camila pignanessi

Construção

(Foto: Camila Pignanessi)

Débora Suelda

 

A nossa casa.

O nosso pão.

O filósofo mais lindo.

 

Quem diria?

É tanto amor!

É tanto, amor.

 

Eu amo,

Cada gesto teu.

Cada maçã vermelha.

Em todo começo da noite.

 

Débora Suelda é professora, psicóloga nas horas vagas, e expressa os sentimentos que tem do mundo, quase sempre, através de poemas

poesia silenciosa

Prática de “euzar”

Vanessa Dourado

E chega um momento na vida – por motivo desconhecido ou ainda não conhecido – em que queremos estar quietos. Tal qual um livro muito lido e já cansado de ser manuseado, deliciado, anarquizado, apreciado, dividido, solitarizado, comunhado, achado, querido, maldito e bendito.

Queremos estar sós na prateleira tendo somente a companhia daqueles outros livros, que também cansados de tanta troca, querem a reclusão e o silêncio, sem muita explicação, filosofia ou ciência canibal. Este livro deixa de ser um objeto importante que o mundo usa para entender-se, passa a ser um mero conhecedor e deleitador de si, lendo a si mesmo e entendendo suas próprias letras.

Alguns vão chamar de depressão, outros dirão que é crise, e os mais sensíveis chamarão de momento introspectivo. Eu chamo de “euzar” e no meu dicionário isso significa sentir os próprios ossos, o peso do ar e o limite das palavras, além de ser também encontrar o eu perdido no mundo da dinâmica débil que faz com que eu me perca de mim mesma a todo momento.

Nessa minha prática de euzar, sinto-me como Quintana (d)escreveu: o excesso de gente impede de ver as pessoas; e eu quero ver algumas obras específicas dessa prateleira de livros.  Quero essa conexão aprazível do som das cordas do violão com o ar que transforma o silêncio em poema, quero perder as horas sem preocupar-me em quanto elas vão me custar, quero saber o que estes meus cabelos brancos e esta bagagem pesada têm a me dizer.

Vanessa Dourado  é poeta e feminista latino-americana

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O festival

(Arte: D.dê Paiva)

 

Débora Suelda

 

A mulher tomou cachaça

e na roda entrou.

Estava duplamente embriagada,

pelo álcool e pelo tambor…

 

Roda , roda, roda!

 

Movimenta os teus pensamentos,

joga na roda o que o já passou,

junto com aqueles momentos

em que o demônio te encontrou.

 

Roda, roda, roda!

 

Que o mundo também roda com teu girar,

não te iludas nessa roda de amores,

pois, todos estão rodando,

mas tu não continuarás a rodar.

 

Roda, roda, roda!

 

Roda agora,

bem devagar,

imita o balanço das ondas,

e a tua mãe Iemajá.

 

Roda, roda, roda!

 

E reaprende a amar,

na roda em que estás agora,

ele reprova o teu gingar,

e por isso a roda braveja:

- Aqui ele não passará!

 

Débora Suelda é oficialmente professora, mas, psicóloga nas horas vagas, expressa os sentimentos que tem do mundo, quase sempre, através de poemas

cerca

Apesar*

(Foto: Revista Berro)

Talita Nogueira

Como se tudo fosse beleza
A vendedora de flores passeia
Apesar dos pesares meus e teus
Floreia o vermelho escarlate
Como se tudo cessasse pra assistir
Um sorriso se abre a pedir
Que se compre uma flor
Apesar das distâncias e das lágrimas
Apesar das buzinas cantantes
Da falta de estrelas no céu
Do frio e da fome
Passeia a beleza
Como se tudo fossem flores
Como se o mar tivesse calmo
E a respiração tivesse lenta
Como se esbanjassem arco-íris
Como se os amores não errantes
Como se os filhos não ingratos
Como se aplausos
Como se eterno
Como se intenso
É lá que mora a esperança
No sorriso da vendedora de flores
Mesmo que nada haja
Passeiam elas sedutoras
Rubras e sempre
Como se fossem flores

*Poema integrante do livro “Como se fosse verdade”

Talita Nogueira é poetisa com alma extraterrestre, autora do dinozes.blogspot.com, menina, nasceu por acaso e, por acaso, escreve e berra

cuba-embargo

Cuba e Estados Unidos: Do embargo ao amadurecimento político

(Charge: Latuff)

Vanessa Dourado

Um dos argumentos utilizados pelos Estados Unidos para justificar o embargo imposto por aquele país à ilha caribenha é a defesa dos direitos humanos da população cubana. De fato, quem já visitou a ilha percebe que há carência de vários produtos básicos – especialmente daqueles que são industrializados – isso porque o embargo não só proíbe o comércio entre os dois países, mas também com outros países que são aliados comerciais dos estadunidenses.  Além disso, outras medidas também dificultam a vida da população cubana, como a proibição de viagens e o envio de remessas financeiras ao exterior. Tais questões, que tiveram início não somente devido ao embargo, mas também ao congelamento das relações diplomáticas entre os países.

