estrada

a viagem

Por Rique Férrari

primeiro corra até a janela, olhe através do vidro, a cidade em fogo-luz
acanhados quartos de pontos velados, raízes de velas ao chão

o serviço da chuva em almofadinhas de vento – faz frio
penso que desastre total das concepções
isto de nos vermos nos espelhos mas nos enxergarmos nas janelas; no colégio nunca comentaram a respeito

agora vá um pouco mais, para o lado de fora da janela
psicografando os restos de brisa, as fornalhas dos condescendentes e mutantes painéis de luz; mantenha o equilíbrio, ora na constelação de janelas ora no deserto de céu
- e que tanto

como as harpias

destemidos do gélido e do fogo, iríamos chegar neste ponto, você sabe, é um convite:

pule

com sua face completamente escancarada na conjunção dos átimos de segundos,
vislumbrando a gênese e os saltimbancos letreiros, os faróis trilhados e então a coragem

te leva

até a janela daquele amigo amedrontado pela leitura dos sinais presentes
até a rua onde franciscanamente você subiu/desceu raspando o limo dos muros,
quando criança;
lembra?
seus pais batizaram-no e deram um nome: – filho
e então sua avó ganhou um pequeno deus

as portas estão abertas

volte sempre.

caramujo

Propósitos e motivações existenciais de um caramujo

Por Thiago Noronha

O que será contado?
Como será narrada a era humana?
O que esperar desse bizarro experimento fora de controle?
Quem presenciará?
Haverá, universo afora, algum agrupamento atômico capaz de apreciar nossas criações e feitos?
Melodias, pinturas, receitas de bolo de milho. A quem restará?
E nossos amores, tão admiráveis em suas complexidades, quem sentirá tudo isso quando nosso tempo se for?
Propósitos?
O segredo da vida?
Não fazer, não ser, não dizer. Acomodar e conformar.
E nossas lutas? Quem as contará eternidade afora?
Um ideal.
Em que fase evolutiva células agrupadas decidiram ter um ideal?
Valores, conceitos, crenças, paixões, criação artística, humor.
De onde vem o humor na natureza?
Cá estou eu perdendo cinco minutos ao imaginar a risada de um caramujo.
Que tipo de piada agradaria a um caramujo?
Acontece que essa ansiedade tão característica humana é viciada em construir subterfúgios que resolvam essa equação do se fazer notar e perdurar.
Narrativas gregas nos lembram as recorrentes frases nos campos de batalha: ‘Se morremos hoje, nossos nomes e feitos serão eternos’.
Serão?
Quantos nomes já se perderam nesse mínimo intervalo de tempo em que vivemos em sociedade?
Desde quando os humanos possuem nomes?
Caramujos têm nomes? Qual seria o ‘João’ dos caramujos? Terôncio, talvez?!
‘Os heróis da história humana morreram anônimos, nos fronts de batalhas’.
O que é ser herói? Quem são os nossos? Quem lembrará dos nossos heróis quando nosso tempo se for? Que olhos lacrimarão ao ouvir o discurso de Fred Hampton?
‘Por que não morrer pelo povo? Por que não lutar pelo povo?’
Fred Hampton morreu assassinado aos 21 anos de idade.
Fred Hampton lutou.
Pelo quê morrer?
Que lutas e ideais te convenceriam o risco a existência?
A burra coragem humana.
Uma espécie que se vangloria de prosperar, descobrir e travar grandes guerras territoriais.
Territorialistas, egoístas, e desumanos. Eis o homo sapiens em seu amostral mais sincero.
Dizem que o egoísmo foi fundamental para a sobrevivência da espécie.
A espécie que pensa. O topo da pirâmide. O polegar opositor.
É uma espécie engraçada. Meio animal adestrado. Amam tão bonito e odeiam tão feio. Limpos e sujos. Um predador descontrolado e medroso. Medos existenciais. Um olhar perdido no espaço e uma mente cafeinada se perguntando ‘como deixaremos nossos rastros o mais longe possível?’.
Somos apenas cachorros mijando em postes. Fincando bandeiras em rochas espaciais. Uma corrida contra sabe-se lá o quê.
Vaidosos.
Como ser lembrado?
Como comunicar ao espaço?
‘Eu existi!’.
‘Foi lindo e eu preciso que saibam!’.
Somos fadados ao pó.
Uma parte da minha família acredita firmemente na procriação como método de levar o tal sobrenome e uma suposta narrativa de superações atrelado a esse sobrenome para os tempos futuros. ‘O futuro também é pó, amigo.’
Quando o humano passou a ter um sobrenome? Qual o possível sobrenome de um caramujo? Terôncio Marcha-lenta?
Voltando à família, todos os descendentes tinham, então, que ter pelo menos três filhos ao longo da vida.
Método interessante e lógico de perdurar. Mas ninguém contava com as dificuldades financeiras do começo do terceiro milênio e a cobrança sobre um dos membros desse grupo familiar pelo terceiro filho, somada às contas atrasadas, foi demais e resultou em suicídio. Quais os animais que se suicidam? O que leva um organismo a optar pela inexistência? Ter um terceiro filho é tão ruim assim? Pensar demais é perigoso? Como seria a carta de suicídio de um caramujo? O que teria ele a justificar?
Ironicamente, um outro lado da família é conhecido pelo recorrente suicídio de seus membros quando chega-se ali pelos cinquenta anos. Chamam essa parte da família de ‘os tristes’. A tal da tradição do suicídio é tão presente que rola uma certa cobrança. ‘Iai, num já tá na tua hora não?’.
Rola até uma competição das melhores cartas de suicídio. Um dos tristes passou vinte e sete anos preparando uma tal carta inesquecível. Infelizmente, escolheu se enforcar com a carta no bolso da calça. Quanta dramaturgia! Humanos, vaidosos, humanos. O sufocamento o fez mijar nas calças e a tão preparada mensagem de despedida virou um papel mijado impossível de ler.
Encontraram-no lá, mijado, de língua pra fora, coloração esquisita. Eu gosto de pensar que ele nunca tomou conhecimento que a carta não aconteceu.
Um dos tristes era bem feliz. De bem com a vida. Curtia um forró e uma cachaça. Ele não queria morrer. Teve três filhos, nove netos e vinte e sete bisnetos, quem diria. Alguns se suicidaram, outros planejam fazê-lo, uns dançam forró.
No velório do velho centenário alguém lamentou ao lado do caixão: ‘ele poderia ter bebido por mais uns trinta anos’. Eu nunca esqueci dessa frase.
As últimas palavras do velho, após uma vida enterrando filhos e netos suicidas, concluíam que não valia a pena, realmente, passar de certa idade.
A carta suicídio da qual mais gostei de tomar conhecimento foi deixada por um psicanalista do Colorado (EUA) de trinta anos. Dizia: ‘Carro para Helen ou Ray. Precisa de um reparo. Dinheiro para Max e Sylvia. Exceto $137 que estou devendo a George. ‘
Quem testemunhará a espécie humana? Qual será a reação da plateia?
Qual o propósito?
Dessa leitura?

