Banda-Ambrosino-Martins

Do sertão ao universal, do universal ao sertão

(Foto: divulgação)

É da cidade de Triunfo, no sertão pernambucano, que vem um dos sons mais alucinantes da nova safra da música brasileira.  A banda Ambrosino Martins, que surgiu no ano de 1997 (e, portanto, nem é tão nooova assim!)  é mais uma a somar-se à safra de qualidade da música autoral pernambucana desde os anos 1990, com o movimento Manguebeat. Iniciando como um grupo de dança, de nome inspirado em seu Ambrosino, um conhecido tocador de pé de bode da região, brincante de alaursa, tocador de novenas e o precursor dos festejos folclóricos da cidade, em meados da década de 50. O grupo de dança deu origem à banda que permaneceu com a mesma alcunha, uma homenagem em vida ao ilustre mestre Ambrosino.

O universo fantástico e místico do Carnaval dos Caretas, das poesias e causos sobrenaturais de Triunfo inspiraram o grupo, assim como movimentos como a Tropicália, o Cinema Novo, a “plagicombinação” de Tom Zé e o Manguebeat de Chico Science e companhia. As músicas do Ambrosino Martins são um mosaico sonoro, uma colcha de retalhos, que transitam do pandeiro aos beats, do coco de roda do Livramento ao rock and roll. Das histórias de assombração ao trip hop.

Tudo isso transforma-se num constante diálogo entre a tradição e as novas tecnologias, entre a vanguarda e a cultura popular. Em seu primeiro disco oficial, A Fantástica Ascensão de Severina Z., a banda dialoga com o universo místico das cidades do interior, faz reflexões sobre um mundo caótico e em constante transformação. Realismo fantástico, poesia, contos e causos.

A faixa “Escura casa de taipa” é uma porrada que denuncia o machismo e a violência contra as mulheres, ainda tão presentes na realidade nacional, seja nas grandes ou pequenas cidades.

O álbum A Fantástica Ascensão de Severina Z pode ser ouvido na íntegra abaixo. É som que merece aquela escuta atenta e ativa. Bora?

Baixe o álbum aqui.

cidadão instigado_editado

Cantos de um Cidadão a anos-metros de distância  

(Foto: cidadaoinstigado.bandcamp.com)

Matheus Santiago

Há uma coisa acesa na trajetória do Cidadão Instigado, que completa agora 20 anos de estrada. O percurso de descobertas ao qual os integrantes se jogaram foi sem volta. Fortaleza, seu último disco,me fez pensar sobre um tanto de coisas. Desde a “vontade dentro”, cantada na faixa “É do povo” do primeiro EP, e como ela ainda pulsa; dos migrantes que se reconheceram e se enredaram no seu espaço solar; do ato de entrega envolvido na produção de arte e, acima de tudo, na sua vivência. Para este ano, o grupo prepara o lançamento em vinil de todos os seus discos e fará turnê comemorativa dos 20 anos de banda.

A escuta do álbum Fortaleza me acompanhou durante todo o ano de 2015, período em que o disco também foi lançado. “Só pra você perceber/ Que estou mais velho/ Longe de casa”. Sempre que esse trecho da canção “Besouros e Borboletas” tocava, algo me fazia olhar pro horizonte e perceber que daqui de Minas até o Ceará era muito chão. E pensar em como eu vim parar tão longe de casa e como continuo perseguindo a imagem do lugar de onde vim. Na certa, foi por causa dele que eu me lancei na estrada. Agora, entendo o que a faixa “Os Viajantes” quer dizer: “Penso todos os dias/ Num lugar melhor pra ir/ Sou um homem insistindo/ À procura da liberdade”.

Fortaleza é a viagem daqueles caras, que na adolescência tiravam onda tocando rock, em direção ao lugar que os nutriu da vontade de partir e encarar a vida artística como profissão. Depois do hiato de 6 anos sem lançar nenhum disco, o grupo cearense de rock nos apresentou Fortaleza. Durante esse tempo, os músicos, radicados em São Paulo, continuaram projetos paralelos, onde tocam com artistas da cena independente, e fizeram turnê nacional em tributo ao álbum The Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd.

A sonoridade é afetada intensamente pelo flerte com a psicodelia, ou viagem interior, como queiram chamar. Todas as composições são do guitarrista e frontman, Fernando Catatau, com exceção de “Land of Light”, parceria com Rodrigo Amarante. Outra colaboração notável é a de Dado Villa-Lobos, na canção “Fortaleza”, onde o mesmo toca violão. Cidadão Instigado é Régis Damasceno, Rian Batista, Dustan Gallas, Clayton Martin (único paulista do grupo) e Fernando Catatau. Sem contar a presença importante do 6º instigado, Yuri Kalil, engenheiro de som responsável pelos timbres e sonoridades desde o início da banda.

A voz “comum” de Catatau e sua guitarra marcante emergem no álbum inteiro. Um canto, por vezes sofrido, herança do brega, se presta a falar sobre o descontrole do mundo, mas também aponta para o território das possibilidades. Fortaleza é o encontro de dois seres que se transformaram com o passar dos anos: a banda, Cidadão Instigado, e a cidade de Fortaleza. O espaço de origem se modificou pelo poder corrosivo da grana, a banda amadureceu e ganhou reconhecimento nacional. A canção “Fortaleza” parece mostrar o que esse encontro, no final das contas, significa: “Fortaleza eu te conheço/ Desde o dia em que eu nasci/ Foi-se o tempo e a esperança é tudo que eu aprendi/ Guardo tudo nas lembranças que é pra nunca desistir”.

