fundo lusco_editado

Atentado

Por João Ernesto

jernesto@revistaberro.com

 

Dos 49 mortos

O que contraria a estatística é o filho de afegão

Que poderia muito bem ser um morador do castelão a próxima vítima

Ou algoz.

Se 49, ou cinqüenta,

Configura atentado

No mesmo dia, o mesmo dado

Colocado lado a lado

Muda a retórica

De quem absurda o número

e desconsidera a história.

 

Em um fuzil cabem algumas balas

Um corpo cravejado de hematomas por escolher ser

O que se é.

 

Em uma boate cabem, além de pessoas,

Tantos amores, afetos.

Corpos abertos por escolher ser o que se é.

 

Um dia desses uma travesti foi espancada, desfigurada.

Teve seus cabelos arrancados a faca.

Outro dia, outra travesti em Aracaju,

Outra em Manaus, Sobral, Juazeiro.

Rostos desfigurados à pedra.

Atentados por ser o que se é.

 

Atentados. Atentadas.

Numa tentativa simples em ser o que se é.

 

É simples.

Ser o que se seria se

um tanto mais tolerantes.

Aceitar o normal

desejo e afeto

Como sendo simplesmente como… Normal.

Como sendo se seríamos

 

Nunca vi cachorro mordendo outro por estar pinando em perna alheia.

Nunca vi elefante dando trombada por que seu filhote tá rolando no chão de forma afeminada.

Sejamos bem honestos quanto a isso:

Atentado é coisa de bicho gente

Que mata e maltrata

Maldiz

outra gente apenas por ser gente.

de sentir e partilhar o que se sente

enquanto gente.

///

 

Poesia publicada na coluna Lusco-Fusco na Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 (pg. 27) (aqui, versão PDF)

Espia outras poesias da Lusco-Fusco.

Solta o Berro! (5ª edição)

SoltaOBerro_editadobodeberro@revistaberro.com

 

2ª edição

Bode Berro e a manifestação dos “politiblocs”  bit.ly/politiblocs

Anônima Afrodite: Revista Berro, estou lendo a 2ª edição, desde já parabéns! O quadrinho da capa final ficou foda! Adoraria compartilhar!

Oxe, muié… pois compartilha que eu vou achar é bom! Taí em cima o link! Ali foi durante a época das eleições e as ruas tavam cheia desses papel véi desses(as) políticos(as), cada um(a) com um sorriso mais falso que outro… Nam, desse papel eu nunca comerei!

 

Bode Berro entrevista Suricate Seboso  bit.ly/berro_e_suricate

Maylla Pita: O Suricate já estava na minha lista de “bixo lindo”, agora, acaba de entrar o Bode Berro.

O bodim aqui tem sua lindeza sim! Brigado pela buniteza do comentário, quando eu encontrar o Suricate eu aviso a ele do elogio, tá certo?

 

3ª edição

É proibido proibir! bit.ly/proibidoproibir

Emílio Figueiredo: Sou advogado pela reforma da política de drogas e defensor de cultivadores domésticos e usuários medicinais de cannabis. Escrevo para parabenizar pela reportagem que vocês escreveram sobre a Política de Drogas. É muito bom ver o tema sendo tratado dessa forma. Espero que o tema volte em breve à Revista Berro, pois ainda há muito a ser falado. Abraços!

Valeu pela força, Emílio. Poisé, a gente entende que precisa legalizar todas as drogas e bater um papo sobre a redução de danos e mais informações sobre os efeitos das substâncias que a pessoa decide colocar no seu corpo. Já cansei de ver mãezinhas chorando e jornais transformando vítimas em culpadas.

Henrique Sousa: Eu quero a legalização tbm, mas imagine como seria tds as drogas livres; teria muito mais usuários do que cachaceiros; imagine a legalização do crack: é isso que vcs querem? Pq para o meu pivete esse futuro eu dispenso.

Henrique, a legalização é só um primeiro ponto dentro do papo sobre as drogas no Brasil. A gente não compreende a legalização como algo distante do debate de consumo consciente ou redução de danos. Imagina quanto homicídio vai deixar de acontecer só com a legalização? Imagina quanta substância de origem duvidosa que vai deixar de aparecer? Imagina quanta gente se preocupando em produzir para o consumo, numa outra relação com os próprios hábitos? A conversa é longa e a legalização é só a ponta (com trocadilhos!…hehehe!).

 

Lambe-lambe: Talita bit.ly/fototalita

Léllis Luna: Estava eu vindo dos Correios e entro no Museu do Ceará. Lá me deparo com a revista. A moça gentilmente me ofereceu e qual não foi a surpresa de uma publicação GENUINAMENTE cearense e outro “susto” bom foi a foto (Lambe-lambe) da Analice Diniz. Tudo muito invocado. Sucesso e muitos anos editando coisas do nosso jeito.

A gente não teria essa paixão toda em produzir essa revistinha se não fosse a colaboração das nossas amizades, Léllis. Te convidamos a colaborar com o que você puder-quiser: ensaio fotográfico, pintura, conto, crônica, poesia, sugestão de pauta, reportagem, etc… Temos a restrição de não aceitar expressões homofóbicas, racistas, misóginas (óia como tô falando bonito!), ou coisas do tipo, isso a grande mídia já faz, nossa abordagem é outra. Brigado!

 

4ª edição

Entrevista Laerte: “Não há limiar para o humor”  bit.ly/entrevista-laerte

Juliana Evandro: Excelente entrevista! Adorei.

A Laerte é uma grande artista, com uma experiência de vida massa, e a entrevista tentou refletir parte da trajetória dela. Valeu!

Itinerância Poética: Nem para o Humor nem para o Amar… dá-lhe Laerte…

O humor também é uma forma de amar. Por isso a gente se inspira um pouco nela pra trazer essa combinação aqui pra Berro!

Laerte Coutinho: Berradores, ficou muito boa a Berro – parabéns! Beijo!

Que bom que você gostou, Laerte. Sabíamos da responsabilidade que era te entrevistar e a conversa foi muito legal. Um beijo!

Marília Coutinho: Honestamente, não sei como vocês tiveram coragem de publicar a entrevista. Eu me sentiria completamente envergonhada se fosse um editor sério. Entendo que o ensino superior brasileiro solta no mercado jornalistas sem nenhuma formação metodológica, mas, wow, não saber formular uma única pergunta? Nenhuma. Isso foi irritando a entrevistada. O resultado foi um conteúdo que certamente deve ter dado um pico de hits na página porque pegou carona com a celebridade da entrevistada, mas é horrível e constrangedora. Embora eu não tenha nenhuma esperança de que isso ocorra, poderia haver aprendizado aqui. Mesmo quando o entrevistado não se identifica com a proposta da mídia, se a entrevista for conduzida de maneira metodologicamente adequada, é possível produzir conteúdo. Aqui… zero. Eu não li até o fim. Li até o meio por motivos óbvios: é natural que eu tenha interesse no que disse meu irmão aqui ou ali, mas, putz, eu dei aula na ECA, os estudantes não me pareciam tão despreparados naquele tempo…

RespostaIrmãLaerteOi Marília! A gente teve coragem de publicar a entrevista porque não estamos preocupados em esconder os acertos e desacertos que surgem de uma entrevista não-editada. Para nós, isso traz uma riqueza que se aproxima da oralidade, do que de fato é falado numa “entrevista real”, muito além de uma entrevista toda editada, aquelas bonitinhas e ordinárias que a gente vê na mídia empresarial. Outra coisa: “editor sério” aqui não tem; é um bando de cabra sem vergoim, que leva a revista debaixo do braço pra distribuir no meio da rua! Aceitamos a crítica e entendemos que as leitoras e leitores têm capacidade reflexiva pra avaliar os conteúdos às suas maneiras. Mas o interessante – e que foi importante para nós, de certa forma – é que a opinião da sua irmã, a entrevistada Laerte Coutinho, foi completamente diferente. Lê aí acima! Por fim, gostaríamos de deixar claro que não temos um pingo de apreço às normas impositivas e “metodológicas” dos manuais de redação. Nosso jornalismo é livre dessas amarras, porque assim é que entendemos a comunicação e a vida.

 

Cidade para quem? Salve-se quem puder!  bit.ly/cidade-para-quem

Assis Viana: Quantas pessoas morrem a cada 1000 reais desviados pelos políticos?

Não só pelos desvios, mas é a forma de governar tão atrasada, Assis. Pautando remoções, grandes obras e a vida das pessoas sempre sendo deixada de lado, nunca como prioridade. É de lascar viu, mah!  

 

Mapa da Desigualdade em Fortaleza  bit.ly/fortaleza-desigualdade

Fabricio Porto: Esclarecedor infográfico.

É bom mostrar essa realidade desigual que a negada às vezes nem sabe. Valeu, Fabrício!

Kleiton Moraes: Massa esse mapa!!

Bora ajudar a compartilhar essa informação, Kleiton!

Daniel Araújo: Triste realidade!

Ter uma moradia não era pra ser privilégio, mas um direito. Quando isso é negado pelo estado, a situação da coisa se torna absurda.

Falcão Junior: Perfeito para uma revolução…

Pois bó fazer essa revolução? Tantos direitos negados a uma grande parcela da população. Tanta gente vivendo mal, comendo mal, vendendo o tempo por uma pequena quantia de dinheiro… a comunicação nada democrática do jeito que está. Tenho que concordar que a situação tava perfeita para uma revolução desde o tempo que as primeiras caravelas aportaram por aqui.

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Mandem sugestões, comentários, pitacos, xingamentos, críticas, palavrões, juras de amor, dinheiro, o diabo a quatro pra gente. Quem sabe o Bode Berro não lhe responde na próxima edição, hein?

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Publicado na Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 ( pgs. 4 e 5) (aqui, versão PDF)

Espia aqui outras Solta o Berro!

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Torcidas Organizadas: reflexões para além do proibicionismo

Por Raoni Oliveira

Segundo o Mapa da Violência de 2014, entre os anos de 1980 e 2012, a taxa anual média de mortalidade de jovens por homicídios é de 43,4 por 100 mil habitantes, frente a 3,8 homicídios por 100 mil habitantes fora da faixa etária de 15 a 29 anos. São dados alarmantes que indicam a condição de extrema violência em que a juventude brasileira se encontra. Do ano de 1980 a 2012 as mortes por homicídios representaram 28% na população jovem e 2% na população não jovem. Entre os anos de 2002 e 2012, as mortes de jovens por homicídio no território nacional cresceram 8,7%, sendo 27.655 homicídios em 2002 e 30.072 em 2012. Neste mesmo período a taxa de homicídios de jovens no nordeste quase duplicou, elevando-se em 97,1%, totalizando, em 2002, 6.134 jovens mortos, e em 2012, 12.092. No estado do Ceará o avanço dos números é bem mais preocupante, representando um aumento de 218,5% entre os mesmos anos citados anteriormente, sendo 730 homicídios em 2002 e 2.325 em 2012.

Estes números são a representação da dificuldade que as instituições governamentais têm de intervir nos conflitos em que os jovens se encontram. É notório como a utilização da polícia, enquanto agente repressivo, tem sido ineficiente e nada exitosa na função diminutiva da taxa de homicídios. Os números aumentam e a resposta tem se repetido. Em 2001 a violência nos bailes funk repercutia na mídia; a solução encontrada para diminuir os confrontos foi a proibição e criminalização dos eventos.

Notícia da jornalista Kamila Fernandes, no jornal Folha de São Paulo, de 2001, relatava: “A Polícia Civil do Ceará decidiu proibir bailes funks e shows de grupos que toquem esse estilo musical em casas noturnas de Fortaleza, que passa a ser a única capital do país a não permitir os bailes. Alvarás não serão concedidos. [...] Segundo o superintendente da Polícia Civil, José Alberto, se depender dele, não vai haver mais nenhum baile funk em Fortaleza”.

Em 2001 foram proibidos os bailes funk em Fortaleza, mesmo assim a taxa de homicídios de jovens subiu no ano posterior – 54,0 por 100 mil habitantes em 2001 e 56,1 por 100 mil habitantes[1] em 2002, ou seja, foram 730 homicídios de jovens em 2002, 767 em 2003 e 823 em 2004, no ano seguinte tornou a se elevar, 939 homicídios de jovens em 2005[2]. Isto posto, tentaremos subsidiar uma resposta menos ortodoxa, mas potencialmente eficiente no que se refere à mortandade juvenil nas metrópoles brasileiras.

Estes dados são de extrema importância para visualizarmos quem são os sujeitos que mais necessitam de políticas públicas. Assim, de acordo com o Mapa da Violência de 2014, a juventude – faixa etária dos 15 aos 29 anos – é quem mais sofre com o cotidiano hostil das metrópoles. Também são os jovens que compõem majoritariamente as torcidas organizadas, são os mesmo jovens que são vítimas de mortes violentas e que sofrem com disputas territoriais de seus bairros.

É difícil supor o número total de Torcidas Organizadas no Brasil. Só em Fortaleza podemos contabilizar pelo menos dez, porém vamos nos propor a refletir sobre as que aglomeram maior número de jovens: Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF) e Jovem Garra Tricolor (JGT), do Fortaleza Esporte Clube; e Torcida Organizada Cearamor (TOC) e Movimento Organizado Força Independente (M.O.F.I.), do Ceará Sporting Club. As duas maiores (TUF e Cearamor) exercem influência direta em cerca de vinte e cinco mil jovens (números não oficiais); estes geralmente moradores de bairros periféricos da cidade.

Para propormos qualquer ação, devemos, antes, entender como e em que sentido estes jovens se juntam. É sabido que a juventude se organiza em torno de algumas esferas socioculturais específicas (música, dança, escola, bairro). Como já foi dito anteriormente, o baile funk já foi o espaço de maior aglomeração juvenil na cidade. Centenas e até milhares de jovens se deslocavam de seus bairros para frequentar bailes em que as disputas territoriais, já vivenciadas por estes em seus lugares de moradia, tomavam sua forma mais concreta e explícita.

Os clubes em que estes eventos aconteciam ficavam repletos de jovens em busca de confrontos simulados, a fim de experimentar a excitação que apenas o elevado nível de descontrole da situação lhes proporcionaria, como teorizou Norbert Elias, em A busca da excitação. É evidente que nenhuma violência está sendo defendida, mas sim destacada a necessidade de compreensão, para que possa haver uma intervenção contundente e eficiente por parte dos órgãos que se propõem a findar com os conflitos em questão.

Através de estudo produzido ao longo de mais de cinco anos, foi possível observar que a intencionalidade em que a violência existente nas T.Os. se baseia está intimamente ligada ao que Bourdieu, em O poder simbólico, chamou de capital social e ao que Elias chama de busca da excitação. Então o que seria capital social? A palavra “capital” nos faz pensar em dinheiro, mas isso por que o dinheiro pode ser acumulado e trocado, portanto, tudo que chamaremos de capital pode ser acumulado e trocado, servindo assim como moeda e item de distinção social.

Nossa sociedade se organiza para nos educar e socializar de forma que quem tem mais “dinheiro” possui maior poder de compra, então quem tem mais dinheiro tem mais “capital” financeiro; mas também é verdade que quem tem mais dinheiro exerce maior influência sobre quem está a seu redor; isso porque as pessoas a seu redor querem ter mais dinheiro também para poderem exercer influência sobre as outras. A questão fundamental é visualizarmos o “capital financeiro” apenas como mais uma esfera da teia de relações sociais em que vivemos.

Aceitemos então que estamos em constante disputa. Em um conflito contínuo que nos faz exercer ou sofrer influências das pessoas ao nosso redor e não apenas com a forma dinheiro, mas também com a forma cultural dos círculos sociais em que estamos inseridos, quer dizer: em meio aos universitários, quem escreve melhor e publica mais artigos acumula mais capital social frente a seus colegas que almejam escrever bem e publicar artigos, mas isso não vale para os comerciantes informais do centro da cidade. Pouco importa aos camelôs quem escreve melhor ou pior, se existe ou não um ranking das revistas acadêmicas que dá mais pontos para quem escrever e publicar, assim também é na torcida organizada. Haveria então uma certa ética acadêmica, uma outra ética camelô, uma outra ética torcedora e que pouca coisa teriam as três em comum.

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(Foto: Tatiana Fortes/O Povo)

Entendemos por ética a compreensão particular que cada grupo tem do mundo ao seu redor, seria a ética o modo como determinado grupo se comunica, como se veste, que tipo de música escuta, quais lugares frequenta, como trata os de fora do grupo, como vê os seus pares. Esta forma não deve ser encarada como melhor ou pior que outras, mas sim como outras possibilidades de sociabilidades. Esta forma, em particular, é constituída por um espectro violento, não por algo inato, mas sim por constituição sociocultural do meio que forja os sujeitos. São as habilidades destes que sobrevivem a um espaço em que, ou se aprende a se impor com a força física, ou se é mutilado diariamente pelo próprio ambiente formador; ou se encaixa em um grupo, e protegem-se uns aos outros, ou se vive sob domínio de terceiros.

A tensão social vivida pelos agentes intensifica a forma violenta de sociabilidade. Para Norbert Elias, a tensão social cotidiana produz o stress, o qual seria dissolvido pela excitação agradável, desencadeada pelo nível de ausência de controle dos conflitos miméticos. Assim, é considerado que o nível de excitação é inversamente proporcional ao controle – quanto mais regras um jogo tem, menos stress seria dissolvido.

Acrescenta Elias, em A busca da excitação (p. 95): “Por outras palavras, o que procuro dizer é que a sociedade que não oferece aos seus membros, e em especial, aos mais jovens, oportunidades suficientes para a excitação agradável de uma luta que não existe, mas pode envolver, força e técnica corporal pode, indevidamente, arriscar-se a entorpecer a vida dos seus membros; pode não proporcionar corretivos complementares suficientes para as tensões não excitantes produzidas pelas rotinas regulares da vida social”.

A Torcida Organizada já é a estrutura de conflito mimético que proporciona a excitação agradável necessária para aliviar o stress deste agrupamento social em particular. O que é pungente na política atual de combate à violência é a proibição do mecanismo em si, que não diminui em nada a real violência cotidiana da cidade, ou mesmo em dias de jogos. As disputas que as T.Os. geram são de ordem prioritariamente simbólicas, portanto, propícias a incorporar conflitos de naturezas outras, como as de ordem religiosa, tradicional, financeira e principalmente de ordem territorial, mais vulgar, portanto, mais frequentes.

Sendo as torcidas mecanismos de sociabilidades, não há efeito minimizador dos quadros conflitivos, no caso de extinção destas; assim como não houve efeito quando da proibição dos bailes funk a partir de 2001 na cidade de Fortaleza. Entretanto, a organização dos bailes não tinha influência nos agentes sociais que o habitavam; já as torcidas detêm estrutura que potencialmente acessam, através do capital social, os agentes em questão.

Daqui por diante frisaremos a ideia de um modo particular dos torcedores se socializarem. A formação das torcidas é composta por grupos divididos por bairros; não raro podemos visualizar a mesma distribuição cartográfica da cidade em que a torcida foi fundada. A Torcida Uniformizada do Fortaleza era dividida por núcleos, podendo cada núcleo ser formado por um ou mais bairros da cidade ou por cidades inteiras do interior, como o 2° núcleo que era composto pelos componentes moradores do bairro Pio XII, ou o 8° referente aos moradores do Pirambu, os moradores da Caucaia e Aquiraz, zona metropolitana da capital, 69° e 55° núcleos, respectivamente. No ano de 2004, a TUF contava com mais de 60 núcleos, hoje a torcida é composta por mais de 80.

A composição da torcida Cearamor não difere muito, somando número muito semelhante de subdivisões. Cada uma destas conta com o que seus componentes chamam de “cabeça”, membro que é responsável por um núcleo ou bairro. Estes são escolhidos por sua distinção frente aos demais, através de sua influência, poder de persuasão e comando que exercem nos componentes do grupo. Não se trata de uma eleição democrática em que todos votam, mas na escolha consensual cotidiana em que o “cabeça” está sendo colocado à prova a cada decisão tomada, a cada percurso proposto. Ser “cabeça” de bairro é mais que impor suas vontades, trata-se majoritariamente de perpetuar a coesão do seu grupo, de ser escutado e respeitado por todos, sendo, não raramente, árbitro de conflitos.

A proposta de mediação de conflitos é um importante método pacificador das comunidades em permanente tensão. Contudo, existem diversas formas de sua aplicação que se distinguem tanto pelos locais, quanto pelos métodos. Assim, afirmo com convicção que não há meios para desenvolver metodologia eficaz que não sejam através de análise empírica da forma de sociabilidade em que se pretende intervir.

[1] FONTE: Tabela 2.2.2 Mapa da Violência 2014

2 FONTE: Tabela 3.1.4 Mapa da Violência 2014

Materiais complementares:

Mapa da Violência 2014: http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2014/Mapa2014_JovensBrasil_Preliminar.pdf

THOMPSON, Hunter S. Hell’s Angels, Trad. Ludimila Hashimoto, Porto Alegre, RS: L&PM, 2010.

FERNANDES, Kamila. Folha de São Paulo, 2001 http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u24097.shtml

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, Tradução: Fernando Tomaz (Portugês de Portugal) – 15ª ed. – Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2011

ELIAS, Norbert. A busca da excitação. Lisboa: Difusão Editorial, 1992.

Tratar de forma igualitária os consumidores e dependentes das drogas lícitas e ilícitas

Por Airton Lima

Com a possibilidade da campanha de combate às drogas deixar de ser, entre outras possibilidades, um reles instrumento político em defesa de uma oferta exclusiva da bebida alcoólica, enaltecendo os malefícios das demais drogas em detrimento dos malefícios desta mercadoria, fica o dependente do psicoativo etanol “cortando prego” com a possibilidade de a ética chegar ao mercado e, consequentemente, transformá-lo em mais um criminoso, agora produtivo, a serviço de uma fabriqueta de joias num desses presídios criados pelo capitalismo.

Estas estão agravadas, pois que nas relações de poder, o fato de um indivíduo consumir uma determinada droga faz a diferença, de forma que, nas relações sociais, de caráter competitivo, ao mesmo tempo em que se fazem excludentes geram inúmeros conflitos pessoais e coletivos para a sociedade. Nestas condições, os profissionais ligados aos três poderes, ocupando posições e cargos nas mais diversas instituições e/ou entidades públicas e/ou privadas se sobrepõem socialmente aos consumidores das demais drogas. Assim sendo, a produção social da bebida alcoólica se faz proba de julgar e condenar judicialmente os consumidores das demais drogas.

Portanto, se a bebida alcoólica for juridicamente incluída como droga, nossa hipótese é de que tal fato desencadearia tensões e conflitos capazes de ameaçar a estabilidade do Estado. Por outro lado, mais precisamente nas celas excessivamente excessivas de excessos, temendo mais as leis do mercado que mesmo as leis divinas, que tanto tardam como falham, ficam as já vítimas desse mercado, preocupadas com tal possibilidade na evidência que se estabeleçam novos concorrentes ao desconto de pena.

Em se fazendo possível tal possibilidade, é bem provável que surja uma outra abordagem para a questão do mercado de droga, visto que tal possibilidade acarretaria grandes prejuízos, não só à moral católica, como aos investidores desse tipo de droga. Assim, é bem possível que essa possibilidade não passe de mais uma possibilidade. Mas como tudo é possível, é bem possível que se torne impossível que essa possibilidade deixe de ser possível.

Assim, na possibilidade de ser fazer possível, o provável é que o mercado e todos os seus mercadores refaçam, em defesa própria, o grande engodo que criaram ao estabelecer tais leis de mercado. De forma que surja a possibilidade de saírem juntos tanto os traficantes de drogas lícitas como os comerciantes de drogas ilícitas, numa nova campanha: por uma outra ética, a ética do livre mercado. Isto, evidentemente, se a possibilidade do consumidor livre se fizer possível.

13_Jeremy-Mann_sobre a rua

Sobre o amor e a rua

(Foto: pintura de  Jeremy Mann)

João Ernesto

De um ponto a outro da cidade o caminho que percorremos é o atalho da preguiça, ou o caminho atento aos detalhes. Na rua encontramos o que não se espera, acontecimentos e paisagens difíceis de rotular. Qual sentimento você carrega na sua sacola? É abuso, cansaço para sentir a rua? E predisposição para as surpresas? Estamos sujeitos a aceitar qualquer tipo de publicidade na rua como normal, mas se alguém balançar uma lata de spray perto de um muro os olhos se voltam com desaprovação e um sentimento de ódio se instala entre quem enxerga e quem arrisca… a menos que seja um grafite-arco-íris, como se a arte só pudesse ser paliativa, comprimido placebo pra uma cidade cinza. O pragmatismo é muito pouco sentimento para a rua, não abarca sentimento como o amor, não traduz, se espreguiçando sobre a imagem isolada do outro. O pragmatismo é um apartamento, o amor é a Rua que habita dentro de nós.

É certo mesmo tomar as ruas de assalto em benefício a um produto ou uma empresa? Quantos prédios históricos terão que ser derrubados em prol da famigerada especulação imobiliária em Fortaleza? Quantas árvores centenárias terão que ser derrubadas? Quantas memórias não temos e nunca vamos ter pelo fato de que elas simplesmente foram engolidas pelo tempo e pela ganância contida nessa pressa em tentar modernizar Fortaleza? No período de carnaval é um oba-oba só por conta da ocupação pelas pessoas, mas durante o resto do ano é cada um com seu olhar fixo e seu andar apressado. Durante o resto do ano é aquela preguiça em frequentar esses espaços, muitos com medo, outros tantos com a fadiga típica de quem precisa estar cercado pra se sentir seguro. Claro que existe uma parcela que se joga na maravilha que é sentir-se livre na rua, mas convenhamos que ainda é uma parcela muito pequena, imersa em uma população que tá mais preocupada em exibir os tostões na tentativa de demonstrar uma felicidade que não tem.

Chão de estrelas

Olhar os morros durante a noite e perceber quantas luzes estão acesas, quanta gente habitando ali, formando um grande chão de estrelas. Nos prédios enormes das construtoras vê-se pouquíssimas luzes acesas nos apartamentos, poucas vidas naqueles falos de concreto que rasgam o céu. E o espaço é de quem? E a ideia de rua que vamos deixar pros nossos filhos? E o amor vai ser um sentimento pra gente ter nostalgia, que vai depender de uma cartilha como se portar perante o sentimento desconhecido. Nesse momento a “paixão” vai ser uma palavra que entrou em desuso e o pensamento não vai dar mais nome à loucura, castrada. A visão apocalíptica esbarra na utopia do amor e o que fazemos por ele. Fortaleza continua esse anseio de rua, mas as atividades são pontuais. As crianças da Aldeota não sabem o que é viver a rua em um domingo como em Belém do Pará. Vivemos no carnaval uma ressaca de longos dias sem a rua fazer parte do nosso cotidiano e ao redor das nossas casas vemos uma sensação de quase abandono no resto do ano. E a Nossa cidade vai ficando a passeio automotivo, como se os pontos de partida e chegada já excluíssem o caminho.

“o viajante era um cara que ficava viajando de um lugar pro outro lugar

Sem parar

Até que um dia ele começou a viajar

De um lugar para dentro daquele mesmo lugar”

(Jorge Mautner e Zé Ramalho – Negros Blues)

O viajante de Mautner passou a ensejar descobrir novas cidades e novas ruas por onde ele sempre passou. Buscar propor novas concepções é uma busca constante para o viajante, o que faz a cidade sempre se encontrar na iminência de uma ocupação mais intensa. Se é carência o sentimento que temos em Fortaleza, a gente estende essa situação para o nome da cidade. A metáfora de cada cidadão levantando suas fortalezas é um problema que vemos e naturalizamos. A cidade que queremos não se arquiteta na cabeça, não se aquieta na utopia. É nossa subjetividade junto com toda a subjetividade das ruas. Todas suas histórias, todas suas personagens que carregam suas vivências nesses espaços, daí que trazemos nossos afetos. Não lembro ao certo quando foi meu primeiro banho de chuva, mas algumas ruas guardam sentimentos intensos e lembranças de banhos divertidos. Lembranças que guardamos com um amor espacial. Como manifestar esse sentimento de amor nesses espaços? Propor novas ocupações é só o início para que nossa fortaleza seja a rua e compreender que a Rua é a nossa Fortaleza. Faremos da nossa cidade o contrário do que tentam vender como Ela.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

05_NanáII

Naná

(Foto: Rafael Martins)

Por João Ernesto

Naná foi buscar seu celular na lua

Montado no seu berimbau mágico

Trilha de claves e solfejos tirados de seus cabelos enrolados

Foi encontrar outros lampejos

De sons, flautas, batuques

Som de preta natureza

Naná foi e deixou um tanto

Sem medo Naná nunca coube

Na existência

Naná é um segredo.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

poesia silenciosa

Pisoteio

João Ernesto 

chove dentro de mim
mas no estômago é um mormaço
passo a passo fica um incômodo
entranhado num buraco na barriga
como um calafrio suado

Como na calçada
suada
a serpentina rasgada,
o brilho de glitter
e gota de chuva

a ressaca está bem guardada
afiada como um fio de navalha
onde aprendemos a andar descalço
e sapatear na ponta dos pés
bailar sem sapatilha
pliê pra ajudar
a segurar o peso desse mundo
pra não perder a classe
e poder dançar mesmo quando
o mundo é mais pesado
que as pernas
não tem a pressa
de apressar o passo
maior que a perna.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

OsGemeosII

Sangue plúmbeo

(Arte: OsGemeos)

Por João Ernesto

Estourou uma represa de sangue plúmbeo
e a humanidade perde as carapuças.
Seletivamente
as pessoas não descontam mais em presidente
Porque na tragédia
o cúmulo da classe média faz relativizar fatos
fazendo jus a todos os boatos
de descrença
a nós mesmos.
Saindo retaliando,
gerando maniqueísmos
a esmo
sem peso na pele preta
e a burca que encobre
essa cegueira
de gente Branca
que não descansa
em jogar a culpa
nessa carapuça
que te serve tanto.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

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Sibilas

(Arte: Rafael Salvador/Revista Berro)

Por João Ernesto

Enquanto um lado pede
Trabalho
do outro
patrão determina:
nada de poesia até uma hora dessas!
Enquanto o dinheiro for atalho
o outro do outro lado não te deixa escolha
pra ficar até mais tarde
arde o peito conformado
lado a lado com a arte
que
guardada
empoeirada
desbotada
Sibilas no peito
dessas imagens sem jeito
amarradas por gravatas
a nós que abarca
nosso caosCio dos ossos.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

escolaII

A Escola que me Falta

(Arte: Vitor Teixeira)

Por João Ernesto

A escola que me falta
é a mesma que me tem
se um dia eu faço greve
nos outros eu sou refém
de um ensino médio parco
e de uma luz que nunca vem
que eles dizem:
aluno!
hoje dorme a luz de sirene.

A escola que me falta
é a mesma que me tem
de um pesadelo eu tomo nota
já sonhando com o ENEM
que nem pergunta
ao que me importa
essa prova agora
se da minha escola
nem aula tem.

A escola que me falta
é a mesma que me apetece
o “luto” não é pelo fechamento
nem pelo encarceramento,
mas o verbo imperativo
presente!
do escancaramento da questão:
afinal, pra que serve a educação
se não transFormar cidades,
cidadãs e cidadãos?

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…