusado pela Justiça; esta se desapegava da conhecida morosidade, se mostrando valente para impedir que o meio social por ela representado fosse contaminado com exemplos além do que estava programaticamente estabelecido.

Diferente de outras ocasiões, o Judas escolhido pra ser malhado não teve apenas as vaciladas e insucessos da vida particular expostos, além da execração pública que destinava o sujeito a um isolamento social sem o menor direito de se retratar, se defender, se explicar. Era prevista uma fatal condenação por tentativa de homicídio, respaldada por uma confissão forjada a partir do potencial de uma sala escura, abafada e fedorenta, com incessantes sessões de choques elétricos, coronhadas, golpes de palmatória, pimba de boi, em todas as partes do corpo que a anatomia já pôde especular… e perguntas.

O oficial da polícia militar que sofrera a tentativa de homicídio finalmente conseguia falar; seu maxilar ainda estava inflamado, longe de permitir que ele pronunciasse as palavras com nitidez, porém, ainda com a boca cheia de pinos e com ajuda de familiares e amigos gravou e postou um vídeo na internet, agradecendo as preces de melhoras e os apelos de justiça. Nas próximas eleições, com apoio de três ou quatro comerciantes e alguma consideração do pessoal do batalhão vai dar para ser eleito vereador. Nenhum colega milico, assim como nenhum apresentador de programa policial, estava com a visibilidade do oficial, que antes de poder falar, ainda internado no hospital militar, colaborou de modo veemente para a prisão de seu(s) algoz(es), utilizando caneta esferográfica e bloco de notas.

Tirando algumas expressões de resistência, orgânicas ou não, o modo como a sociedade em geral se relaciona com uma autoridade reflete o atraso da humanidade, que transbordando de vaidade e subserviência louva o que se impõe como superior. Violência policial sempre ocorreu de modo intenso nas grandes cidades do país, o Esquadrão da Morte fez escola, influenciando tudo que era jagunço, meganha matador, miliciano – e de uns tempos pra cá a violência promovida por esses agentes do Estado só se alastrou; mas quando um policial é assassinado, mesmo por um colega de farda, como acontece muitas vezes, o terror é instaurado e a movimentação só se cessará quando o número de mortes for convenientemente suficiente. Inobstante, para pessoas que cobram moral indiferente a qualquer razão, qualquer ato de equilíbrio, sensatez, muito pior do que executar um agente policial era expor sua fragilidade, seu lado indefeso de ser humano.

- Antes tivessem matado! Fazer isso com o major; acabaram com a vida dele – diziam.

O oficial, símbolo da corporação, articulado com o governador, assim como com outros companheiros de oficialato e seus subordinados não envolvidos com maracutaias, tinha sofrido violento atentado na praia da Tabuba (onde habitualmente ia em suas folgas), em um fim de tarde, quando saía do mar após uma sessão de kitesurf. Seus malfeitores utilizaram a pipa do próprio equipamento náutico para encobrir a cabeça do oficial e deixá-lo sem as mínimas condições de reação. Após a surra, bordoadas e areia enfiada em sua garganta e olhos, foi colocado dentro de uma caminhonete 4 x 4, levado a uma rua vazia daquelas bandas e teve dizeres como: porco, gambé, vingança, além de diversas letras “a” dentro de circunferências escritos em seu tórax, abdome, costas; o que apontava que a ação tinha sido premeditada e executada com suma frieza. Tiveram que convocar um perito em grafismos para identificar através de fotos as palavras escritas no corpo do major em letras garrafais. O destemido oficial, mesmo com corpo dominado pelo acocho da pisa, persistia em se contorcer, dificultando a efetuação do que tentou ser escrito em sua própria pele, mas a missão de registrar o horror já tinha sido cumprida e, bem antes da convocação do perito em grafismos, tudo que era grupo de apologia à violência policial do aplicativo de comunicação instantânea mais utilizado já tinha recebido as imagens que insinuavam que as supostas ameaças à honra da Polícia Militar eram sérias. Antes das emissoras de rádio e televisão e jornais denunciarem o crime, tudo que era de rede social já tinha disseminado o episódio e tudo que era de fascista, membros e bajuladores de instâncias de repressão em geral se mostravam dispostos a responder àquele atentado contra a integridade de quem mantinha a ordem social. Enquanto os apresentadores de programas sensacionalistas gozavam de tanta euforia expondo o caso, os setores democráticos da sociedade apresentavam obscuramente sua incapacidade de encarar o embate e o quanto a apatia e o individualismo podem tornar partes distintas absurdamente semelhantes.