Matheus Santiago é compositor cearense e estudante de jornalismo. Cheio das invenções. Transita entre os campos da arte, filosofia e jornalismo. Não para quieto. Mora em Mariana, MG, e vive entre o sertão e as montanhas. 

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Siri de Mangue: “roots” do forró

(Foto: divulgação)

O grupo Siri de Mangue ( Danilo – triângulo, voz e violão; Diego – zabumba; Tomé – pandeiro; Lelé – violão e voz) teve início com tiradas de som na beira da praia, mangueios e passadas de chapéu durante o percurso de bicicleta com o Expresso Kingston pelo litoral de Fortaleza a Jericoacoara. Teve também sua incursão na serra do mar e metrôs do Rio de Janeiro de onde tivemos a idéia do nome.

É um legítimo forrózim de pé de serra com violão, sanfona, percussão e vozes, com repertório variado entre diversos compositores, épocas e ritmos nordestinos.  A banda vem há algum tempo fazendo apresentações em festas, bares e eventos, tendo no repertório variados baiões, xotes, e marchinhas que vão desde Forró das Antigas a Ave Sangria, Beto Barbosa, Jack do Pandeiro, João do Vale e Luiz Gonzaga, no maior clima de espontaneidade.

E aí, bora dançar esse forrózim roots?!

S´intere mais
 
daniel sansil e os malucos do brasil

Entre o amor e a 13 de maio

(Foto: divulgação)

Entre o Amor e a 13 de Maio é o primeiro álbum de “Daniel Sansil e os Maluco do Brasil”. Como a banda afirma, forjou-se de uma “encruzilhada de sonhos e demandas”. As músicas são autorais e o disco é totalmente independente. Como diz o bom dito popular, feito na “marra!” – e na fuleragem!

Para a banda, “cada verso, cada toque, cada arranjo, refletem a nossa inquietação, o recado que queremos dar. Aceito ou não; patrocinado ou não; podemos projetar o som fora dos nossos muros e gritar mais alto o que pensamos: Liberdade!”.

As músicas, muitas permeadas pela gaiatice cearense, passeiam por uma verdadeira mistura de ritmos, com uma mescla de poesia, música regional, rock psicodélico, entre outros estilos. Entre o Amor e a 13 de Maio é sopro de poesia, liberdade, coisas miúdas (ou não!) do cotidiano e essa cidadezinha que, ao mesmo tempo, segrega e agrega chamada Fortaleza.

Em tempos de desesperança, escutar Entre o Amor e a 13 de Maio é uma lufada de vento bom e um respiro de arte e resistência em meio à barbárie!

entre o amor e a treze de maio

Escute o álbum completo aqui: Entre o Amor e a 13 de Maio 

Daniel Sansil e os Maluco do Brasil

https://soundcloud.com/danielsansil

 

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Fepaschoal traduz a urbanidade em ritmo e canção em seu novo disco

(Foto: Manuela Galindo/divulgação)

Filho da geração Myspace, o músico e compositor Fepaschoal lançou seu novo álbum no início do mês. Com o nome de O Canto do Urbanóide Parte I, o disco é um convite para um passeio pela mente e ambiente de um ser desassossegado da grande cidade. Estará disponível para download (remunerado ou gratuito) na plataforma BandCamp. Composto por oito faixas, entre elas, “Contém Glutém”- single lançado no final de 2014 -, o novo trabalho reafirma a diversidade de ritmos e misturas já presentes em Comando Guatemala (2011) – primeiro álbum do músico – e tem como referências o som de Daft Punk, Beastie Boys, Miles Davis, Fela Kuti, Tom Zé e Caetano Veloso.

Em O Canto do Urbanóide Parte I estão expressos os sons, as palavras que passeiam na imaginação e pequenos ou grandes devaneios de um transeunte em meio urbano. Sua poética mescla elementos simples e corriqueiros do cotidiano deste personagem “urbanóide”, com reflexões e canções sobre a interpessoalidade, sobre as tensões políticas e mazelas ambientais dos últimos tempos, sobre conseguir, mesmo que por um momento, sentir prazer em meio ao caos, e sobre ter consciência da insignificância do indivíduo perante o universo. Tudo isso aliado a uma sonoridade densa, espacial, dançante e repleta de referências estilísticas. Sua maneira característica de misturar influências está presente em seu trabalho. Entre as já utilizadas guitarras, vozes, baixos e baterias, surge agora um flerte com a música eletrônica, através do uso de sintetizadores e samples.

Capa _Fepaschoal - O Canto do Urbanóide Parte I_Produzido de maneira independente, o novo álbum contém uma perceptível sensibilidade para as linguagens e sensações do presente e toda a indeterminação em torno dessas. Para a realização do novo trabalho, Fepaschoal contou ainda com a participação fundamental de outros músicos convidados: Edu Szjanbrum e Saulo Santos (percussão), Huemerson Leal e Henrique Paoli (bateria), Manel Fogo e Jackson Pinheiro (baixo), Jeremy Naud (teclados), Gil Mello (guitarra), Aline Maria, e Manel 7Linhas (vocais e back vocals).