Não é dizer que não há propósito em nada devido ao fatídico e escuro fim de tudo. É mais uma reflexão sobre o que nos motiva e se parece lógico.

Mas não tem que ser lógico.

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

liberdade

Liberdade para amar

Por Diane Southier

Queremos liberdade para amar!
Pelo fim da miséria da monogamia
Pra mim, pra você, em todo lugar:
Múltiplos amores e autonomia!

O casamento mata a paixão
Nos dá uma falsa segurança
Comprime a vida na aliança
Aperta, sufoca o coração

Mas engana-se quem pensa
Que ser livre é não ter compromisso
Pra amar não peça licença
Não cultive um sentimento omisso

Eu quero compromisso de lealdade
Amar até não poder mais
Não se trata de fidelidade
É amar além do que se pensa capaz.

aurora_mundo-novo-700x350

Nos faltan los puentes

(Foto: Artur Pires)

Por Diane Southier

¿Es posible el conocimiento sin el lenguaje?
Habla, escritura, cuerpo, gestos… comunicación
Es todo así tan distinto en el humano viaje
Culturas marcadas, individuos en objeción…
¡Miraje!
Palabra viva en connotación

Mirando cerca lo que uno siente
Son multitudes de amor…
Identidades,
Dolor.
¿Somos así tan diferentes?
¿O sólo nos faltan los puentes?

noite-estrelada

Lo indecible [o... Lenguaje y Libertad]

(Pintura: “Noite Estrelada”, de Van Gogh)

Por Diane Southier

¿Cuál es el límite de la retórica?
Me mata, me construye
es mi historia.
Cuentos del dolor
del vacío que hay que llenar
Metáforas del amor
de lo que no se puede hablar
Pero…
¿Por qué no lo podemos decir?
Ética, moral, comunidad
Palabra, omisión… ¿verdad?
Todo es hecho de nada [¡suerte!] y devenir
Práctica y teoría…
¡Praxis!
Filosofía.

