cine ferro velho

Cine Clube do Ferro Velho será lançado nesta quinta-feira

(Foto: Divulgação)

Co-inspirado e Co-criado em um ambiente inusitado, um ferro velho, transformado em bar, será lançado nesta quinta-feira, 24, às 20 horas, o Cine Clube do Ferro Velho, no Benfica.

Para o seu idealizador, André Carneiro, o Cineclube do Ferro Velho nasce de uma vontade de no bairro acadêmico do Benfica existir um cineclube libertário que possa realizar exibições de caráter experimental e assim fomentar o audiovisual cearense, seus realizadores e realizadoras, entusiastas, cinéfilos, exibições e rodas de conversa.

Para o lançamento, alguns curtas de artistas independentes e coletivos que trabalham com audiovisual serão exibidos e em seguida haverá debate com os realizadores. Vai ser massa galera! Berro indica!

Quando: 24 de julho de 2014

Onde: Bar do Ferro Velho (Rua Confúcio Pamplona, 352, Benfica)

Horário: 20 horas

o homem com uma câmera

O protagonista não é quem, é onde

Gabi Trindade

A cidade é um tema bem recorrente no cinema por causa do vínculo intrínseco que o homem tem com o meio e por esse meio, desde a consolidação do cinema na transição do século XIX pro século XX, ser majoritariamente o espaço urbano. O cinema nasceu retratando a cidade, ainda que de uma forma bem minimalista e sutil com A chegada de um trem a Ciotat dos pioneiros Lumiére; industrializou-se com a criação de estúdios que reproduziam cidades até que as cidades abarcaram os estúdios como parte delas, que é o caso da fantástica Cinecittà italiana e a afamada Hollywood.

Uma expressão artística que surgiu no auge do desenvolvimento moderno não tem como fugir de retratar o berço inerente da modernidade, que é a metrópole. Sem contar a questão do #paraque e #paraquem: a sétima arte se desenvolveu graças a recursos industriais de reprodução, logo, era direcionada para as massas. E onde é que estavam as massas? Na cidade.

Uma reflexão bem propícia para uma expressão artística surgida no contexto industrial, tecnicista, funcionalista, capitalista, blablablista é: pra que serve essa porra? Qual o papel das produções cinematográficas que enfocam cidades e culturas específicas em um mundo globalizado? De que maneira o cinema tem contribuído para a manutenção, transformação e subversão de estereótipos e clichês sobre estas cidades e seus habitantes? Confrontando, batendo de frente, sambando na cara dos estigmas. Em terra de informação hegemônica quem tem autenticidade é rei. Se a maioria dos conceitos e ideias propagadas são vetorizados para favorecer as instituições e aquela minoria que está na ponta do iceberg social, avalie o que eles fazem para influenciar nas nossas conclusões a respeito da maior representação institucional que é a cidade. O cinema – e a arte em geral – é o que se tem pra dar voz, ainda que às vezes sem intuito político panfletário, às percepções genuínas a respeito do espaço urbano.

O mais massa da relação cinema-cidade é que o cinema não é e nem tem a pretensão de ser um registro do real (nem mesmo o documentário), é na verdade uma interpretação, tipo uma representação subjetiva do olhar do realizador diante da cidade que está sendo retratada. Uma cidade não é só uma cidade, é milhões de cidades, é a quantidade de olhares que já pousaram nela em cada variação temporal. Existe uma Roma pro Fellini, uma Roma pro Antonioni e uma Roma pro Pasolini. Existe uma Paris pro Godard, uma pro Truffaut e outra pro Bresson. Existe uma Fortaleza pro Rosemberg Cariry, uma pro meio-cearese-meio-francês Karim e outra pro Pedrinho Diógenes.

O meu fascínio pelo tema parte de alguém que teve as quase-duas-décadas-e-meia de vida fragmentada em três capitais brasileiras bem distintas, portanto não tem raízes nem sentimentos territorialistas e aprendeu a sentir, distinguir e estimar a cidade através do olhar. Compilar as múltiplas percepções sobre algo que supostamente é concreto, ferro, surdo e cego e provar que o espaço urbano é bem mais delicado, peculiar e orgânico do que a planta desenhada na Prefeitura é uma missão que o cinema recebeu e tá se garantindo em cumprir.

