22_Hemmes

Sobre abismos e utopias

(Foto: Artur Pires)

Por Diane Southier

Espero que o abismo
do qual sinto estar me aproximando
de falta de alternativas
de contingência quase absoluta
continue se afastando como o horizonte
conforme eu caminho.
O horizonte
ele sim
pleno em possibilidades…
Tenho sentido um constante pesar
sobre até onde alcança minha visão nessa caminhada
condicionada pela máxima extensão do futuro
e sua limitação perversa pelo presente.
Se eu der um salto cairei no abismo
ou poderei transpô-lo?
Existe horizonte sem abismo?
No limite, a morte.
No limiar, a liberdade.
Só uma delas existe, a outra é utopia:
horizonte necessário, articulação saudável
entre o presente inescapável e o futuro [im]possível.
À minha utopia, paradoxalmente
parece nesse momento restar-lhe
apenas
o aqui e o agora.

feira

Domingo-feira

(Ilustração: Sales)

Por Daniel Sansil

- bicicleta é?
- Ei, ei, ei, papagaio?
- Monto som de carro, viu?
- Áaaaaaagua!

eu sigo desviando
logo, logo, me canso
e me lembro da infância
“- olha pai um ganso!”

A feira da Parangaba
todo dia de domingo
se eu visse meu pai indo
já ia me arrumando

Eu não gostava de ver
os bichin tudo morrendo
mas a vida é cruel
isso eu fui aprendendo

Aprendi a não comprar
coisa de qualquer um
aprendi que existe amor
por trás de tanto enganador

Tem panelada boa
num digo o endereço
se não todo mundo vai
e logo aumenta o preço

Vez em quando passava
um capricho de fulô
num era cabra falador
mas admirado espiava

às vez aparecia poeta
eu via até cantoria
e hoje insisto em poesia
que a feira é uma festa

Daniel Sansil é isso, aquilo, acaso

ensaio sobre o amor_site

Amor livre

(Arte: Rafael Salvador)

Por Diane Southier

De verdade eu me apaixonei
por teu sexo, meu prazer
Não por pouco duvidei
desse laço, meu querer

Na ansiedade que eu tinha de amar
por muitos braços eu busquei
Fui tão longe nesse caminhar
que até em sonho vacilei…
Era tão simples não ter que mentir
…difícil de acreditar…
Não preciso nem omitir!

Então aos poucos entendi
que nada tem a ver com a gente
toda essa aflição
que a repressão que o corpo sente
não é páreo na conexão
de um amor que não mente

Em certo ponto eu já sentia
-não importa fato ou crença-
para além de toda diferença
autoridade, posse, hierarquia
Amar com liberdade
mais que utopia
é também necessidade…

Eu sei
Liberdade com amor
-sinônimo ou pleonasmo-
não rima com rancor
com sofrimento
nem com dor

Longe de mim!
Eu quero é orgasmo
no começo ou no fim…
A hora não importa, vem logo!
Empurra a porta
faz o que te agrade!
Vem sem pressa
eu quero é com vontade!
Demora…
me pega com força
me goza a sanidade
me enamora!

Vamos aprender?
eu, ele, ela
você
junto e em conjunto
a amar sem poder
sem moral e sem verdade
Pensar o amor
com a leveza da amizade
Esse tudo que é tanto!
mas não fidelidade
nem lágrima ou pranto

Iguais
e nada mais…
Aquilo que sonhamos
tem a ver com lealdade
Nesse ideal cotidiano
a nossa guia
é a igualdade


É, amor, eu já sabia…
que se tudo isso não bastasse
estranho mesmo seria
se eu não me apaixonasse

violencia_regina-parra_editado

O Princípio do Fim

(Ilustração: Regina Parra)

Por Ackson Dantas

A guerra não é um princípio
É um fim
No campo de batalha…
Não há triunfantes
Sacerdotes, criminosos são
Mesmo sob a égide da justiça
Pois quanto mais justificável é o extermínio do oponente
Mais destruidor seremos
E nesta constante, nem santos descalços
Nem puritanos bíblicos
Despontarão vencedores
Pois nasce no homem a morte
E nela não há salvação

O Costurador de Mundos (Ackson Dantas) é ator, diretor teatral e poeta com especialidade em fabricar inventividades e significâncias, costurando palavras, pessoas e mundos

 

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O espaço de Jangu

(Foto: Johnny Herman)

Por Rômulo Silva

Jangu fitou os olhos na avenida fronteiriça.

