Mística

Sobre violência, futebol e a “mística daquelas camisas”

(Foto: Fábio Lima e Rodrigo Carvalho, O Povo)

Artur Pires

Desde ontem, 3 de maio, após o extraordinário e inesquecível Clássico-Rei no Castelão, que decidiu o Campeonato Cearense 2015, li e escutei muitos comentários, tanto de torcedores como de “comentaristas” esportivos, sobre a violência protagonizada por fanáticos de ambos os clubes dentro do gramado, após o jogo. E o que tenho notado é um discurso eivado de hipocrisia, marcadamente raso, superficial, que vomita preconceitos e cobra punição aos “vândalos e marginais”, e, como sempre, analisa as consequências dos atos violentos, mas esquece as causas.

Ora, as cenas de violência que vimos pela televisão ou assistimos no estádio são e serão recorrentes numa sociedade violenta, que marginaliza e negligencia pessoas. O futebol, como fenômeno social que é, apenas reflete a violência no qual está inserido. Os alcunhados “vândalos e baderneiros” são os mesmos que cotidianamente sofrem com a truculência policial, com a falta de educação e saúde pública, de lazer, de direito a uma moradia decente, de respeito à sua dignidade, que saem de casa e têm esgotos a céu aberto à sua frente, enfim, que sofrem dia após dia com a violência social; já vivem a apanhar da vida, por assim dizer. Uma sociedade assim espera o que de seus (sobre)viventes? Que respondam com paz e amor à violência diária a que estão submetidos? Ah, meus caros, não é assim que a banda toca. A violência social ricocheteia em todos os desdobramentos dessa mesma sociedade – e o futebol não está alheio a isso!

A verborragia que pede punição aos “vândalos, marginais e baderneiros” é a mesma que pede a redução da maioridade penal ou que vocifera que “bandido bom é bandido morto”. São de fato marginais, mas sabe por quê? Porque estão à margem de um tecido social que os ignora e exclui, que os condena à própria sorte, que os entrega a uma vida em meio à miséria, e que só os vê quando estes respondem com brutalidade à violência social que os vitima e sangra.

A saída não virá com estes discursos à la Capitão Nascimento de punição a qualquer custo. Porque o buraco é muito mais embaixo. O buraco é comprido e largo, tem mais de quatro séculos de exploração e negligência. A questão aqui não é passar a mão na cabeça de torcedores violentos, mas entender suas questões, fazer o saudável e salutar exercício humano da compaixão, de pôr-se no lugar do outro. “Ahhh, mas então tu não se coloca no lugar do pai de família que quer levar seus filhos pro estádio e não pode mais devido aos vândalos?” Claro que me coloco também! Torço profundamente para que isso volte a ocorrer, que pais, mães, filhas e filhos possam ir tranquilamente ao estádio, sem temer problemas. Mas torcer para que isso aconteça passa necessariamente por desconstruir essa visão de que o problema está na conseqüência, ou seja, nos atos violentos – que, queiram aceitar ou não, já são uma resposta -, e não na causa em si, a própria violência social.

A barbárie no futebol não vai desaparecer enquanto não atacarmos as raízes dela, que não estão no futebol, mas numa humanidade completamente entregue a valores distorcidos, que dá iates para uns e a rua como moradia para outros. É raso e hipócrita atacarmos com discursos punitivos as torcidas organizadas, e não percebermos que o que gera tudo isso é o fato de que muitas pessoas não têm sequer o que comer e onde dormir hoje. A selvageria nos campos e estádios é só uma metonímia da desumanização que vivemos!

 

……..

 

Quanto ao jogo em si, faço aqui uma mea culpa: eu desisti, eu desacreditei, Nação Tricolor! No segundo gol do time rival, virei as costas e fui em direção ao portão de saída, esbravejando desgosto, decepção e desilusão. Mas quando me aproximava para pôr os pés na rua, fui contido pela “mística daquelas camisas”. Um sonoro e gigantesco “Êêêêêêêêêêêêê” me fez parar, olhei prum torcedor que tinha um radim de pilha colado ao ouvido e vi que ele gritava de alegria: – Gol do Leão, gol do Leão, dizia. Olhei pro lado e vi centenas de torcedores pulando eufóricos. A ficha não tinha caído. – O que foi, o que foi? perguntei a quem estava na minha frente. – O Leão empatou, empatou!!!

Saí correndo de volta à arquibancada, ainda sem acreditar direito naquilo, querendo confirmação para o que parecia inacreditável! – O que foi, o que foi? Foi gol do Leão? indaguei, querendo apenas escutar que sim. Olhei para o gramado novamente e vi os jogadores tricolores vibrando e os do time rival com a bola ao centro do gramado. Sim, tinha sido gol do Leão! Gol do 40º título cearense de nossa história, que se juntou às 4 conquistas regionais (46, 60, 68 e 70).

Eu fui levado ao estádio pela primeira vez por meu pai, em 1991, aos 6 anos, na final do Campeonato Cearense. Até hoje, nenhum público em Clássico-Rei foi maior que aquele: mais de 60 mil tricolores e alvinegros lotaram o Castelão. O jogo foi 1 a 1, um golaço de Mirandinha para o Leão, e o Fortaleza foi campeão porque havia conquistado 3 turnos contra 1 do Ceará. Para um menino matuto que tinha vindo do interior ver aquele jogo, a experiência foi catártica…  como ontem!

O futebol tem suas mazelas, que vão bem além das brigas nos estádios: o business, a Fifa e as federações são de uma sujeira que enoja; os cartolas e empresários também maculam a imagem do esporte. O que falar então das vitórias e derrotas? Efêmeras, passageiras, nada mais. As vitórias regozijam; as derrotas doem. Ambas atingem o ego. Inflam-no ou murcham-no! São comemorações ou decepções que escapam às nossas mãos rapidamente, fagueiras como o vento. Mas disse tudo isso para concluir que, ainda assim, é impressionante como o futebol mexe com a gente. Tem algo de etéreo nestas derrotas e vitórias, nestas frustrações e catarses, que não cabe às explicações racionais, algo da ordem do sutil e do invisível, que lentamente e com o passar dos anos vai repousando na alma, sedimentando-se no espírito.

Racionalmente falando, sou torcedor do Fortaleza, e sei que o futebol é coisa pequena diante da existência, esta é tão maior; infinita, para se falar a verdade. Um jogo não é algo para se dar tanta importância, porque é assim mesmo: descartável. Um dia se ganha, outro se perde. Nem de longe o “Fortaleza é a minha vida”, como alguns torcedores apregoam por aí, batendo no peito. Minha vida vai bem além do clube que torço. Mas, espiritualmente falando, naquilo que a alma nos diz, numa linguagem que não é humana muito menos racional, tão-somente intuitiva, há uma ligação entre mim e o Fortaleza que eu não sei explicar, só sentir! Há algo de misterioso que eu não codifico tampouco entendo à luz da razão – e nem procuro mais! Apenas sinto! E sinto n´alma, não no ego! Nas vitórias e nas derrotas! Deve ser a “mística daquelas camisas”!

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Vida e morte, João!*

Por Artur Pires

(Fotos: Chico Célio)

E quem era inocente hoje já virou bandido
Pra poder comer um pedaço de pão todo fudido

Banditismo por pura maldade
Banditismo por necessidade
Banditismo por uma questão de classe!
Banditismo por uma questão de classe!

(Chico Science e Nação Zumbi – Banditismo Por uma Questão de Classe)

“É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas” (Gilles Deleuze, Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle).

Fortaleza é um poço profundo de contrastes: quinta maior cidade do Brasil, com mais de 2,5 milhões de habitantes (e uma Região Metropolitana beirando 4 milhões de moradores), tem o maior PIB do Nordeste (R$ 42 bilhões/IBGE), mas é também a mais desigual da região, com vários bolsões de pobreza espalhados por todo o seu território. Segundo o relatório mais recente da ONU sobre aglomerados urbanos (2012), foi considerada a quinta cidade mais desigual do mundo, onde 7% da população detêm mais de um quarto (26%) de toda a riqueza do município. Em um cenário tão contrastante, a figura do “criminoso”, do “bandido social”, aquele que não se resigna às condições miseráveis que a sociedade lhe impõe, é lugar-comum em qualquer periferia.

“Se fosse pedreiro, ganhava mil reais trabalhando o dia todo no sol quente. Se for pra trabalhar de servente, pintor, carpinteiro, o nêgo num sai dali! Se quiser uma coisinha a mais tem que ir pro crime mesmo”, diz João (nome fictício), 31 anos, traficante de drogas na favela da Vila Cazumba, no bairro Cidade dos Funcionários, zona sul da capital cearense. Moreno, de estatura mediana, fala arrastada, unhas compridas, olhos amarronzados e expressivos, cheio de cicatrizes pelo corpo, conversamos com ele em seu barraco, há alguns meses. Se expressa com grandes gestos faciais. As mãos também falam bastante. Durante a prosa, alguns clientes apareceram, mas não foram atendidos. “Peraí mah, tô ocupado, tô dando uma entrevista aqui”, disse ele, com orgulho no tom de voz, enquanto fumava seu baseado bem à vontade.

Voltando à conversa, enfatizou em tom de brincadeira, se espreguiçando na cama onde conversamos (não havia cadeiras no local): “E agora tô aqui ó, ganhando minha céda, sem botar peso nem debaixo do sol quente”, comparando sua ocupação ao de um trabalhador da construção civil. “Dá não mah, pra trabalhar assim não. O sistema é esse, é cruel”, resume, mostrando, grosso modo, porque muitos da favela escolhem o caminho do crime. “Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal, por menos de um real, minha chance era pouca, mas se eu fosse aquele moleque de touca que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca… (Racionais MC´s – Capítulo 4 versículo 3). Consegue, em média, dois mil reais por mês, mas “já teve mês” que tirou mais de três mil reais. Um dos rivais de João no comércio de drogas na Vila Cazumba, o Pistola (nome fictício), que já trafica por ali há mais tempo, arrecada bem mais mensalmente, confessa ele.

A casa onde João mora é alugada por 250 reais; chegou ali há pouco tempo, fugido de um atentado no qual levou seis tiros (mostra as marcas de bala pelo corpo) e passou 35 dias no hospital. Quando saiu da internação hospitalar, decidiu que não era mais hora de voltar pro Jardim Fluminense, comunidade no bairro Canindezinho, zona oeste de Fortaleza. Se instalou na Vila Cazumba. Foi o quinto atentado sofrido por João, que diz escapar por “livramento de Deus”. “O nêgo é vivedor, pivete!”, se orgulha, batendo no peito.