O oficial que sofreu a violência, antes de se tornar símbolo da perseguição de jovens pertencentes a coletivos anticapitalistas, era um verdadeiro empecilho nas tramóias e trambiques da própria corporação, pegando no pé de tudo que era policial corrupto, do meganha morta-fome que ameaçava pequenos comerciantes pra conseguir refeições sem pagar aos oficiais agraciados com propinas mensais para o acobertamento de presepadas lucrativas como tráfico de armas e drogas; do samango bombado envolvido com gangueragem ao agente graúdo, cabo eleitoral de parlamentar. Ninguém passava ileso aos olhos do oficial metido e reparador. Então o melhor a ser feito era dar trabalho para esse sujeito tão aficionado por fazer a coisa certa. Entregar a ele xs vagabundxs baderneirxs parecia resolver o problema e ele não se acanhou de aceitar o cargo de desarticulador de movimentos sociais desgarrados de interesses institucionais. De fiscal de comportamento e conduta de PMs virou perseguidor de manifestantes, embora o ódio dos policiais que ele tanto importunou não tivesse evaporado.

As desavenças e trocas de acusações na internet entre o lado de cá e o lado de lá ganharam maior notoriedade, sobretudo para o lado de lá, quando, duma hora para outra, apareceu comentando e respondendo postagens oficialmente a PM, como um inimaginável reacionário, defendendo seu lado sem ameaças, coações ou constrangimentos… visíveis. O candidato ideal para controlar a democracia.

Em um sentido amplo, nós falamos demais. Falou demais o acusado quando, empolgado, não poupou sua disposição crítica reprovando as atitudes de persuasão e banimento exercidas pelo Estado por meio de seus sicários fardados, quando argumentava naquele grupo virtual. Também agiu como um falador incontrolável quem encaminhou registros de imagens daquelas conversas, fornecendo armamento ao inimigo, projetando a si e a outros como alvos. Alguns questionamentos vislumbrando a desmilitarização da polícia, o retardamento no envio de textos na conversa por conta da inoperância da operadora telefônica e uma desgraçada troca de artigos definidos foram suficientes para a incriminação já começar bem sucedida. A mais-que-perfeita reunião de equívocos.

- É preciso acabar com a PM! Morte ao Estado!

Essas expressões usadas por muitos que entendem a condição militarizada da polícia como estímulo e legitimidade de sua truculência e a negação da subserviência ao Estado como lúcido princípio de resistência poderiam ser compreendidas como meros devaneios ou vibrações de internet, talvez se não fossem antecedidas pela despretensiosa indagação de um dos participantes do grupo de discussão:

- E o major lá, fascipopulista, o que a gente faz com ele?

Quem fez a impressão da conversa no aplicativo de comunicação instantânea e a disseminou? O dono do fuxico nunca mantém o domínio de sua obra.

Augusto Azevedo é empreendedor da área de Organizações Sociais, atualmente se encontra envolvido em estudos sobre aproveitamento de recursos hídricos com Peter Brabeck-Letmathe

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João de barro e a cartomante

Por Bruno Pereira

- Olá João de barro. Belo dia!

Assim ouvi a voz da Cartomante que passeava pelo bosque. Sempre elegante com seus trajes ciganos. Eu estava a sossegar no galho de um Ipê-amarelo. Cantarolando baixinho sons que ouvi em meus voos.

- Olá, belo dia senhorita Cartomante. Muitos futuros para prever? Perguntei esperando a mais óbvia das respostas. Afinal, ela era uma cartomante. Mas seus olhos me anteciparam uma mudança. Seu imenso sorriso, que hoje se mostrou tímido, me encantava. Respondeu-me decidida e mesmo assim sua voz suavizava o mundo.

- Não, João de barro, sem futuros para prever. Joguei fora as minhas cartas reveladoras dos mistérios do que há por vir. Abri mão do meu dom para aprender o dom de viver. Cansei das belezas e desgraças das vidas alheias. Quero as minhas incertezas. Quero desvendar, vivendo, os segredos que o vento sopra sobre mim.

Silenciei. Eu que ali cantava os sons de outros pássaros, melodias de outros ares e poesias de amores que não foram meus. Eu que tenho a liberdade do voo, uma visão sobre a vida que poucos possuem, me engaiolava no medo de ser eu, trilhando sempre as mesmas rotas. Escondia-me na beleza dos Ipês. Perdia-me no meu próprio canto.

Falei: – Tenho medo do futuro e de sabê-lo. Como vivem aqueles que o futuro você desvendou? Algo pode surpreendê-los, motivá-los? Na incerteza encontro força para escrever a minha história. Na folha que a vida me entregou em branco, com sorrisos e lágrimas, faço os desenhos de cada letra. Com meu canto quero desvendar os encantos dos dias chuvosos e ensolarados.

- Querido João de barro, triste me sinto pelos futuros que as cartas espiaram. Por cada alegria sem o espanto da surpresa, por cada tristeza que foi chorada nos cantos de minha pequena sala. Amores sem os sorrisos da incerteza e a morte sem a esperança da vida.

- Mas para ti ainda há tempo para surpresas e novos amores. E para mim amores com novos ares.

- Sim, novos amores. Vou-me embora do bosque e por cartomante não mais atenderei.

- Para onde vais? E como te chamas?

- Me chamo Vida. Meu pai quis assim. E eu vou pela estrada do meu coração.

- Vais embora do bosque? Ah Vida, mande notícias e sorrisos. Sentirei saudades da beleza tua.

- Eu vou, meu querido João de barro. Tu vais continuar aqui? Não desejas novos voos? Deixe de medo.

