um dia de chuva_cido oliveira

Fuga

(Pintura: Cido Oliveira)

Por Gleyfson Rodrigues 

Cansado de procurar
Uma rima
Usei uma lima
Para as grades cerrar

Cansado da rotina de óbvio pesar
Optei por contar
Verdades. – Vida cafetina

Decido caminhar, voar de asa delta, libélula, arraia
Mosca, abelha, barata.
Voo alto urubuzando
Teto que trazem a segurança da sombra
Sombra que prende junto ao muro
O pedestre que corre da guerra matutina.
Alienação nas trincheiras
Grilhões nas multidões
A necessidade se manifesta.

Gleyfson Rodrigues é estudante de Letras e poeta por acaso

estrada

Asfalto quente

Por Gleyfson Rodrigues 

Corre a faixa flecha
Corre o pneu petróleo
Sobre o piche derretido
O asfalto carrega a evolução humana
E pinta tudo de preto.
Sob o asfalto quente a terra sufoca.

O asfalto carrega o sonho quente
Na boleia da caçamba
Asfalto que sustenta o peso do homem e
Escorre o recurso subdesenvolvido.

No mormaço do asfalto quente
O retirante racha o solado
Crente que no
Fim
Achara São Saruê

Do asfalto só lembro
Quentura e topada
Lembro do enjoo provocado pelas faixas do acostamento.
Nas viagens
O asfalto quente
Me dá é sono.

Gleyfson Rodrigues é estudante de Letras e poeta por acaso

Pawel Kuczynski

Fábrica de fazer de conta

(Ilustração: Pawel Kuczynski)

Por Guilherme Fernandes Leite

A fábrica acorda cedo demais todos os dias. Ela nunca grita som algum. Apenas mantém alta uma coluna de fumaça escura e silente. O portão segue entreaberto, quase dando as boas vindas, como uma arapuca, que sequestra a liberdade e transforma os cantos em lamento e posteriormente em nada, nem mesmo um eco. O sol se ergue amarelo e laranja, por trás das nuvens, como um estudante tímido sem interesse.

As pessoas chegam em suas bicicletas silenciosas ou com passos arrastados, sempre em silêncio. Otários como eu, que não possuem ambição ou aptidão. Mas não hoje. Eu observo agachado atrás de uma pequena moita, como um cagão que se alarma com o vento, as mulheres de ombros largos e quadris disformes chegarem. E os homens de cabeça baixa e ombros caídos.

O único ruído naquela manhã é do homem de bigode. Ele orienta, xinga, repele. Aquele homem sim tem ambição. Dá para ver em seus olhos, azul cinzento da cor de uma garoupa. Como todo homem que sabe o que quer, ele herdou aquela vaga na fábrica sendo filho de uma puta qualquer. Todo herdeiro sabe dar bons conselhos sobre como a vida é difícil e de como é possível superar toda a merda que engolimos.

Aquela era minha hora de entrar, depois que todo mundo estava nos seus postos. Enfim a fábrica fechava o grande portão gradeado e o ‘bigode’ cruzava o braço a espera dos retardatários com um sorriso pateta no rosto. O herdeiro se realizava naquele momento. Ele podia colocar em prática a sua experiência e sua significância de mosca tomava grandeza de homem batalhador e sincero. Um paizão para todos os renegados.

Ele fazia os atrasados aguardarem no sol até o último chegar e começava: – Amigos. Atrasados novamente, eu nem sei por onde começar. Como vocês acham que eu cheguei até aqui? (Com o teu pai fodendo a sua tia). Eu espero mais de vocês, vejam o meu exemplo. Eu chego aqui antes de todo mundo, sempre com um sorriso no rosto, e sou o último a sair. E muitas vezes passo a madrugada pensando em como fazer a fábrica funcionar melhor (ou se masturbando). Meu sonho é ver vocês tomarem o meu lugar. (O único modo de eu tomar o teu lugar é comendo a sua mãe). Mas do jeito que vocês vão, não chegarão tão longe. (De fato, ficando 10 horas dentro de um galpão é que vamos longe na vida).

Eu nunca tive a coragem de falar nada daquilo. Quem não tem ambição não tem coragem para muitas coisas. A fábrica então nos abraçava, deixando um perfume de suor e castanha impregnado nas roupas. Ao fim do expediente eu rumava em direção ao centro daquela pequena cidade, invejando os bêbados e vagabundos que jogavam dominó. Que coragem. Mas, aos olhos do herdeiro, eu deveria dar graças a deus por ter um emprego que me permite a ocupação do tempo.

Cada dia que passava eu me tornava mais silencioso, me tornava um com os meus colegas , um com o herdeiro, um com a enorme fábrica. Como toda morte silenciosa, a fábrica matava a longo prazo. Tornando-nos inúteis a nós mesmos. O relógio que antes marcava o compasso, agora silenciou junto. As chamas estalavam e a fumaça erguia mais longa, mais espessa e mais alegre. Da moita eu observava tudo.

Guilherme Fernandes Leite é jornalista e escritor, seja lá o que isto quer dizer neste país…

Calma

Romã, um bichinho

Por Mariana Amaral

Bicho solto aprisionam. Docilizam, poem fôrma, limitam,
estrangulam, sacrificam e depois dão fé.
Alimentam o bicho de migalhas, ele não pode se fartar,
mas ainda assim fica bonito. Bonito e  duro.
Se disse duro era pra dizer puro.
E mesmo em meio a isso tudo o peste do bicho se cria.
No vento, no vacilo, na ventania. Mal respirou e já vai voar.
Volta aqui, bichinho. Aí é alto, é inseguro, faz frio, é escuro,
talvez vazio, você pode se perder.
Penso um pouco…
Na verdade, vai, bichinho.
Espalha a semente, que um dia essa gente aprende a te ter sem
te prender.
Vai, mas volta algum dia, pra contar que o mundo é mais que isso,
que tem gente diferente da gente, que prende a saudade no teu lugar.
Agora vai. Vai vivendo do teu jeito, que eu vou vivendo do meu jeito,
tentando me soltar.
Quem sabe um dia a gente se encontre pelos ares,
e de toda a liberdade a gente faça pouso,
sem se sacrificar.

Mariana Amaral é uma mistura de dengo, cores, cheiros, sabores, linguagens, tatos, riscos, encontros e amores. Fragmentos de mares, por do sol, vento, nuvem e intensidades. Psicóloga por profissão.

fortaleza

Encontro

(Foto: Drawlio Joca)

Por Graça Moreira

Encontro com o Universo…
Encontro com o novo ano….
Encontro com novos desejos e novos desafios…
Encontro consigo…

E….. o Encontro com o outro?
Este se dá quando se vive o mesmo momento!
Foi o que pensei.
Mas, com um olhar um pouco mais além,
Vejo o quanto de responsabilidade tenho na construção deste encontro, pois
A minha sensibilidade ao outro é a chave que abre o seu coração para o nosso encontro
A minha alegria só é mais intensa se conseguir contagiar o outro
A minha carência me sensibiliza para a carência do outro.

E alimentando-se nesta troca, onde
A minha tristeza é mais aliviada quando entendida pela experiência da tristeza do outro
A minha beleza só existe se refletida na lente do outro,
Numa mais profunda busca de sintonia,
Através do ir e vir de sentimentos e palavras, expressas ou caladas,
O Encontro com o outro me reafirma enquanto ser!

Graça Moreira é psicóloga

violeiro

O desenho segundo C.H.L.

(Pintura: Almeida Junior)

Por Vanessa Dourado

Encontrei abrigo em seus abraços.
Suas mãos de desenho fazem cócegas em minha imaginação.
Por isso dou risada embaixo de seu chuveiro.
Encontro lágrimas de prazer entre seus cobertores.
Porque o prazer e a dor são complementares.