João tem uma história parecida com a de muitos outros Joãos, Josés, Franciscos e Antônios espalhados pelo Brasil, principalmente nas metrópoles. Aos 8 anos, o pai levou-o para um bar e ele experimentou seu primeiro trago de cachaça. O primeiro baseado veio um ano depois, aos 9. A família era muito pobre, o pai alcoólatra e a mãe catando lata de alumínio para sobreviver e alimentar os seis filhos. João, muito novo, ajudava a mãe também catando latas no Bonsucesso, bairro da zona oeste fortalezense. Os pais eram andarilhos; como não tinham casa própria, mudavam constantemente de residência: passaram pelos bairros João XXIII, Serviluz, Lagamar, Castelo Encantado, Alto Alegre, Granja Portugal, Edson Queiroz, e pelas cidades vizinhas Caucaia e Maracanaú. “A situação era braba, nós passava fome. Tinha dia que num tinha o de comer”.

Impressões Mundanas II_siteAos 12 anos, quando moravam no Serviluz, bairro da zona leste conhecido pela comunidade do Titanzinho, deixou de estudar e entendeu o que era o crime. “Fui buscar droga prum cara num canto combinado e ele me deu um qualquer”. Foi só o primeiro passo, já que esse “qualquer”, segundo ele, era muito mais do que conseguia catando latas. Durante a adolescência, foi “avião” de vários traficantes nos lugares onde viveu. Aos 20, assinou carteira como servente, “cavando buraco na tora, o dia todim, de 7 da manhã às 5 da tarde”, casou-se e foi morar no Parque Santa Rosa, “onde entrei de vez pro crime”. De lá, andarilho como os pais, mudou-se ainda para o Parque São José e o Jardim Fluminense. Por algum tempo, conciliou o trabalho de pedreiro com o crime: traficava e praticava assaltos, até o dia em que optou apenas pela atividade criminosa, que era mais lucrativa e lhe dava, sobretudo, reconhecimento social, que a pobreza lhe negava e o crime lhe trazia. Ao longo do casamento de 12 anos, teve três filhos, que hoje têm 11, 8 e 6 de idade. “Moram com a mãe em Horizonte (Região Metropolitana de Fortaleza). Depois que nós se separamo, ela foi morar com os pais dela lá e levou os pivete”. João manda um “dinheirim” pra eles todo mês, que também vão visitá-lo com frequência na Vila Cazumba. “Eles têm que estudar”, diz esperançoso, fazendo olhos de nuvens, que é quando o olhar vagueia e vai ao fantástico, ao indizível; é quando enxergamos mais longe.

A família toda sabe da sua ocupação. “Tentei esconder da minha mãe, mas teve uma hora que não teve jeito, pivete”. Nesse ínterim, abraçou o alcoolismo, como o pai, e viciou-se no crack. “Era aviciado na pedra, fumava no cachimbo e na lata, mas graças a Deus consegui sair dessa desgraça. Hoje, dou só meus tequim (na cocaína) no final de semana mesmo, vez ou outra”.

Vivendo no mundo do crime e sob suas regras, João já teve também que se valer de uma das faces mais perversas da atividade: o homicídio! Ou matava ou morria! São seis ao todo. “A honestidade do bandido é a palavra. Quem não tem palavra é pirangueiro. E pirangueiro morre logo. É o certo pelo certo, pivete. O errado tem que ser cobrado”, diz ele, friamente, sem parecer sentir remorso pelas vidas tiradas. “É uma guerra onde só sobrevive quem atira, quem enquadra a mansão, quem trafica, infelizmente o livro não resolve, o Brasil só me respeita com um revólver” (Facção Central – Isso Aqui é uma Guerra). De fato, o crime tem um movimento próprio, à margem das leis, escapando largamente às normas jurídicas estabelecidas. Há um código de conduta tácito, oral, repassado de geração em geração. Aquele que não o segue, geralmente perde a vida! A atividade do crime, aliada ao fetiche consumista, desumaniza qualquer um. “Na lei da selva, consumir é necessário, compre mais, compre mais, supere o seu adversário, seu status depende da tragédia de alguém; é isso: capitalismo selvagem!” (Racionais MC´s, Mano na porta do bar).

João carrega nas costas quatro delitos previstos no Código Penal: artigos 33 (tráfico de drogas), 121 (homicídio), 155 (roubo/furto) e 157 (assalto a mão armada). Apesar de ser apenas mais um criminoso aos olhos da Justiça e de grande parte da sociedade, ele parece saber por que está ali, naquela condição, e o que de fato move o mundo: “O dinheiro é cruel, pivete, o cara rouba, mata e destrói por causa dele. O que manda na mente do ser humano é o real, é a céda. Nós num precisava trabalhar não mah. Era pra nós poder andar de cavalo, ter água limpa, plantar, comer, ficar deitado numa rede… né assim que o Racionais (MC´s, Vida Loka – parte II) fala? Mas o homem é ambicioso, ele estragou tudo, como o Facção (Central, O Homem estragou tudo) diz”. “Menores carentes se tornam delinquentes e ninguém nada faz pelo futuro dessa gente. A saída é essa vida bandida que levam roubando, matando, morrendo, entre si se acabando. Enquanto homens de poder fingem não ver, não querem saber, fazem o que bem entender. E assim… aumenta a violência. Não somos nós os culpados dessa consequência”? (Racionais MC´s – Tempos Difíceis).

Ainda que convicto de sua escolha, João tem também consciência dos riscos próprios da atividade criminosa: “Tô brincando com a vida, meu futuro é a morte ou cadeia, pivete”. Numa de suas saídas para assaltar, em março de 2014, ao lado de um parceiro, encostaram a moto que ocupavam e bateram com o cano do revólver no vidro do carro que iriam assaltar. Foram respondidos com vários tiros partindo do veículo. Nele, vinha o tenente da Polícia Militar de Pernambuco, Wesley Sávio de Sá Alves, que passava férias em Fortaleza. O caso, ocorrido no bairro nobre Cocó, repercutiu em vários noticiários das imprensas cearense e pernambucana (veja aqui). O tenente foi liberado ao acusar legítima defesa, mesmo tendo atirado mais algumas vezes em João quando ele já estava caído no chão, agonizando. João e seu comparsa morreram ali mesmo, na calçada, antes mesmo da chegada dos primeiros socorros. Estava certo ao prever sua sina: “é morte ou cadeia, pivete”: morte! O trágico é que a morte do “bandido” tem sempre o aval da sociedade, como se sua vida não valesse nada e sua morte fosse sempre desejada.

Lembro que uma das coisas que mais me marcaram na conversa com o João foi o fato dele, mesmo com tanta violência fazendo parte de sua vida cotidiana, ainda sonhar: “Tô cansado desse mundão aí, pivete. Ainda quero viver em paz!”, disse ele, fazendo novamente olhos de nuvens. Que assim seja, João. Que agora esteja!

*Publicado na Revista Berro – Ano 01 – Edição 03 – Dezembro/Janeiro 2015 (aqui, versão PDF)

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Dilma ou Aécio? “Prefiro devolver o Brasil pros índios e pedir desculpas!”

(Charge: Latuff)

O PSDB, na presidência da República, fez um mal danado ao Brasil e aos brasileiros. Em que pese ter controlado a inflação, se aliou, logo de início, com o que de mais podre havia na política nacional, diversos parlamentares viúvos da ditadura, além de uma elite que tinha apoiado e se beneficiado com o golpe, mas, pós-regime militar, posava de democrática. O Partido da Social Democracia Brasileira loteou o Estado brasileiro, enchendo a conta bancária de seus asseclas no processo bilionário das privatizações. O livro “Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., é um importante arquivo histórico sobre essa época. Infindáveis casos de corrupção, como a vergonhosa compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso e o mensalão mineiro, foram colocados para debaixo do tapete pelo Engavetador, ops, Procurador-Geral da República, Geraldo Brindeiro. O PSDB sucateou as universidades federais. Precarizou o serviço público. Endividou o país. Se ajoelhou aos ditames dos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Resumindo, foi um governo desastroso, que deu as bases para a entrada definitiva do Brasil na exploração capitalista do século XXI.

Lembro que na primeira eleição em que pude votar, em 2002, então com 17 anos, empunhávamos bandeiras nos cruzamentos da cidade, colávamos adesivos nos carros, fazíamos apitaços enquanto outros distribuíam panfletos nos semáforos, íamos às praças acompanhar todos os comícios, nos vestíamos orgulhosamente de vermelho, sonhávamos com um governo popular. O Partido dos Trabalhadores (PT) simbolizava o contraponto a tudo o que o PSDB encarnava. Era, para mim e milhões de brasileiros, a esperança viva de que a política poderia estar a serviço do povo. Era, mas não foi!

Tão-logo assumiu a presidência, o PT foi, gradativamente, aliando-se às mesmas figuras tenebrosas que antes eram cúmplices do PSDB: Collor, a família Sarney, Jader Barbalho, Paulo Maluf, Gilberto Kassab, Renan Calheiros, Eunício Oliveira, a família Gomes, os Bornhausen… Depois, aninhou-se a setores que historicamente saquearam o povo brasileiro: o agronegócio, fundamentalistas religiosos, especuladores financeiros, indústria dos alimentos e das bebidas, empreiteiras, etc. Enfim, juntou-se à mesmíssima elite político-econômica que dá as cartas no país desde os tempos coloniais.

Assim como o PSDB não fez nada disso, o PT teve 12 longos anos para fazer a reforma política. Não fez! Teve 12 longos anos para fazer a reforma agrária. Não fez! Teve 12 longos anos para fazer uma nova Lei de Comunicação e democratizar esse setor. Não fez! Teve 12 longos anos para, através de seu programa de governo, informar a sociedade acerca dos riscos da sociedade do consumo. Não fez! Teve 12 longos anos para promover um debate nacional sobre uma nova política de drogas – a atual extermina e encarcera em massa jovens da periferia - e de saúde pública. Não fez! Teve longos 12 anos para uma discussão aprofundada sobre o aborto, que mata muitas mulheres pobres frequentemente em clínicas clandestinas. Não fez! Teve 12 longos anos para promover uma profunda reforma no sistema educacional, que hoje é puramente conteudístico, sem aprofundamento reflexivo – que é o que transforma. Não fez! Pior: na atual campanha, a presidenta afirmou numa entrevista a uma rede de tevê: “Não tenho nada contra Filosofia e Sociologia, mas um currículo com 12 matérias não atrai os jovens”. Ou seja, das doze disciplinas, a mandatária escolheu como bodes-expiatórios justamente as duas que mais estimulam os estudantes ao questionamento, à reflexão. Ao vivo e autenticamente, sem interferências de marqueteiros, Dilma deixava claro quais matérias cortaria da grade, se pudesse. Depois, sua equipe de marketing, temendo perder votos, lançou uma nota em que negava que a presidenta falou em retirar as disciplinas citadas da grade curricular do ensino médio, que tinha sido um mal entendido. Mas o estrago já estava feito!

esquerda e direita
(Charge: Angeli)

E não param por aí as incongruências do Partido dos Trabalhadores, que ao invés de marcar decisivamente suas diferenças, preferiu assemelhar-se ao PSDB. Senão vejamos: criminalizou os servidores federais em greve; perseguiu movimentos sociais que não rezavam da sua cartilha; deu de ombros às demarcações de terras indígenas; colocou o Exército nas ruas e nas favelas para abafar qualquer resistência à sua política de subserviência ao capital financeiro e às grandes corporações; orientou a Polícia Federal para espionar e prender manifestantes que se opuseram à Copa do Mundo e foram às ruas nas manifestações de junho de 2013. Quem esteve protestando em 2013 e na Copa do Mundo sabe que o Governo Federal, em parceria com as polícias militares dos estados, dispôs todo o seu aparato repressor para massacrar os manifestantes, numa atitude fascista. É tragicômica a memória curtíssima de muitas pessoas: grande parte dos que estavam nas manifestações e sofreram atrocidades, no domingo, vão às urnas votar em quem os reprimiu violentamente. Mas as balas de borracha e o cheiro de gás lacrimogêneo ainda estão vivos na lembrança para sabermos quem nos tratou como inimigos! Não que o governo do PSDB fizesse diferente. Mas é porque, no longínquo 2002, eu acreditava que o PT jamais faria algo desse tipo!