22_Hemmes

Sobre abismos e utopias

(Foto: Artur Pires)

Por Diane Southier

Espero que o abismo
do qual sinto estar me aproximando
de falta de alternativas
de contingência quase absoluta
continue se afastando como o horizonte
conforme eu caminho.
O horizonte
ele sim
pleno em possibilidades…
Tenho sentido um constante pesar
sobre até onde alcança minha visão nessa caminhada
condicionada pela máxima extensão do futuro
e sua limitação perversa pelo presente.
Se eu der um salto cairei no abismo
ou poderei transpô-lo?
Existe horizonte sem abismo?
No limite, a morte.
No limiar, a liberdade.
Só uma delas existe, a outra é utopia:
horizonte necessário, articulação saudável
entre o presente inescapável e o futuro [im]possível.
À minha utopia, paradoxalmente
parece nesse momento restar-lhe
apenas
o aqui e o agora.

feira

Domingo-feira

(Ilustração: Sales)

Por Daniel Sansil

- bicicleta é?
- Ei, ei, ei, papagaio?
- Monto som de carro, viu?
- Áaaaaaagua!

eu sigo desviando
logo, logo, me canso
e me lembro da infância
“- olha pai um ganso!”

A feira da Parangaba
todo dia de domingo
se eu visse meu pai indo
já ia me arrumando

Eu não gostava de ver
os bichin tudo morrendo
mas a vida é cruel
isso eu fui aprendendo

Aprendi a não comprar
coisa de qualquer um
aprendi que existe amor
por trás de tanto enganador

Tem panelada boa
num digo o endereço
se não todo mundo vai
e logo aumenta o preço

Vez em quando passava
um capricho de fulô
num era cabra falador
mas admirado espiava

às vez aparecia poeta
eu via até cantoria
e hoje insisto em poesia
que a feira é uma festa

Daniel Sansil é isso, aquilo, acaso

ensaio sobre o amor_site

Amor livre

(Arte: Rafael Salvador)

Por Diane Southier

De verdade eu me apaixonei
por teu sexo, meu prazer
Não por pouco duvidei
desse laço, meu querer

Na ansiedade que eu tinha de amar
por muitos braços eu busquei
Fui tão longe nesse caminhar
que até em sonho vacilei…
Era tão simples não ter que mentir
…difícil de acreditar…
Não preciso nem omitir?

Então aos poucos entendi
que nada tem a ver com a gente
toda essa aflição
que a repressão que o corpo sente
não é páreo na conexão
de um amor que não mente

Em certo ponto eu já sentia
-não importa fato ou crença-
para além de toda diferença
autoridade, posse, hierarquia
Amar com liberdade
mais que utopia
é também necessidade…

Eu sei
Liberdade com amor
-sinônimo ou pleonasmo-
não rima com rancor
com sofrimento
nem com dor

Longe de mim!
Eu quero é orgasmo
no começo ou no fim…
A hora não importa, vem logo!
Empurra a porta
faz o que te agrade!
Vem sem pressa
eu quero é com vontade!
Demora…
me pega com força
me goza a sanidade
me enamora!

Vamos aprender?
eu, ele, ela
você
junto e em conjunto
a amar sem poder
sem moral e sem verdade
Pensar o amor
com a leveza da amizade
Esse tudo que é tanto!
mas não fidelidade
nem lágrima ou pranto

Iguais
e nada mais…
Aquilo que sonhamos
tem a ver com lealdade
Nesse ideal cotidiano
a nossa guia
é a igualdade


É, amor, eu já sabia…
que se tudo isso não bastasse
estranho mesmo seria
se eu não me apaixonasse

 

Diane Southier é poetisa social e cientista poética

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O Princípio do Fim

(Ilustração: Regina Parra)

Por Ackson Dantas

A guerra não é um princípio
É um fim
No campo de batalha…
Não há triunfantes
Sacerdotes, criminosos são
Mesmo sob a égide da justiça
Pois quanto mais justificável é o extermínio do oponente
Mais destruidor seremos
E nesta constante, nem santos descalços
Nem puritanos bíblicos
Despontarão vencedores
Pois nasce no homem a morte
E nela não há salvação

O Costurador de Mundos (Ackson Dantas) é ator, diretor teatral e poeta com especialidade em fabricar inventividades e significâncias, costurando palavras, pessoas e mundos

 

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O espaço de Jangu

(Foto: Johnny Herman)

Por Rômulo Silva

Jangu fitou os olhos na avenida fronteiriça.