Sinfonias Urbanas

Berlim, a Sinfonia da Metrópole” e “O Homem com uma Câmera” são dois classicões da década de 20 do século passado. Nessa época tava super em voga os temas urbanos e as brincadeiras revolucionárias com as montagens dos filmes atribuindo uma estética ritmada às produções.

o homem com uma câmera
(Foto: O homem com uma câmera/divulgação)

Os soviéticos como Eisenstein e Kuleshov começaram a propagar a brincadeira e a coisa pegou. Os respectivos diretores, Walter Ruttmann e Dziga Vertov deram o gás na brincadeira de montar. As imagens autoexplicativas que dispensam os letreiros-narradores provocando a máxima experiência audiovisual, a superexploração da montagem para criar uma ideia constante de movimento no filme e o ritmo repetitivo, linear e uniforme desse movimento alude à onda industrial que absorvia todo ser urbano da época – e isso está presente em ambos os filmes. A discrepância mais nítida que existe entre os dois é na linearidade da narrativa em relação ao tempo e espaço. Enquanto que o Ruttman da sinfonia berlinense se incumbiu de registrar documentalmente uma Berlim que amanhece e segue o fluxo natural e cronológico da narrativa até o anoitecer da cidade, o Vertov chegou quebrando tudo: tiro, porrada e bomba. Os paradigmas cinematográficos conhecidos até então foram pro espaço.

Vertov afirmou o cinema como linguagem singular, desvinculada dos paradigmas romanceados do teatro e da literatura. Tacou Efeito Kuleshov neles, que é uma técnica de montagem que justapõe imagens para criar um significado, quebrando assim a linearidade da narrativa onde não existem tempos e espaços conseguintes nem historinhas a serem contadas, só sensações e significados a serem jorrados através da montagem magistral e experimental que resultou esse filme. A busca pela sensação da cidade soviética ao invés do registro foi tão autêntica, que não existe uma cidade sendo retratada, mas sim uma amálgama de várias cidades que foram filmadas e formaram na montagem tipo uma entidade simbólica da cidade soviética moderna. Foi tipo um “não estou aqui pra mostrar o que é a cidade, estou aqui pra fazer você sentir a cidade”. Pancada!

Fartozalê

Juro que não tô sendo paga pela Alumbramento pra falar sobre esses dois filmes realizados por membros da produtora, mas é que, coincidentemente (ou não, né), os dois são muito massa no mesmo patamar de qualidade e contendo diferenças nas óticas, estéticas e direcionamentos documentais sobre a mesma cidade. Sábado à Noite, do Ivo Lopes, e Retrato de uma Paisagem, do Pedro Diógenes, são filmes contemporâneos e conterrâneos que retratam as ruas alencarinas com peculiaridade e personalidade merecedoras de atenção.
Como era de se esperar de um filme realizado por um dos diretores de fotografia mais pancadas do país, Sábado à Noite é um filme de imagens. Um mosaico que se propõe através de fragmentos contemplativos a revelar Fortaleza em um sábado à noite, um sábado atípico, um sábado que sai da rodoviária e não sabe pra onde vai e nem qual espécie de sábado será.

Em planos longos, fixos e em sua maioria abertos, a câmera se coloca como observadora sem interação direta com o ocorrido, em condição plena e restrita de contempladora – algumas vezes chegando a sugerir que o que ocorre, ocorre para ser contemplado. Mas ao contrário do que aparenta pela descrição, o filme não tem uma estética asséptica e entediante. É cheio de pertinentes ruídos tantos sonoros como visuais (como nas marcantes luzes estouradas que acompanham o filme inteiro) e intercalado por planos feitos numa câmera bastante inquieta que se move abruptamente e por vezes assumindo a cadência do movimento do carro ou do voo dos pombos.

sábadoànoite
(Foto: Sábado à Noite/divulgação)

Uma sequência sensacional do filme é onde o Ivo faz uma parada parecida com a do Efeito Kuleshov de sugerir uma impressão através dos recursos da montagem, mas com o áudio! Primeiro rola um plano longuíssimo do Danilo Carvalho fazendo a captação de som na passarela da Washington Soares tipicamente repleta de barulho de carros, depois tudo escurece e o som mantém. Enquanto a tela tá escura, naturalmente somos induzidos a aludir o som que rola ao som da avenida barulhenta que há pouco estava sendo registrada quando repentinamente a tela abre e BUMBA! O plano que aparece é de um marzão com o mesmo áudio que rolava enquanto a tela tava escura e aparentemente o mesmo da Washington Soares. A similaridade entre o som do mar e da avenida é incrível. A ruptura, a transição de um áudio para o outro é imperceptível, pondo em xeque a nossa propriedade a respeito da paisagem sonora da nossa cidade.

