OsGemeosII

Sangue plúmbeo

(Arte: OsGemeos)

Por João Ernesto

Estourou uma represa de sangue plúmbeo
e a humanidade perde as carapuças.
Seletivamente
as pessoas não descontam mais em presidente
Porque na tragédia
o cúmulo da classe média faz relativizar fatos
fazendo jus a todos os boatos
de descrença
a nós mesmos.
Saindo retaliando,
gerando maniqueísmos
a esmo
sem peso na pele preta
e a burca que encobre
essa cegueira
de gente Branca
que não descansa
em jogar a culpa
nessa carapuça
que te serve tanto.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

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Sibilas

(Arte: Rafael Salvador/Revista Berro)

Por João Ernesto

Enquanto um lado pede
Trabalho
do outro
patrão determina:
nada de poesia até uma hora dessas!
Enquanto o dinheiro for atalho
o outro do outro lado não te deixa escolha
pra ficar até mais tarde
arde o peito conformado
lado a lado com a arte
que
guardada
empoeirada
desbotada
Sibilas no peito
dessas imagens sem jeito
amarradas por gravatas
a nós que abarca
nosso caosCio dos ossos.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

escolaII

A Escola que me Falta

(Arte: Vitor Teixeira)

Por João Ernesto

A escola que me falta
é a mesma que me tem
se um dia eu faço greve
nos outros eu sou refém
de um ensino médio parco
e de uma luz que nunca vem
que eles dizem:
aluno!
hoje dorme a luz de sirene.

A escola que me falta
é a mesma que me tem
de um pesadelo eu tomo nota
já sonhando com o ENEM
que nem pergunta
ao que me importa
essa prova agora
se da minha escola
nem aula tem.

A escola que me falta
é a mesma que me apetece
o “luto” não é pelo fechamento
nem pelo encarceramento,
mas o verbo imperativo
presente!
do escancaramento da questão:
afinal, pra que serve a educação
se não transFormar cidades,
cidadãs e cidadãos?

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

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Passagem

Por João Ernesto

 

Ontem ainda tá passando em mim

Toda hora que se vive ainda passa

E eu caminho pela cidade

Sem notar muito na vaidade das marquises

 

Ontem engoliu a lua e você ainda não passou em mim

Ficou essa tatuagem que me enrola a pele

Esse cheiro de corpo que bebe todo suor

Essa pele oleosa e esse sabor de sal

Cal que emparelha o labor e o cansaço

 

Ontem era um dia mais

E esse riso e esse gozo que não tem mais fim

Deixa um caco de vidro no meio do pé

Que transforma todo pensamento em atalho,

Em quem não existiu

Se não fosse ontem

 

Ontem passou e seria só mais um dia

Se não fosse ontem

Essa viagem em boleia de caminhão,

Descida em carrinho de rolimão

Ventura de um dia que só seria

Se fosse ontem.

 

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

papo de bêbo

O centro é uma cidade

Por João Ernesto

(Foto: Ramon Sales)

O centro de Fortaleza não é o marco zero da cidade, mas é um convite para quem busca conhecê-la. Em um passeio despreocupado por lá você encontra várias manifestações, várias feições e vários desejos. O centro de toda cidade é um cenário ideal de sua população, onde a variedade está lá. As tribos estão lá ainda, coexistindo. Parangabas e Messejanas variadas, complementando esse território em constante movimento.

Além da rua, tem o sonho. Descongestionando a imagem estanque do centro de nossa Fortaleza. As pessoas que por lá passam vão poder ter acesso a outros personagens, a outras impressões. Propor novas trocas no espaço urbano público ou privado, para que esses olhares possam transferir experiências, modificar olhares e que esses olhares possam desenhar novas possibilidades em qualquer outro espaço.

“Deixa eu falar desta rua
Que ninguém pode entender
Deixa eu dizer que ela é cheia
De ouro mas ninguém vê”        

(Pé de Sonhos – Petrucio Maia)

A cidade ainda guarda seus tesouros em suas histórias que quase ninguém vê. Como na música do autor cearense é preciso quem as conte, é preciso de espaços que permitam a gente saber mais sobre ela. Além da rua, ainda tem essa vontade de partilhar o espaço, convite para a contemplação, compreender a rua não só como via de passagem, mas como permanência.

O centro é esse polo de encontro e de coexistência de várias tribos desejantes e que, de quebra, ainda traz essa vontade de conhecer mais sobre nossa cidade. Estar atento aos seus detalhes, aos seus grifos nas paredes e aos gestos de quem nela performa é um ponto de convergência entre o presente e a nossa história.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

negro_à_cabidela

Negro à cabidela

João Ernesto

E mais atentados de agressão
justiças com as próprias mãos
e outras quebradeiras mais.

Tem quem defenda bandido
já que sua mãe não tem muito tempo
e nem muito gosto pelo rebento

mas o que assusta mesmo
é tanta gente branca e “decente”
bem alimentada, banhada
de blusinha regata
tomando a frente
servindo negro à cabidela
defronte a polícia
e tanta gente aplaudindo a ação
achando bonito
“fazendo o que a polícia não faz”.
defendendo bandido.

Que mundo que essa gente vive?
A punição já existe
nas condições em que se nasce
e tapa de polícia é palmatória legal.
Mentir: a imprensa tem seu preço
troca de tiro é desculpa esfarrapada
a bala milica já tinha endereço.

quantas rezas ele precisa
pra passar dos vinte?
quando sai já são dois riscos
bala de polícia,
ônibus que não para,
se para, playboy mete a porrada.

tem um monte de gente branca
vendo isso e esperando o próximo episódio
desse seriado
de quinhentas temporadas.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

a rua

Sobre o amor e a rua

(Foto: Reprodução)

Por João Ernesto

Há muito o questionamento convida mais ao debate do que as afirmativas. O texto é um convite, um saco cheio de questões e pensamentos sobre o que entendemos como rua

De um ponto a outro da cidade o caminho que percorremos é o atalho da preguiça, ou o caminho atento aos detalhes. Na rua encontramos o que não se espera, acontecimentos e paisagens difíceis de rotular. Qual sentimento você carrega na sua sacola? É abuso, cansaço para sentir a rua? E predisposição para as surpresas? Estamos sujeitos a aceitar qualquer tipo de publicidade na rua como normal, mas se alguém balançar uma lata de spray perto de um muro os olhos se voltam com desaprovação e um sentimento de ódio se instala entre quem enxerga e quem arrisca… a menos que seja um grafite-arco-íris, como se a arte só pudesse ser paliativa, comprimido placebo pra uma cidade cinza. O pragmatismo é muito pouco sentimento para a rua, não abarca sentimento como o amor, não traduz, se espreguiçando sobre a imagem isolada do outro. O pragmatismo é um apartamento, o amor é a Rua que habita dentro de nós.

É certo mesmo tomar as ruas de assalto em benefício a um produto ou uma empresa? Quantos prédios históricos terão que ser derrubados em prol da famigerada especulação imobiliária em Fortaleza? Quantas árvores centenárias terão que ser derrubadas? Quantas memórias não temos e nunca vamos ter pelo fato de que elas simplesmente foram engolidas pelo tempo e pela ganância contida nessa pressa em tentar modernizar essa Fortaleza? Nos períodos de pré-carnaval e carnaval é um oba-oba só por conta da ocupação pelas pessoas, mas durante o resto do ano é cada um com seu olhar fixo e seu andar apressado. Durante o resto do ano é aquela preguiça em frequentar esses espaços, muitos com medo, outros tantos com a fadiga típica de quem precisa estar cercado pra se sentir seguro. Claro que existe uma parcela que se joga na maravilha que é sentir-se livre na rua, mas convenhamos que ainda é uma parcela muito pequena, imersa em uma população que tá mais preocupada em exibir os tostões na tentativa de demonstrar uma felicidade que não tem.

Chão de estrelas

Olhar os morros durante a noite e perceber quantas luzes estão acesas, quanta gente habitando ali, formando um grande chão de estrelas. Nos prédios enormes das construtoras veem-se pouquíssimas luzes acesas nos apartamentos, poucas vidas naqueles falos de concreto que rasgam o céu. E o espaço é de quem? E a ideia de rua que vamos deixar pros nossos filhos? E o amor vai ser um sentimento pra gente ter nostalgia, que vai depender de uma cartilha como se portar perante o sentimento desconhecido. Nesse momento a “paixão” vai ser uma palavra que entrou em desuso e o pensamento não vai dar mais nome à loucura, castrada. A visão apocalíptica esbarra na utopia do amor e o que fazemos por ele. Fortaleza continua esse anseio de rua, mas as atividades são pontuais. As crianças da Aldeota não sabem o que é viver a rua em um domingo como em Belém do Pará. Vivemos no carnaval uma ressaca de longos dias sem a rua fazer parte do nosso cotidiano e ao redor das nossas casas vemos uma sensação de quase abandono no resto do ano. E a cidade vai ficando a passeio automotivo, como se os pontos de partida e chegada já excluíssem o caminho.

 

“O viajante era um cara que ficava viajando de um lugar pro outro lugar

Sem parar

Até que um dia ele começou a viajar

De um lugar para dentro daquele mesmo lugar”

(Jorge Mautner e Zé Ramalho – Negros Blues)

 

O viajante de Mautner passou a ensejar descobrir novas cidades e novas ruas por onde ele sempre passou. Buscar propor novas concepções é uma constante para o viajante, o que faz a cidade sempre se encontrar na iminência de uma ocupação mais intensa. Se é carência o sentimento que temos em Fortaleza, a gente estende essa situação para o nome da cidade. A metáfora de cada cidadão levantando suas fortalezas é um problema que vemos e naturalizamos. A cidade que queremos não se arquiteta na cabeça, não se aquieta na utopia. É nossa subjetividade junto com toda a subjetividade das ruas. Todas suas histórias, todos seus personagens que carregam suas vivências nesses espaços, daí que trazemos nossos afetos. Não lembro ao certo quando foi meu primeiro banho de chuva, mas algumas ruas guardam sentimentos intensos e lembranças de banhos divertidos. Lembranças que guardamos com um amor espacial. Como manifestar esse sentimento de amor nesses espaços? Propor novas ocupações é só o início para que nossa fortaleza seja a rua e compreender que a Rua é a nossa Fortaleza. Faremos da nossa cidade o contrário do que tentam vender como Ela.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

medo de altura

Medo de altura

(Foto: Reprodução)

Por João Ernesto 

Sempre tive medo de altura. Ainda bem que os partos são na horizontal e assim eu não tive medo do primeiro salto.

Sempre tive medo de altura e o que mais me incomoda é essa curiosidade que me faz sempre ficar olhando lá pra baixo, não me importa a altura.

O medo de altura – acho que é ele – me faz sonhar voando mesmo sem asas. Me faz sonhar pulando alto, como quem caçasse gaviões ao invés de borboletas.

O medo de altura me faz apaixonado pelo espaço e me faz ficar olhando o quanto nosso mundo é pequeno quando olhado lá de cima (às vezes quase me vejo lá embaixo).

O medo de altura me faz sentir pequeno, mas um pequeno atento ao que importa.

Certo dia o medo de altura me fez pular do vigésimo oitavo andar por pura entrega àquela curiosidade.

E agora estou aqui sabendo de onde vem todo esse sentimento pela altura.

Estou aqui descobrindo quase em gozo que era a curiosidade humana em voar sem asas, em ser pássaro sem penas, e sinto minhas lágrimas subirem meu rosto e virar chuva.

Sinto a boca secar com o vento forte que balança a minha trança.

Sinto sede e me sinto parte.

Abraço o mundo sem sono.

As pessoas são tortas, o mundo não. O mundo é esse caos mesmo, assim, em harmonia.

Olho o chão que se aproxima e sinto que aquele horizonte opaco é só mais um a ser atravessado.

Sou pássaro, sou gente e sou faca amolada, que se quebra ao tocar a carne… e esses segundos que parecem eternos.

Olha ali, mais uma lágrima sobe o meu rosto.

Lembrei de uma amiga que chora ao ver o belo e daqui de cima tudo isso:

o caos, as pessoas e até esses carros parecem mais bonitos.

De agora em diante eu sei que faço parte e

sei que o medo de altura é tesão pelo voar.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

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Para não esquecer

(Foto: Drawlio Joca)

 

Por João Ernesto

Não procurar ser o mesmo nessa quase mesmice

Não sair com a mesma cara amarela nas fotos

Nem sorrir só com os dentes

Nem com a mesma pessoa

pra fingir simpatia

pra ser o mesmo…

O mesmo, camarada…

não é o que a gente tem.

 

O que a gente tem, esse bicho estranho que nunca se cria

Se anuncia quando a gente se cansa em andar de joelhos

Que depois de escutar tantos conselhos

Deixa machucar, sair sangue, centelha

até ficar vermelho!

Se tem dúvida

no quengo, um solavanco

um impulso pro fundo

desliguem o aparelho!

O enfermeiro sumiu…

Na verdade ele nunca existiu.

Era só um sentimento vago,

de branco dorso, pele reluzente

E poucos amigos.

 

É falta de cabimento

não ficar cabendo

tentando e sendo

um ator sem diretriz?

 

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

*Poesia publicada na Revista Berro – Ano 02 – Edição 04 – Julho/Agosto 2015 (a seguir, versão PDF).

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Você pode até incendiar o meu barraco

(Foto: Chico Célio/Revista Berro)

 

Por João Ernesto

Você pode até incendiar o meu barraco

Mas no meu terreiro, cinza é alimento

A minha luta é o teu constrangimento

Em saber que enquanto você tem medo

Toque eu

O meu tambor ou não

Eu piso descalço

Eu calço esse chão

Subo o morro

E nego a contradição escura

Do conto português

Que o colonizador tem poder

Sobre o colonizado

Que faz você ter orgulho do bisavô holandês

E a memória do índio que o conto fez

Virar fumaça

é a culpa da sua desgraça.

 

Olhe, veja bem…

Se nessa contradição toda você enxerga desgraça

É porque pra muita gente a fome não passa

E procurar comida é a única saída

Pra essa farsa que diz

“tá tudo bem, já passa”

De meia noite

E tem gente dormindo na praça

Morrendo de medo dum açoite

Que tem muito playboy que não perdoa

Acende à toa um fósforo

No corpo do índio

Que na cabeça do agressor

Era só um mendigo.

Imagina o que é conviver com esse medo todo?

E ainda quando acorda (se acorda)

Tem que ouvir grito de dono de loja

Olhar pra cara do povo que anda apressado

E ver a gente olhar pro outro lado

Com a mão na bolsa com medo de ser assaltado.

Olhe que num é por nada não, mas essa contradição

 

De shopping dividindo espaço com favela

Num é de hoje não

isso é antigo, a folha tá amarela

de tanto a gente ouvir o discurso do oprimido

pedindo outra condição,

mas essa porra nunca muda

e, enquanto isso, tu vai procurar ganhar mais

explorar mais

e reclamar mais

que a violência tá foda.

 

Foda é outra coisa que esse povo não tem.

Tá pensando que mendigo tem direito à privacidade?

Esse direito foi tirado

E pela normatividade

Amar é crime

‘Prevaricagem, cidadão!’

Mas continuo dizendo que tá foda a situação

E a luta é o re

tiro

certeiro

pra ajeitar esse contexto.

Até porque de tanto falar, o povo ficou sem voz

esse couro grosso

essa pele ardida

cansou a alma oprimida.

De tanto ouvir e nada fazer,

o povo ficou meio surdo.

Essa cegueira toda

que faz a gente dizer que a culpa é do pobre

Nunca da pobreza,

É o mote violento

Do estado e do cidadão.

 

‘ah, quantos são? Deixa eu ver…

É mais de um milhão?

Tá, vou passar a ligação

E o presidente deixou de pronto que entrega a patente

E que resolve deixar o povo

Tocar a revolução.’

 

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

*Poesia publicada na Revista Berro – Ano 02 – Edição 04 – Julho/Agosto 2015 (a seguir, versão PDF).