Dois rios paralelos e barulhentos. Um deságua sentido Bom Jardim – parente próximo de Jangu, quem sabe… o outro corre para os braços do irmão Curió – sangue latino e ainda por cima cantor. Não se ouve música, só luto: 12 de novembro de 2015, a maior chacina da história do Ceará jamais será esquecida. Seus algozes, inclusive, estão em liberdade, enquanto onze jovens estão encerrados na sepultura nos levando a gritar contra as injustiças e negligências praticadas pelo Estado. Jangu caminha ao lado da guerreira Dona Edna Carla (mãe de Alef Souza Cavalcante), transformando dia após dia “luto em luta”.

Embora ambos os rios sejam conhecidos como “Perimetral” – estamos no perímetro – , que recentemente alguém teve a ousadia, covardia, aliás, de batizá-los de “Presidente Costa e Silva” – até hoje o AI-5 elimina as liberdades públicas e democráticas (palavrões para o jovem negro Jangu). “Querem ressuscitar Costa e Silva? Desejam oficializar o que nunca acabou?”, não foram estas as perguntas de Jangu.

O concreto do rio se dissolve, evapora entre fluxos de vida ou de morte – termos que Jangu não faz distinção, tudo para jovens como ele é ensaio e é valendo, intenso. Vem um sonho e um desejo, ambos são atravessados pelas condições materiais, pelo preço que se pode pagar.

Do lado de lá do rio está escrito a palavra “União” – esta palavra está picotada de recados outros, desejos outros, inquietações outras – rebeldia e autonomia – vontade de potência!

O ninho utópico que Jangu visita, habita inclusive, é marcado pelos abraços demorados; rede tecida por fios [in]visíveis, amarradas por nós (nós?) da Tribo. Jangu pára por um instante e pergunta-se: que Tribo é esta? Ela parece não ter nome e talvez não queira um, mas está lá, ela existe porque Jangu existe.

Jangu, vez ou outra navega por mares pouco desbravados; viagem sem malas prontas. Jangu não é o único jovem a desejar conhecer mundos outros, experimentar outros mundos e sair de si mesmo, alcançar o que chamamos genericamente de liberdade. Corpos utópicos caminhando sobre veredas heterotópicas…

O jovem Jangu prova e sente na pele e no estômago a força do deus Capital. Sobre este deus não sabemos se ele é um velhinho que possui barba branca, se é um homem de meia idade burocrata ou se é um bicho, uma sanguessuga, talvez? Para Jangu analisar do que é feito esse bicho não importa agora. O que conta é a oportunidade dada. De onde ela vem, o que ela me proporciona? Ela mata o filho negro do “bicho Capital” chamado Fome? Entre promessas e filas, a oportunidade vem através do “corre do louco” empregatício [in] visível – o preço do sangue que escorre arquibancadas. Jangu vive! Salve salve Jonas Skilf e Alef Lorim.

Jangu, às vezes sem saber, cospe na cara da hipocrisia religiosa e quebra os códigos morais e hierárquicos das Fortalezas. Quem disse que alimento pra cabeça não mata a fome de ninguém? Quem foi o pilantra que disse isso aí?

O ninho utópico existe dentro e fora da mente de Jangu. Ele pode ser a bela vista, pode ser o nascer e pôr-do-sol: a soma dos abraços esperançosos, do racha improvisado em círculos. Pode ser palco da noite ensolarada: razão dos bailes autônomos. “- Chega aê no rolezinho ou no reggae pra dançar agarradinho.” Arena das resistências por vezes planejadas, o espaço outro onde somos lançados para fora de nós mesmos.

Jangu carrega consigo sorrisos espontâneos e gestos aleatórios, [in]definidos em si. Beija na boca do garoto e da garota e celebra o amor. O corpo castigado e criminalizado é uma festa intensa. De Jangu transborda sentimentos que não cabe dentro de si – não cabe em um poema ou em uma prosa; mas pode ser visto [percebido] na lágrima incontida e compartilhada, no repartir do pão das memórias feitas do concreto [dos afetos].

Jan [janelas] / gu [guris] / ru [rua] / ssu [suave].

Rômulo Silva é morador do Jangu e mestrando em Sociologia