Sábado à Noite talvez seja difícil de digerir por ter outra proposta de filme documental urbano que difere das mais acessíveis visualmente, sonoramente e verbalmente. Existe uma captação fragmentária de texturas muito latente ao invés de um contexto naturalista de imagens coerentemente correlacionadas e didáticas. A apresentação verbal das situações é nula. É um filme essencialmente de atmosferas urbanas. Parafraseando Manoel de Barros: as coisas não são vistas por uma câmera razoável.

Retrato de uma Paisagem se contrapõe ao Sábado à Noite pela câmera que se move incessantemente em sincronia com o discurso verbal que é predominante. Outra característica divergente é a utilização do dispositivo ficcional que interfere no decorrer rotineiro do espaço, que é o personagem que eu carinhosamente nominei como alienígena. O filme se propõe a analisar o espaço urbano em duas partes narrativamente conseguintes: a primeira é a do distanciamento e a segunda é a da imersão. Começa com uma câmera área passando pelo rio Cocó, espaço ainda “virgem” e destoante das características da metrópole até que numa transição gradativa o plano selvagem dá parto ao filme urbano. O teórico alienígena que está pousando em Fortaleza e que não adentrou ainda no universo do objeto a ser estudado vai proferindo suas constatações com um discurso cheio das pompas acadêmicas* quanto ao espaço urbano.

O discurso prossegue ilustrado com imagens condizentes acompanhando a câmera que desce registrando o itinerário do pouso do alienígena que finalmente aterrissa no caótico centro da cidade que estava sendo introduzido no campo teórico e que agora será vivenciado no campo pragmático. A cena em que o “alienígena” finalmente aparece em terra firme é muito foda e anunciativa de quem é e pra quê veio o personagem: espera o sinal abrir, o sinal abre e ele, ao invés de atravessar na faixa de pedestre, sequer atravessa e afirma seu comportamento oblíquo no espaço urbano indo em direção aos carros, desviando deles. O filme tá aí pra isso: questionar o decoro urbano.

retrato de uma paisagem
(Foto: Retrato de uma Paisagem/frame)

O tema conduz o filme verbalmente enquanto o alienígena entrevista os trabalhadores do centro sobre questões pessoais à metafísica e imageticamente quando o alienígena intervém na cidade de uma forma estranha, anti-convencional, não segue o fluxo, não se mistura nem se ofusca nas massas e despreocupadamente lambe a parede de um banco em greve, atravessa pra direção errada, profere para uma criança que “a intervenção maciça dos interessados mudaria a situação”, ou se mete no meio de uma marchinha na Praça do Ferreira. A análise do ser urbano em O Retrato de uma Paisagem cumpre todas as etapas dialéticas desde a tese do Lefebvre, passando pela antítese do alienígena que analisa em posição neutra e ingênua as concepções e contradições das pessoas entrevistadas e provoca uma intervenção pragmática na organização convencional do objeto atiçando o estranhamento do ser comum, até que finalmente a síntese retorna a Lefebvre concluindo que “o ser humano só habita como poeta” e finda com o Belchior que conclama o homem comum que sangra e conhece o seu lugar enquanto planos fotográficos de cada singular homem-comum-poeta vão se sucedendo.

Passei alguns meses na noia desse filme refletindo sobre as inúmeras possibilidades de utilização que o espaço fornece e como a poesia do olhar, do usar e do ocupar esses espaços é castrada diante de uma lógica urbana de transeuntes vetorizados e de uma filosofia de vida pasteurizada e dogmática. Essa pasteurização do comportamento do ser urbano é o que limita a poesia. Retomo Manoel de Barros: é preciso transver o mundo.

*O discurso é tirado do livro A Revolução Urbana, do Henri Lefebvre. Livro muito massa e super recomendo também.

Sábado à Noite from Alumbramento Filmes on Vimeo.

RETRATO DE UMA PAISAGEM from Alumbramento Filmes on Vimeo.

 

Gabi Trindade é meio pernambucana, meio cearense, faz meio jornalismo e meio audiovisual

praia_do_futuro

Sobre o futuro desse velho mundo

João Ernesto

(Foto: Praia do Futuro/divulgação)

Deixar claro uma coisa: Karïm Ainouz é sim um cara capaz de, como poucos, ainda “deixar sua mão” muito claramente em suas obras. Desses últimos que podemos falar que ainda carrega um filme de sua autoria, além de saber terminar suas obras como ninguém (os finais de seus filmes são sublimes!).

O acaso de Praia do Futuro não ter me agradado totalmente não tem nada a ver com o fato de haver cenas de sexo entre dois homens, muito pelo contrário. A história de amor supera muito a questão de gênero, trabalha a essência humana, nos remete a essas sensações estranhas de não pertencimento, as nossas irracionalidades que deixamos de lado por conta da vida lógica. Não é uma mera viagem do elefante, nem mesmo um mero encantamento pela novidade, se aproxima mais desse percurso em encontrar a nossa casa nas pessoas, nas situações, nas inquietações…

Nunca estaremos acomodados a coisas factuais, seremos, sim, acometidos pelo escuro poético da nossa incapacidade em abarcar tudo e essa incapacidade remete muito a estranheza que nos traz o cotidiano. O fato do filme não ter me agradado totalmente é, sem dúvida, muito menor do que essa obra. A arte pode sim apontar tabus e o Praia toca esse ponto com muita sensibilidade, ao contrário do espetáculo, Karïm transforma um tabu (pelo menos no Brasil) em poesia e traz à tona toda essa questão: muita gente no Brasil acha que estar presente na Parada Gay é ser contra a homofobia. Muita gente acha que ter um amigo “viado” tira a culpa do seu preconceito velado e raivoso. O filme pra muita gente soa como ofensa, mas tudo que ele busca fazer é deixar a gente perplexo diante das nossas próprias questões.

Longe desse clichê que toda obra artística é política, essa afirmação é muito rasa pra abarcar essa estranheza humana de transformar inquietação em arte. O fato do filme não ter me agradado totalmente tem mais a ver com esse desconforto que a gente bicho tem de não se agradar com nada, ou com tudo. Sensação semelhante aquela que a gente pode ter numa cena em que dois homens se despem num fim de tarde e se arriscam no horizonte da pedra para o oceano, um arrepio frio como os atores devem ter sentido. Alcançar a espontaneidade no cinema em uma cena de dança entre dois ébrios é sim de se marejar os olhos, de se inebriar com esse nosso desprendimento com nossos afetos. Aquilo é a gente.

De uma forma ou de outra estamos sempre retornando, nem que seja ao desconhecido, ou a reação voraz à idade média… estamos sempre retornando às nossas questões e o Praia do Futuro aponta rumo ao desprendimento às questões tacanhas desse nosso velho mundo.

João Ernesto é daqueles que deixam a poesia inflamar

Edifício-Master-1-

Edifício Master: um documentário sobre você

Gabi Trindade

Antes de apresentar o filme (Edifício Master/2002), é imprescindível apresentar o diretor. Eduardo Coutinho é o guru do documentário brasileiro. Guru mesmo, com toda a carga mística da palavra. Transcende o patamar de mestre cinematográfico para se especializar na leitura de almas. Alcança o âmago dos entrevistados como se residisse nele. Representa um contexto macro da realidade em depoimentos fragmentados dela, como se a sua própria percepção fosse um contínuo diálogo entre grande-angulares que leem o mundo e teleobjetivas que o escrevem.

Sua maestria reside numa hipersensibilidade para identificar potencial no objeto de pesquisa, na empatia que causa no objeto permitindo que a fala seja livre e não manipulada e em uma busca por sincronizar o impacto do relato que permanece na montagem com a veracidade do relato feito diante da câmera, concedendo o tempo necessário para que esse objetivo seja alcançado.