Caminhei ruas desproporcionais pela noite.
Seus sorrisos espontâneos abrem ideias de brincadeira em mim.
Ainda sinto dores nas pernas.
Lembro da alegria sob o céu escuro
rasgado pelo nosso cinismo
e pela realidade que nos atravessa,
responsável, entre outras tantas coisas,
pelo nosso encontro e encantamento pelo outro.

Olhei dentro de seus olhos.
Eles são grandes e curiosos.
Infantis – como traduziu Caetano.
Suas observações retiram todas minhas máscaras.
Assim, talvez, você não possa rabiscar
o complexo existir de nós em nós.

Mas nada disso importa.
Esta máquina imaginária é um teste para a eternidade.
O que é o risco e a letra
diante do papel de nossas almas
prontas para voar por abismos.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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Mais um ano

(Foto: Artur Pires)

Por Graça Moreira

Gratidão ao ano que finda,
Pelos bons momentos
Que nos trouxeram alegrias;
Pelos presentes indesejados
Que nos deixaram ensinamentos.

Gratidão sempre
Pelos equívocos praticados
Que nos ativaram a humildade
Pelos instantes de sabedoria
Que elevaram o nosso ser.

Esperança que acende no novo ano,
Atraindo dias de sol
Para iluminar nossa alma,
E noites serenas
Para inspirar nossos sonhos.

Esperança maior em nosso agir,
Com sorrisos abertos e olhares sensíveis
Que aproximem corações diversos;
Cultivando atitudes de grandeza humana
Para abraçarmos a paz e vivermos o amor!

Graça Moreira é psicóloga

flor

A Flor do meu caminho!

(Foto: Graça Moreira)

Por Graça Moreira 

E lá está ela!
De longe atraindo meu olhar.
Linda, imponente e forte,
Beleza natural que fascina quem a encontra.

Eis que nasce do desejo de ser
E cresce na determinação de permanecer.
Abraçando firme o tronco escurecido e queimado do sol
Acaricia colorindo e alegrando o seu lenho.

Exuberante e atrevida, desafia a dependência.
Como que ciente do seu valor no universo
Parece mostrar-se prova
De que a natureza vai além do homem.

Encravada em seu destino, suave e decididamente segue
Indo até onde seu o ciclo lhe permite,
Mas ficando eternamente viva
Na fotografia do meu arquivo, da minha mente!

Graça Moreira é psicóloga

viktorsheleg

Madeixas

(Pintura: Viktor Sheleg)

Por Vanessa Dourado

Pesava tanto. O pior era ter de aguentar as pessoas perguntarem se ela era crente. Aquilo a deixava bastante chateada. Lembrava-se da época em que frequentou uma igreja evangélica que ficava perto da sua casa, a qual também ficava perto da casa da amante do pastor que morava na esquina.

Naquela época, aprendeu que o pecado era seletivo e que tudo era possível, até mesmo pagá-lo de forma facilitada e em várias parcelas. Assim ficava mais confortável pecar. Não sabia se era do conhecimento de todo mundo o fato de o pastor ter uma amante, se simplesmente fingiam não saber por conveniência, ou se era melhor pensar que não eram tão pecadoras as pobres ovelhas. Já que o Santo Ungido do Senhor pecava, o pecado dos menos condecorados não poderia ser assim tão grave.

Quando ela usava saias longas, aí é que diziam mesmo “Uma serva!”, mas, na verdade, ela usava saias longas para poder não usar calcinha. As saias longas, diferente das curtas, evitavam incidentes desagradáveis como os provocados pelos ventos inconsequentes que poderiam deixá-la constrangida na rua.

Mas o tema era perceber as leituras distorcidas. Ela ainda não tinha se acostumado, depois de tanto tempo usando os cabelos curtos, com aquela cabeleira toda. Pesava tanto.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana