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O prazer de fazer o bem como essência artística

(Foto acima: Arquivo DN/ demais: reprodução da internet – autores não citados)

Por Augusto Azevedo

Existe uma tríade de poetas do rock brasileiro constituída pelo baiano Raul Seixas, pelo carioca Cazuza e pelo carioca-candango Renato Russo, que é tida por muitos como o que houve de melhor no rock nacional nos últimos anos. Sabe-se que estes fazem imensa falta, entre outras questões, por sepultarem um período em que a indústria cultural de certa maneira precisava de um produto musical que fosse agressivo e doce ao mesmo tempo, com letras bem trabalhadas, voltadas à expressão e ao questionamento, seja de ordem íntima ou coletiva. Embora o ramo fosse rock cantado em português, estes três poetas sempre apresentaram obras bem distintas do que se fazia na época; apesar da sintonia, que pode ser observada na coloquialidade de suas letras, que desenvolvem narrativas das mais abrangentes, eles sempre foram autorais. É fato que o baiano, assim como o candango, realizou versões de narrativas de outros artistas, outros escritores, outros pensadores, mas o que para alguns é plágio, para muitos é genialidade.

O certo é que estes poetas têm algo em comum muito forte no que diz respeito às suas obras, suas respectivas discografias, no caso, os últimos álbuns lançados pelos roqueiros ainda em vida: A Panela do Diabo (1989), do Raul, Burguesia (1989), do Cazuza e A Tempestade ou o Livro dos Dias (1996), da Legião Urbana. Talvez não passe de mera coincidência cheirando a tenebrosos temporais, mas suas obras de despedida apresentam familiaridades, quase que cabulosas, que considero importante recordar.

A tentativa de separar a arte da vida é uma maneira mesquinha de negar a si mesmo, de retirar do ser humano a sua necessidade de inventar, desinventar, interpretar, interagir com seu meio, com a natureza. Os poetas mencionados não estavam mesmo nada bem na gravação de seus últimos discos, que para a infelicidade de muita gente anunciam suas prematuras partidas. Seria incondizente que suas últimas obras não fossem carregadas dos sentimentos que os permeavam naqueles momentos de dor, aflição e de plena certeza da chegada da morte. É… realmente a vida não é feita apenas de alegrias e satisfações, o lado ruim de nossa existência muita vezes toma o lugar das coisas boas que vivemos, expondo nossas amarguras e fragilidades. Tanto Raul, Cazuza e Renato ousaram em suas obras de despedida compartilhar de suas angústias, medos, não aceitação da mortalidade; foram tão profundos que para muitos de seus fãs essas são suas melhores obras, justamente por serem as mais viscerais, sensíveis, humanas. Não se pode jamais ignorar os relatos de sofrimento nos bastidores das gravações destes discos, seus autores foram além da própria condição física e psicológica e presentearam seus admiradores com ótimos discos, que marcam o final de um período que ressalto como muito especial na cultura brasileira.

raul2Liso batendo, como se fala, passando por várias privações, que implicaram em sérias complicações no seu quadro clínico, Raulzito, convoca seu parceiro, Marcelo Nova, então ex-vocalista da excelente banda, precursora do hardcore no Brasil, Camisa de Vênus, para a gravação de um novo disco. O estado do Raul não era nada legal, estava abatido, nitidamente inchado, assim como se pode conferir em Burguesia e na A Tempestade, em que as vozes do Cazuza e do Renato, pelo menos em algumas faixas estão tristemente distintas do que se era acostumado a escutar. Raul canta neste disco de modo arrastado e com certeza em busca de solução para este problema resolveu fazer um disco em dueto, algo que nunca tinha feito na mais que brilhante carreira, mas que foi executado de modo maravilhoso; A Panela do Diabo seria um disco estranho se não tivesse a participação vocal do Marcelo Nova. O álbum é introduzido com a clássica Be-Bop-A-Lula, de Gene Vincent e Bill Sheriff Tex Davis, em seguida rola a aclamada Rock and Roll – o negócio é rockão antigo – em que Raul presta algumas contas com a cultura não só do Brasil; pulando algumas faixas encontramos a divertidíssima e profundamente crítica Pastor João e Igreja Invisível e ainda podemos ouvir neste álbum Nuit e Best Seller, estas, na minha opinião, embora sejam músicas bem ritmadas com algumas influências do Raul e do Marcelo, são as faixas mais leves, já que as demais expõem com intensidade a situação à qual não só o Raul passava, mas o parceiro Marcelo, que participou da composição de quase todas as faixas do disco, se encontrava, vendo um parceiro definhar.

A Panela do Diabo se revela como uma produção madura e declaradamente carregada de tristeza; pois é nem só de farras e orgasmos múltiplos se leva a vida. A Panela do Diabo teve uma turnê no Brasil, em que, por conta do estado de Raul Seixas, até hoje Marcelo Nova, uma espécie de produtor da turnê, é acusado de ter depreciado a saúde do parceiro mais ainda, como se o Marcelo fosse o culpado do declínio físico do parceiro, e como se o Raul fizesse algo que de fato não concordasse. Otário acho que todos sabem que ele nunca foi.