Logo após o lançamento do álbum, também serão disponibilizados vídeos, um para cada música do novo trabalho, com o registro do show de Fepaschoal realizado no início deste ano na Casa Verde, em Vitória (ES).

Inquietude e alquimia lírico-sonora

O trabalho do músico e compositor Fepaschoal é marcado pela fusão da poética das ruas e coloquialismo com ritmos afro, latinos e eletrônicos, numa verve pulsante, bastante ligada ao rock (no sentido mais plural do gênero). É um artista inquieto, impulsionado pela curiosidade, pesquisa e alquimia lírico-sonora, em busca de um som original.  Da geração de músicos e bandas que se destacaram por meio da rede “Myspace“, iniciou sua carreira em 2008, lançando singles que rapidamente lhe proporcionaram respaldo da mídia capixaba e convites para shows em boa parte do Brasil.

O primeiro disco, Comando Guatemala (2011), no qual o compositor conseguiu apresentar um caldeirão diversificado de influências, teve boa resposta da crítica, figurou na lista de “mais tocadas” no extinto site Trama Virtual, serviu como trilha sonora em diversos produtos audiovisuais e também para rádio. Fepaschoal também participou de outros projetos e discos, com bandas e músicos como Mukeka di Rato, Aurora Górdon, André Paste e Pó de Ser Emoriô.

Canal no  Soundcloud: https://soundcloud.com/fepaschoal

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/user/fepaschoal85

Fan Page: @fapagefepaschoal

Instagram: @fepas.shot

Twitter: @fepaschoal

Contatos: (27) 98134-6831

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Benihana: A banda que tornou a cidade menos insuportável

(Fotos: Benihana/arquivo)

Por Augusto Azevedo

Bons projetos já compuseram a cena musical de Fortaleza. Apesar de carregar o estigma de terra do forró, notáveis bandas de rock já passaram pela capital do Ceará e não me refiro às boys band ou mesmo às iniciativas esgotadas na música pop geradas a partir do investimento massivo da indústria cultural; falo de projetos inovadores, contundentes e diferenciados, que não deixavam nada a desejar em paralelo a bandas com forte divulgação midiática, consagradas pela turma do rock.

O underground local sempre foi fortalecido por consideráveis iniciativas, tendo a diversidade, a ousadia e a inquietude estética como características. Até mesmo como uma forma de compensação do que não se tinha acesso – levando em conta que no Brasil até os anos 80 sempre foi muito difícil acompanhar o que o mundo produzia devido à existência de bloqueios culturais imbuídos de controlar o que se consumia no país, entendendo que a partir dos anos 80 houve certa melhora, mas os acessos, por exemplo, a discos de rock, só passaram por uma significativa transformação com o advento da internet e do MP3 – muitos projetos foram iniciados, tendo a pluralidade como ponto de partida.

Célebres figuras como Belchior, Fagner, Rodger Rogério, Teti e Ednardo, o “Pessoal do Ceará”, por exemplo, apesar da forte influência da cultura popular regional em suas canções, claramente apresentam referências do blues, do ritman blues e é claro, do rock, em parte de suas obras. Essa pluralidade acompanhou estes e tantos outros artistas entre o final da década de 60 e a década de 70, assim como também atingiu variados projetos musicais da cidade de Fortaleza que brotavam a partir dos anos 80, como bandas influenciadas pelo punk rock e grupos dedicados ao hard rock, rock progressivo e heavy metal. Bandas que apareceram nos anos 90 e de certo modo valorizavam a pluralidade, além de passar por dificuldades que já eram comuns desde os anos 60, como a culpa estrangeirista e o estigma de que rock é coisa de gente doida.

Mesmo com as vastas tentativas de expurgar a música independente daqui, inúmeras bandas apareceram nos anos 90 fora de qualquer tipo de padronização e apelo comercial. Certo, muita coisa ruim surgiu nesse período, mas ninguém vai perder tempo falando do que não tem importância. Das bandas nascidas nesses anos, a Benihana, formada em 1997, se destaca e até hoje repercute para além das fronteiras do estado do Ceará. Com uma formação bem atípica para a cena local, com o trio rock básico (baixo, bateria e guitarra) e dois vocais, a banda fez muito barulho na cidade, apresentando um som com uma pegada forte, com muita criatividade, somado a letras questionadoras, que exploravam temáticas relevantes à vida nas grandes cidades. Enfim, a Benihana conseguiu expor um trabalho musical bem diferenciado do que se fazia por aqui.

beni2Quando escutei pela primeira vez logo percebi algumas boas influências, como Planet Hemp, O Rappa e coisa e tal, mas o que pesou mesmo em meus ouvidos foi a proximidade da banda com um som que revolucionava o mundo – pelo menos o mundo ocidental – naqueles dias: Rage Against The Machine, uma das maiores bandas de todos os tempos, que lançou o seu primeiro disco, Rage Against The Machine,  em 1992, mas que só foi mesmo chegar ao Brasil por volta de 1996, ano de lançamento de seu segundo álbum, Evil Empire. Com um instrumental que dispensa comentários – sim, parto do pressuposto que a maioria das pessoas que estão lendo este texto conhecem, mesmo que minimamente, o som da banda – aliado a um vocal com base no rap, deferindo críticas ao imperialismo estadunidense e à mundialização da economia, com todas as suas mazelas, a banda californiana, que difere completamente de tudo que era feito naquele estado, foi a pimenta estética pós-grunge – embora os sons não sejam em quase nada similares, ou próximos, virando trilha sonora de tudo que era anticapitalista espalhado pelo mundo. Mas a Benihana não se limitou ao estudo e à reprodução do som rageagainstiano; muito pelo contrário, a trajetória da banda é marcada pela proximidade de ritmos que até então não eram tão fundidos como poderiam ser.