Dois rios paralelos e barulhentos. Um deságua sentido Bom Jardim – parente próximo de Jangu, quem sabe… o outro corre para os braços do irmão Curió – sangue latino e ainda por cima cantor. Não se ouve música, só luto: 12 de novembro de 2015, a maior chacina da história do Ceará jamais será esquecida. Seus algozes, inclusive, estão em liberdade, enquanto onze jovens estão encerrados na sepultura nos levando a gritar contra as injustiças e negligências praticadas pelo Estado. Jangu caminha ao lado da guerreira Dona Edna Carla (mãe de Alef Souza Cavalcante), transformando dia após dia “luto em luta”.

Embora ambos os rios sejam conhecidos como “Perimetral” – estamos no perímetro – , que recentemente alguém teve a ousadia, covardia, aliás, de batizá-los de “Presidente Costa e Silva” – até hoje o AI-5 elimina as liberdades públicas e democráticas (palavrões para o jovem negro Jangu). “Querem ressuscitar Costa e Silva? Desejam oficializar o que nunca acabou?”, não foram estas as perguntas de Jangu.

O concreto do rio se dissolve, evapora entre fluxos de vida ou de morte – termos que Jangu não faz distinção, tudo para jovens como ele é ensaio e é valendo, intenso. Vem um sonho e um desejo, ambos são atravessados pelas condições materiais, pelo preço que se pode pagar.

Do lado de lá do rio está escrito a palavra “União” – esta palavra está picotada de recados outros, desejos outros, inquietações outras – rebeldia e autonomia – vontade de potência!

O ninho utópico que Jangu visita, habita inclusive, é marcado pelos abraços demorados; rede tecida por fios [in]visíveis, amarradas por nós (nós?) da Tribo. Jangu pára por um instante e pergunta-se: que Tribo é esta? Ela parece não ter nome e talvez não queira um, mas está lá, ela existe porque Jangu existe.

Jangu, vez ou outra navega por mares pouco desbravados; viagem sem malas prontas. Jangu não é o único jovem a desejar conhecer mundos outros, experimentar outros mundos e sair de si mesmo, alcançar o que chamamos genericamente de liberdade. Corpos utópicos caminhando sobre veredas heterotópicas…

O jovem Jangu prova e sente na pele e no estômago a força do deus Capital. Sobre este deus não sabemos se ele é um velhinho que possui barba branca, se é um homem de meia idade burocrata ou se é um bicho, uma sanguessuga, talvez? Para Jangu analisar do que é feito esse bicho não importa agora. O que conta é a oportunidade dada. De onde ela vem, o que ela me proporciona? Ela mata o filho negro do “bicho Capital” chamado Fome? Entre promessas e filas, a oportunidade vem através do “corre do louco” empregatício [in] visível – o preço do sangue que escorre arquibancadas. Jangu vive! Salve salve Jonas Skilf e Alef Lorim.

Jangu, às vezes sem saber, cospe na cara da hipocrisia religiosa e quebra os códigos morais e hierárquicos das Fortalezas. Quem disse que alimento pra cabeça não mata a fome de ninguém? Quem foi o pilantra que disse isso aí?

O ninho utópico existe dentro e fora da mente de Jangu. Ele pode ser a bela vista, pode ser o nascer e pôr-do-sol: a soma dos abraços esperançosos, do racha improvisado em círculos. Pode ser palco da noite ensolarada: razão dos bailes autônomos. “- Chega aê no rolezinho ou no reggae pra dançar agarradinho.” Arena das resistências por vezes planejadas, o espaço outro onde somos lançados para fora de nós mesmos.