Também no ano de 1989, segundo consta entre os meses de março e maio desse ano, Agenor de Miranda Araujo Neto, também conhecido como Cazuza, gravava o seu último disco – Por Aí é o último álbum oficial da discografia do Cazuza, lançado em 1991 – Burguesia, álbum duplo, maduro, mostra um Cazuza apaixonado pela vida, mas sem deixar de fazer seus devidos questionamentos. Muito abatido pelo agravamento do HIV e sofrendo as consequências de um tratamento equivocado, o poeta gravou algumas faixas sentado em uma cadeira de rodas, apoiado em amigos e profissionais do estúdio, até uma cama foi levada ao estúdio. É interessante lembrar que somada à debilidade física e psicológica que o vírus da AIDS impõe, nessa época, anos 80, período marcado pelo surgimento e disseminação do HIV, tê-lo ou mesmo sofrer o desenvolvimento da doença, causava danos sociais e morais, alimentados pela posição homofóbica de tratar a AIDS como uma doença restrita a homossexuais, a instituindo inclusive como câncer ou peste gay. Uma das ações mais repugnantes direcionadas a Cazuza foi o responsabilizar pela morte do ator Lauro Corona, disparado um dos maiores galãs da tevê brasileira na década de 80, morto em decorrência do HIV, em que Cazuza, seu provável primo, o teria contaminado. Muita gente até hoje acredita nessa história, o fato é que nem primos eles eram.

Enquanto Cazuza se abatia, assim como outras pessoas por conta deste vírus, muitas pessoas prestavam sua condenação, demonstrando o alívio da perda de um artista que devido às circunstâncias até a Rede Globo tinha que engolir. Alguns desses reacionários que condenavam pessoas como Cazuza estavam infectadas por tal vírus.

Burguesia é um discão, repleto de músicas que se tornaram clássicas, como a biográfica Nabucodonosor e as bem alegres Garota de Bauru e Baby Lonest. Cazuza, que participou efetivamente da produção do disco, ainda implementa clássicos da música popular brasileira, como Preconceito, de Antonio Maria  e Fernando Lobo, além de juntamente com Lobão – antes da loucura -, homenagear o grande músico e poeta Cartola na faixa Azul e Amarelo, implementando dois versos da música Autonomia, de autoria deste, dividindo os créditos da faixa com o sambista. Apesar de ser um álbum duplo Burguesia não é um disco longo ou mesmo enfadonho, pode-se viajar em todas as faixas, apreciando a liberdade de criação e produção que sempre foram marcas do Cazuza. Entretanto, devo admitir, apesar da alegria de algumas faixas, Burguesia é um álbum triste, péssimo pra ser ouvido em situações de depressão. Canções como Cobaias de Deus, em parceira com a Ângela Rô Rô e Quase um Segundo, esta última de autoria de Herbert Viana, expressam o clima de revolta e angústia que deveria pairar sobre a cabeça do poeta; mas seria uma insensibilidade da minha parte falar sobre este álbum sem falar sobre a faixa que dá seu título.

cazuzaCazuza era tido por muitos como o eterno boyzão, filho de João Araújo, grande produtor, que lançou no mercado fonográfico nomes como Os Novos Baianos, chefe maior da Som Livre, gravadora das organizações Globo, mas o poeta  já tinha dado uma bela resposta em seu álbum Ideologia, de 1988, empreendendo críticas contundentes ao modo de vida da sociedade contemporânea, mas na faixa Burguesia do álbum que leva o mesmo nome ele bota pra voar as bandas de lata, realizando uma leitura sociológica do sentido de existência da classe burguesa, desempenhando uma autocrítica, que claro, não cabia somente a ele e nos lembrando da perniciosidade desta classe: “ a burguesia é a direita, é a guerra”.

Raul e Cazuza partiram em pouco espaço de tempo gerando um baque em tudo que era de muito doida e muito doido do país. Raul se foi em 27 de agosto de 1989; Cazuza finalmente descansou em 07 de julho de 1990 – ou seja, em pouco menos de 1 ano os fãs de rock se despediam na marra de dois grandes ídolos, que tanto abrilhantaram com irreverência e inteligência a vida no Brasil, tão comprometida com as exigências de mercado, assim como outros processos de continuidade da ditadura -que acabara oficialmente há meia década –  para depois de mais outra meia década ver Renato Russo “ir embora cedo demais”.

As pessoas que não conhecem a Legião Urbana ou mesmo aquelas que escutaram a banda por meio de coletâneas podem ficar surpresas ao se depararem com um fã desta banda e este afirmar que o seu álbum preferido da Legião é A Tempestade. Sim, este último disco da Legião lançado com o Renatão em vida – em 1997 foi lançado o disco da Legião, Uma Outra Estação, que também é do caralho – é um dos prediletos de muitos fãs. Para mim dos álbuns em destaque A Tempestade ou o Livro dos Dias chega a ser o mais triste, mas com certeza não é pela melancolia expressa em algumas letras, ou em quase todas as faixas do disco, que muitos dos seguidores da Legião escolheram-no como o melhor disco da banda. Reflexão causa consciência – e consciência, em tese, causa dor. A Tempestade é um dos discos mais reflexivos, não só de rock and roll, mas de tudo que é música que já escutei; assim como nos outros álbuns da Legião Urbana, Renato Russo entrega ao público letras penetrantes e liricamente ricas, porém em A Tempestade parece que a dose de revolta introspectiva foi elevada e o desespero surge como inexorável caminho para o fim, o desespero da dor da paixão mal resolvida em Longe do Meu Lado, ou mesmo a desesperada ação de se jogar no cotidiano da pessoa amada, deixando esta se jogar na sua vida, combatendo a rotina com a satisfação do querer estar por perto, por exemplo, vista na perfeita Leila, que deus, ou seja, João Gilberto, ainda há de gravar. Corre a notícia que a voz distinta do Renatão em A Tempestade ou Livro dos Dias não se deu apenas pela debilidade referente a seu estado físico e psicológico, mas também pelo fato de todas as faixas, exceto A Via Láctea, terem sido gravadas a partir da voz-guia, diferenciando definitivamente os vocais deste disco dos demais álbuns da Legião.