“Ah, mas você também está sendo crítico demais sem reconhecer os méritos petistas. E as conquistas sociais? E os milhões de brasileiros pobres agora nas universidades e faculdades técnicas?” Ora, vos digo: isso é apenas mais uma das facetas ocultas do capitalismo! Quanto às novas vagas nas universidades, é importante entender que, nessa sua nova fase, o modo de produção capitalista se expande aos países outrora periféricos – como o Brasil – e, agora, cada vez mais vai requerer quadros superiores e técnicos, quanto mais atomizados melhor, para sua tarefa de manter o macrossistema em pleno funcionamento e ocupar, com muita exploração, a parte do setor excluído da sociedade que não está encarcerada e pode ser perigosa. Daí o programa federal Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), a expansão universitária e as escolas profissionalizantes – as novas “meninas dos olhos” de governantes como Cid Gomes e Aécio Neves – que pululam em todo o Brasil.

Obviamente não há como ser contrário à universalização do ensino. Não é essa a crítica aqui. Mas devemos indagar: que ensino é esse? O fato é que não haverá revolução social no Brasil enquanto a educação, seja ela de base ou superior, não for profundamente transformada em sua essência. Hoje, seja nas escolas, nas universidades e faculdades técnicas, o sistema educacional é encarado como mero depositário de conteúdos específicos. Para verdadeiramente transformar, já diziam mestres como Paulo Freire e Rubem Alves, ele precisa funcionar como uma ferramenta que galvanize o pensamento reflexivo, que estimule a tomada de conscientização. Ainda estamos anos-luz dessa realidade e o PT, como disse anteriormente, teve 12 anos para propor essa mudança radical e significativa, mas não fez – nem sequer minimamente! O PSDB, se estivesse no governo, o faria? Também não, claro que não!

O Brasil, como nação emergente e muito populosa, foi o locus perfeito para a expansão capitalista moderna. Com os países centrais em crise financeira, o capitalismo, que não pode parar de se expandir, cria novas vagas nos mercados da periferia do sistema – e preenche-os com soldados agora “superiores”, especialistas em funções eminentemente técnicas. De preferência, com pessoas antes excluídas, para que, cooptadas a ele, não reflitam mais sobre sua exploração e, capituladas, se resignem e o adotem como modelo de vida ideal. É o espetáculo em seu apogeu. A anestesia para suportar a exploração capitalista dos empregos precarizados vem em doses cavalares de entretenimento – em sua maior parte na tevê – e consumismo. A publicidade, que está em todos os lugares das cidades arquitetonicamente projetadas para ela, faz uso do imagético e atinge camadas profundas da psique coletiva. Parte dessas consequências já tinham sido percebidas entre os anos 50 e 70 do século passado nos países centrais (o tal do G7). “O Estado do Bem-Estar Social, ‘o país de classe média’, ‘o mercado de consumo de massa’, que Lula e Dilma tanto cantam loas, é uma necessidade vital da atual fase da sociedade capitalista, que se espraia agora para nações antes periféricas do sistema. É importante ter cada vez mais consumidores em potencial, uma vez que há uma maior abundância de produtos e serviços que viraram mercadorias” (Ensaio sobre a liberdade).

“Ahh, mas você fala tudo isso e esquece do Bolsa Família, programa revolucionário que tirou mais de 30 milhões de brasileiros da pobreza?” Ora, vos digo mais uma vez: é o capitalismo! Sempre ele, com suas várias faces ocultas. Para falar do Bolsa Família, é interessante entender como surgiu a teoria dos programas de transferência de renda. Ainda na década de 50 do século passado, economistas liberais da Escola de Chicago, adeptos do livre mercado e da não intervenção estatal na economia, como Friedrich Hayek e Milton Friedman, defendiam transferência de renda para os excluídos do processo sócio-econômico. “Existem perdedores; eles são pobres porque são perdedores e é claro que o Estado não pode ser insensível a isso. Como resolve a questão da pobreza? Oferecendo bolsas para alívio da pobreza, não direito social organizado em torno do trabalho”, dizia Hayek, já naquela época.

No início dos 90, o Banco Mundial orienta os países da periferia do sistema a adotarem programas de transferência de renda para mitigar a pobreza. Com isso, dizia o banco, poderia-se identificar, quantificar e qualificar os pobres a partir de cadastros nacionais. Para os banqueiros e teóricos liberais, as bolsas justificavam-se como forma de domesticar qualquer aspecto de uma possível revolta popular devido à miséria. Como disse o Banco Mundial, era importante “identificar e quantificar” os miseráveis para efeito de um maior controle sobre essa massa. Portanto, pasmem!, na raiz de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, estão teorias liberais, intrinsecamente capitalistas.

entre a cruz e a espada
(Charge: Benett)

Seguindo a cartilha neoliberal e as ordens do capital financeiro, o PSDB foi o primeiro a criar programas de transferência de renda no Brasil. Com os tucanos, surgiram cerca de 12 programas desse tipo, com destaque para os Bolsa Alimentação, Bolsa Escola, Auxílio Gás, Brasil Jovem, entre outros. Ao fim do governo FHC, em 31 de dezembro de 2002, cerca de 20 milhões de brasileiros eram atendidos por políticas assistencialistas. O Bolsa Família, no governo petista, foi a unificação de todos os programas do governo tucano em um só. Em 12 anos no poder, o PT ampliou o cadastro de beneficiários para cerca de 50 milhões. O Bolsa Família é ruim por ser, na sua gênese, fruto de teorias capitalistas? Não! Lógico que é um programa paliativo, mas atualmente imprescindível, necessário, uma vez que leva uma renda mínima a milhões de brasileiros que antes passavam fome. Mas, por exatamente ser fruto de teses neoliberais, esconde por trás da aparente benevolência, sua fase oculta, ou seja, sua lógica totalitária de dominação e controle social, posto que não liberta, pelo contrário, controla ainda mais uma massa de miseráveis cujo principal anseio é não voltar nunca mais a passar fome. Por tal motivo, é usado escancaradamente para fins eleitoreiros. Contudo, aposto que se os críticos reacionários do Bolsa Família, aqueles que dizem que o programa “cria vagabundos”, “acomoda as pessoas”, entre outras baboseiras, soubessem que na sua raiz estão teses capitalistas para um maior controle social sobre os excluídos, mudariam rapidinho de opinião sobre o programa.

A bem da verdade, o que ocorre é que grande parte das alardeadas “conquistas” sociais do PT, como a universalização do ensino (esse conteudístico e mercadológico que aí está, que não transforma, que apenas cria mais soldados atomizados para as atividades do capital) e a ampliação dos programas de transferência de renda para um número cada vez maior de brasileiros, não são méritos do governo petista, mas, pasmem!, consequências naturais do modo de produção capitalista do século XXI nos países periféricos. Dentro do marco do capitalismo e seguindo sua receita, qualquer governo, nesse tempo histórico, levaria a cabo “conquistas” muito similares. “Ah, mas o PSDB esteve 8 anos no poder e não fez nada disso!” O PSDB, capacho que é do sistema burguês, deu as bases concretas para que, seguindo a marcha histórica da atividade capitalista – como o PT fez, para dissabor de muita gente –, essas consequências fossem sentidas em médio prazo. Portanto, as tais “conquistas sociais” do PT não são outra coisa senão desdobramentos da ordem capitalista, anteriormente projetados por teóricos e organizações financeiras do capital.

Em resumo, PT e PSDB são irmãos siameses, partidos da ordem. Como diferença artificial, o PT quer o Estado intervindo na economia, o PSDB, o Estado mínimo; mas ambos governando sob a égide do sistema político burguês. A aparente contradição discursiva cortina a unidade de atuação a partir das diretrizes do capital financeiro global. Tucanos e petistas encenam para a plateia de eleitores, mas no frigir dos ovos representam a luta de poderes superficialmente antagônicos, mas essencialmente enredados, que se digladiam para gerir o mesmo sistema sócio-econômico.

Tudo é falso, tudo é mentira: mentira a data oficial do descobrimento do Brasil; mentira a emancipação política; mentira a independência; mentira o juramento do príncipe regente; mentira o segundo reinado; mentira a abolição; mentira a fundação da república; que não passou de uma quartelada; mentira as eleições; mentira a representação parlamentar… O país, de norte a sul, de leste a oeste, está nas mãos ávidas e rapaces de oligarquias constituídas, de negocistas sem escrúpulos, de espertalhões, de politiqueiros cínicos”. (Da seção “cartas” d´ O Estado de S. Paulo, julho de 1924)

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Ensaio sobre o Amor*

(Ilustração: Rafael Salvador)

De início, preciso dizer que querer viver o amor da cabeça aos pés, assim como lindamente cantou Gal (Dê um rolê), não é motivo pra se encabular. E, se ainda não consigo plenamente hoje, saliento que a busca por amor e liberdade é uma constante pra mim. Viver o amor de forma libertária! Porque, penso eu, concordando com o que disse Che (Obra revolucionária), ser revolucionário exige “grandes sentimentos de amor. É impossível pensar um revolucionário autêntico sem esta qualidade”. O mestre Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido) completa: “Não é devido à deterioração a que se submete a palavra amor no mundo capitalista que a revolução vá deixar de ser amorosa”. Digo mais: na atual sociedade do controle e da dominação quase total, amar é uma das virtudes mais preciosas que nos sobraram!

É preciso desfazer também, logo de cara, equívocos muito comuns quando se fala em amor livre, quando se usa essa expressão. O senso comum relaciona logo a três questões:

• primeiro, à promiscuidade. Nada a ver parte I. Pode-se amar livremente sem ser promíscuo, como pode-se amar livremente e ser promíscuo. Como, também, pode-se ser promíscuo sem amar livremente. O amor livre nada tem a ver com a promiscuidade – e vice-versa, porque, corroboro com o que diz Roberto Freire (Utopia e Paixão), é impossível manter a liberação corporal se não lutamos para vencer as opressões invisíveis que controlam nossos corpos;

• segundo, à bi ou à homossexualidade. Nada a ver parte II. Está cheio de casais gays ou bissexuais, como também heterossexuais, que certamente não vivenciam o amor pleno, não o experimentam com liberdade, caem nas mesmas amarras morais, religiosas, sociais (patriarcais), culturais, político-econômicas… Ou seja, a liberdade no amor não é uma questão de gênero, orientação sexual ou coisa do tipo;

• terceiro, à poligamia. Nada a ver parte III. Não há essa relação direta entre amor livre e poligamia. Um casal pode amar-se tão livremente, tão verdadeiramente, tão espontaneamente, que escolhe, de maneira autêntica e autônoma, adotar uma relação exclusivista e monogâmica. Isso é possível, sim, claro, por uma construção social.

Agora, a posse dos corpos, ou melhor, a noção de apropriação dos corpos alheios não é natural, como alguns conceitos moralistas e religiosos tentam nos impor. “É dos mais parasitários e neuróticos o amor que leva uma pessoa a achar a outra um pedaço de si mesma” (Roberto Freire, Utopia e Paixão). Então, se não é natural, não podemos também naturalizar a monogamia (“até que a morte os separe”) como única alternativa possível e viável para o amor. Enfim, o amor livre pode ser vivido numa relação monogâmica, como também numa poligâmica: não existe essa conversa de que uma é do bem e a outra é do mal. O que nos impede de enxergar isso, muitas vezes, é nossa capa moralista (com forte ranço religioso), historicamente construída, que nos cobre com preconceitos e “verdades absolutas”. E aí achamos que a noção de “amor romântico”, um romantismo eivado de autoritarismo patriarcal, é a única e absoluta forma de amar, quando na verdade ela é, de geração em geração, reensinada e reintrojetada em nosso imaginário coletivo por meio de uma pedagogia autoritária e castradora, na família, na escola, na religião, enfim, na sociedade como um todo.

Que fique bem claro: não estou aqui defendendo nenhuma maneira de amar como a certa ou a errada. Seria muita arrogância e, também, ignorância de minha parte dizer que um só caminho é possível. Cairia na mesma dicotomia e no mesmo maniqueísmo que abomino, daqueles que querem castrar e cercear o amor. Estou defendendo é que as formas de amar são múltiplas, amplas, de infinitas possibilidades, que não cabem em padrões homogeneizados, pasteurizados. Cada pessoa envolvida é que vai decidir, de comum acordo com a outra (ou as outras!), baseada na dinâmica e na intensidade da relação, qual a opção que melhor lhes convém. A bem da verdade, o que importa mesmo nas relações amorosas, seja de casal, com os pais, com os(as) filhos(as), com os(as) irmãos(ãs), com os (as) amigos(as), são lealdade e cumplicidade. Mas, desde os primeiros anos de vida, a sociedade do espetáculo nos impõe autoritária e violentamente uma única forma para exercer o amor, com várias restrições.

Contudo, o amor nos é intrínseco, nascemos com ele, porque nos é dado espontaneamente pela Natureza. E ele, dessa forma, é inteiramente livre, sublime. No entanto, ao longo da marcha histórica da humanidade, principalmente no que diz respeito ao chamado “processo civilizatório”, o amor foi sendo enquadrado, moldado a estruturas religiosas, morais, político-econômicas, sociais (patriarcais) e culturais que lhe impuseram uma camisa-de-força. Hoje, na sociedade do consumo, o amor é padronizado como uma receita de bolo. Há passo a passo para “ensinar a arte” de amar, dicas e soluções mágicas para conquistar o amor ideal, autoajuda para os “segredos” do amor, entre outras esquisitices.

ensaio sobre o amor_editadoO conceito de amor para a sociedade contemporânea é cada vez mais restrito, com sérias limitações sociais e existenciais. É preciso reavivar o debate sobre a infinita condição de amar, sem as amarras invisíveis que tentam, a todo custo, sabotá-la. “Porque é um ato de coragem, nunca de medo, o amor é compromisso com os homens. Mas, este compromisso, porque é amoroso, é dialógico” (Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido). Contudo, no contexto atual da sociedade, a dialética proveniente das relações amorosas, que enriquece e expande a consciência e o próprio amor, deu lugar à chantagem emocional; esta está institucionalizada, impera em todas as relações que podem vir a ser amorosas: fraternas, pais-filhos, filhos-pais, casais, educador-educando, etc. Esse ato chantagista não é facilmente perceptível porque se esparrama em representações de afeto. É o dever para obter o prazer; a velha ideologia do sacrifício: para se conseguir vantagens (afetivas ou não) na relação, fazem-se joguinhos emocionais de ameaças, muitas vezes veladas, diluídas em carinhos, abraços, afagos: é a verdadeira imposição de condições (chantagens emocionais) para amar. Ao invés do diálogo, a chantagem!

Se refletirmos a fundo sobre essa questão, percebemos que, sim!, isso ocorre de verdade, inclusive nas nossas famílias, nos namoros e casamentos convencionais, nas relações no trabalho, na escola, na universidade, na religião, com nossas amigas e amigos, e independendo se rico ou pobre. Desde cedo, muito cedo, somos inseridos nessa lógica da chantagem emocional disfarçada de amor. Acompanhadas de expressões faciais ora ameaçadoras, ora afetivas (mas ainda assim autoritárias), frases como essas são rotineiras na sociedade contemporânea:

• na família: “se não fizer a tarefa, não vai passear” ou, pior ainda, “se desobedecer o papai e a mamãe, a gente vai gostar menos de você”; “seu pai – ou sua mãe – está fazendo isso porque te ama” (isso = alguma repressão à liberdade da criança, ou justificando um castigo ou umas palmadas); ou, quando já se é adolescente, “se não estudar, não vai para a festa no fim de semana, ou não empresto o carro” (no caso das famílias classe-medianas pra cima); ou entre irmãos: “se você fizer isso, vou contar pro papai e pra mamãe”, “se você não fizer isso pra mim, vou contar o que você fez naquele dia pro papai e pra mamãe”.

Em suma, mais que os castigos e as palmadas, o que marca decisivamente as relações familiares na sociedade contemporânea, seja na família rica ou na pobre, é a prática indiscriminada da chantagem emocional;

• na escola: “se não fizer a tarefa, não vai poder brincar no recreio”; “se não chegar na hora, não vai participar da excursão”, ou pior, “se não se comportar, vai ser convidado a se retirar da escola”, quando o “se comportar” significa obedecer passivamente às regras burocráticas e autoritárias da maioria das escolas;

• na religião: aqui, nesse caso, há diversas situações que retratam com perfeição a ideologia do sacrifício, o dever para obter o prazer, principalmente nas religiões islâmicas e judaico-cristãs. Nestas, é preciso respeitar e seguir um código de conduta disciplinador e autoritário, geralmente assentado em algum livro-base (Bíblia, Corão, Torá), para se alcançar “a graça, o reino do céu, o paraíso, a salvação”. Padres, pastores, rabinos e islamitas são especialistas na chantagem emocional, ainda que muitas vezes pensem que estão levando os fiéis para um “bom caminho”. Na verdade, estas religiões se ancoram desde sempre no jogo da chantagem emocional com a fé alheia;

• no namoro: “se você for presse lugar sem mim, já sabe, né?”, “tem mais nem tempo pra mim, só quer saber dos(as) amigos(as)”, bem como nas muitas outras chantagens que resultam do ciúme autoritário, do sentimento de posse e apropriação do corpo e da vida alheia, incorporado às dinâmicas das relações dos casais contemporâneos;

• nas relações fraternas, de amizade: “perdeu a história lá ó, foi massa; quem manda num aparecer mais, só quer saber dos(as) novos(as) amigos(as)”.

Reparem: todas as situações retratadas ocorrem normalmente num sentido de disciplinar a pessoa chantageada, de controlar, moldar o chantageado. Muitas dessas situações são construídas de maneira disfarçadamente amorosas, envoltas em olhares “pidões” e palavras de carinho: são as chantagens emocionais travestidas de amor! Os próprios amigos, amantes, pais, filhos, religiosos, educadores e educandos assumem esse papel de chantagista sem, muitas vezes, dar-se conta. Muitos realizam as chantagens pensando – sinceramente! – que estão dando vazão ao amor! Pensam que amar é disciplinar, ou regular, ou controlar, ou impor condições. Confundem chantagem amorosa com amor! Pensam que o amor se dá como moeda de troca numa relação. Nããããoo, nunca!!! O amor é de graça, é livre, é dado espontaneamente, nunca na lógica de permuta!

É preciso fazer um movimento contrário quanto a isso. É preciso estar atento e forte para não cair nas armadilhas que vão tentar vestir uma camisa-de-força na sua maneira de amar. E quanto mais se amarra o amor, mais se estrangula a liberdade, porque os dois caminham juntos, de mãos dadas, alimentam-se um do outro, complementam-se mutuamente, se entrelaçam infinitamente. Quanto mais amor, mais asas à liberdade! E vice-versa! “Como ato de liberdade, não pode ser pretexto para a manipulação, senão gerador de outros atos de liberdade. A não ser assim, não é amor” (Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido).

Para finalizar, só quero dizer que, no meio de tudo isso, alheio às iniciativas inócuas de homogeneizá-lo, o amor continuará lá, aqui, acolá, aonde quer que seja, com sua áurea livre e bonita; rindo, com indisfarçável deboche, das tentativas estéreis de enquadrá-lo a um padrão de comportamento sócio-moral. O amor não tem limites nem receitas prontas, pois assim como a personagem da Morte em Moreira Campos (Dizem que os cães vêem coisas), ele também é antiquíssimo, atual e eterno.

*Publicado na Revista Berro – Ano 01 – Edição 02 – Agosto/Setembro 2014 (aqui, versão PDF)

NO SITE Ensaio sobre a simplicidade 

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Bancada da bala e programas policiais: o circo de horrores ameaça a sociedade

(Charge: adaptação de Latuff)

Passadas as eleições para deputados estaduais e federais no Ceará, constatou-se que infelizmente a “bancada da bala”, como são conhecidos os parlamentares que ganharam vagam no legislativo devido às suas atuações em programas policiais, conseguiu se reeleger: Ferreira Aragão e Ely Aguiar, para estadual, e Vitor Valim, para federal, sem contar os PMs capitão Wagner, o estadual mais votado em toda a história cearense, e cabo Sabino (federal).

A militarização cada vez maior da sociedade e da política e o “medo social” embutido nelas são os responsáveis diretos por estes parlamentares. Quando se fala em militarização da sociedade, não se pode deixar de lado a contribuição terrível que os programas policialescos dão para a implantação do terror social. Estes programas-lixo, que ocupam espaços generosos nas grades de programação das emissoras televisivas em todo o Brasil, são um desserviço à dignidade das pessoas e à luta pela igualdade de direitos; pelo contrário, prestam um enorme serviço ao extermínio de uma juventude periférica e à manutenção e ampliação das injustiças sociais e de uma sociedade cada vez mais militarizada. Aqui no Ceará, o arroz, feijão e bife do almoço e da janta são devorados em meio aos olhos vidrados na tela de tevê, que “delicia” seus telespectadores com muito sangue, assassinatos, chacinas e acontecimentos afins.

Entre as características comuns a esses programas-lixo estão o desprezo pelo entrevistado, quando este é o “bandido” pobre; a carnificina escancarada (quanto mais sangue, melhor); a não discussão acerca da corrupção policial, mas, pelo contrário, a defesa intransigente dos PMs, “os defensores e heróis da população”; a criminalização dos moradores da periferia, que, paradoxalmente, são os principais consumidores desses lixos; a vitimização exacerbada da classe média, que “sofre na mão dos bandidos, esses meliantes que merecem a prisão”; a espetacularização da dor alheia; o desrespeito total e irrestrito à dignidade e aos direitos humanos das pessoas; além da formação de currais eleitorais escondidos por trás de um assistencialismo barato e promoções “engana besta” das mais diversas.

Para uma sociedade melhor, o circo de horrores protagonizado por esses lixos televisivos tem que acabar. Mas o poder público, que poderia impor limitações de conteúdo e banir certas programações, faz vistas grossas. Não dá mais para aceitarmos passivamente estes senhores da guerra vociferando cinicamente contra a violência e a “bandidagem”, quando na verdade contribuem para o adoecimento da sociedade e a tornam ainda mais violenta. Esses programetes banalizam a vida, à medida em que, ao bombardear os telespectadores com assassinatos, execuções sumárias, homicídios, latrocínios etc., naturalizam de tal forma a morte violenta que as pessoas que assistem a esse espetáculo televisivo recheado de sangue à la Tarantino passam a vê-la como normal. E, o que é pior, não se debruçam a analisar as causas da violência (desigualdade social; falta de oportunidades igualitárias; exclusão de uma parcela da sociedade dos processos sociais, educacionais e econômicos; sociedade do consumo, que impõe padrões consumistas, etc.), mas vomitam as consequências (sequestros, assaltos, homicídios, etc.) com altor teor preconceituoso e moralista.

A eleição desses senhores da guerra, que posam hipocritamente de arautos da paz e da harmonia social, para mandatos legislativos, só contribui para o acirramento do fosso social que separa marginalizados e beneficiados pela sociedade do espetáculo. E, paradoxalmente aos seus discursos, só reforçam e ampliam a violência e o medo social.

circo

O circo que era triste

Por trás das montanhas  aonde o Vento gostava de passear e o Sol repousava alaranjado no entardecer, havia um reino bem grande e diverso, abençoado pela Natureza, mas que tinha como rei o Dinheiro e como rainha a Aparência. Nele, havia um circo que, a mando das realezas, de dois em dois anos, percorria todo o território, levando entretenimento – ainda que ilusório – aos habitantes daquela terra. O circo era repleto de palhaços de todos os matizes, dos vermelhos aos amarelos, passando pelos azuis, roxos, verdes e laranjas. Os palhaços eram sem graça na maioria das vezes: quando tentavam fazer rir, não conseguiam, mas quando estavam sérios e prometiam melhorias para o circo, aí sim eram hilários. Os palhaços eram os representantes dali e cuidavam, com muito esmero, dos negócios do picadeiro – sendo acompanhados de perto pelos monarcas, que interferiam o tempo todo no andamento daquele circo. A turma dos leões, chimpanzés e elefantes, coitada!, vivia maltratada. Ao invés da liberdade, a jaula! Mas os palhaços faziam questão de dizer que nenhum dos bichos passava fome e estavam com as jaulas sempre limpinhas. Pão e circo!

Grande parte dos bichos que sofria os maus tratos achava que aquilo era normal, que num circo é isso mesmo: os palhaços dão as ordens e os bichos obedecem, ainda mais se estão sendo alimentados. Na verdade, os palhaços os queriam bem alimentados para que trabalhassem 10, 12, 14 horas por dia!

Outra parte dos bichos maltratados não concordava com aquela “palhaçada” – e pensava radicalmente que a única maneira de acabar com aquela malvadeza seria destruindo por completo o circo e libertando-se dali. Não sabiam ainda como, mas tinham certeza que enquanto existisse aquele circo não seriam, de fato, livres, pois os palhaços eram muito espertos e pareciam sempre tramar pelo controle eterno do picadeiro. Eram chamados de loucos e vândalos pelos bichos que achavam os maus tratos algo normal, e de sonhadores por outra parte dos bichos maltratados; essa também queria mudar as coisas por ali, mas dizia aos bichos “sonhadores” que não precisava destruir o circo, mas apenas trocar os palhaços ruins por palhaços bons, ou, na pior das hipóteses, que se um palhaço bom – representante dos bichos – estivesse entre os palhaços ruins, ele iria lutar para conseguir uma melhor alimentação pros bichos, ainda que estes continuassem enjaulados. Pão e circo!

Essa turma de bichos, que queria mudar o circo, mas não destruí-lo por inteiro, era uma das que, nessas andanças bianuais, trabalhava mais entusiasmada pela manutenção daquele espetáculo circense ilusório, sempre se aliando a algum palhaço – que dizia ser dos palhaços de boas intenções. Ora mais, um só palhaço com boa intenção no meio de uma palhaçada de más intenções não consegue fazer muita coisa senão acrescentar um pouco mais de ração aos bichos.

Passaram-se décadas, séculos e o circo manteve-se incólume às mudanças estruturais. De dois em dois anos, a mesma peregrinação pelos quatros cantos. Os leões, chimpanzés e elefantes continuaram aprisionados. Uma parte deles continuou dizendo que “é assim mesmo”, uma outra que “só destruindo o circo poderemos recomeçar nossas vidas”, ao passo que uma terceira parte diz que “agora vai!”, pois eles têm certeza que o palhaço da vez, representante deles, “vai trabalhar por leis circenses que ponham fim à exploração dos bichos”.

Alheios às aspirações de seus súditos, o rei Dinheiro e a rainha Aparência refestelam-se soberbamente em seus tronos, que não existem – mas todos no reino pensam que sim –  e seguem convictos de que o circo, mesmo decadente mas cheio de pompa, é a ilusão mais real daquele reino e o melhor método para manter palhaços e bichos sob sua realeza!

A Natureza, mãe de todos os bichos – inclusive dos palhaços, do rei e da rainha –, “sabedora” e generosa que é, não interfere, pois abraça a liberdade de seus filhos e filhas. E segue sendo Natureza, sabendo que um raio de sol é encanto e a Aurora encantamento, mas não ilusões. Ela sabe que o brilho da lua é maior do que todos os reinos e do que todas as vivências e filosofias humanas.

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Ensaio sobre a política (ou por que não votar)

(Charge: Latuff)

“Viver é tão gostoso, tão pouco, tão curto, tão inédito. Temos tantas potencialidades ocultas que o certo seria assumirmos tudo o que se manifesta em nós como vida e nos autogerirmos, nos autodeterminarmos, nos autorregularmos, porque somos apenas usuários circunstanciais dessa energia infinita. Nós acabamos, ela não.” (Roberto Freire, Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano)

No próximo domingo, a eleição brasileira chega à sua última parada. Depois de meses de intensas campanhas, disputas sectárias e mais de 70 bilhões de reais gastos (daria para seis anos de pagamento do Bolsa Família ou ainda a mais de 1 milhão de moradias pelo programa “Minha Casa Minha Vida”), o eleitor irá às zonas eleitorais confirmar seu voto! Aliás, o que se confirma na urna?

De início, se confirma um sistema político que se apropria de nossos corpos, mentes e sonhos. Se confirma o mecanismo de controle social e contra-revolucionário mais eficaz que a humanidade já inventou; e que, sob o véu da “democracia”, esconde sua face autoritária e controladora. Se confirma o apego às velhas técnicas de representação político-social, como se as formas de práxis e ação históricas fossem imutáveis. Se confirma a negação da autogestão e da autorregulação humanas. Se confirma o sistema totalitário moderno, que não dá margem à vida senão ao movimento inanimado do capital. A ilusão de que o voto, no atual sistema político burguês, muda alguma coisa é a mais bem engendrada mitificação da mentira em toda a História.

Quem joga o jogo do sistema político, sabe onde está se metendo. Aqueles que têm chances reais de assumir o poder, há muito já transigiram a qualquer tendência revolucionária. Corroboro com Bourdieu (O Poder Simbólico) quando ele diz que todos os partidos que chegam ao poder são antes cooptados por ele. Sem exceção. Sempre acabam presos às articulações políticas do Estado. Os que se mantêm ideologicamente puros ainda não alcançaram o poder, mas ao se lançarem, nas eleições, ávidos por cargos legislativos e executivos contribuem decisivamente para que o sistema se afirme como democrático e, assim, consiga encobrir seu totalitarismo. Longe de serem farinhas do mesmo saco, são farinhas de sacos diferentes com a mesma função: legitimar o sistema burguês, ainda que o critiquem (no caso dos partidos à esquerda, leninistas).  “No fundo, é um paradoxo incrível, as próprias esquerdas, em sua grande parte, trouxeram para dentro das organizações de representação popular a forma burguesa baseada no autoritarismo, centralismo e delegação de autoridade” (Roberto Freire, Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano).

Esse pluralismo de escolha entre partidos (esquerda x direita) é ilusório e amplia as condições objetivas para o controle total dos corpos e dos povos. “Sob as oposições espetaculares esconde-se a unidade da miséria. A contradição oficial se apresenta como a luta de poderes que se constituíram para a gestão do mesmo sistema socioeconômico e que, na verdade, são partes da unidade real; isso, tanto em escala mundial quanto dentro de cada nação (Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo). Não há leis que abarquem o totalitarismo do sistema político do capital. De acordo com Debord, “o que o público pensa, ou prefere, já não tem importância. É isso que fica escondido pelo espetáculo de tantas sondagens de opinião, de eleições, de reestruturações modernizantes”.

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(Ilustração: Luis Quilles)

A oposição a esse sistema é reduzida à mera discussão e encaminhamento de diretrizes alternativas dentro dele, do status quo. “Não apenas uma forma específica de governo ou direção partidária constitui totalitarismo, mas também um sistema específico de produção e distribuição que bem pode ser compatível com o ‘pluralismo’ de partidos, jornais, ‘poderes contrabalançados’, etc.” (Herbert Marcuse, A Ideologia da Sociedade Industrial – O Homem Unidimensional). Nesse sentido, Eduardo Galeano tem um aforismo certeiro: “A liberdade de eleições permite que você escolha o molho com o qual será devorado”.

O fato é que nos últimos vinte anos, no Brasil, os partidos social-democratas (PSDB e PT) imergiram o país de vez na sociedade do consumo. “Ei, peraí, mas o PT alçou milhões de brasileiros à classe média? E as reformas e interiorização das universidades? E as demais conquistas sociais?” Ora, o capitalismo é muito sagaz: não dá murro em ponta de faca. Tais mudanças, obedecendo à marcha histórica do sistema de produção capitalista, ocorreriam em qualquer governo social-democrata, não apenas no petista. Digo, sem medo, que o PMDB, legenda-mor do fisiologismo, faria governo muito similar. Aliás, este partido é o vice do governo petista. Pois é!

O Estado do Bem-Estar Social, “o país de classe média”, “o mercado de consumo de massa”, que Lula e Dilma tanto cantam loas, é uma necessidade vital da atual fase da sociedade capitalista, que se espraia agora para nações antes periféricas do sistema.  É importante ter cada vez mais consumidores em potencial, uma vez que há uma maior abundância de produtos e serviços que viraram mercadorias. “O Estado do Bem-Estar Social é, com toda a sua racionalidade, um Estado de ausência de liberdade porque a sua administração total é restrição sistemática do tempo livre e da inteligência (consciente e inconsciente) capaz de compreender e aperceber-se das possibilidades de autodeterminação” (Herbert Marcuse, A Ideologia da Sociedade Industrial – O Homem Unidimensional). Para o capital, quanto mais pessoas imersas na sociedade do consumo, tão mais disfarçadas se darão as suas condições de totalitarismo. “A ditadura perfeita terá aparência de democracia: uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravidão onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à escravidão do trabalho” (Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo).

“Ah, mas você fala isso porque nunca passou fome!” Confunde-se o tempo todo liberdade com as migalhas que o poder constituído oferece ao povo. E aí acha-se que não se pode combater a fome, a miséria, a pobreza, as injustiças de outras formas senão legitimando o sistema político. Como se o sistema político tivesse o monopólio e a porção mágica da transformação social! Fomos condicionados, programados mental e corporalmente, a acreditar nessa falsa escolha. Repito: a ilusão de que o voto, no atual sistema político burguês, muda alguma coisa é a mais bem engendrada mitificação da farsa, do embuste em toda a História. “A verdade deixou de existir quase em toda parte, ou ficou reduzida a uma hipótese que nunca poderá ser demonstrada. A mentira sem contestação consumou o desaparecimento da opinião pública” (Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo). Esquece-se que a humanidade é criativa demais para se engessar a uma fórmula imutável de representação social por meio do Estado, dos partidos e dos políticos “profissionais” – que, independente se de direita ou de esquerda, no atual sistema político-eleitoral, ao participarem do jogo, só legitimam a sociedade do controle e da dominação do capital. “Já é tempo de jogar na lata do lixo da História as velhas teses do centralismo democrático, sempre, na prática, muito mais centralistas do que democráticas” (Roberto Freire, Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano).

A humanidade é, sim!, capaz de criar novas maneiras de sociabilidade, de participação política,  de convívio, interação, pressão e mobilização sociais. Por que esse apego tão arraigado às velhas ortodoxias teóricas? Por que esse apego à submissão representativa? Por que não caminhamos hoje, agora, para a autorregulação e autogestão dos nossos corpos e vidas? “É uma questão de estratégia de vida: ou eu me autorregulo por inteiro e serei livre, ou sou regulado por alguém e dele serei escravo. Ninguém se faz livre sem desobedecer socialmente. Existem movimentos que pregam a desobediência civil; acreditamos que o protesto político deve ser mais amplo, pregando a desobediência social” (Roberto Freire, Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano).

Não há saídas prontas, estáticas, imutáveis. Não há uma resposta mágica para a libertação da humanidade das amarras invisíveis que a prendem. A luta pela liberdade humana é um jogo dinâmico, lúdico, mas para começar a ocorrer têm que ser destruídas as bases que sustentam o poder autoritário: o Estado e tudo o que nele encontra morada, ou seja, suas instituições – diretas ou indiretas – de controle, disciplina e repressão (mídia, escolas, igrejas, penitenciárias, polícia e instâncias políticas), além da família nuclear burguesa. “A esquerda (e a direita também) mistificam o Estado, como se ele fosse dotado de poderes mágicos, ou de uma racionalidade mágica, capaz de administrar as mudanças sociais em qualquer contexto. A experiência socialista foi suficiente para mostrar a natureza autoritária, em si, do Estado, independente do novo modo de produção no qual ele se inseria” (Roberto Freire, Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano). Concordo com Rousseau (A Origem da Desigualdade) quando ele diz, noutras palavras, que a violência social nasce com a criação do direito de propriedade e, desde então, é consentida pelo Estado e suas leis.

A grande sacada é que não devemos lutar pelo poder autoritário, mas assumir com prazer a luta pela sua destruição. “Ah, mas o poder sempre vai existir na sociedade, não tem como extingui-lo das relações sociais”. Certamente! As relações de poder sempre ocorrerão, são parte da nossa condição de existência. Mas o poder autoritário não é inerente ao ser humano, ou seja, o poder de dominação (ou tão-somente a tentativa de exercê-lo) sobre o outro, seja numa relação pessoal (amistosa), familiar, profissional ou social não é natural à condição humana. Pelo contrário, a natureza do homem, como bicho que é, é por uma vida associativa, gregária, coletiva. Em qualquer processo natural, social e humano, as lideranças são necessárias e importantes, mas devem ser, ao mesmo tempo, antiautoritárias, espontâneas e descartáveis, surgidas para resolver situações circunstanciais e  depois serem naturalmente descartadas.

Conspiração do controle II
(Ilustração: Ricardo Coimbra)

É preciso, portanto, para agora, superar de uma vez por todas as concepções autoritárias leninistas e reformular os conceitos de partido e de transformação revolucionária. O partido que de fato pretende a revolução não deve buscar o poder, mas se juntar aos movimentos sociais, coletivos, cooperativas, comunas como mais um meio na luta pela suplantação do capitalismo (e não cooptá-los, como ocorre com frequência). Deve, também, abandonar o jogo político tradicional e, sobretudo, desconstruir essa visão messiânica e paternalista de que uma cúpula conduzirá as pessoas rumo à “salvação socialista”. É uma concepção pastoral da política, onde o partido é o bom pastor e a massa são as ovelhas. Essa mesma concepção, de fundo religioso, é que faz com que os partidos de esquerda privem-se, hoje, do exercício pleno da liberdade, legitimando o sistema político pedindo votos. Pensam assim: “sacrifício hoje, paraíso amanhã!” Enfim, o partido de fato “revolucionário” deveria virar uma outra coisa, bem diferente do que simboliza hoje, quando não passa de um falso modelo de revolução. Essa construção histórica de utopia distante, lá no horizonte, inalcançável, é autoritária e despotencializadora. Devemos viver nossas utopias hoje, agora, no cotidiano. Não podemos mais esperar. A hora de viver nossos sonhos é a do presente, não do passado e muito menos do futuro.

Importante se faz desacreditar e negar a busca pelo poder autoritário na sociedade, representado em uma de suas muitas facetas pela eleição no sistema político burguês! Não poderemos nunca transformar a sociedade a partir de práticas, estratégias, valores e ferramentas de controle da sociedade burguesa. A delegação do poder a representantes políticos, via voto, é um dos maiores impedimentos das potencialidades libertárias da humanidade. Porque, ao delegarmos poder a alguém por procuração eleitoral, acontece que, ao invés de exercer o poder por nós, esse representante exercerá o poder sobre nós. “Há, num nível mais profundo, uma visão equivocada do próprio homem, como se, diante de uma planta, diante da vida, nós não confiássemos no potencial da semente e achássemos que a natureza tem defeitos inerentes a ela e que se não ‘cuidarmos’, a vida se desorganiza, se destrói” (Roberto Freire, Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano). Abdicamos, assim, da nossa liberdade e da nossa autonomia, nos negamos a nos autogerirmos, ao contrário do que fazem as sementes, as plantas, e outras sociedades animais, que, naturalmente, se auto-organizam. Estamos dizendo, em outras palavras, ao delegar o poder por meio do voto, que preferimos que nos regulem, que nos controlem a nos autorregularmos. Estamos abrindo mão de nós mesmos!

A políticConspiração do controlea não se faz tão-somente nos partidos, ou nas instâncias políticas tradicionais, ou especificamente nas eleições, quando votamos. Fazemos política o tempo todo, com nossa família, com nossos(as) amigos(as) e companheiros(as), no trabalho, na escola, na faculdade, na mesa de bar, nas horas de lazer, enfim, a política permeia nossa existência, ela é inerente à condição humana. A tentativa de “despolitização” do ser, ou seja, de dissociação do ser humano da atividade política, que as ortodoxias teóricas e o sistema político tradicional fazem crer, tem como funções primordiais manter a capa de dominação a que estamos submetidos e atomizar os indivíduos, programando-os para as armadilhas do jogo político: compre, vote, obedeça às leis.

“Ah, você fala tudo isso mas vive contradições do mesmo jeito de quem vota”. Certamente, as contradições são próprias de quem tenta resistir dentro de uma sociedade capitalista. Quem não as vive, já foi cooptado pelo espetáculo. Temos de aprender a beber nestas contradições, sem sentimentos de culpa imobilizantes, mas, mesmo vivendo-as, ressignificando-as e transformando-as em profunda fonte de energia que nos empurre, prazerosamente, na caminhada da sociedade livre que sonhamos. Contudo, dentre as incoerências, legitimar o sistema político – assim como abraçar o consumismo – não é apenas uma contradição de quem luta contra o capitalismo, mas uma ajuda, um estímulo, uma força danada para que ele continue a promover miséria e a controlar nossos corpos, mentes e sonhos. Essa contradição é um fardo muito grande; e esse fardo não posso carregar.

A negação ao sistema político é, sim, um grito de liberdade, como são as negações ao racismo, ao machismo, à homofobia, ao consumismo, ao movimento inanimado do capital e suas aparências. A liberdade é um processo, não uma circunstância que lhe apresentam, não um direito que lhe dão. Ela não é dada por ninguém, é arrancada à força! A liberdade já começa quando sonhamos em ser livres.

Estas reflexões podem ser rotuladas de bonitas, mas política e socialmente inviáveis por aqueles que acham a autoridade, o partido, o Estado, o poder enfim, o mestre da transformação social” (Roberto Freire, Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano).

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O “cidadão de bem” também aperta o gatilho

(Ilustrações: Latuff)

Na última semana, as redes sociais compartilharam um vídeo de um policial matando à queima-roupa um camelô no centro de São Paulo, que tentou tomar-lhe o spray de pimenta. À cena bárbara, foram acompanhados comentários indignados com o despreparo e a banalidade policial pela vida, mas em sua maioria houve uma enxurrada de aforismos fascistas, como “quem procura, acha”, “quem mandou tentar pegar o spray do policial”, “mereceu!”, etc.

Essa morte ganhou notoriedade porque foi filmada, registrada. Mas imagine o tanto de pessoas que estão sendo mortas da mesma forma, à queima-roupa, por policiais exatamente agora, em algum lugar do Brasil. A polícia brasileira é a que mais mata no mundo. De acordo com dados do 7º anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2013, cinco pessoas são mortas por dia no Brasil pela polícia, em média. Só no ano passado, as polícias do Rio de Janeiro e de São Paulo mataram mais do que todos os países com pena de morte no mundo. E, aqui pra nós, sabemos quem a polícia está matando. Não são os moradores do Cocó, da Aldeota, do Meireles, do Dionísio Torres, mas os do Tancredo Neves, do Pirambu, do Lagamar, do Conjunto Palmeiras, do Curió, enfim, quem morre pela ação policial é morador da favela!

A verdade é que a instituição polícia existe tão-somente para manter o estado das coisas; ela é uma das maiores guardiãs do status quo. Não traz segurança e proteção a todos, mas sim a uma minoria privilegiada em detrimento de uma maioria miserável. Funciona dessa maneira o modus operandi policial: protege-se a elite e a classe média, que os classifica como defensores da lei e da ordem, e criminaliza-se a pobreza e a negritude. Se for pobre e preto, meu deus, é um criminoso em potencial. Mas aí, quando a Senzala, não mais aguentando ser mantida por tantos séculos à margem dos processos sociais, políticos, econômicos e educacionais do país, parte para o confronto – que não é nada mais do que consequência direta e anunciada de um sistema que exclui e desiguala por natureza -, quem está lá para defender a Casa Grande? Logicamente, a polícia, que presta proteção fiel aos “sinhôzinhos” – que, ainda assim, se encastelam em suas casas rodeadas de muros altos, cercas elétricas… e, por via das dúvidas, uma Ponto 40 engatilhada, pronta para ser descarregada.

À parte essa simpatia toda com os donos do poder – e o olhar vulgar e atravessado, além do tratamento violento aos herdeiros da Senzala, grande parte dos policiais ainda se empenha, disciplinados que são, em doutorar-se na “arte” de abarrotar os bolsos com extorsões e práticas de corrupção de toda ordem. “Comer o troco”, gíria para pegar dinheiro de extorsão, é linguajar comum entre eles e prática banal na relação entre polícia e tráfico.

mídiaApesar de todo o papel coercitivo e violento que a polícia representa para a sociedade, esta, de tão anômala, classifica aquela instituição como mantenedora da “ordem” – quando a tal ordem é nada mais do que o padrão burguês de privilégios a uma minoria em detrimento do povo. O resultado desse condicionamento social é trágico: a anomalia da nossa sociedade, mergulhada num sistema desigual e alienante, que privilegia o dinheiro e a propriedade em detrimento dos seres, encaixa-se perfeitamente com a função “social” de coerção e repressão que a polícia desempenha.

Você já fez o simples exercício de parar um pouco das suas preocupações individuais e pensou sobre isso: 5 pessoas por dia mortas pela polícia? A cada 24 horas, a polícia brasileira está matando 5 pessoas! Não existe pena de morte no Brasil? Tem certeza? É importante que paremos de pensar o mundo e a sociedade que estamos inseridos apenas por nossos umbigos. Há algo de muito doentio num tecido social que normaliza tudo isso. Chegamos a um momento de desumanização tão gritante que normalizamos o extermínio de um grupo social (os oprimidos, os marginalizados) como se isso fosse parte do processo natural da vida. “É assim mesmo!”, dizem muitos. Não, não é!

Ao não fazer absolutamente nada para mudar essa realidade social, ao achar que “é isso mesmo”, que “bandido (pobre) merece morrer”, também se aperta aquele gatilho, junto com o policial. Você, “cidadão de bem”, jura que não, mas, sim, você também atira! O apático social, aquele que trabalha “honestamente” e paga seus impostos, cujas preocupações se resumem às de seu próprio umbigo, está sempre ligeiro para arrotar moralismos eivados de preconceito e tem como maior sonho de vida engordar sua conta bancária, mas dá de ombros à miséria alheia – ou pensa que se importa ao dar uns trocados para um pedinte no sinal ou doar roupas e alimentos para uma instituição de “caridade”, esse é o maior parasita da sociedade. Esse é o “cidadão de bem”, que aplaude e estimula a letalidade policial. Ele pode estar em muitos locais: na tevê, apresentando um programa policial, de entretenimento ou um telejornal, dentro de alguma casa legislativa, no comando de um governo, num fórum, num tribunal, numa igreja, templo ou sinagoga, numa instituição de “caridade”, numa reunião de negócios, comandando uma multinacional, e tantos outros cantos… Mas ele também estará sempre lá, ao lado do policial na hora do disparo, segurando a pistola e apertando o gatilho!

Pelo fim da Polícia Militar!

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usuário crack - jangadeiroonline

O fantasma perturbador por trás da pancada

(Foto: Jangadeiro On-Line)

Quando, aos 28 anos de idade, após muito pensar sobre a atitude que iria tomar, José (nome fictício para as iniciais A.O.A.) tragou sua primeira pedra de crack, jamais passou pela sua cabeça que, hoje, aos 43 anos, ainda estaria lutando para fugir de um fantasma que o assombra desde aquele fatídico dia: a dependência. A grande maioria dos adictos ao crack viciou-se na primeira vez que experimentou. O seu altíssimo poder viciante é o que mais tem disseminado essa droga pelas periferias Brasil afora, em que pese, nos últimos anos, ela ter avançado sem pedir licença também na classe média.

José teve seu primeiro contato com as drogas ainda moleque. Aos nove anos, por incentivo de um conhecido mais velho, engoliu goela abaixo o psicotrópico Artane, comumente chamado de “aranha”. Gostou da sensação e passou a automedicar-se com o remédio tarja preta quase que diariamente. Aos 14, a primeira baforada num cigarro de maconha. “Até aí, era tudo legal”, lembra, com ar de saudade nos olhos.

Decidiu buscar outras sensações. Com 18 anos casou-se. Logo em seguida, veio a cocaína. Esta apresentou-se sedutora para José, que, com o passar dos anos, não mais sentindo prazer ao inalá-la, passou, então, a injetá-la diretamente na veia, com a ajuda de seringas descartáveis. “Parecia que você tava nas nuvens”, diz, com uma expressão perdida no olhar, digna de quem mais uma vez vislumbrou no seu imaginário aquela cena de anos atrás.

Foram dez anos levando uma vida de casado “aparentemente” normal. Trabalhou como jornaleiro, operador de máquina de costura, com serviços gerais e até em padaria. Sempre cumprindo com suas “obrigações” de bom marido e pai de dois garotos, hoje com 18 e 6 anos, respectivamente. José era o que podemos chamar de usuário social, aquele que consome drogas – lícitas e ilícitas -, mas consegue ter controle e equilíbrio sobre as mesmas. Até aquele fatídico dia em que deu sua primeira “pancada na pedra”.

De lá para cá, a vida social e familiar de José foi, gradativamente, se esvaindo junto com a pedra que era queimada na lata, virando fumaça. Teve que sair de casa, separou-se da mulher – e também dos filhos, que ficaram com a mãe. “Quando o caba tá fumando isso, perde a noção. Não se lembra de casa, da mulher, de nada”, diz ele.

O crack, sem nenhum moralismo tacanho, destrói e suplanta qualquer aspecto de caráter ético, moral ou humano que seu usuário possa ter. De pai de família e marido “exemplar” a assaltante. Após não ter mais o que tirar de casa, saía à rua à procura de “bobeiras”. Morador do Panamericano, zona oeste de Fortaleza, atravessava toda a cidade para praticar os delitos e não despertar a desconfiança da família tampouco dos vizinhos. “Roubava pelas Aldeota. Quem eu achasse que dava dinheiro, eu escorava”, diz, não demonstrando, à primeira vista, arrependimento algum.

Mais de dez anos de uso do crack arrasaram o aspecto físico de José. A pele negra e áspera mostra-se já castigada e com marcas visíveis do uso prolongado. Os dentes – na verdade, os poucos que ainda possui -, estão todos amarelados e carcomidos. Mas, bravamente, os cabelos ainda não se entregaram às agruras da dependência e do tempo. Estão todos lá, impávidos, ainda bastante pretos e com muito brilho. Pouquíssimos e perdidos cabelos brancos anunciam as mais de quatro décadas vividas. Uma destas sob o fantasma da dependência ao crack.

Contudo, bem mais grave do que a degradação da fisionomia de José, as sequelas sociais, morais e psicológicas apresentam-se ainda com maior nitidez e estão mais impregnadas em sua história de vida. É difícil desassociar-se delas. Muito difícil! É bem provável que Ricardo vá continuar ainda por muitos anos pelejando contra esse espectro da dependência que o ronda desde aquele fatídico dia em que resolveu experimentar. Exemplos como o de José estão aos montes espalhados por todo o Brasil. Homens e mulheres que perderam família, pais, filhos, casa, tudo. Entregam-se de corpo e alma a uma pedrinha pequena, branca ou amarelada, que parece inofensiva, mas que carrega em si um alto teor autodestrutivo!

A história de José ilustra um problema vivido por milhares, quiçá milhões de brasileiros. A epidemia do crack nas grandes capitais e que está se interiorizando já é – sim! – caso de saúde pública e de um olhar mais atencioso por parte do poder público. As iniciativas públicas que até agora se debruçaram sobre a problemática dessa droga ainda se mostram engatinhantes e de tênue eficiência. Longe de um discurso moralista, é preciso ação. O crack, de fato, não é brincadeira não, mermão! A continuar assim, muitos outros Josés, Joãos e Antônios brasileiros serão tragados, juntos com a pancada na lata ou no cachimbo, por esse vilão fantasmagórico – porém muito real, concreto e destruidor.

E agora, José?

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Um Assaré de lembranças

(Ilustrações: Klévisson Viana, na HQ Lampião… Era o cavalo do tempo atrás da besta da vida; 1998, SP, Hedra)

Foi no Assaré, Cariri cearense, que vivi os primeiros anos da minha infância. Nasci em Barbalha (por vontade de minha mãe, que é de lá), também no Cariri (e viajava para lá e para o Crato com frequência para visitar a parentada), mas é do Assaré que carrego as mais remotas reminiscências pueris, lá pelos derradeiros anos da década de 80. Morávamos eu, meus pais e uma das minhas irmãs numa casa simples e bonita, de mureta branca e portãozinho de ferro – à vista de todos os que passavam em frente ao local -, jardim multicor, tomado de flores e plantas, que davam uma suavizada de brisa leve e fagueira ao calor de suar em bicas que fazia por aquelas bandas do sertão caririense.

As samambaias suspensas em jarros se espreguiçavam na varanda, os crótons margeavam os cantos do muro com sua mistura de cores, os beija-flores toda manhã vinham bicar as papoulas e, pintando parte da paisagem do jardim de encarnado, um bouganville vermelho recebia cotidianamente a visita de sabiás e bem-te-vis em seus galhos.

No quintal, mais pés de plantas: goiaba, ata, mostarda, pimenta malagueta, pimentão, tomate, capim santo, erva cidreira e erva doce esverdeavam aquela parte de trás da morada. Os calangos eram vistos aos magotes. Ficavam também por ali as galinhas de capoeira que minha mãe criava. Nesta fase da infância, meus animais de estimação eram os pintinhos. Quando brincava com eles, minha mãe ficava de olho em mim para que não os esmagasse em arrochos desmedidos. Algumas vezes os vi nascer, naquela luta árdua pela liberdade:

“O pinto dentro do ovo
aspirando um mundo novo
não deixa de biliscar,
bate o bico, bate o bico,
bate o bico, tico tico
pra poder se libertar”
(Patativa do Assaré – Lição do Pinto)

De vez em quando, uma galinha mais gorda era escolhida e ia para a panela. Não gostava que lhes torcessem o pescoço para matá-las, mas as adorava ao molho ou à cabidela. Huummmm! Certa vez, mamãe inventou de criar também no quintal um veado, o Bambi, que pouco tempo depois foi morto por uma cobra.

- Tenho impressão de que foi cascavel ou coral – diz ela, ainda hoje.

Só sei que, por conta desse ataque mortal, meus pais eram cheios de cuidados quando eu e Alana, minha irmã, íamos ao quintal:

- Cuidado, vocês, que aí tem cobra. Calcem pelo menos uma chinela – dizia mamãe, com voz firme.

No tempo de chuva, as jias, os cururus e as pererecas saíam do brejo e se entocavam nas matas do jardim e do quintal lá de casa. As rãzinhas corriam pros banheiros. De noite, era um coaxado medonho, mas a gente se acostumava. As cigarras, com seu grito agudo, também surgiam aos montes. Mas eu me vidrava mesmo era nos vaga-lumes e seu piscar de luzinhas mágico.

- Chega, Artur, vem ver um vaga-lume!

E eu saía de onde estivesse, em disparada, para apreciá-lo. E ficava ali, embasbacado, observando-o, até a hora em que ele cansava de se exibir para mim e ia embora.

Na parte interna da morada, móveis amadeirados, escuros e com acabamentos curvilíneos remetiam a um estilo considerado démodé nos dias de hoje. Foi num piso de taco de madeira onde dei meus primeiros passos, ainda cambaleantes, e depois, já craque na arte de andar, brinquei com meu cavalinho feito de cabo de vassoura.

Vilas_AssaréIIIPróximo à casa, na esquina, ficava a bodega do seu Canuto, onde meus pais compravam artigos domésticos e trocavam uma prosa costumeira. Havia também nas proximidades a bodega do seu Pedro: cachaça, querosene e sabão não faltavam nunca. A mulher de seu Pedro, dona Lurdes, vendia o melhor dindim da cidade. Foi ela quem provocou em mim o gosto por picolés.

A Escola Patativa do Assaré, onde aprendi o bê-a-bá, ficava nas redondezas da praça da matriz, a principal da cidade. A nossa casa ficava a três quadras de lá. Às segundas-feiras, fervia naquele quarteirão a feira de alimentos diversos (desde hortaliças a quebra-queixo), fumo de rolo, roupa e o comércio de artigos sertanejos (chapéus, gibões, chicotes, peitorais, alpercatas: tudo em couro). A praça ficava abarrotada. Os poetas do sertão, com suas rabecas e seus cordéis, vinham também de todas as partes. Esbarrões eram frequentes. Vinha gente da serra de Santana, de Amaro, de Genezaré e de Aratama. Até de Saboeiro, Antonina do Norte e Tarrafas.

Meus pais não me deixavam ir só à feira. Claro! Era um meninote de apenas quatro, cinco anos no máximo. Um pingo de gente, de pele preta, grande sinal de nascença nas costas, cabelo de índio, parecendo cortado em cuia, boca e olhos miúdos, curioso e medroso. Ia para lá com mamãe. Quando ela ia, me levava porque percebia meu encanto com aquela miscelânea toda da feira do Assaré. Tipos diversos. Ir àquela feira, que ficava a poucos quarteirões de casa, era como dar a volta ao mundo. Tudo era novo – e tudo era mágico!

- Eita que tá crescendo rápido o minino, dona Ana! – dizia Galego, verdureiro onde mamãe sempre comprava as frutas e verduras lá de casa, bagunçando com seus dedos grossos e peludos os meus cabelos na altura da testa.

- É…. Meu neguim! – dizia ela, toda orgulhosa com a cria, novamente bagunçando meus cabelos à altura da testa.

Após pegar as laranjas, beterrabas, bananas e hortaliças que Galego separava toda segunda-feira para ela, pegava na minha mão e seguíamos o passeio. Entre os tipos da feira, eu observava com mais atenção os sertanejos, aqueles cabras da pele engelhada pelo sol castigante do semiárido, das mãos grossas e calejadas devido ao manejo do arado e da enxada no roçado. Trabalhadores! Enxugavam o suor da fronte com uma rápida passada de mão. A cabaça d´água amarrada à cintura, a camisa de botão aberta na altura do peito e o terço envolto no pescoço:

- Me vê dois rolo pra módi d´eu levar pro Saboeiro!

Fumo de rolo – que era enrolado na palha do milho – e rapadura eram artigos imprescindíveis à feira. Quase sempre passeando entre os feirantes e clientes, lá estava ele, com seu jeito gracioso, simples, prosador, poético: Patativa do Assaré. Toda segunda-feira, descia a serra de Santana, distrito de Assaré, e se misturava à multidão. Quando já estava na cidade, apenas atravessava a rua, pois sua casa em Assaré fica em frente à praça da matriz.

Casas de taipa_AssaréIIPatativa era gênio… E gente! Das melhores! Sua simplicidade era admirável, assim como sua sabedoria. Devido à amizade do poeta com meu pai e com minha mãe, que era professora de Isabel, neta dele, fomos diversas vezes à sua casa em Assaré e uma vez à sua morada na serra de Santana. A casa era simples: taipa e terra batida. Mas a vida deles ali na serra era digna. Não havia barriga roncando de fome; se chovesse, a roça dava conta do sustento. Por isto mesmo, a chuva era a coisa mais aguardada ao longo do ano. Na seca braba, o sertanejo se virava como podia: tanajuras, tejos, pebas e preás iam pro forno. Naquele dia, fomos convidados para um almoço farto: mugunzá, galinha caipira, milho assado, banana maçã, melancia, pamonha, jerimum, canjica, cuscuz. Tudo criado, plantado e colhido ali mesmo. Antes do almoço, quase como um ato ritualístico, Patativa e os seus entornaram uma terça de cachaça, naqueles copos americanos. Glut! De uma vez só, sem fazer careta!

- É pra módi abrí o apititi – disse um dos parentes do poeta que estavam em volta da mesa.

Da casa de Patativa ao lado da praça da matriz, em Assaré, onde fui mais vezes, carrego flashes de memória mais vivos, mais detalhados. A cadeira de balanço na sala, onde ele gostava de se balançar enquanto enrolava seu fumo, já com as mãos trêmulas pelo peso da idade, mas com a habilidade de quem sabia o que estava fazendo; o grande pote de barro sobre o jirau, onde ficava a água que dona Belinha, mulher de Patativa, me servia num caneco de flandre; a moringa; a grande panela de barro; o bule onde era servido o café (meus pais adoravam o café de dona Belinha!); as fotografias familiares antigas, mais parecendo pinturas, decorando as paredes da casa; e, logicamente, toda a prosa, toda a poesia, toda a oralidade extasiante do maior poeta popular de todos os tempos. Eu, minino véi, nem compreendia a grandeza de Patativa à época, mas adorava ouvir as rimas e melodias daquela cantoria, sob a voz nasalada, telúrica e verdadeira do poeta.

Em 1990, meu pai, que era bancário, foi transferido para Redenção, no Maciço de Baturité. Fomos embora do Assaré, mas aqueles anos vividos ali reverberam em mim ainda hoje. Voltamos lá algumas vezes, visitamos Patativa. Ele veio nos visitar certa vez, em meados dos 90, quando já morávamos em Fortaleza. As lembranças do Assaré não estão guardadas na memória à toa. Sempre que ameaço esquecê-las, elas vêm à tona para me reavivar e mostrar a beleza da simplicidade e da sabedoria sertaneja: plantar, colher, comer… viver! Com prosa – e poesia!

Vida eterna a Patativa do Assaré! Porque tem gente que não morre nunca!

Patativa
(Xilogravura/ilustração: Arievaldo Viana)

Mas porém vou lhe contá,
as coisa aqui como é,
sou fio do Ceará,
nascí aqui no Assaré,

Nesta bôa terra nossa
quando é tempo de invernada
bota girmum chega a roça
fica toda encaroçada

Não sendo tempo de fome
sinhô doutô pode crê,
nesta terra o cabra come
até a barriga inchê,
nem carne, nem macarrão,
mas porém mio e feijão
e farinha é a vontade,
ninguém come da ração
como se faz na pensão
lá das rua da cidade

Tô lhe contando a certeza
das coisa do meu sertão,
aqui ninguém tem riqueza
mas porém tem munta ação
(Patativa do Assaré – Ilustrismo Senhô Doutô)