corpo

Corpo delito

Relato sobre o lançamento em Fortaleza (Arte: Yuri Leonardo)

Por Dani Guerra

A sessão de pré-estreia do filme Corpo Delito, do jornalista e cineasta Pedro Rocha, trouxe a risada entalada há dias. Fez lembrar a infância, quando a minha mãe nos levava esporadicamente ao São Luiz com uma parada na Barão do Rio Branco para garantir o amendoim dori e a tortuguita.

O salão de cinema ficou pequeno para a quantidade de interações produzidas pela a audiência, entre risadas, choro de criança e “iei”, faltou só o barulho do xilito e do canudo no refrigerante como antigamente, agora proibidos. As reações ganharam impulso por um elemento essencial para quem assiste, a identificação. Ali, povoando menos de um terço do Cineteatro São Luiz, estavam moradores da Favela dos Índios, local onde a história é contada.

O jeito bruto e o falar cearensês despertou as “gaitadas”, o estilo “vetim” das personagens, com o riso, quase nos fez esquecer do tema central do filme: o baculejo. Seria cômico se não fosse trágico. A favela que convive na tela está acostumada a ser abordada diariamente em outro tipo de produto audiovisual, os programas policialescos, criando e reforçando que tipo de corpo é delito.

Seja a constância do baculejo, seja a intransigência policial contada no diálogo, seja o olhar do segurança no shopping da Aldeota, eles estão à procura de uma confirmação para o aspecto de vagabundo. O corpo negro, de calção, camisa e boné é o limite da cidadania e do transitar na cidade de Fortaleza. Ivan e Neto são monitorados, com e sem tornozeleira.

As mulheres do filme vivem entre a espera e a perda, ativas, comunicam o que pensam, mas são impactadas pelo que discordam. Cemitério, cozinha e quarto são os cenários para elas em um roteiro que representa o desejo de um homem por liberdade. A TV, ou a presença dela, reflete o acesso à cultura no país em que passamos mais de seis horas por dia assimilando conteúdo televisivo. Qual outra forma representaria melhor a prisão domiciliar?

A expectativa que aflora com o passar dos meses no filme, finda no baculejo. A “justiça” morosa e lenta, entre os seus pontos e vírgulas, hora dos cochichos na sessão de pré-estreia, revela a superlotação dos presídios e a não-comunicação existente entre a “bondade” pública e o “criminoso”. Fecho essa história com o começo dela, Ivan diz para a funcionária de uma empresa de ressocialização: “É cadeia ou cemitério, não tem outro destino”.

13_ocupação iphanII

Iphan: A ocupação continua

Artistas se apresentam na ocupação do Iphan em Fortaleza (Foto: Raíssa Forte)

Por Raíssa Forte

“Resistir”, “Fora Temer”, “É proibido proibir” são algumas frases presentes nos cartazes colados no prédio do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que está sendo ocupado há mais de 20 dias por artistas da cena local de Fortaleza.

Com a câmera em punho, cheguei na ocupação no domingo, 5 de junho, no meio da tarde. Já na calçada, vi rostos conhecidos, abracei amigos, pedi permissão para entrar. Apesar de a ocupação receber todas as pessoas que se identificam com o movimento, o portão do Iphan é trancado por uma corrente e cadeado, mas sempre tem alguém para abri-lo quando aparece gente para somar. Trancar o portão foi só uma forma de promover um pouco de segurança para os(as) ocupantes, e ter controle de quem entra e sai do local.

Assim que adentro o espaço, encontro umas sete barracas montadas. Sigo mais adiante e vejo alguns(umas) ocupantes rindo ao som da música Mistério do Planeta dos Novos Baianos; outros(as) desenhando e pintando frases e pensamentos militantes nos cartazes. Pergunto se tem alguém com que eu poderia conversar para entender um pouco da ocupação, o motivo de ela ainda estar acontecendo.

Bem, eu sabia que a ocupação, articulada com outros órgãos ligados à cultura e espalhados por todo Brasil, foi motivada, a princípio, pela extinção do Ministério da Cultura (MinC). Entretanto, o atual presidente interino, Temer, voltou atrás nessa decisão, e, apesar de o MinC ter retornado, os(as) artistas continuam ocupando o Iphan. E eu queria entender o porquê.

Foi então que a Herê Aquino, diretora, pesquisadora, professora de teatro, fundadora do Grupo Expressões Humanas, aparece e se disponibiliza a conversar comigo e me explicar o motivo da ocupação ainda continuar. Abaixo segue um pouco da nossa conversa.

 

10_recife frio

Recife quente, Recife frio

(Foto: A cirandeira Lia de Itamaracá, em Recife frio/ divulgação)

Por Tomaz Amorim

“Socialite afirma que gente pobre está mais ‘chic’ passando frio”. Este comentário não vem de uma revista de moda ou fofoca, mas é uma manchete fictícia, escrita nos letreiros de um telejornal que compõe a trama do curta-metragem “Recife Frio” (2009), de Kleber Mendonça Filho. O curta inteiro é gravado como pseudo-documentário ou mockumentary, em tom ao mesmo tempo humorístico e sombrio, que trata sobre um estranho acontecimento meteorológico: a queda de um meteorito que causa o surgimento de nuvens permanentes sobre Recife, que baixam drasticamente a temperatura da cidade tropical. A partir deste pressuposto improvável, quase de ficção científica (a composição das imagens e o enredo prestam homenagem a Chris Marker e seus filmes La Jetée e Sans Soleil), Kleber Medonça faz uma ampla curva para pegar o espectador pelas costas: o falso documentário documenta com precisão questões sociais camufladas no cotidiano do Recife quente.

Sobre sua passagem do documentário para a ficção, o cineasta polonês Krzysztof Kieslowski teria afirmado que a segunda conseguiria captar o real de maneira ainda mais profunda que o primeiro. “Recife Frio” comprova esta tese. Toda uma parafernália de técnicas é utilizada para afastar o espectador do enredo, supostamente distante, mas trata-se, como dissemos, de uma distração: quando ele menos espera está diante do real até então despercebido. O pseudo-documentário se inicia ironicamente como uma reportagem especial para um jornal argentino. Sua narração, o estilo das entrevistas, as imagens turísticas utilizadas para mostrar o Recife antigo, quente e tropical, e a atual, fria, escura e chuvosa, tentam o tempo inteiro evidenciar o faz de conta. Aos poucos, elementos menos fantasiosos e distantes pontilham a narração. As imagens elogiosas das recifenses de biquíni e do estouro de uma água de coco são entremeadas pela referência ao cheiro de urina da cidade e do Capibaribe poluído, chamado de “caldo escuro”. Até aí, tudo bem, poderia ser apenas uma maldade dos documentaristas argentinos.

A medida que a narrativa prossegue, no entanto, os problemas ficcionais que surgem com a chegada do frio evidenciam problemas inequivocamente reais. Os moradores de rua incendeiam a noite com fogueiras, em busca de calor, mas morrem aos poucos de frio (o jornal fala de mais de 300 desde a mudança climática). A fragilidade da nova situação põe em risco os frágeis da velha situação. Neste sentido, apesar da paisagem e dos personagens locais, o Recife do curta é metonímia do Brasil inteiro (talvez por isso a necessidade de um narrador estrangeiro, não apenas de outro estado). A lente realista do falso documentário ajuda a operar uma inversão importante: mostra o quão ficcional é, na verdade, a concepção do Recife verdadeiro como tropical, quente, alegre. O Recife frio, por outro lado, apresenta através do frio atmosférico uma outro tipo de frieza, que aparece genericamente no curta caracterizada como frieza “humana” – típica dos grandes centros urbanos de nosso país.

A constatação desta frieza não se dá de maneira austera e documental, mas ao contrário, através do bom humor, e da ironia (sempre sublinhada na narração argentina), dos entrevistados. Cidadãos comuns, moradores de rua, repentistas, lojistas e instituições religiosas são mostrados em sua adaptação de improviso, mais ou menos dramático, às novas condições. Um dos pontos altos deste humor é o alívio justo de Clodoaldo Alves, o Papai Noel profissional que, depois de sofrer por anos com o calor da cidade, pode agora exercer sua profissão com menos desconforto – “Naquela época, 34 graus era pra matar, com aquela roupa”. Junto com o bom humor desta representação, vai também uma ridicularização velada de nossa apropriação tropical do Natal do inverno estadunidense, sintetizada em detalhe na imagem do Papai Noel que se refresca desesperadamente com a água de coco. Contar sobre os outros personagens irônicos e dramáticos, como o bretão melancólico, seria estragar um pouco o prazer de quem ainda não assistiu ao filme.

Podemos seguir, então, para a questão arquitetônica, que é tocada de modo certeiro pelo curta. Desde meados do século XIX até recentemente, foi recorrente em nossa país a tentativa de explicar e justificar nossa estrutura social a partir de condições geográficas e climáticas. O Recife capturado e resfriado pela lente de Kleber Mendonça desmascara estes esforços ao demonstrar que as relações de poder tem, na verdade, fundamentação econômica. Através da transformação climática, somos introduzidos também em uma mudança arquitetônica: a família de alta classe, que possui um apartamento amplo, com grandes janelas, à beira-mar, sofre agora com a desvalorização do imóvel, devido ao frio. Ao adentrar as entranhas do apartamento, abandonamos por um momento o tom humorístico (nós, os telespectadores, o narrador e a câmera seguem com curiosa leveza) e nos deparamos com o horror histórico brasileiro incrustado na estrutura dos apartamentos. A família, pai, mãe e filho, brancos, descrevem um “conflito familiar” em que o filho, que traja uma jaqueta com o emblema da bandeira alemã, deseja abrir mão de sua suíte para ficar com o quarto da empregada negra. O narrador distante, argentino, descreve este tipo de quarto com as seguintes palavras: “Essa instituição arquitetônica brasileira é herança da escravidão, fantasma moderno da senzala”. O menor quarto da casa, relegado aos fundos, praticamente sem janelas, tem agora o benefício de ser o mais quente e por isso é tomado pelo filho. A empregada doméstica quer seu quarto de volta. A mãe justifica seu incômodo dizendo que a empregada não está acostumada com uma suíte. A resposta da empregada desmascara: “O quarto de lá é mais frio”. O desejo do jovem patrão branco prevalece no quente e também no frio.

O salto ficcional do curta para dentro da arquitetura real de Recife quase não tem volta. Do quarto da empregada passamos para a feiura urbana e as preocupações com segurança. Somos brindados com uma sequência de imagens de grades, portas, prédios angulosos, asfaltos, condomínios que nos lançam do frio fictício e humorístico para o frio real e horroroso do real. Irremediavelmente misturados os dois Recifes, assistimos a cenas, sem saber exatamente onde se passam, de famílias que abandonam suas casas frias para se comprimir no espaço quente do shopping, de outros presos, os das cadeias, que organizam exposições de fotos sobre as novas nuvens: “Óia pra cima irmão”… Esta vertigem só é superada, enfim, por um canto poderoso e profético, no meio da praia cinza.

O fim do curta-metragem guarda uma possibilidade de redenção: a voz e a luz dourada de Lia de Itamaracá, a negra que canta a ciranda, anunciam um esforço de atravessar as nuvens perpétuas que cobrem a cidade e a praia. O filme de Kleber Mendonça quer invocar este tímido raio de sol, usando a força crítica da ficção, num esforço para aquecer nossas cidades frias.

Tomaz Amorim tem 28 anos, nasceu e cresceu na cidade de Poá, às margens da Grande São Paulo. É poeta, faz doutorado em literatura e pensa misturadamente sobre três coisas: arte, amor e justiça social; e é autor do blog 3 parágrafos de crítica

forrainbow9_g

9º For Rainbow é berro certeiro contra o preconceito

O evento, que ocorre de hoje (1º) até o próximo dia 8, reúne produções da cinematografia mundialComeça hoje (1º), em Fortaleza(CE), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, a 9ª edição do For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual. O evento vem num momento muito oportuno, quando recentemente o Congresso avançou a proposta reacionária do Estatuto da Família, que define como família “a união entre homem e mulher”. Coisa mais tosca, né? Pois é, o For Rainbow vem pra justamente mostrar que família é a união pelos laços fraternos de amor, independente de gênero e orientação sexual. Em pleno 2015, ainda é preciso que enfatizemos isso!

O objetivo principal do Festival é debater a cultura LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) e fomentar direito humanos básicos a esta população. Sabe o que é mais legal? A programação é totalmente gratuita! E ó, num é pouca coisa não viu: reúne produções da cinematografia mundial, com diversos títulos inéditos no Brasil e películas exibidas em eventos como o Festival de Berlim, na Alemanha. Nesta 9ª edição, concorrerão na “Mostra Competitiva Internacional” seis longas e 21 curtas-metragens, entre produções nacionais e estrangeiras.

Durante a rica programação do evento, acontecerão as mostrar Lilás; Avante; e Educativa (esta ocorrerá nos bairros Conjunto Ceará, Bela Vista, Pio XII, Grande Jangurussu, Pirambu e José Walter), entre outras atrações, como a cantora Angela Ro Ro, que se apresenta na abertura do evento; no encerramento, a atriz Elke Maravilha divide o palco com o grupo cearense Samba de Rosas, e ao longo dos dias os grupos The Crazy e The Dillas, entre outras bandas, tocam para o público (ver a programação inteirinha em www.forrainbow.com.br).

Segundo a diretora do For Rainbow, a jornalista Verônica Guedes, “é importante construir uma cultura que garanta dignidade e direitos iguais a mulheres e homens sem preconceito de orientação sexual, crença, raça ou identidade de gênero”. E aí, você que mora em Fortaleza, não dá pra perder, né?

Pra não esquecer
9º For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual
1º a 8 de outubro
Fortaleza, Cinema do Dragão do Mar
Programação completíssima: www.forrainbow.com.br

Foto Divulgação

Cinzas: um filme sobre cotidianos comuns

Filme será lançado em Festival Internacional em Brasília (Foto: Divulgação)

Como todo preto favelado, Toni é um universo em crise, e ele não vive um bom dia: ônibus lotado, salário atrasado, exploração no trabalho, descrença nos estudos, falta de grana, contas vencidas, polícia e solidão. As angústias de Toni, semelhantes com as de tantos outros personagens da vida real, são contadas em Cinzas, segundo filme da diretora baiana Larissa Fulana de Tal (Lápis de Cor, 2014), que será lançado no próximo dia 24 de julho, durante a programação do Festival da Mulher Afro-latino-americana e caribenha, no Cine Brasília, às 14 horas, na capital federal.

O curta-metragem, adaptado do conto homônimo do escritor Davi Nunes, tem como personagem principal o jovem Toni: estudante universitário, que trabalha como operador de telemarketing na empresa Tumbeiro, em Salvador (BA). As imagens de Cinzas fogem dos tradicionais planos alegres de propagandas do verão soteropolitano, e poderiam ser bem ambientadas em qualquer cenário urbano do Brasil. “Toni tem o corpo escravizado pela lógica trabalhista contemporânea que quase todos nós estamos submetidos. Ele já não aguenta mais o emprego no call center, sabe que é explorado e que precisa sobreviver sem perder a dignidade, e sem surtar. Sua consciência é livre”, comenta a diretora Fulana de Tal.

Cinzas é um filme sobre cotidianos comuns e universos em crise, a trama apresenta imposições óbvias da vida de tantos jovens brasileiros, e por isso mesmo emociona, mas não surpreende. Toni é a imagem do espelho de uma multidão acostumada com a negação, mas que não abriu mão da resistência.

O filme é mais uma produção do coletivo de cinema negro “Tela Preta”, organização que pauta a representatividade negra no audiovisual. Para o coletivo baiano, cinema e engajamento político se fundem. “Acreditamos que a temática racial no filme é tão importante quanto a autonomia da voz. Sabemos falar por nós mesmos, e isso é Cinzas. É uma felicidade muito grande para toda equipe lançarmos no Festival Latinidades”, ressalta a diretora.O Latinidades é o maior festival de mulheres negras da América Latina e há oito anos marca a agenda internacional de lutas do movimento de mulheres negras. Este ano tem como tema “Mulheres Negras Realizadoras de Cinema”.

O QUÊ? LANÇAMENTO DO FILME CINZAS.

QUANDO? 24 DE JULHO, ÀS 14H.

ONDE? NO FESTIVAL DA MULHER AFRO-LATINO-AMERICANA E CARIBENHA, NO CINE BRASÍLIA (DF).

QUANTO? GRÁTIS.

 

camilo

Camilo Cavalcante: “O cinema nordestino é o que tem de melhor na produção brasileira contemporânea”

Em termo de potencial o Nordeste é um vulcão à beira da erupção criativa” (Fotos: Cristofthe Fernandes/Revista Berro)

——

Na segunda parte da entrevista Camilo Cavalcante fala sobre cinema pernambucano e cearense, além de explicar alguns processos de construção do seu último filme, o longa A História da Eternidade.

Revista Berro: Você cita alguns poetas como Drummond e Torquato Neto no seu último longa. Como foi a montagem das referências artísticas n´A História de Eternidade?

Camilo: Na verdade eu trabalho sempre com muitas referências e influências. Todos os meus filmes têm muitas referências, seja literária, seja musical, seja cinematográfica, seja das artes plásticas. Nesse filme é como um mural de Alfonsina, uma bricolagem de referências que me tocam, primeiramente, coisas que me sensibilizam.

camilo.maos2aQue você acha que vai encaixar na história?

Camilo: Vem pra mim de uma forma esquemática e natural. O filme demorou muito pra ser realizado, com processo de inscrição de edital e tal, e nesse tempo pra mim a música “Fala” era como um dogma. Eu sabia da importância dessa música dramaturgicamente, eu sabia que o primeiro movimento de câmera seria quando entra o arranjo de violinos, seria ali. É um dogma que eu me coloquei. Quando o mundo gira junto com o personagem, e isso acontece aos cinqüenta minutos de filme, é um momento de epifania, um movimento libertário, o quanto a arte pode ser libertária e transformadora. Um momento onde o personagem parece que vai alçar voo. É um filme que tem três momentos elípticos. Tem esse primeiro momento, que é o “fala”. Depois tem o momento onde o tio apresenta o mar pra sobrinha, onde a catarse é possível através desse movimento. E tem um terceiro momento elíptico que é o sol com um halo, que representa o olho do cego que vagueia procurando por um, representa o ovário de Querência fecundado, representa o sol, logicamente… e representa também o Ouroboros, que é o símbolo da cobra comendo o próprio rabo, que significa a eternidade. Um ciclo que sempre se repete.

O sol sempre há de brilhar mais uma vez, né?

Camilo: Pois é, a vida continua… a gente tem tudo ali representado naquele microcosmo, a humanidade tá representada em termo de sentimento: tem o ódio, tem o ciúme, tem o desejo, tem a gratidão, a ingratidão, tem a generosidade. Muitos sentimentos e contradições do ser humano representadas ali naquele microcosmo.

Algumas pessoas colocaram os personagens como clichês, como uma representação forçada do sertão. Você pode comentar sobre a construção dos personagens?

Camilo: A gente tá mexendo com um trabalho que é como uma mitologia sertaneja. O cego Aderaldo, a menina sonhadora, o pai patrão, o artista como uma pessoa doente, incompreendido… mas acredito que a gente consegue ressignificar esses arquétipos. Do mesmo jeito que eu tive a liberdade de fazer o filme, de contar a estória da maneira como eu queria, o público tem a liberdade de sentir o filme da maneira que puder. Apesar de tudo é um filme que tem várias camadas, várias formas de leitura. Mas pra mim o problema é que tem gente que olha e vê como um livro com as páginas em branco, nisso aí eu não posso fazer nada.

Você não pode colocar um arco-íris onde você pretende um sol…

Camilo: É… é um filme que se completa com o olhar do público.

Em sua fotografia existe uma unicidade de quadro, na escolha das cores e tal. Você pode falar dessa constância em seu trabalho?

Camilo: Pra mim existem três pilares principais para a construção dos meus filmes. Os atores, o roteiro e a fotografia. N´A História da Eternidade quem assina a fotografia é Beto Martins, que é sertanejo, ele é de Uauá, no interior da Bahia. Ele construiu toda a carreira em Recife, mas tem raízes profundas no sertão e trouxe esse olhar de dentro pra fora.

Você pode comentar sobre a presença da morte no seu trabalho? É um tema bem recorrente nos seus outros filmes, né?

Camilo: Morte é vida, né? É a coisa mais natural e mais óbvia da vida. Quando você nasce você sabe que vai morrer. Eu me identifico muito com o Torquato Neto, eu acho que sou um ser melancólico, reflexivo, e a morte faz parte dessa reflexão. Se você passa a encarar a morte de uma forma natural, você acaba sendo mais feliz, ao contrário do ser deprimido que passa a reclamar da proximidade da morte.

O Chico Buarque uma vez falou que se incomoda com o fato de ter que escrever em um livro o que ele poderia escrevercamilo.segunda em uma crônica. A História da Eternidade foi finalizado mais de dez anos depois do curta homônimo seu. Como foi essa relação com o tempo nessas duas obras?

Camilo: Na verdade eu acho que cada ideia pede um tempo, não é nem o autor quem diz isso. Depende até quando você pretende mergulhar e enfiar o dedo na ferida. Eu acredito que o longa não é uma extensão do curta, são dois trabalhos bem diferentes com um contexto sertanejo semelhante. Tem a minha busca pela poesia audiovisual que também tá presente nos dois trabalhos. A ideia do longa nasceu enquanto o curta tava sendo filmado, eu acho que o símbolo do Ouroboros também tá presente nas duas obras, mas narrativamente são obras bem distintas. A ideia vem do nosso lado mais subjetivo, mais inconsciente, então ela não vem com um tempo predefinido.

O Baile Perfumado (filme de Lírio Ferreira e Paulo Caldas) foi um marco da retomada do cinema nacional e também uma celebração do movimento Manguebit, juntando muitos musicistas, cineastas, artistas plásticas e tudo mais. Esse processo chegou a saturar a cidade, ou catalisou outros processos?

Camilo: O Baile Perfumado foi o filme mais importante da retomada do cinema brasileiro e veio música e cinema junto numa época de seca cultural no país, onde não tinha nada. No caso do cinema isso facilita a vida artística. Por exemplo, ajudou o pessoal do audiovisual há 12 anos atrás a se juntar para escrever um manifesto e entregou ao governador que incrivelmente acatou. Logo depois ele fez um edital consolidado de 2 milhões, no ano seguinte 4 (milhões), no outro ano 6 (milhões), no ano seguinte 8 (milhões), no outro 10 (milhões) e esse ano foi de 12 milhões. Sem dúvida foi fruto dessa união, além da conjunção de outros fatores, como o reconhecimento da produção pernambucana no circuito nacional. Hoje em dia o cinema é cultura, mas também é economia, emprega muita gente em muitos setores primários, secundários e terciários.

E sobre a produção cearense, como você analisa o cinema produzido aqui?

Camilo: A produção cearense é fantástica! Aqui tem várias gerações coabitando, como lá em Recife. Você encontra produção desde Rosemberg Cariry, passando por Karim Ainöuz, o pessoal do Alumbramento, Ivo Lopes, que é um fotógrafo maravilhoso… tem o pessoal mais novo, como Leonardo Mouramateus. É um audiovisual muito inquieto e muito diverso. Eu acredito que o cinema nordestino é o que tem de melhor na produção cinematográfica brasileira contemporânea, o resto meio que se acomodou, tá tudo meio que em banho-maria. Os nove estados do nordeste tem essa pujança artística/criativa muito forte. Claro que em alguns estados se produz mais que outros, foi onde o governo conseguiu enxergar essa importância estratégica do audiovisual pra a cultura de um povo, mas em termo de potencial o nordeste é um vulcão à beira da erupção criativa.

valendo

Diretor d´A História da Eternidade: “O sistema de distribuição e exibição de filme no Brasil é uma máfia”

(Fotos: Cristofther Fernandes/Revista Berro)

No sertão já teve quem falasse das mulheres fortes. Não lembro bem se alguém já falou de três mulheres que fazem do desejo suas epifanias, seus modos de desabrocho. E é sertão, né? Essa região que ainda pauta a submissão feminina como regra, noves fora vem um cara da capital falar que “o desejo liberta o que o destino aprisiona”. São três personagens que nos colocam em dilemas humanos, numa colcha de retalhos de metáforas sublimes, de nuances sobre a região que passaria desapercebido ao olhar capitaneado pelo urbano.

Apesar da força poética do filme, Camilo Cavalcante, diretor de “A História da Eternidade“, também fala sobre sua penitente instiga em trabalhar com cinema, de fazer parte e de ser entusiasta da sétima arte como mola-motora pra outros movimentos do indivíduo. “Cinema Cabra da Peste” seja em qualquer região, em qualquer localidade, com quaisquer bitolas, o que não vale é fazer cinema “Bitolado”. Camilo bateu um papo com a galera da  Berro sobre seu trabalho e aqui vai a primeira parte da entrevista onde ele conta um pouco sobre sua carreira e o fazer cinematográfico.

Revista Berro: O que tu achas desse processo de migração dos cinemas para os shopping centers e a conseqüente diminuição dos cinemas de rua no Brasil?

Camilo: Eu nasci nos anos 70 e vivenciei muito forte os cinemas de bairro. Era a coisa mais linda que tinha, porque sempre as sessões eram lotadas, além do preço ser acessível. Você tinha a sensação realmente de entrar em outro mundo quando entrava numa sala de cinema e quando saía você tava de volta à realidade das ruas, do seu bairro, ou do centro da cidade. Hoje em dia você entra no shopping, que é uma ilusão e vai pra uma sala de cinema dentro do shopping, é uma ilusão dentro da ilusão. Com essa coisa de Multiplex, o cinema é tratado como mercadoria mesmo. As pessoas vão ver cinema como quem compra uma roupa, um sapato. Vivemos num mundo em que impera uma ditadura do consumo e da publicidade. Eu sinto que falta um espaço para a reflexão e para o sentimento.

Nesse processo de distribuição de “A História da Eternidade” nos cinemas eu posso dizer categoricamente que o sistema de distribuição e exibição no Brasil é uma máfia dominada por grandes corporações, por poucas distribuidoras, corporações essas que detêm o poder econômico, conseqüentemente os fins e os meios. Fica muito difícil furar esse bloqueio. Essa máfia chega muitas vezes ao absurdo da sabotagem, do boicote pra não passar o filme independente numa sala de shopping. O cinema autoral é tratado como passageiro de quinta categoria, é como as classes sociais mais pobres são tratadas pela elite dominante.

Como você enxerga sua produção em meio a esse turbilhão de imagens que são feitas para vender?

Camilo: Eu enxergo meu cinema como artesanal, que prima pela poesia. O foco é a poesia audiovisual. É um corpo estranho em meio a essa enxurrada de filmes que vemos no circuito comercial. Inclusive no circuito artístico também, nós vivemos num mundo onde as pessoas estão muito cínicas e muito céticas também e isso acaba refletindo na produção audiovisual. Pelo menos “A História da Eternidade” vai na contramão desse cinismo e desse ceticismo, é um filme que tem emoção, que fala de amor, que fala de sonho, que fala de desejo.

O filme tem outra relação com o tempo cinematográfico, se passa numa região seca, mas busca encharcar as pessoas de emoção, por isso que o vejo como um filme um pouco diferente daquilo que vem sendo produzido.

oia.

Você já utilizou de várias bitolas cinematográficas para realizar seus filmes (Betacam, 8mm, VHS). Você pode comentar sobre as possibilidades de realização do início de sua carreira como cineasta e hoje?

Camilo: Comecei a trabalhar com audiovisual em 1995, na época eu fazia faculdade de jornalismo em Recife.  Eu já tinha vontade de trabalhar com cinema desde a adolescência, daí na faculdade resolvi botar a mão na massa, praticar mesmo. Naquela época o Collor tinha acabado com a Embrafilme, então a produção cinematográfica no Brasil era quase nula…

 Com exceção dos filmes dos Trapalhões, né?

Camilo: E olhe lá… em 95 a produção era muito insípida. Collor acabou com o cinema brasileiro. Naquele momento eu tinha acabado de entrar na universidade e era na época do VHS. Ganhei uma câmera VHS compacta e fiz um vídeo chamado Cálice, que contava a história de um suicídio que aconteceu lá na casa do estudante, na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), um fato real e fizemos uma ficção baseado nesse acontecimento. A partir daí eu passei a experimentar com os recursos que tinha a mão, sempre junto com amigos, com a família, fui experimentando.

Na verdade o caso de eu ter experimentado várias bitolas estava muito relacionado ao que estava a mão, ao que era mais fácil e o mais barato pra tornar a ideia algo realizável. Em 2000 eu ganhei um concurso do Ministério da Cultura e eu pude fazer algo mais estruturado, daí fiz O velho, o mar e o lago. A experimentação pra mim veio de uma forma muito natural, dependia dos recursos que eu tinha. Inclusive, em 97 eu escrevi o Manifesto Cabradapeste, que dizia justamente o seguinte: não importa a bitola, não importa o formato, o que importa é você se expressar, expressar sua ideia em audiovisual. O que importa é você botar pra fora, você berrar. Não existe nada mais lindo do que ver uma ideia se libertando.

Hoje a produção cinematográfica ta troando lá em Recife, né?

Camilo: Na verdade Pernambuco sempre foi um celeiro importante da produção audiovisual no Brasil. Desde o ciclo de 20, passando pelo ciclo do super-8 na década de 70, sempre foi pulsante na produção de imagem. Agora a gente tá vivendo o melhor momento, sem dúvida. O governo do estado reconheceu o esforço dos realizadores que fazem cinema lá. A gente tem um edital, o Funcultura, do governo do estado de Pernambuco, o que gera uma cadeia produtiva de incentivo à produção audiovisual. Desde curtas, longas, cineclubes, programas pra TV, é muito amplo, sabe?

Mas pra mim o grande trunfo do cinema feito em Pernambuco é essa diversidade de ideias, não existe um único fluxo. Ninguém tá copiando ninguém. Não é um movimento, são várias movimentações de pessoas e de grupos de diversas gerações que se expressam através do audiovisual e cada filme tem a cara de seu realizador. Ninguém tá fazendo cartão de visita pra trabalhar na indústria, ou imitando o cinema hollywoodiano… cada um se expressa honestamente em seu trabalho. Isso cria muitas vertentes estéticas, artísticas e ideológicas.

—-

Parte II: “O cinema nordestino é o que tem de melhor na produção cinematográfica contemporânea”

sal, duna, lamparina_site

Filme “Sal, Duna, Lamparina” tenta financiamento no Catarse

(Foto: Germano de Sousa/divulgação)

O Filme Sal, Duna, Lamparina, de Germano de Sousa, que retrata a comunidade Ponta do Mangue, localizada dentro do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, está em campanha de financiamento coletivo, no site Catarse, entre março e abril. O objetivo é finalizar o longa que mostra através da representação de Maria do Celso, 64 anos, a luta dos moradores pela conquista da energia elétrica e permanência no local.

Pertencente ao município de Barreirinhas (MA), principal entrada para o Parque Nacional do Lençóis Maranhenses, Ponta do Mangue reúne, aproximadamente, 35 famílias que vivem dos recursos naturais praticando atividades sustentáveis como a pesca, agricultura familiar e artesanato. Formada há mais de um século, a comunidade tradicional  ainda não conseguiu conquistar seus direitos básicos e enfrenta problemas estruturais pela inexistência de serviços como escolas, hospitais, saneamento e energia.

Existindo entre dunas, praias e lagoas, o povoado também sofre com o isolamento ocasionado pela deficiência no sistema de transporte, que é inviável economicamente para os moradores. Esta situação de invisibilidade social despertou o olhar do realizador maranhense Germano de Sousa, em 2014, ao retornar para uma visita a sua terra natal, Barreirinhas.

A proposta do documentário Sal, Duna, Lamparina foi consolidada durante quatro viagens realizadas entre 2014 e 2015. Para Germano, a intenção era fazer um curta, mas a medida que foi descobrindo a história e acompanhando o cotidiano da comunidade viu que o conteúdo exigia a duração/extensão de um longa.

Atualmente, o filme encontra-se pendente de finalização – processo que demanda a contratação de outros profissionais especializados. Para levar esta mensagem adiante, o realizador Germano de Sousa lança uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse, na segunda semana de março. O valor pretendido é 35 mil reais, que além da finalização tem o objetivo de viabilizar a exibição do filme na comunidade Ponta do Mangue.

“Essa exibição na  Ponta do Mangue é uma maneira de retribuição à comunidade pela receptividade e colaboração no projeto! Mas nossa maior intenção é estimular a autoestima deles, principalmente dos mais jovens, aos mostrá-los como protagonistas de sua história e comunidade”

Saiba mais sobre o realizador:

Artista visual com mais de 15 anos dedicadas ao ofício. Cinegrafista e documentarista formado em ‘Realização em Vídeo e Edição’ nas escolas Filmosofia e Nexofilm em Granada, Espanha. Trabalhou como realizador audiovisual no Coletivo 1Bando Comunicação e como cinegrafista na Produtora Baião de Dois Filmes. Em 2014, dirigiu e produziu o curta experimental “Amaral” premiado no 24º Festival Cine Ceará. Atualmente, dedica-se à função de videomaker e fotógrafo freelancer para diversos projetos independentes.

Informações:

Campanha de financiamento coletivo Sal, Duna, Lamparina

Entre os meses de março e abril (40 dias)

Site: Catarse.me

Trailer:  https://vimeo.com/germanodesousa/saldunalamparina

Fanpage: https://www.facebook.com/saldunalamparina

 

a historia de eternidade_editado

Sobre sentir coisas depois do filme “A história da eternidade”

(Foto: reprodução internet)

João Ernesto

Nunca mais havíamos partido após o apagar das luzes. Ficamos olhando o tempo infinito que um filme possibilita. Um tempo que não acaba e nos remete a essa finitude nossa e a essa nossa busca pelas coisas sem nome. Entre a redenção e a culpa tem um mundo todo pesando sobre as costas, como nos remetemos às pequenas coisas e as sentimos como se estivessem acontecendo agora mesmo. Processo cego em busca de um sentido vago que nos apazigue a dor.

Sentimos dor e Estamos. É tudo o que ficou: nossos retalhos, nossos dedos que tremulam buscando tatear alguma coisa. Ficamos zonzos e queremos desejos nem tão sutis, rezamos e nos remetemos aos nossos padrões tão estúpidos, a nossas morais. Ficamos ensimesmados, acendemos cigarros e caímos em tentação, amém…

Enfim, estamos vivos! E isso é tudo que temos por agora. Se depois nos culpamos, é porque estamos em processo constante… e choramos. Choramos, mar salgado que desce a boca. Choramos sem ter nem por que… mas antes do último ponto da reticência, o choro seca, mar revolto e a brindamos à tormenta que antes atormentava. Lá em cima o sol vai estar anunciando que a gente vai passar, virar adubo, plantar mensagens, dúvidas, inspirações… e o sol vai estar lá.

A possibilidade de ser mar dentro da gente. De colocar asa em pedra, fazer da pedra, mar. Banho de chuva mesmo sem querer, por mais que tenham tirado as bicas de todas as casas. À chuva, ao mar, à poesia e às grandes possibilidades que têm dentro de nós.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

cineclube

Segunda edição do Cineclube Ferro Velho será nesta quarta (13), no Benfica

O Cineclube do Ferro Velho, que foi lançado no último dia 24 de agosto, no Benfica (veja aqui), vai pra sua segunda edição.

O objetivo primordial da iniciativa é fomentar o audiovisual cearense e seus realizadores, sempre dando prioridade a produções da terrinha.

Entre as produções que serão exibidas desta vez estão “Antes que os pés toquem os céus”, “Morpheu” e “Lições de bicicleta”, além de outros curtas. O evento contará com a presença dos realizadores para debater e trocar uma ideia sobre as obras com a galera presente.

Berro indica!

Quando: 13 de agosto de 2014

Onde: Bar do Ferro Velho (Rua Confúcio Pamplona, 352, Benfica – paralela à Av. da Universidade, por trás das Casas de Cultura da UFC)

Horário: 19 horas

Mais informações: (85) 9624 9956