Renatão, que já tinha rasgado toda a alma configurada em versos no seu segundo álbum solo, Equilíbrio Distante, 1995, também exigiu que nenhuma foto dele fosse tirada durante o processo de gravação e edição d´A Tempestade, utilizando fotos do próprio Equilíbrio Distante. Eram outros tempos, internet só no sonho, ou nas residências mais abonadas e, diferente do que ocorreu com Cazuza, a imprensa não fez tanto alarde quanto à debilidade do poeta candango, mesmo assim os fãs, fanáticos como fãs do Iron Maden, U2 e The Smiths, davam um jeito de se manterem informados da situação de seu ídolo; os rumores de que ele se encontrava trancafiado num apartamento, sozinho, com medicação suspensa, afligia não somente os seguidores da Legião e sim todas as pessoas sensíveis à contribuição do Renato à arte brasileira e aqueles que não consideravam digno o definhamento de alguém por conta duma doença traiçoeira, cruel e tão escrota como a AIDS, que já tinha roubado a vida de um monte de gente legal.

“Hoje a tristeza não é passageira, hoje fiquei com febre a tarde inteira e quando chegará à noite, cada estrela se parecerá uma lágrima”

renato russoManter-se frio diante de tal narração não era tarefa simples. Quando ele se foi, 11 de outubro de 1996, a tristeza da perda se somou à melancolia inerente àquele último disco, tragédia. A Legião Urbana já carregava certa responsabilidade pelo fato de acompanhar despedidas, o disco V, meu preferido, diga-se de passagem, foi encontrado em cenários de suicídio, sendo o último disco de uma vida inteira a ser escutado; muitas letras do disco V, ou trechos dessas foram identificadas em cartas de adeus de pessoas que davam cabo de si. Renato detestava essa conotação, que para ele ofuscava uma grande obra, fruto de um trabalho feito com mais liberdade artística que os demais, com seus parceiros, Dado Vila-Lobos e Marcelo Bonfã mais maduros enquanto músicos. Uma das familiaridades que encontro entre o disco V e A Tempestade ou o Livros dos Dias está justamente relacionada à maturidade artística dos parceiros do Renato, que conseguiram no disco de 1996, assim como no V, de 1991, projetar um peso sonoro em assíduo diálogo com o peso da poesia empregada por Renato Russo.

Os poetas partiram, mas jamais irão embora. Deixaram discografias intrigantes, repletas de opiniões sobre o mundo, sendo intimamente abrangentes, pondo decisões certas em discussão, debatendo o absurdo.

A Panela do Diabo, Burguesia e A Tempestade são três ótimos álbuns, que fazem justiça com a obra de seus autores. Quando penso nesses discos penso em generosidade, os caras literalmente estavam morrendo e mesmo assim, em vez de se poupar para conhecer o desconhecido, que em todos os três casos, era eminente, dedicaram seu últimos dias na ampliação de suas obras. Será que estes álbuns foram feitos por eles, para eles, por mera satisfação pessoal? Acredito que não e lendo os demais trabalhos destes artistas dá para encontrar várias outras demonstrações de generosidade.

Obrigado poetas, a vida seria bem mais ridícula se não fosse as suas poesias, suas canções, seus risos e choros. Vocês serão sempre eternos para quem já chegou próximo de vocês por meio de suas contribuições à arte, à vida. Viva Raulzito, Viva Cazuza, Viva Renato Russo!

Augusto Azevedo é empreendedor da área de Organizações Sociais, atualmente se encontra envolvido em estudos sobre aproveitamento de recursos hídricos com Peter Brabeck-Letmathe

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SondaBerro: Sobre construir casas e fazer músicas

Músico Lucas Santtana conversou com a Berro durante o festival RecBeat, em Recife (Fotos: Ramon Sales/Revista Berro)

Uma colcha de retalhos rítmicas harmonizadas de forma autoral e orgânica. É guitarrada, ska, dub, samba, bossa, tudo que o músico pode utilizar pra temperar seu ritmo. Lucas Santtana nasceu enquanto a tropicália era marco da inquietude daquele início da década de 70. Ele traz metáforas para a entrevista como quem fala pensando na próxima música a ser composta. Com quinze anos de carreira o soteropolitano pousou em Recife para ser uma das atrações do último dia do festival RecBeat, que completou vinte anos em 2015.

Nesse tempo de estrada Lucas já acompanhou vários músicos como Chico Science e Nação Zumbi, Gilberto Gil e Marisa Monte. Hoje se destaca no cenário nacional e internacional como um músico que conseguiu amadurecer sua vasta carga musical acumulada desde a infância. Lucas bateu um papo com a Berro durante o RecBeat, em Recife, e falou sobre seu processo criativo e outros pontos de vista.

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A gente nota a presença forte de ritmos como ska, dub, funk (dentre outros) no seu som. Como é o processo de composição, as músicas já saem com uma batida específica?

Às vezes você faz a intenção de uma música no violão, na guitarra. Mas muitas vezes vem uma coisa que à medida que você vai construindo os layers, como numa casa, você vai construindo a fundação, subindo as paredes, colocando umas janelas, você vai entendendo o espaço, vai percebendo onde é o poente da casa, de onde vem o vento e você vai adequando da melhor maneira. Com o tempo eu fui entendendo que a gente não deve impor à música várias ideias que você quer. Você tem que ir construindo a casa devagarzinho e escutando o que a música tá querendo, o que ela tá precisando. Daí nessa de você ir escutando você coloca um elemento a mais, tira um elemento, testa outra coisa, você vai construindo a casa. Daí muitas vezes uma música que começou em uma intenção de um estilo, acaba indo pra outro lado, ou agregando várias outras referências.

A melodia e a parte escrita surgem em conjunto?

Raramente componho premeditadamente. A música quase sempre acontece de uma inspiração que vem, vem um riff, vem uma letra e o resto vai saindo.

Fala pra gente como é a cena de Salvador no início e hoje; quais diferenças ou semelhanças que você nota de 15 anos pra cá?