Jangu carrega consigo sorrisos espontâneos e gestos aleatórios, [in]definidos em si. Beija na boca do garoto e da garota e celebra o amor. O corpo castigado e criminalizado é uma festa intensa. De Jangu transborda sentimentos que não cabe dentro de si – não cabe em um poema ou em uma prosa; mas pode ser visto [percebido] na lágrima incontida e compartilhada, no repartir do pão das memórias feitas do concreto [dos afetos].

Jan [janelas] / gu [guris] / ru [rua] / ssu [suave].

Rômulo Silva é morador do Jangu e mestrando em Sociologia

fundo lusco_editado

Ser, de direitos

(Ilustração: Rafael Salvador)
Por Vanessa Dourado
Ser, de direitos
Livre ilusão 
Mas as gaiolas tremem 

Sentir o voar impossível 
Destas asas ousadas 
Incomoda? 

Em nossos leitos
Não há remédio 
Que cure nossa vontade 

Corpo-abjeto 
É fato concreto 
Da dura inadequação 

Nossos desejos 
E nossa “invenção” 
Existimos, e muitos temem 

Este corpo visível 
Vidas celebradas 
Incomoda? 

Nossos conceitos 
Livres deste tédio 
Constroem nossa verdade 

Corpo-secreto 
De tudo que é certo 
Não existe correção 

Vanessa Dourado é escritora, bissexual e feminista latino-americana
um dia de chuva_cido oliveira

Fuga

(Pintura: Cido Oliveira)

Por Gleyfson Rodrigues 

Cansado de procurar
Uma rima
Usei uma lima
Para as grades cerrar

Cansado da rotina de óbvio pesar
Optei por contar
Verdades. – Vida cafetina

Decido caminhar, voar de asa delta, libélula, arraia
Mosca, abelha, barata.
Voo alto urubuzando
Teto que trazem a segurança da sombra
Sombra que prende junto ao muro
O pedestre que corre da guerra matutina.
Alienação nas trincheiras
Grilhões nas multidões
A necessidade se manifesta.

Gleyfson Rodrigues é estudante de Letras e poeta por acaso

estrada

Asfalto quente

Por Gleyfson Rodrigues 

Corre a faixa flecha
Corre o pneu petróleo
Sobre o piche derretido
O asfalto carrega a evolução humana
E pinta tudo de preto.
Sob o asfalto quente a terra sufoca.

O asfalto carrega o sonho quente
Na boleia da caçamba
Asfalto que sustenta o peso do homem e
Escorre o recurso subdesenvolvido.

No mormaço do asfalto quente
O retirante racha o solado
Crente que no
Fim
Achara São Saruê

Do asfalto só lembro
Quentura e topada
Lembro do enjoo provocado pelas faixas do acostamento.
Nas viagens
O asfalto quente
Me dá é sono.

Gleyfson Rodrigues é estudante de Letras e poeta por acaso

Pawel Kuczynski

Fábrica de fazer de conta

(Ilustração: Pawel Kuczynski)

Por Guilherme Fernandes Leite

A fábrica acorda cedo demais todos os dias. Ela nunca grita som algum. Apenas mantém alta uma coluna de fumaça escura e silente. O portão segue entreaberto, quase dando as boas vindas, como uma arapuca, que sequestra a liberdade e transforma os cantos em lamento e posteriormente em nada, nem mesmo um eco. O sol se ergue amarelo e laranja, por trás das nuvens, como um estudante tímido sem interesse.

As pessoas chegam em suas bicicletas silenciosas ou com passos arrastados, sempre em silêncio. Otários como eu, que não possuem ambição ou aptidão. Mas não hoje. Eu observo agachado atrás de uma pequena moita, como um cagão que se alarma com o vento, as mulheres de ombros largos e quadris disformes chegarem. E os homens de cabeça baixa e ombros caídos.