Numa certa tarde recebi um link referente a um arquivo em áudio postado no Youtube. Se tratava de um álbum, ainda com a ausência de alguns procedimentos fonográficos, como a mixagem de algumas faixas, mas que apresentava uma considerável reunião de músicas que marcaram a trajetória da Benihana na cidade, na vida musical de muita gente.

Quem me forneceu o link do álbum – que devido ao trabalho da capa pode ser conhecido como Contém 12 Faixas – foi o José Felix, irmão das antigas, guitarrista da Benihana e presente na banda desde os primeiros lampejos de sua formação. Conversamos sobre o disco por horas, ele mesmo nos últimos anos tinha me disponibilizado várias gravações, inclusive uma espécie da compilação com algumas faixas prontas, finalizadas, com direito a todos os recursos que se tinham em mãos, mas aquele arquivo, Contém 12 Faixas, me soou diferente de tudo que já tinha ouvido da banda; se tratava de um trabalho aprimorado e que refletia alguns lances encontrados nas raízes do grupo. Pessoalmente, não senti a ausência de nenhum recurso técnico no disco; aumentei o volume e tratei de curti-lo… quase sem parar para fazer outra coisa. Sensacional, já curtia a Benihana, sempre achei um dos melhores projetos musicais de Frustraleza dos anos 90, e depois dessa experiência passei a admirar mais ainda.

Uma das peculiaridades que destacou a Benihana na cena underground local sem dúvidas foi justamente a disposição nas letras em retratar o cotidiano da capital do Ceará. Com letras do Camilo Ximenes e do Engels Fgp, a banda, que ao longo de sua história contou com a presença de músicos como Junior Animal, Roque Ney Mota e Daniel Pinto, este último presente deste a primeira formação, expressava as infinitas contradições locais, alimentadas pela desigualdade social, manipulação das instituições públicas e uma terrível mania de tratar tudo de modo artificialmente comum.

Na faixa Bala de Borracha é frisada a repressão que o Estado comete contra trabalhadores obrigados a se organizarem devido às péssimas condições de sobrevivência, tendo na polícia e demais instâncias do aparato repressivo o intermediário perfeito para fazer o mal. A crítica à polícia é estendida em Gang Fardada, ressaltando os aspectos mafiosos das instituições policiais, em especial da Polícia Militar do Ceará, que em tempos em que gravações de vídeos por meio de aparelhos portáteis era um devaneio de fãs de Star Treck, reprimia as pessoas, em especial a juventude, com uma absurda intensidade. Em Gastando Tempo é retratada a rotina política de uma cidade em que tudo chegava depois, a cidade que consegue ser a da luz e a das trevas ao mesmo tempo era apresentada pelas letras da Benihana com propriedade de conhecimento e muita criatividade, sem se limitar à reclamação panfletária.

beni3“Eles ficam te atentando, eles ficam te atentando, eles te dão uma cesta básica, eles ficam te atentando”.

O trecho acima é o refrão da faixa Tentação, que define a estrutura de organização partidária cearense, em que o voto de cabresto, prática mais que comum no estado desde as primeiras eleições políticas, estabelece a ordem das coisas por aqui, assim como no Brasil de um modo geral.

A Benihana é contemporânea de manifestações movidas contra qualquer tipo de celebração da invasão do território brasileiro por parte dos europeus. Em 500 Anos é realizado um apanhado de críticas a respeito de mazelas que condenam o país a uma paralisia, que afeta toda e qualquer possibilidade de construção de uma identidade nacional, favorecendo a mesma política que motivou os massacres dos povos nativos daqui e demais crimes que marcam a História do Brasil.

Na minha opinião Nordestinicamente Falando não é só uma das melhore faixas do álbum, mas um dos frutos mais preciosos da cena underground local. A música, da introdução ao final, é perfeita, com uma pegada que se tornou a cara da banda. Outras faixas bem marcantes, que até hoje têm suas letras na boca de uma galera compõem o disco, como a antológica Cidadão de Terceiro Mundo e a mais que conhecida Olhando Torto.

Enfim, Contém 12 faixas, na minha humilde opinião é um discão, que vale muito a pena escutar, um som como este deve ser valorizado não só porque faz parte da memória de muita gente, e sim por ser especialmente precioso.

Clique no link a seguir para fazer o download do álbum Contém 12 Faixas - Benihana.

Augusto Azevedo é empreendedor da área de Organizações Sociais, atualmente se encontra envolvido em estudos sobre aproveitamento de recursos hídricos com Peter Brabeck-Letmathe

 

 

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Música para lutar!

(Foto: Carla DC)

Surgida no ano de 2008 em Belo Horizonte (MG), a banda mineira de hardcore Bertha Lutz é uma pancada certeira contra o machismo que impera na sociedade brasileira. A título de curiosidade, Bertha Lutz foi uma das personagens mais significativas do feminismo brasileiro no século XX: lutou pelo direito feminino ao trabalho, contra o trabalho infantil, pelo direito à licença maternidade e pela equiparação de salários entre os gêneros; tudo isso nas primeiras décadas do século passado. Em resumo, Bertha criou as bases do feminismo no Brasil.