O RecBeat tem cinco anos a mais que eu de estrada. Se era difícil há quinze anos, imagina o que era pro Guti (produtor do festival) há vinte anos. Quando eu comecei, junto com o Cidadão Instigado fomos os primeiros nessa cena independente mesmo. Havia outras bandas, mas elas tinham gravadora, eram maiores. No começo tinha muita dificuldade: não tinha lugar pra tocar, não tinha cachê, a gente ia “abrindo caminho a facão” mesmo, na mata virgem. A gente não gosta muito de olhar pra trás, mas se a gente fizer esse exercício, a gente nota como cresceu o público, como cresceu o espaço pra esse tipo de som. É interessante também notar como a nossa música foi crescendo com o tempo também, como nosso som foi evoluindo, a gente foi experimentando outras coisas. Muita coisa nesses quinze anos melhorou, é uma rampa ascendente que não tem oscilação.

O RecBeat é referência em festival independente e rola em meio ao carnaval e acontece na rua. Você pode comentar um pouco da sua relação como artista com o fato de tocar na rua?

Eu sempre chamo a galera pra cima do palco, justamente pra quebrar essa relação de pessoas assistindo. Pra gente, quanto mais próximo a gente esteja do público, mais aquela noite vai acontecer. Se a gente não tiver um feedback, o show acaba não sendo tão legal, então é uma realimentação. E, na real, o que é massa em festivais como o RecBeat é essa coisa de show de rua, é uma energia de Exu, né? É uma energia que não deixa nada ficar parado, que é do movimento. Quando você toca na rua, você nunca sabe o que vai vir, é sempre surpreendente. Não é como tocar em um teatro, ou numa casa de show, que você tem o domínio, você sabe quem tá ali, você tem mais o controle desse feedback. Quando é na rua você não tem esse controle, você acaba deixando a coisa livre, se liberta dessa função de frontside, de ter que dá conta disso, você deixa isso dando conta de você e cada um dá conta de si, cada um se diverte.

ls2Como é esse movimento de ocupação de rua pela música em Salvador, você poderia comentar como é lá?

Pois é, Salvador passou muitos anos e ainda tá ouvindo só axé. Foram gerações e gerações educadas ouvindo só isso, mas de uns anos pra cá surgiram muitas bandas legais como Baiana System, Russo, Retrofoguetes e muitos grupos de música instrumental que hoje levam um público grande pros eventos. Hoje graças à internet e graças a esses novos tempos, conseguiu-se que em Salvador surgisse um público para esse tipo de som… e tem vários gestores culturais também como o Vince de Mira (ex-vocalista da Lampirônicos) que faz vários festivais nesse sentido de ocupar a cidade com outros tipos de som, então é isso.

Como foi a escolha do figurino pra apresentação aqui em Recife? (Lucas se apresentou com um vestido rosa claro como você pode ver nas fotografias abaixo)

Quando eu toquei aqui há cinco anos, eu não sabia dessa onda e eu vim com roupa normal. Daí me falaram “pô, aqui todo mundo toca fantasiado, é tradição”. Eu nunca tinha me vestido de mulher, daí eu avisei pro Bruno, Caetano (músicos que tocam com Lucas) pra gente se fantasiar e debutar no carnaval. Dá um trabalho da porra, tem que se maquiar e tal.

E quando vai rolar de tocar em Fortaleza outra vez?

A gente tá afim de um esquema que leve a gente. De 2007 até 2011 a gente foi quase todo ano pra lá, mas depois parou e faz uns 3 anos que a gente não toca lá. Eu tenho uma história bem forte com o Ceará, já fui várias vezes na Mostra Sesc Cariri de Cultura, já fiz um documentário pra TV Sesc sobre a Mostra. Também fiz uma trilha sonora de uma peça teatral chamada “O Duelo”, cujo laboratório foi em três cidades que eu lembro ser Iracema, Lavras da Mangabeira e outra cidade que eu tô esquecendo do nome agora.

Curta sua fanpage: Lucas Santtana

*Abaixo, você vê registros da apresentação do músico no RecBeat 2015

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Burgo!: jazz, afrobeat e um pouco de improviso

(Fotos: divulgação)

Vai saber o que nessa sexta à noite? Pois se prepare porque a banda paraibana Burgo! fará uma apresentação no Mambembe, na Praia de Iracema, em Fortaleza (CE). Uma noite que contará com muito jazz, afrobeat, cercados de influências regionais e da música de livre improviso.

Burgo! é a banda comandada pelo trompetista Burgo Hipolito, pernambucano radicado em João Pessoa (PB), para onde voltou após 17 anos na Alemanha. Atualmente, o grupo é um dos expoentes da música instrumental paraibana. Ao lançar um olhar multicultural sobre a música fusion, funde o tradicional e o contemporâneo, deixando-se influenciar pelo jazz, pela música regional e a de livre improvisação, com fortes referências à cultura popular.

burgo3_siteO grupo conta com grandes músicos do cenário paraibano, como o guitarrista Caio Gomez, o baterista Pablo Prsna Ramires, o baixista Edy Gonzaga, o pianista Marcos Deparis e o percussionista João Cassiano. Com isso, Burgo promove o encontro de gerações de músicos, com ricas experiências pelo Brasil e pelo mundo.

O show é composto por músicas autorais, criadas na ponte aérea Brasil-Alemanha. O repertório traduz o universo estético no qual foi criado, atravessando os continentes, alinhavando culturas, fundindo ritmos, transitando entre o tradicional e o contemporâneo. Antes e após o show, o DJ Caio Gomez fará discotecagem, tocando afrobeat, jazz fusion e wordmusic.

SERVIÇO

Evento: Burgo! no Mambembe

Quando? sexta-feira (28/11), às 23h30

Onde? Mambembe – Comida e Outras Artes (Rua dos Tabajaras, 368, Praia de Iracema)

Ingressos: R$ 10,00

Mais informações: (85) 8659.7170 | (85) 9904.6021

 

SOBRE A BANDA

Ouça a banda: https://soundcloud.com/burgo-1

Vídeo-release: https://www.youtube.com/watch?v=VujYr42i68w

Burgo! no Festival Mundo 2013: https://www.youtube.com/watch?v=LknN15d5MB8

Facebook: https://www.facebook.com/Burgoband

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Malucos beleza!

(Fotos: divulgação)

Trampar de forma autônoma na cena cultural de Fortaleza é bem difícil, né? Pra quem vive de música independente, então, nem se fala. Embora a gente perceba que a cena underground cearense tenha crescido bastante nos últimos anos, muita gente boa, por falta de apoio, estrutura e força da cena local já se mandou pras bandas do Rio ou São Paulo pra tentar a sorte, já que por aqui a parada ainda é espinhosa.

Mas tem gente – teimosa! – que insiste em ficar – e recomeçar. É o caso da galera da “Daniel Sansil e os Maluco do Brasil”, banda da capital cearense, composta por Daniel Sansil (voz e violão), Juliana Pasio (voz), Paulo Henrique Mudinho (voz, guitarra e técnica de som), Igor Barboza (percussão), Bruno Barboza (baixo, guitarra e trompete) e Jean Morais (bateria). A banda é recente, mas essa galera já está na cena da música cearense há algum tempo. Na verdade, o projeto é mais uma tentativa de se reinventar, de buscar novas experimentações musicais.

De acordo com a própria banda, “o projeto autoral – e independente – é um misto de poesia e música regional, agregadas ao rock psicodélico. O show Ira-se mar rebola, grita, esperneia e tapeia os habitantes desta nossa nave mãe. Passeando por ritmos como brega, carimbó, forró e rock and roll, permeados por intervenções poéticas e performances teatrais, ‘Os Maluco do Brasil’ é uma tentativa de arte, e arte sempre é bem vinda”. Ora se não é! Segundo Daniel Sansil, “o show é tão irreverente que chega a ser sério e sério a um ponto de merecer risadas. Descreve amores, pessoas, locais, de uma forma autêntica, cearense”.

O ótimo show Ira-se mar passeou pelo Salão das Ilusões, em junho, pela Comunidade do Cumbe,  em Aracati (CE), em agosto, pelo Cuca Cuca Barra, em setembro, pela Kayakeria e pela Bienal Internacional de Dança do Ceará, em outubro. Vale a pena conhecer o som dessa galera!

malucos do brasilSe ficou com vontade de ouvir “Daniel Sansil e os Malucos do Brasil” é só chegar no lançamento da 3a edição da Revista Berro, nesta sexta-feira (21), no Bar do Ferro Velho, no Benfica (Fortaleza-CE), a partir das 19h, que eles vão estar lá tocando pra galera! Segundo o vocalista Daniel Sansil, não será o Ira-se mar, “mas um show mais intimista, algo como um ensaio aberto”. Vai ser massa!!!

Contatos

• Karel Guerra (produção) – karel_guerra@hotmail.com: (85) 96514366/(85) 8924-2501
• Daniel Sansil (direção artística) – danielsansil@gmail.com: (85) 99975000

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Lidia Maria: um ano de Alma Leve

 Com um ano do disco Alma Leve, a cantora e compositora cearense Lidia Maria coleciona grandes  shows e o reconhecimento do público (Foto: Junior Panela)

Após lançar Alma Leve, seu álbum de estreia, a cantora e compositora Lidia Maria já colhe os bons frutos de uma trajetória musical regada a MPB, poesia e muita dedicação. Lançado em 18 novembro de 2013 no Festival UFC de Cultura, o disco foi concebido entre amigos que já cultivavam o seu trabalho, o que, segundo a artista, contribuiu para o bom resultado.

Com onze músicas, apresenta sete composições próprias, uma em parceria com Alex Ramon, seu guitarrista que assina cinco arranjos. Há ainda versões para Dominguinhos, Moraes Moreira e Pepeu Gomes com letras de Fausto Nilo, e inéditas da nova geração de compositores do Ceará, como Khalil Gibran e Bárbara Sena, esta que também foi responsável pela arte da capa. O disco teve fotografias de Panela Jr e Davi Pinheiro na paisagem da Sabiaguaba, praia na região sudeste de Fortaleza, e figurino de Ilya Borges. A produção ficou com o jornalista Paulo Mamede, que ouviu uma pequena mostra de seu som no EP A casa e a rua e convidou-a para gravar um álbum completo, tendo João Luís Studart na produção executiva. A direção musical é dos veteranos Adelson Viana e Tarcísio Sardinha, arranjador também de seis músicas. As guitarras e violões de Cristiano Pinho em três faixas reforçam a ponte entre a MPB e o rock.

Alma Leve é feito de canções de amor. A faixa título é um jazz rock delicado que nos leva ao mundo belo de quem está apaixonado e tem a assinatura de Lidia, assim como A Sós de sanfona afrancesada, e Nós Dois de dedilhar doce ao violão. Amor e sensualidade se acariciam no blues Dança na Chuva, também de sua autoria, e no xote meio reggae Forró Escondido, de Bárbara Sena. O arrastar do slide na guitarra de Beijos Salgados de Khalil Gibran nos convida a namorar na praia. O carrossel e o cata-vento dos momentos valsam no piano suave de O Tempo e o Vento, que lembra uma caixinha de música, e um amor se desfaz na cadência lenta do samba Não causas em mim, ambas também de Lidia. Mais Amor, Por Favor é um apelo, um sussurro cantado, dela e de Alex Ramon. Pedras que cantam, de Dominguinhos e Fausto Nilo, chega mais mansa aos ouvidos, e Eu também quero beijar de Pepeu Gomes, Moraes Moreira e Fausto Nilo, renasce em uma charmosa marcha rancho.