Todavia, para entender o que ocorre entre os dois países é muito importante um breve retorno à história a fim de melhor compreender os fatores que impulsionaram esses acontecimentos.

Cuba foi colônia espanhola e conquistou sua independência em 1901, todavia nunca foi uma nação soberana. Havia um apêndice à sua constituição chamada Emenda Platt que concedia aos Estados Unidos o direito de intervir em assuntos internos, o direito a estabelecer bases militares na ilha e também a monopolizar o comércio interno e externo cubano. Esse conjunto de fatos foi o estopim do estranhamento entre as duas nações, de um lado estavam os norte-americanos, que não queriam abrir mão de sua influência na região, e do outro estava Cuba, que reivindicava ser, de fato, uma nação independente livre da tutela ianque.

Deu-se início então à Revolução Cubana, dirigida pelo advogado Fidel Castro; a guerrilha contra o governo vigente durou três anos (entre 1956 e 1959), e saiu-se vencedora. Em 1959, Castro tomou o poder e instituiu seu regime anti-imperialista, nacionalizando refinarias de petróleo sob comando de empresas norte-americanas. Por sua vez, o governo dos Estados Unidos cancelou toda sua importação de açúcar proveniente da ilha – o país era o maior importador deste produto -, logo depois proibiu também importações de outros produtos, deu-se início ao embargo entre os dois países que dura até hoje.

A partir daí as duas nações passaram a ter uma relação tensa, os Estados Unidos alegando que Cuba não respeitava os direitos civis e a liberdade de expressão – tema contraditório, levando-se em consideração que os Estados Unidos não são nenhum exemplo de respeito à liberdade de expressão. O recente acontecimento envolvendo o Brasil e a forte manipulação midiática são exemplos incontestáveis disso, tampouco se pode dizer que um país que não garante a sindicalização de seus trabalhadores e o direito à greve possa dar muita lição sobre direitos civis e humanos –, e Cuba resistindo às investidas norte-americanas, denunciando o tratamento desumano e racista contra a população negra e a violência contra qualquer nação que não aceitasse sofrer seu processo de manipulação.

Nervos acirrados, no ano de 1961 houve uma tentativa de invasão ao sul de Cuba, a investida era composta por exilados anticastristas e foi apoiada pelas forças armadas americanas e dirigida pela CIA, tratava-se de uma tentativa de derrubar o governo socialista. O governo estadunidense treinou os cubanos que não concordavam com o regime de Castro e que estavam exilados naquele país, a ideia era fazer parecer aos olhos do mundo que os próprios cubados eram contra o regime e também camuflar a participação dos Estados Unidos na invasão, tornando o ataque legítimo e enfraquecendo o regime. Porém a investida falhou, o governo cubano convocou a população civil para defender a nação da invasão, e o evento ficou marcado como um dos maiores fracassos da história dos Estados Unidos em combate, além de desmoralizar o governo norte-americano e colocá-lo em situação vexatória perante a comunidade internacional. O que era para ter derrubado e enfraquecido Castro, demonstrando que sua população não concordava com o regime colocado, acabou por fortalecer ainda mais o líder cubano e o regime vigente.

Depois disso, receoso por novas invasões, Castro resolve aproximar-se ainda mais da União Soviética – também de regime socialista, como Cuba – que instala mísseis nucleares naquele país. A cooperação entre os dois países é recebida pelo governo norte-americano como uma afronta e eminente ameaça, tendo em vista a localização estratégica da ilha. Com o desencadeamento da Guerra Fria, que tinha como mote principal a disputa ideológica entre os regimes capitalista e socialista, a relação entre Cuba e Estados Unidos torna-se ainda mais complicada e as duas nações passam a ser inimigas declaradas.

Recentemente o governo norte-americano iniciou uma reaproximação com o governo de Cuba, o que causou uma enorme polêmica e certo desconforto, principalmente àqueles que ainda acreditam que os países, com regimes ideológicos diferentes, não devam manter relações entre si a fim de não prejudicar a hegemonia capitalista. Todavia, trata-se de uma medida que acaba com o ciclo da Guerra Fria – com a liberdade de presos políticos e a retirada de Cuba da lista de países considerados terroristas pelos Estados Unidos -, e este é um passo importante no processo de evolução e amadurecimento das relações internacionais, eliminando anacronismos históricos que prejudicam o mundo como um todo.

Os recentes acontecimentos e crises econômicas sistemáticas têm demonstrado que o mundo já não comporta um sistema que resolve seus impasses através do terrorismo de mercado, guerras sangrentas e imposição de seus ideais por vias escusas. Se as intenções e vontade política do governo norte-americano forem de fato honestas e comprometidas com questões mais amplas – que não somente seu interesse econômico -, estamos prestes a experimentar um novo marco na história do mundo.

Vanessa Dourado é poeta e feminista latino-americana.

 

 

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Sonho e realidade

(Foto: Ana Bento)

Pedro do Nascimento

SONHO E REALIDADE

“ Há um rochedo negro perto das ondas monótonas

ali eu gravei teu nome para os ruidosos ciclones.”

(Louise Michel, Océaniennes, último quartel do século XIX)

 

I – LUA

Os olhos, a face, o sorriso…

Bioquímica perfeita para o primeiro beijo.

A umidade do beijo e o relevo do corpo

deixou a lua com ciúmes.

A lua era nova, mas cheia de curiosidade.

Ela, a lua, só ficou à iluminar.

A natureza ali do lado, presente!

A luz de velas não fez falta!

Beijá-la, beijá-la…

Só pensava em duas coisas:

amar e pedir para a luz da manhã demorar.

Meus lábios correu-lhe o corpo.

O luar e seu ritmo ditava

o movimento do pardo de cabelos crespo,

amava-a antes mesmo de tudo isso.

Amante do suor, das dúvidas, dos problemas…

daquela mulher!

Amante de corpo e alma? Não.

Cético quando o assunto é alma,

mas um verdadeiro crente da vida material em movimento,

do corpo, jeito, cores…

daquela MULHER!

II – SOL

A luz do sol chegou.

Alguém diz: acorda!

Então, um sentimento ficou

revolta, revolta!

Pois, o sonho acabou e as ondas do MAR estão monótonas.

Vou fugir do banzo! Pensar dentro de uma maloca.

E agora? Voar, voar… sem freios e sem paradas

a jaçana tá sobre o aguapé e vai bater asas.

As lágrimas fazem parte,

e lutar é uma necessidade.

Não vejo minha imagem ser refletida na água como narciso

só vejo a túnica de Néssus da sociedade. Corpo partido!

Pedro do Nascimento é poeta

 

Mario Gomes

Quando eu morrer

(Foto: Jr Panela)

Mário Gomes

Quando eu morrer
Irão distribuir minhas camisas,
Minhas calças, minhas meias, meus sapatos.
As cuecas jogarão fora.
Ninguém usa cueca de defunto.
Irão vascular minha gaveta.
Vão encontrar muita poesia,
Documentos e documentários.
Só sei dizer
Que foi gostoso viver.
Sentir o amor e proteção de minha mãe.
De conhecer meus irmãos, meus amigos.
De vê de perto as mulheres.
Só posso deixar escrito:
“obrigado vida”.

Mário Gomes é um dos ‘caras’ da poesia cearense, apesar dele não “estava nem vendo” pra isso!

Ana_theodora

Rastros de vida

(Foto: Ana Theodora/Flickr)

Bárbara Braz

sobre o fugir
da mesmice
do raso
do fugaz
da incompletude

sobre o fugir
da vida fingida
interpretada
longe do real
do real sentido de ser
estar
sonhar
viver

sobre o fingir em ir-se
e na verdade, não mover-se
a lugar algum
tampouco dentro de si mesmo

envelhece
enruguece
finge-se.

foge!
enquanto há rastros de vida.

Bárbara Braz é assistente social e sonha com uma humanidade em que as pessoas tenham sua dignidade respeitada

Homem-Aquarela

Imprudência nossa de cada dia

(Ilustração: Rafael Salvador)

Vanessa Dourado

 

Viva a imprudência nossa de cada dia

Ao turbilhão de vida sem cor de nossas selvas

 

Celebremos o morrer de nossas células

Dióxidas de veneno

 

Provemos do néctar amargo do amanhecer nazareno

Criemos um novo valor para o dia nosso de cada vida

 

Percamos a sensibilidade de sentir a dor que nos retalha a alma

Pequemos, sejamos monoâmagos

 

Olhemos para os nossos próprios umbigos

Oremos, paguemos uma a uma nossa dívidas

 

E que assim jaza a paz!

 

Vanessa Dourado é professora por formação e poeta de coração