A banda feminista que leva seu nome é composta só por mulheres e reflete no seu som toda a carga de luta contra a opressão machista. Com letras sobre feminismo e sua prática e também sobre sentimentos do dia a dia, as integrantes estão sempre incentivando e chamando as garotas para a luta cotidiana.

Inspiradas por bandas como Dominatrix, Bikini Kill, Bulimia, Team Dresch e pelo Riot Grrrl - movimento que abrange fanzines, festivais e bandas de hardcore, punk rock e feminismo, e tem por missão informar as mulheres de seus direitos e incentivá-las a reivindicá-los -, a ideia da banda desde seu início era unir hardcore, feminismo e ativismo em seus shows.

berthalutzParece que deu certo! Em 7 anos de atividades, a Bertha Lutz já participou de diversos eventos com temática feminista como Riot Grrrl’s Not Dead, Lady Fest BH, RVIVR Brazilian TOUR 2015, todos em Belo Horizonte (MG), Vulva La Vida, em Salvador (BA), Girls Rock Camp, em Sorocaba (SP), lançamento do EP Contra Ataque da banda Anti-Corpos, além de outros. À parte o som autoral, as integrantes participam do Coletivo Feminista Cultural NADAfrágil, que milita pelo feminismo realizando diversas atividades na capital mineira.

Hoje a banda conta com a formação de Bah (vocal), Gabi (guitarra), Debris (guitarra), Rafa (baixo) e Carol (bateria). A sonoridade é punk/hardcore característico da galera que curte uma roda punk mas também quer lutar por seus direitos.

E aí, bora conferir o som dessas meninas de atitude?

Contatos: berthalutz@hotmail.com

Facebook: Bertha Lutz
myspace.com/bandaberthalutz

Alguns sons da banda:
Céu Cinzahttps://www.youtube.com/watch?v=rpzYOcmISHs
Não passarãohttps://www.youtube.com/watch?v=D8i4ALhi9Ig
Why – Rock´n Heelshttps://www.youtube.com/watch?v=T_lZjuq0qzg

 

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Da Zona da Mata pernambucana para o mundo

(Fotos: divulgação)

O nome Ticuqueiros é uma referência a esse trabalhador rural, que limpa a área de plantação da cana-de-açúcar durante a entressafra, personagem fundamental na cultura musical da região da Mata Norte, como da própria identidade cultural de Pernambuco. A banda, que surgiu em 2001, na cidade de Nazaré da Mata, interior de Pernambuco, é resultado do encontro desses jovens nas tradicionais Escolas de Música daquela cidade.

Formada por Marquinhos Ralph (voz, sax e pífano); João Paulo Rosa (percussão e vocal); André Arcoverde (guitarra e vocal); Fábio Pipa Miranda (percussão); e Álison Freitas (contrabaixo) e Felipe Silva (trombone), a banda mescla diversas referências musicais, novos elementos sonoros às influências vindas da música tradicional da Zona da Mata pernambucana, fazendo um som vibrante e singular, com letras que traduzem tanto particularidades do homem do campo e sua relação com a cidade, quanto as tradições e costumes desse povo. Apresentando ainda a dinamicidade da música local e sua similaridade com outras culturas, traz nas letras misturas de ficção e realidade, mas sempre fazendo menção a algum detalhe do mundo em si. Do político, do social, do ecológico, das relações humanas. Curiosidades que estão à sua volta.

ticuqueiros1O grupo lançou seu primeiro disco Ticuqueiros – Dos canaviais da Zona da Mata, em 2007. São 15 faixas que remetem à riqueza cultural e musical da região da Zona da Mata de Pernambuco. Com participações de artistas, amigos(as) e parceiros(as), entre eles(as): o músico Siba Veloso, a cantora Isaar de França, a musicista Renata Amaral, os músicos e compositores Tiné e Nilton Júnior. Este último também assina a direção musical; além dos Mestres da Cultura Popular, Cosmo Antônio e Mestre João Paulo.

O grupo já fez várias apresentações nos principais eventos e festivais de música de Pernambuco, além de apresentações nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e São Paulo. Em 2008 partiram para uma turnê na Europa, com shows nas cidades Lisboa e Porto, em Portugal e Barcelona, na Espanha. Ano passado, 2014, a banda foi indicada a melhor grupo regional no 25º Prêmio da Música Popular Brasileira.

 

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Agora chega o novo disco da banda. Foto Do Mundo levou dois anos entre gravações e mixagens até chegar ao arranjo final. Vem com participações ilustres de Jr. Black, Alessandra Leão, Juliano Holanda, Roque Neto, Adelmo Arcoverde e Adiel Luna. Ainda traz André Mucuim no contrabaixo e Juliano Holanda no baixo e efeitos de guitarra. São 12 músicas de compositores diversos. O disco mais recente mostra uma banda amadurecida sem perder suas características originais, porém trazendo outras formas de arranjar as músicas, já que o tempo exerce seu papel no escutar, no entender, no andar e ouvir as músicas do mundo.

Bora conhecer o som dessa galera? Aqui ó: https://soundcloud.com/ticuqueiros-nazar

Para contatos, (81) 996062784 e 992869519. E-mail: jpandeiro@yahoo.com.br

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Siba: “A música, dança e a poesia podem nortear um modo de viver distinto desse aí (da grana como a coisa central)”

Pelo simples fato de existir, o maracatu, o candomblé, já é resistência” (Fotos: Dragão do Mar)

Um brincante do verso, Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, mais conhecido como Siba, acumula mais de vinte anos de carreira. Teve uma adolescência roqueira e começou sua vida artística em 1992, no grupo musical pernambucano Mestre Ambrósio, tocando rabeca, guitarra, cantando e compondo. Quando ainda estava no grupo participou, em 1997, da trilha sonora do premiado filme pernambucano Baile Perfumado. Filho do manguebit e de toda a atmosfera que pairava nas ruas do Recife nos anos 90, Siba reapropriou em seu trabalho elementos da cultura popular e teve uma forte influência do maracatu de baque solto. Depois de sair do Mestre Ambrósio criou o projeto “Siba e a Fuloresta”, em 2002, fruto da experiência com os mestres de maracatu de Nazaré da Mata. Lançou, em 2010, o disco Avante, produzido pelo guitarrista e compositor cearense Fernando Catatau.

A Berro o entrevistou na oportunidade do show de lançamento do seu recente disco De Baile Solto em Fortaleza, no último mês de julho. Siba aparece neste novo trabalho com um discurso mais político e atento às ameaças que a cultura popular vem sofrendo frente ao mundo do consumo. Na entrevista ele falou sobre sua experiência com os mestres de cultura popular, outros modos de vida e sobre sonhar.

Revista Berro: Siba, esse negócio da poesia na tua música é muito forte. Quando foi que começou essa relação com as palavras?

Siba: Essa coisa de como começou é muito difícil, porque você nunca lembra exatamente. Porque eu e minha família toda somos do agreste, do semiárido do Nordeste, que é uma região cultural que é uma coisa só, do Piauí, Ceará até o norte da Bahia. É uma região que tem uma poética própria e eu convivi desde pequeno, mas nada intensivo, em casa não tinha isso, não sou filho de cantador, nada disso. Tinha isso no ar e tal e meu pai gostava bastante, mas depois vai ficando uma coisa mais presente.

Onde você nasceu?

Nasci no Recife, mas minha família toda é do agreste, de Garanhuns, Caruaru, Lajedo. Tem uma experiência de poesia indireta, não tinha em casa, mas tinha indireta, no ambiente, de alguma forma.

Mas quando você começou a compor?

Com o Mestre Ambrósio, já envolvido com maracatu, cavalo marinho.

Quando você foi participar do Mestre Ambrósio, já conhecia o maracatu de baque solto?

Já, a primeira vivência foi por ser de Recife, a cidade tinha um ambiente, no Natal, no Carnaval, no São João. Mas acho que tem muito a ver pra mim com o momento de escolher, de arriscar, de fazer a escolha da opção de risco, ser artista e tal. Quando eu fiz essa opção, de dezenove pra vinte anos, eu entendi que precisava pensar sobre a opção que tava fazendo, tentar entender minha posição no tempo e no espaço, do lugar de onde eu vinha. Aí naturalmente percebi que tava num lugar que eu partilhava dessa referência. Cresci ali, era um moleque do rock, mas, ao mesmo tempo, antes disso tinha uma referência muito outra. Então eu vim buscar essa poesia e era uma coisa que em casa não se falava sobre isso, era uma coisa que, como eu falei, não era intensiva, mas, ao mesmo tempo, tinha uma coisa de imaginar o cantador como uma figura transcendental, idolatrada. Acho que vem muito daí indiretamente de família, indiretamente mesmo, mas depois eu busquei. O maracatu de baque solto é a grande referência pra mim porque remete a inversão de valores da música, tinha tudo que o rock tem de outro jeito.

O discurso do De Baile Solto é permeado por essa coisa da resistência. Mesmo com as movimentações da cidade, da gentrificação, tem a questão dos focos de resistência. O maracatu de baque solto seria isso? Você acha que a arte que eles fazem, essa cultura popular que você até usou o termo no show de tecnologias sociais seria um ato político?

Cara, sempre é, porque você imagina que esses modos de fazer, eles vem sempre do negro e do índio, em raríssimas exceções. Então o simples fato de existir já é uma posição de confronto, de questionamento. Por mais que toda a fabulação seja complacente, de diminuição, aquela coisa que eu falei, o folclore. O senso comum é tão pesado, mas o trabalho da mídia, dos discursos que falam que o lugar dessas coisas é muito inferior. Porque hoje é legal, é tranquilo, mas nos anos 30 a polícia chegava e mandava parar, quebrava, prendia, matava. E hoje volta a ter um movimento nesse sentido, eu acho. Acho que a gente volta a ter um movimento muito preocupante realmente de ataque à existência dessas coisas. Pelo simples fato de existir, o maracatu, o candomblé, isso e aquilo outro já é resistência. Agora a possibilidade de um discurso mais afirmativo, mais direto, questionador, aí o buraco é mais embaixo. Porque as pessoas nessas condições sabem o que enfrentam, a pouca expectativa, por isso que têm as suas estratégias pra sobreviver. Mas o simples fato de existir o maracatu de baque solto é…

Um ato político.

Com certeza.

Tem um professor aqui em Fortaleza, o Gilmar de Carvalho (jornalista, escritor, professor universitário de comunicação e pesquisador da cultura popular), que fala que a cultura popular não precisa ser resgatada, porque ela não está se afogando. Essa afirmação da cultura popular, ela existindo, já faz ecoar um discurso político, que não está presente na letra, mas sim na própria existência da arte?

É o que eu falei, eu faço o meu discurso como um indivíduo, como uma pessoa que tem relação com essa coisa que vem também dela, mas que tem a possibilidade de agir e, mais do que isso, de falar pra muita gente. Mas eu não represento o maracatu, tô falando por mim, pela minha relação com essa coisa toda e como uma questão de pensamento, como uma afirmação de dignidade pessoal. Não seria digno da minha parte vir de onde eu vim, ter tido essa experiência com o maracatu e ele ser tão central no meu trabalho e eu ficar calado frente ao que aconteceu recentemente e ao que acontece ainda. Seria indigno, vergonhoso. Então pra mim tem essa questão pessoal. Eu tenho que me colocar em relação a isso.

É uma motivação…

Não é uma motivação, é uma questão de dignidade. Não caberia a mim não falar, não me expor em relação a isso. Quem sente de fato não sou eu, claro que eu sinto também, mas eu não tô lá, eu moro em São Paulo. Tenho a minha banda, toco, ganho a minha grana, tenho a minha vida classe média e tudo mais, entendeu? Mas quem tá em Nazaré da Mata, Goiana, Condado tem somente o maracatu como modo de vida e de uma hora pra outra alguém lá no escritório diz que a polícia manda parar duas da manhã. Isso é um ataque central à dignidade de uma pessoa, lá. Cada um faz o que quer, eu como tive o privilégio de ter tido acesso a esse conhecimento e isso ter me formado como pessoa, não caberia a mim não me colocar. Mas eu não represento o maracatu, eu represento a mim mesmo.

Mas o que é que tu pode falar que aprendeu no tempo lá da Fuloresta que tu foi morar em Nazaré da Mata, ficar mais perto deles? Uma principal coisa que você tirou disso tudo, dessa vivência, se pudesse resumir?

Aprendi que é possível viver de outro jeito e ser de outro jeito. É até difícil resumir, mas esses espaços, eles representam possibilidades de diferenças e de não ser da forma que tá sendo, cada vez mais tudo igual e a grana ser a coisa central.

É um modo de vida possível…

É um modo de vida diferente. Se você acha que o mundo e as pessoas todas do mundo caminham pra uma uniformização, que todo mundo tem que ser e agir como um macho branco que tem grana e que manda no mundo, beleza. Mas se você acha que o mundo precisa ser plural e diferente, esses espaços servem pra isso. Pra você entender que é necessário um mundo diferente e que a música, dança e a poesia podem ser o centro da vida e podem nortear um modo de viver distinto desse aí. Porque pra mim eu sou um cara de classe média. Eu vim de uma família que vem do interior, da zona rural, meu avô foi agricultor, meus tios todos também, mas eu sou um cara de classe média que estudou em colégio de classe média, que teve formação universitária. Eu com dezoito anos já sabia que isso tudo era uma merda do caralho e que não tinha muito pra onde ir com isso, era uma vida meio estéril. O maracatu me deu esse outro lado, um outro jeito de viver. Então é a possibilidade de uma outra referência.siba

Essa questão da sonoridade do disco, você disse em algumas entrevistas que teve influência, referência da música congolesa. Você acha que tem alguma ligação da música congolesa com o maracatu de baque solto, ou foram coisas que passaram por ti e você reprocessou de maneira diferente?

Cara essa coisa da referência, de origem é besteira. É claro que deve ter porque uma parte significativa dos escravos que vieram pro Brasil eram da região do congo, angola e a maioria dos escravos que vieram dessa região são os que vieram primeiro e que formaram o que a gente chama de cultura popular. E é fácil perceber uma relação entre a cultura popular com música do congo. Mas essa coisa da relação da origem, da raiz é besteira. É pessoal, sou eu, eu tive uma experiência de sentir essa música diferente pra mim, de me sentir representado nela e de alguma forma me aprofundar nessa escuta, de usar ela como elemento de estranhamento, de fertilização. Porque pra mim a questão tá muito em quando você procura um caminho diferente, você precisa de um elemento que fertilize porque não dá pra você pegar um estilo e seguir ele quando já não tem mais o que dar. Pra mim a música do congo serve muito como isso, pra mim, só pra mim, mas não tem a ver com um elemento de origem.

Durante a feitura do disco você estava escutando essa música?

Eu ouço música moderna africana há alguns anos já, agora a do Congo sempre me escapou por algum motivo. Mas ela vem sendo uma referência desde o processo do Avante, desde 2010, já é uma história, eu já sou meio “congofreak”. No Brasil eu não conheço ninguém que goste dessa música do congo como eu gosto, normalmente essa referência passa batida aqui. Na Bélgica e na França, como tem essa relação de colônia é mais próxima, né.

Talvez Caçapa (músico pernambucano Rodrigo Caçapa)…

Sim, tem mais gente, Caçapa, Kiko.

E o Kiko (Kiko Dinucci, integrante da banda paulista Metá Metá) tem uma participação na faixa O Inimigo Dorme, como foi o convite?

Kiko é brother, amigo, parceiro e eu adoro o violão dele. Não tem muito o que dizer, tava perto ali, tinha a ver e foi, aconteceu. Todas as participações do disco têm uma relação pessoal.

O disco foi tu que produziu.

Por isso que saiu daquele jeito! Hahahahahaha!