O reconhecimento desse trabalho veio rápido com o convite para cantar no Festival de Jazz e Blues em Fortaleza na mesma noite do guitarrista Robertinho de Recife. Pouco tempo depois, a participação no programa São João do Nordeste ao lado de Chico César e Xangai. Nesse meio tempo, Lidia viajou para Cabo Verde na companhia de outros artistas cearenses para participar da feira internacional AME (Atlantic Music Export). Também cantou no aterro da Praia de Iracema no aniversário de Fortaleza. Logo em seguida, apresentou-se na Maloca Dragão, programação especial de 15 anos do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, também na capital cearense.

(Foto: Davi Pinheiro)
(Foto: Davi Pinheiro)

Selecionada entre 86 artistas inscritos, se classificou para segunda fase da Mostra Petrúcio Maia da Prefeitura de Fortaleza e cantou no Estoril. Ainda em 2014, apresentou-se no Festival de Dança Litoral Oeste, no Festival Vaia para Cultura, e em “pocket show” na Livraria Saraiva. Afora os shows, lançou o clipe da música A Palo Seco, de Belchior, também gravou o programa “História da Música” da TV Ceará e um especial para a TV Fortaleza, todos disponíveis em seu canal no youtube.

Após um ano bastante produtivo, Lidia Maria se sente em uma nova fase na qual quer viver o repertório do disco de uma outra maneira, tocando violão e bandolim, companheiros de criação e musicalidade. Prepara-se para novos públicos, almejando shows no interior e fora do Ceará. Articula-se para tocar em rádios de grande alcance, veicular clipes na televisão, ampliar a distribuição física do álbum e iniciar a digital.

Nesta sexta-feira, 21 de novembro, a artista se apresenta no Festival de Música na Ibiapaba, na cidade de Viçosa do Ceará. Esse show tem um sabor especial para Lidia, pois foi como aluna do festival que ela conheceu boa parte dos músicos de sua banda e também o guitarrista Cristiano Pinho. Além de cantar as músicas do CD Alma Leve, ela vai mostrar suas versões para composições de Belchior e Novos Baianos.

Mais informações: www.lidiamaria.com.br

Contato: (85) 97909627/ 86406417/contato@lidiamaria.com.br

Soundcloud: https://soundcloud.com/lidiamaria

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Fuleiragem paraibana

(Foto: divulgação)

A banda paraibana Varal de Cabaré surgiu em 2010, proporcionando diferentes emoções para o público, balançando seus corações com dores de cotovelo e mensagens rasgantes de amor, com uma malemolência contagiante que faz todo mundo se remexer. O quinteto é formado por Pablo Giorgio, no vocal; Arthur Dantas e Juca Gonzaga, nas guitarras; Weskley Dantas, no baixo; e Beto Cabeça, na bateria.

A partir de uma proposta de releituras de músicas bregas, com uma pegada rock n’ roll, o grupo vem conquistando cada vez mais ouvintes, apresentando-se em diversos festivais e eventos por todo o Nordeste. A banda também preza pela fuleiragem!

Em parceria que surgiu a partir de uma proposta de trabalho de conclusão de graduação em Arte e Mídia, pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), desenvolvido por Babi Fraga, produziram produtos multimídias que têm por finalidade divulgar a banda, tais como o videoclipe da faixa autoral “Mototáxi do amor”, que já conta com quase 120.000 visualizações no Youtube, e a gravação do primeiro EP da banda,”Músicas para o exagero da paixão”, que será lançado no mês de novembro que está chegando.

Confira o videoclipe da música “Mototáxi do amor”! Ieeeiiiii!!!

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Dzi Croquettes: a arte revolucionária

As propostas do grupo eram tão fortemente revolucionárias que até hoje sofrem boicotes (Foto: divulgação)

Augusto Azevedo

Quando afirmavam ao poeta que a única maneira de enfrentar a ditadura militar instaurada no Brasil em 1964, que com Ato Institucional n° 5 (AI-5), de 1968, passou a agir com mais violência e perversão era a adesão à luta armada, ele questionava:

- Por que em vez de agirmos com armas não fazemos arte?

O poeta se chamava Wagner Ribeiro, paulista que além da dedicação à escrita também era ator, bailarino, artista plástico e artesão. Foi justamente um texto de sua autoria intitulado Dzi Família Croquettes que estimulou a criação de uma das maiores experiências culturais que o mundo pôde se deparar. Wagner Ribeiro, além do texto que logo iria perder um pouco de sua pertinência devido à ousadia que a proposta da montagem exigia, também foi responsável pela reunião dos membros do núcleo inicial do grupo, cedendo inclusive sua casa para os primeiros ensaios.

A montagem ganharia novas dimensões com a introdução no grupo do bailarino, coreografo, cantor ítalo-americano Leonardo La Ponzina, conhecido como Lennie Dale, que levou técnicas de dança entre outras contribuições para aquele processo criativo, extremamente coletivo que se aflorava em 1972 no Rio de Janeiro. Surgia com gosto de gás os Dzi Croquettes, show de múltiplas linguagens artísticas, como teatro, dança e música, que iria modificar estruturalmente o significado do diálogo entre política e arte no Brasil e em vários cantos do planeta, influenciando artistas do naipe de Lize Menneli, Ney Matogrosso, Pedro Cardoso, Betty Faria, Miguel Falabela e grupos como Asdrúbal Trouxe o Trombone, As Frenéticas, só para citar alguns.

As propostas dos Dzi Croquettes, essa metralhadora de titânio, giratória, calibre ponto cinquenta, que esbagaçou opiniões e imposições de reacionários que se aproveitavam da situação política que passava o Brasil, eram tão fortemente revolucionárias que até hoje sofrem boicotes, um verdadeiro crime contra a memória do país. A grande maioria dos registros que se tem de partes das apresentações são originadas de terras gringas, pois por aqui eles não podiam arquivar imagens; os ditadores, não conseguindo entender nada o que o show dos Dzi Croquettes apresentava, se limitando a realizar críticas estritamente homofóbicas, não os permitiam.

A ausência dos registros deve ter implicado em imensas dificuldades para a produção, direção e montagem do documentário homônimo do grupo que permite desde 2009 que tenhamos um pouco de acesso a essa experiência transcendental tão covardemente ocultada pelos veículos de comunicação e pela intelectualidade daqui. Eu, por exemplo, desconhecia por completo essa dádiva da arte política brasileira, essa luz que pode e deve contribuir com as mudanças estruturais urgentes que teremos que dar conta. Dos membros do grupo lembro com muita lucidez de parte da atuação do arquiteto, cenógrafo, ator, bailarino e figurinista Cláudio Tovar, que junto a sua esposa, Lucinha Lins, em meados dos anos 80 apresentava um programa infantil na extinta Rede Manchete, chamado Lupu Limpim, Clapa Topo. Recordo que era um programa televisivo para crianças bem diferente dos demais da época, por trabalhar com temáticas referentes ao universo das fábulas e contos infantis, com adaptações de figurino, oralidade e cenografia encantadoras, acredito eu, frutos da sensibilidade e inteligência de um artista completo como Cláudio Tovar.

A realização de uma “arte política” depende diretamente das intenções da obra, da sua funcionalidade e das reações que essa provoca em seu público. Podemos dizer que os Dzi Croquettes, com uma estética própria e revolucionária, promoveu muitos estímulos para a tomada de consciência de pessoas que ousaram mudar, enfrentando a repressão cotidiana típica do clima que uma intervenção militar das proporções da última ditadura oficial brasileira causa. Dificilmente iremos encontrar algo mais político do que formas e conteúdos expressos de nossos corpos e de nossas mentes. O ser humano é um ser essencialmente político, embora essa essência obtenha um desgaste quando delegamos alguém para agir em nosso lugar, continuamos fazendo políticas em nossas atuações sociais por mais simplistas, descompromissadas e intimistas que essas atuações possam ser.

A proposta dos Dzi Croquettes teve a proeza de ser crítica sem ser panfletária, séria sem perder a alegria, agressiva, mas nada violenta. Os movimentos pela livre diversidade sexual de hoje, por exemplo, devem muito aos Dzi e àqueles que deram a cara a tapa nos anos de chumbo que até hoje nos assombram e nos atormentam.

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(Foto: divulgação documentário “dzi croquettes”)

O documentário sobre o grupo, dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez, é uma grande contribuição para a cultura brasileira, além de tecnicamente perfeito traz consigo uma forte carga de emotividades que, pelo que entendi, faz referência direta à maneira como o show dos Dzi Croquettes acontecia. Por mais frios que tenham nos tornado, existe algo dentro da caixa torácica de cada um de nós chamado coração e ele é tão importante quanto nosso cérebro.

Percebo uma questão fundamental na compreensão do que foi o Dzi: a luta pela liberdade ainda é uma prioridade e não podemos esquecer que as prisões estão estabelecidas em várias instâncias dessa sociedade, promovendo injustiças e frustrações.
Dedico essas poucas e humildes linhas, que na verdade são o desabafo de um “filho bastardo” dos Dzi, aos membros desse fenômeno da arte que ainda estão vivos: Benedicto Lacerda, Ciro Barcelos, Cláudio Tovar, Rogério de Poly e Bayard Tonelli e aos que já partiram: Wagner Ribeiro, Lennie Dail, Reginaldo de Poly, Paulo Bacellar, Carlos Machado, Roberto de Rodrigues, Cláudio Gaya e Eloy Simões; muito obrigado por tudo que vocês fizeram pela gente.

E que não percamos a noção: “só o amor constrói”. Dzi, Dzi, Dzi pra vocês.

Veja abaixo o documentário sobre o grupo:

Augusto Azevedo é  tesoureiro do sindicato dos black blocs e perito em desarmamento de balengotengo

Veia Cava

Veia Cava

(Foto: Dereka Tattoo/divulgação My Space)

Augusto Azevedo

Das bandas que surgiram na cidade de Fortaleza nos anos 90 uma das mais comentadas até os dias de hoje sem dúvida é a Veia Cava. Não conheci tal banda por acaso. Thiago Pereira, meu amigo de infância e hoje meu compadre, tinha ido a uma apresentação dos caras e daí então não falava de outra coisa:

- Tu tem que ver mah, a banda é muito boa, o som é muito irado. Melhor banda da cidade, com certeza.

Fiquei bem curioso, o Thiago assim como eu vinha acompanhando a florescência de bandas de rock da cidade e, também como eu, sempre foi muito exigente, o que ele estava divulgando certamente teria muita qualidade; entretanto o fato de se tratar de uma banda de hardcore e punk rock aumentou de modo significativo o meu interesse. Eram outros tempos, outros acessos, pelo menos pra gente não havia downloads de mp3, as referências que tínhamos dessa linha de som eram os Ramones, Sex Pistols, Clash, no máximo os Rancid, Cólera, Os Replicantes, Ratos e quando eu pedia pra ele fazer uma comparação:

- A guitarra lembra o som dos Kenneds, mas pensando bem eu acho que não tem nada a ver.