- O medo eu venço, Vida. Cansei de voar sozinho. Quero compartilhar asas.

Ela me olhou e chegou mais perto do Ipê-amarelo. Levantou o braço e vi sua mão tão próxima de mim. Ergueu o dedo indicador e entendi o que a Vida me oferecia. Voei baixinho e pousei no seu dedinho. Ela começou a andar e o bosque ficava para trás. E sussurrou assim:

- O encanto é uma página por dia. Conhecer o desfecho, antes da primeira curva, é matar à punhalada o enredo da vida.

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Croniconto Urbano

Washington Hemmes

            Voa em duas piruetas a cair no chão, o boneco humano. Mar-vermelho: afoga mágoas dessa vida tanta. Tanta, essa vida!

Apinham-se derredor do corpo, curiosos, espetacularizam a morte em câmeras de minuto e meio, e o que era dor, medo, luto, torna-se gargalhada recheada por reclames globalizados.

Aprendera desde pequeno a sentir-se o outro, ele, altruísta, valores cristãos enraizados em chicotes-terços, cinturões-crucifixos, verdadesÒ de aço inoxidável: corre atrás da máquina-atropeladora modo a anotar a placa. Sensibiliza-se a multidão ante a cena de tamanha solidariedade. Carpidam às avessas, todos, em torcida organizada. Ele, enquanto, preocupa-se com registrar o número do assassino, a entregá-lo à justiça. Justamente, é aplaudido pela massa.

Acabrunhado, papel no bolso, desliza da turba ao calçadão da praça: devia de ter uma delegacia ali perto. Caminha à porta do distrito, faz que entra, resvala rente-parede à casa lotérica, e aposta, sem remorso, honra e alma nas dezenas da morte.

 

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Um amor zen

(Foto: Pintura “Casal”, de Eloísa Serpa)

Nagle Melo

O chão tremeu, o equilíbrio desapareceu, o sangue sumiu das veias e o coração despedaçou. Ela despencou! Morreu por dentro. Deixou que a história de amor se transformasse (não havia jeito) em ideal. Na verdade, no fundo de seu ser, sabia que não passava disto, de um ideal, de uma fantasia de carnaval. A quarta de cinzas chegou opaca no seu recanto de memórias floreadas falsamente.

Achou que a vida lhe pregara uma peça, daquelas que duram 3 horas ininterruptas. Olhou firme nos olhos dele, lá dentro, e não viu mais o amor. Onde estaria? Fugiu? Escapou das minhas mãos? Pensava, pensava… se esforçava pra tentar descobrir onde diabos o amor havia ido. Será que voltaria?

Caminhou pelos bosques, parques, ruas. Olhava pras árvores frondosas e magníficas da Argentina e desejava virar uma. E ficar lá, sem sentir mais amor ou coisa alguma. Chorou, esperneou, sentiu a falta. Que amor é este? Não sabia mais o que falar a respeito. Já não tinha mais aquela segurança dos amantes. Do tanto que amou. Será que amou? A cabeça não aguentava mais!

Passada a intensidade do furacão, retornou ao país de origem e mudou de lar. Nova vida! Novo amor? Não sabia. Definitivamente, não sabia. Foi quando um convite para meditar a tirou, momentaneamente, da confusão mental que a percorria. “Será? Não vou conseguir meditar”. Mas o convite foi um tiro certeiro, mesmo sem intenção alguma de acertar (ou de errar).

O coração batia forte e sentia uma mistura de excitação e medo. O abraço acalmou, assim como a energia de paz do lugar. Instruções dadas, era quase hora de sentar. Foi quando um homem magrinho e careca entrou. Por milésimos de segundos tudo teria sido diferente. Mas não foi. Ou foi. Ao final da prática, durante a troca de experiências, olhava pro ‘monge’ de rabo de olho e pensava: “este já nasceu meditando. Preciso ‘caminhar’ muito pra chegar a este ponto”. Tamanha excentricidade a fez brilhar os olhos. Mal sabia ela que havia brilhado os olhos dele também.

O contato foi estabelecido naturalmente, apesar de serem completos desconhecidos. As primeiras conversas e coisas em comum. As primeiras e infinitas diferenças. A vontade e curiosidade de conhecer e, quem sabe, sentir.

Foi naquele restaurante azul celeste, espaçoso, com as mesas ao ar livre, onde as conversas mais profundas e delicadas aconteceram. O dito e o não dito. O céu e a terra. O rio e o mar.

Experimentar requer arriscar. E a lua vermelha incendiou os corpos que queriam se misturar. Corpos de homem e mulher. Mulher e homem. Os dois num corpo só, os dois em dois corpos colados. Alma e gozo sendo os grandes protagonistas desta história.

Uma prática que ensinou (e ensina) muito sobre o amor. Um amor que não é ideal. Um amor que não necessita categorização, nomeação. Um amor verdadeiro, que brinca com carinho e carícias, admiração e respeito. Compreensão. Um amor zen.

Nagle Melo é psicóloga, amante do ócio e escreve o que seu coração grita