Ele foi mixado pelo Kalil (Yuri Kalil, da banda cearense Cidadão Instigado) e o Catatau (Fernando Catatau, produtor musical e integrante da banda cearense Cidadão Instigado) produziu o Avante. Você vê alguma ligação estética com o Ceará, essas pessoas daqui?

O Kalil vem com a relação com o Cidadão, não vai muito além disso. É um cara que eu gosto do som que ele tira, no momento de mixar tinha uma condição de tempo e uma possibilidade de fazer, não vai muito mais longe que isso. Sim, eu adoro como ele lida com o som e a mixagem é uma coisa que define muito o trabalho, o disco. É preciso ter uma comunicação e naquele momento de decidir a mix Kalil tava mais próximo, a comunicação, só isso.

Por que você regravou Gavião, que foi gravada pela primeira vez no terceiro disco do Mestre Ambrósio? Qual foi sua motivação principal?

A música importa pouco nesse caso aí. Em algum momento do processo do desenvolvimento do Baile Solto eu fui tentando resgatar alguns textos que faziam sentido pra mim. Aí o texto do Gavião se ele conversa com o resto do disco, ele tem uma proposta que acho bem interessante, representa de alguma forma essa possibilidade do assombro com isso que a gente chama de natureza. A gente vive uma relação bem careta, bem definida, a natureza é o lá fora e é ao mesmo tempo um produto, matéria-prima. É a possibilidade de você se assombrar com a existência de uma outra criatura e é um texto velho meu que eu gravei no Mestre Ambrósio, mas é de muito antes. De repente eu fui percebendo que o texto conversava com meu momento. A possibilidade do assombro perante uma outra forma de vida que hoje eu acho isso bem importante. A gente precisa redescobrir esse assombro pra reconstruir o respeito que tá acabando com várias formas de vida, basicamente isso.

Em O Inimigo Dorme e Três Carmelitas, o tema do sonho aparece bastante nessas duas faixas. Como é que tu acha que é possível fazer isso? Você acha que faz isso no teu trabalho, uma possibilidade de se sonhar fazendo a tua música?

Só o fato de fazer o que eu faço com os meus parceiros já é uma coisa bem surreal. Uma coisa que não tem formatação direito como profissão até hoje, num mundo cada vez mais formatado como uma empresa, como carreira. A própria escolha já é meio bizarra. Não sei, tudo isso tem a ver com não aceitar viver num mundo onde a grana é o valor central. Três Carmelitas tem mais a ver com a coisa onírica mesmo, de sonho, de afirmação de uma relação familiar e feminina. O Inimigo Dorme já é outra coisa, mas tem uma questão de aceitar que seja possível imaginar caminhos diferentes, não ser isso somente, ser outra coisa, mesmo que dê errado, foda-se, é isso.

A poesia, ela ainda cabe né?

Tem que caber né, alguma poesia…

Por mais que o momento seja pessimista…

O momento é pessimista, mas sempre é. Então qual é o lugar, qual é o elemento que deixa pelo menos a força de reagir? Porque pessimista é, mas tem que ter força pra tentar alguma coisa. Fazer o quê? Abaixar a cabeça? Assistir o Sílvio Santos, ainda?

samuel_brandão

Em um tubo de raios catódicos

(Foto: Reprodução/Facebook)

Em um tubo de raios catódicos passam elétrons travestidos de notas musicais em velocidade máxima e multicolorida. Um caleidoscópio é projetado numa parede fluida, donde se ouve algo que remete de Pink Floyd a Genival Santos. Uma sonoridade maldita, de rua, propositalmente nasce agarrada à placenta. O feto antecipou as unhas e foi parido atrepado ao que lhe dá alimento, sem medo de suas referências, a El Mah Sommah nos apetece. Música de quem já andou em alguma rua de Fortaleza madrugada adentro e não se assustou ao primeiro grito de polícia nem de ladrão.

Samuel Brandão é daqueles músicos inquietos, que procura a sonoridade das coisas inspirado por uma liberdade criativa que só os artistas que trilham o caminho mais difícil são capazes de desenvolver. Se engana quem pensa que os pés de Samuel estão cansados desse caminho espinhoso; pelo contrário, percorrer essa trilha dentro da cena fortalezense fez o músico aprender a dançar nesse campo cheio de arapucas e, da Manilha Mundial, já se escutava os ecos de suas guitarras e de suas composições cheias de humor e um certo sarcasmo perante a tão pacata cena cearense, inquietude sempre presente na obra do autor.

No lançamento dessa quarta edição da Revista Berro, a rua é a protagonista, com todos esses coadjuvantes que ajudarão sempre a construir suas arestas. Amigos como Daniel Medina colocam mais ingredientes no caldeirão do grupo, pra lembrar de não deixar a cidade se render ao capital, pra dizer que encrudescido é o estado das coisas. Mas, para isso, a arte é porrete mais potente que qualquer outra arma usada por polícia contra manifestante.

Para saber mais sobre a banda, aqui: El Mah Sommah e aqui: https://myspace.com/elelmahsommah.

 

capa_4a_ediçãoO QUE: Lançamento da 4ª edição da Revista Berro: Cidade para Quem?

QUANTO: GRATUITO (a revista também).

QUANDO: 02.07.2015 – quinta às 19:00 horas.

ONDE:  Mambembe, Comida e outras Artes (Rua dos Tabajaras, 368)