Não lembro com exatidão quando foi o primeiro show da Veia Cava que tive a oportunidade de curtir, mas certamente deve ter sido no Casarão Cultural, então sede do PART – Partido da Revolução dos Trabalhadores -, mas lembro da minha alegria em saber que dois dos integrantes da banda eram pessoas próximas e amigas. O vocalista era o Pedro Daniel, vulgo Jerimum, mais conhecido como Giri (Jeri), era um chapa, admirador de cachaçadas na Praça da Gentilândia, Bar do Beto e Calçada da Embrassol na Marechal; entre outras peculiaridades, o Jeri era o único brother da galera que tinha toda a discografia do Black Sabbat; o guitarrista era o Alex Fedox, irmão das épocas em que os bares do centro da cidade viviam lotados de estudantes com camisa da farda e muitas idéias, nos conhecemos no Seriguela Bar, situado na Love Street de Fortaleza (Rua 24 de Maio) em circunstâncias com fim bem turbulento. Constituíam a banda o Junior Animal no baixo e o André Sapo na bateria. Fiquei impressionado com o que presenciei; como se fala, de cara. Entendi tudo o que o Thiago se referia, a banda era muito boa mesmo.

A proposta ia muito além das distorções de guitarra, batidas aceleradas e letras panfletárias, os caras conseguiam trazer inovações pro hardcore, sem as apelações enfadonhas que chapavam as bandinhas pirulito que se reproduziam feito pombos em telhado de pessoas piedosas. Diferente de tudo que eu já tinha ouvido na vida, a Veia Cava possuía um som original, crítico e criativo, com um repertório recheado de músicas que expressavam o cotidiano de uma juventude sem muita perspectiva de vida, mas que viviam sem dar tanta importância assim à caretice enraizada no modo provinciano de lidar com as coisas e com os seres tão típicas da capital do Ceará.

Aquela iniciativa artística não mexeu apenas com o Thiago e comigo, pelo contrário, diversas gerações, inúmeras tribos expressavam seu entusiasmo por aquela banda. Músicas como “Repúdio”, “Poluição Sonora”, “Bola de Papel” demonstravam o quanto era possível e legal fazer uns sons versáteis sem perder o devido peso. Lembro de uma apresentação deles no Centro de Humanidades da UECE, num palco que fica ou ficava à frente do corredor que dava acesso às xerox e às sedes dos centros acadêmicos, a quantidade de pessoas que cantavam as letras chegava a impressionar e a performance daqueles quatro sujeitos em cima do palco correspondia com a agitação da galera.

Num fim de tarde calorento, saindo duma reunião no Casarão Cultural, encontrei o Alex na entrada desse espaço colando alguns cartazes. Pensei que fosse algo referente a algum festival, pois além da Veia Cava o Alex Fedox fazia parte de alguns outros projetos musicais como a banda anarcopunk Alarma, mas quando fui trocar ideia com ele fiquei sabendo que se tratava do cartaz de lançamento do primeiro álbum/demo da banda.

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Capa do primeiro disco da Veia Cava (Ilustração: K-lango)

“Cavando a Sepultura do Sistema” foi o título dado ao primeiro trabalho de estúdio dos “meninos”, com produção do Jolson Ximenes e do próprio Alex, com a ilustração da capa do mais que criativo K-lango; o disco trazia além algumas músicas gravadas com uma regular qualidade como: “Verdade”, “Auto-Gestão Já”, “Lutar e Falsa descoberta”, além da clássica “Tacando Fogo”, músicas gravadas com recursos limitados, como “Punk”, “Bad Boy” entre outras; embora a qualidade da gravação dessas músicas não fosse tão boa quanto às mencionadas anteriormente, a intimidade do público com esses sons e o empenho da banda em valorizá-las em suas apresentações faziam com que a baixa sonoridade e definição dos instrumentos se colocassem apenas como detalhes. Outro dado curioso desse disco é que além das músicas a demo trazia consigo cerca de quatro poemas recitados pelo então baixista da banda Junior Animal, o que alimentava o aspecto alternativo e inovador dessa produção. Discão, eu pessoalmente vivo perturbando o Alex para reunir a turma e remasterizar esse álbum tão bom, mas que hoje em dia é uma raridade, pois as gravações postadas no myspace – ótimas para não deixar que a banda desapareça no tempo – não formam o set original do disco.

O tempo passou e os encontros da vida propiciaram que o Thiago Pereira, um dos maiores fãs da banda, viesse a ser baixista da Veia Cava. Nessa fase podemos identificar um som mais pesado, uma proposta mais crua do que a da antiga formação, na bateria rolava uma espécie de revezamento entre o batera original, André Sapo, o Léo, ótimo baterista, que tocava em bandas como a célebre Diagnose, além do K-lango, de quem sou suspeito pra falar, pois além de ser seu amigo sou um profundo admirador de suas elaborações artísticas, seja na música, seja nas artes visuais, enfim, o cara é um exemplo de dedicação à arte alternativa e uma grande figura da cena punk do país. Por volta do ano de 2003, os caras que faziam parte dessa segunda formação se reuniram para a produção do segundo registro da banda, que devido à boêmia e outros processos de sinergia não consigo lembrar o título – acabei de ligar para o Thiago, mas ele também não lembra – expondo uns sons distintos dos primeiros conhecidos pela galera. Essa formação perdurou por um tempo, só que não obteve a visibilidade da formação clássica, embora muitas pessoas prefiram essa segunda fase da banda.

É incrível, toda vida que encontro pessoas dos tempos do Casarão Cultural, Cidadão do Mundo e outros espaços alternativos da cidade que abriram suas portas para que bandas de punk rock e hardcore fossem vistas a Veia Cava se destaca como uma das bandas que mais deixam saudade. Acredito que esse seja um triunfo da arte e em especial de quem se dispõe a concentrar as produções artísticas em princípios que almejem a independência e a liberdade de criação acima de tudo. A Veia Cava faz falta, mas como costumo falar: a Veia Cava não acabou, os caras só estão dando um tempo. Eu pessoalmente não vejo a hora de presenciar uma nova apresentação dessa banda.

Mais sobre a banda: https://myspace.com/bandaveiacava

Augusto Azevedo é tesoureiro do sindicato dos black blocs e perito em desarmamento de balengotengo