O único ruído naquela manhã é do homem de bigode. Ele orienta, xinga, repele. Aquele homem sim tem ambição. Dá para ver em seus olhos, azul cinzento da cor de uma garoupa. Como todo homem que sabe o que quer, ele herdou aquela vaga na fábrica sendo filho de uma puta qualquer. Todo herdeiro sabe dar bons conselhos sobre como a vida é difícil e de como é possível superar toda a merda que engolimos.

Aquela era minha hora de entrar, depois que todo mundo estava nos seus postos. Enfim a fábrica fechava o grande portão gradeado e o ‘bigode’ cruzava o braço a espera dos retardatários com um sorriso pateta no rosto. O herdeiro se realizava naquele momento. Ele podia colocar em prática a sua experiência e sua significância de mosca tomava grandeza de homem batalhador e sincero. Um paizão para todos os renegados.

Ele fazia os atrasados aguardarem no sol até o último chegar e começava: – Amigos. Atrasados novamente, eu nem sei por onde começar. Como vocês acham que eu cheguei até aqui? (Com o teu pai fodendo a sua tia). Eu espero mais de vocês, vejam o meu exemplo. Eu chego aqui antes de todo mundo, sempre com um sorriso no rosto, e sou o último a sair. E muitas vezes passo a madrugada pensando em como fazer a fábrica funcionar melhor (ou se masturbando). Meu sonho é ver vocês tomarem o meu lugar. (O único modo de eu tomar o teu lugar é comendo a sua mãe). Mas do jeito que vocês vão, não chegarão tão longe. (De fato, ficando 10 horas dentro de um galpão é que vamos longe na vida).

Eu nunca tive a coragem de falar nada daquilo. Quem não tem ambição não tem coragem para muitas coisas. A fábrica então nos abraçava, deixando um perfume de suor e castanha impregnado nas roupas. Ao fim do expediente eu rumava em direção ao centro daquela pequena cidade, invejando os bêbados e vagabundos que jogavam dominó. Que coragem. Mas, aos olhos do herdeiro, eu deveria dar graças a deus por ter um emprego que me permite a ocupação do tempo.

Cada dia que passava eu me tornava mais silencioso, me tornava um com os meus colegas , um com o herdeiro, um com a enorme fábrica. Como toda morte silenciosa, a fábrica matava a longo prazo. Tornando-nos inúteis a nós mesmos. O relógio que antes marcava o compasso, agora silenciou junto. As chamas estalavam e a fumaça erguia mais longa, mais espessa e mais alegre. Da moita eu observava tudo.

Guilherme Fernandes Leite é jornalista e escritor, seja lá o que isto quer dizer neste país…

Calma

Romã, um bichinho

Por Mariana Amaral

Bicho solto aprisionam. Docilizam, poem fôrma, limitam,
estrangulam, sacrificam e depois dão fé.
Alimentam o bicho de migalhas, ele não pode se fartar,
mas ainda assim fica bonito. Bonito e  duro.
Se disse duro era pra dizer puro.
E mesmo em meio a isso tudo o peste do bicho se cria.
No vento, no vacilo, na ventania. Mal respirou e já vai voar.
Volta aqui, bichinho. Aí é alto, é inseguro, faz frio, é escuro,
talvez vazio, você pode se perder.
Penso um pouco…
Na verdade, vai, bichinho.
Espalha a semente, que um dia essa gente aprende a te ter sem
te prender.
Vai, mas volta algum dia, pra contar que o mundo é mais que isso,
que tem gente diferente da gente, que prende a saudade no teu lugar.
Agora vai. Vai vivendo do teu jeito, que eu vou vivendo do meu jeito,
tentando me soltar.
Quem sabe um dia a gente se encontre pelos ares,
e de toda a liberdade a gente faça pouso,
sem se sacrificar.

Mariana Amaral é uma mistura de dengo, cores, cheiros, sabores, linguagens, tatos, riscos, encontros e amores. Fragmentos de mares, por do sol, vento, nuvem e intensidades. Psicóloga por profissão.