Diminuindo a pagação de pau (merecida!) e assumindo um caráter mais informativo: quem é o Coutinho além de um cara muito foda? Além de ter trabalhado nos tempos áureos do Globo Repórter, em meados dos anos 70, abrindo espaço na televisão brasileira para médias documentários com influência nítida do cinema-verdade francês de Jean Rouch (socioetnografia, retrato fidedigno da realidade antropológica como ela é, etc.), Coutinho foi o cara que fez o marcante (!) “Cabra Marcado Pra Morrer”. Inicialmente uma ficção que retratava a vida de João Pedro Teixeira, líder paraibano de ligas camponesas assassinado em uma manifestação, e que após as filmagens serem interrompidas em 1964 pelos militares, que estavam noiando que era uma produção comunista cubana, o projeto foi retomado 17 anos depois no formato de documentário com depoimentos dos camponeses que participaram do protesto.

Transitando entre a Boca do Lixo, a favela, o sertão e retratando todos os universos que constitui esse país continental, Coutinho chega à classe média. Mais especificamente, a classe média-baixa carioca de Copacabana. E aumentando mais ainda o zoom do maps, Edifício Master: “a uma esquina da praia, 276 apartamentos conjugados, uns 500 moradores, 12 andares, 23 apartamentos por andar”, como é anunciado nos primeiros minutos do documentário na inconfundível voz do mestre. De toda essa galera, Coutinho sintetiza a atmosfera do edifício (e da classe média; e do Brasil; e da humanidade) em 37 depoimentos recolhidos em um árduo e intenso trabalho de produção. Durante três semanas a equipe se alojou em um dos apartamentos se empenhando na pesquisa prévia e imergindo no universo dos moradores. Enfrentaram algumas dificuldades na saga em busca de depoimentos frutíferos, em que a hipersensibilidade de Coutinho exigia não só apenas relatos pontuais, mas que a expressividade (além da verbal) do entrevistado fosse significativa e empática.* Sem pauta, mas apenas com a premissa da questão: “por que você veio morar aqui?”, Coutinho consegue desvendar histórias de vida plurais, diversas, ímpares, mas que constituem fragmentos da mais genuína e ampla identificação com o outro, fugindo assim do tema da alteridade que é tão batido nos documentários brasileiros.

Quem tá ali somos nós, nossos pais, nossos avós, nossos vizinhos. O que se explora é a nossa projeção e não a nossa compaixão. Todos nós temos histórias que são tão particulares como universais. Os depoimentos registrados com uma câmera fixa, asséptica, fechada, sem filtros e recursos que poderiam desviar o foco são extraídos sutilmente por um Coutinho mais terapeuta do que cineasta. Passando pelo síndico moralista, o casal conflituoso que briga diante da câmera, o outro casal de velhinhos que se conheceu por anúncios no jornal, a adolescente que foi estudar na capital e ainda tá meio perdida, os meninos do projeto musical bizarro e pretensioso, as irmãs coroas interdependentes e caretonas, a jovem insegura e problemática, a menina que engravidou e foi expulsa de casa, a prostituta que topou brincar de assumir o personagem dela mesma e até o velhinho solitário que conclama com o escasso ar de seus pulmões: “I DID IT MY WAY!”.

E o que faz com que Edifício Master seja tão especial se esses temas tratados estão espalhados pelos quatro cantos? A pergunta é retórica e a resposta é óbvia: a sensibilidade de captação de Eduardo Coutinho. A exposição das escolhas de vida de cada um, em lugar do julgamento pré-concebido. A sutil abordagem política que passa longe do panfletário. A busca pela estética e não pela cosmética. A busca pela subjetividade e não pela verdade. A busca pela universalização das particularidades. E por fim, o encontro. O encontro que mostra nos planos finais que transitam de janela para janela que todos (nós) fazem(os) parte da mesma unidade fragmentada e solitária, sem saber.

*Pra quem ficar abismado e tiver interesse sobre o processo criativo e produtivo do Edifício Master pode conferir uma espécie de making-off filmado pela Beth Formaggini, produtora do documentário. Chama-se “Coutinho.doc – Apartamento 608”.

Gabi Trindade é meio pernambucana, meio cearense, faz meio jornalismo e meio audiovisual

Taqui o documentário na íntegra: