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Torcidas Organizadas: reflexões para além do proibicionismo

Por Raoni Oliveira

Segundo o Mapa da Violência de 2014, entre os anos de 1980 e 2012, a taxa anual média de mortalidade de jovens por homicídios é de 43,4 por 100 mil habitantes, frente a 3,8 homicídios por 100 mil habitantes fora da faixa etária de 15 a 29 anos. São dados alarmantes que indicam a condição de extrema violência em que a juventude brasileira se encontra. Do ano de 1980 a 2012 as mortes por homicídios representaram 28% na população jovem e 2% na população não jovem. Entre os anos de 2002 e 2012, as mortes de jovens por homicídio no território nacional cresceram 8,7%, sendo 27.655 homicídios em 2002 e 30.072 em 2012. Neste mesmo período a taxa de homicídios de jovens no nordeste quase duplicou, elevando-se em 97,1%, totalizando, em 2002, 6.134 jovens mortos, e em 2012, 12.092. No estado do Ceará o avanço dos números é bem mais preocupante, representando um aumento de 218,5% entre os mesmos anos citados anteriormente, sendo 730 homicídios em 2002 e 2.325 em 2012.

Estes números são a representação da dificuldade que as instituições governamentais têm de intervir nos conflitos em que os jovens se encontram. É notório como a utilização da polícia, enquanto agente repressivo, tem sido ineficiente e nada exitosa na função diminutiva da taxa de homicídios. Os números aumentam e a resposta tem se repetido. Em 2001 a violência nos bailes funk repercutia na mídia; a solução encontrada para diminuir os confrontos foi a proibição e criminalização dos eventos.

Notícia da jornalista Kamila Fernandes, no jornal Folha de São Paulo, de 2001, relatava: “A Polícia Civil do Ceará decidiu proibir bailes funks e shows de grupos que toquem esse estilo musical em casas noturnas de Fortaleza, que passa a ser a única capital do país a não permitir os bailes. Alvarás não serão concedidos. [...] Segundo o superintendente da Polícia Civil, José Alberto, se depender dele, não vai haver mais nenhum baile funk em Fortaleza”.

Em 2001 foram proibidos os bailes funk em Fortaleza, mesmo assim a taxa de homicídios de jovens subiu no ano posterior – 54,0 por 100 mil habitantes em 2001 e 56,1 por 100 mil habitantes[1] em 2002, ou seja, foram 730 homicídios de jovens em 2002, 767 em 2003 e 823 em 2004, no ano seguinte tornou a se elevar, 939 homicídios de jovens em 2005[2]. Isto posto, tentaremos subsidiar uma resposta menos ortodoxa, mas potencialmente eficiente no que se refere à mortandade juvenil nas metrópoles brasileiras.

Estes dados são de extrema importância para visualizarmos quem são os sujeitos que mais necessitam de políticas públicas. Assim, de acordo com o Mapa da Violência de 2014, a juventude – faixa etária dos 15 aos 29 anos – é quem mais sofre com o cotidiano hostil das metrópoles. Também são os jovens que compõem majoritariamente as torcidas organizadas, são os mesmo jovens que são vítimas de mortes violentas e que sofrem com disputas territoriais de seus bairros.

É difícil supor o número total de Torcidas Organizadas no Brasil. Só em Fortaleza podemos contabilizar pelo menos dez, porém vamos nos propor a refletir sobre as que aglomeram maior número de jovens: Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF) e Jovem Garra Tricolor (JGT), do Fortaleza Esporte Clube; e Torcida Organizada Cearamor (TOC) e Movimento Organizado Força Independente (M.O.F.I.), do Ceará Sporting Club. As duas maiores (TUF e Cearamor) exercem influência direta em cerca de vinte e cinco mil jovens (números não oficiais); estes geralmente moradores de bairros periféricos da cidade.

Para propormos qualquer ação, devemos, antes, entender como e em que sentido estes jovens se juntam. É sabido que a juventude se organiza em torno de algumas esferas socioculturais específicas (música, dança, escola, bairro). Como já foi dito anteriormente, o baile funk já foi o espaço de maior aglomeração juvenil na cidade. Centenas e até milhares de jovens se deslocavam de seus bairros para frequentar bailes em que as disputas territoriais, já vivenciadas por estes em seus lugares de moradia, tomavam sua forma mais concreta e explícita.

Os clubes em que estes eventos aconteciam ficavam repletos de jovens em busca de confrontos simulados, a fim de experimentar a excitação que apenas o elevado nível de descontrole da situação lhes proporcionaria, como teorizou Norbert Elias, em A busca da excitação. É evidente que nenhuma violência está sendo defendida, mas sim destacada a necessidade de compreensão, para que possa haver uma intervenção contundente e eficiente por parte dos órgãos que se propõem a findar com os conflitos em questão.

Através de estudo produzido ao longo de mais de cinco anos, foi possível observar que a intencionalidade em que a violência existente nas T.Os. se baseia está intimamente ligada ao que Bourdieu, em O poder simbólico, chamou de capital social e ao que Elias chama de busca da excitação. Então o que seria capital social? A palavra “capital” nos faz pensar em dinheiro, mas isso por que o dinheiro pode ser acumulado e trocado, portanto, tudo que chamaremos de capital pode ser acumulado e trocado, servindo assim como moeda e item de distinção social.

Nossa sociedade se organiza para nos educar e socializar de forma que quem tem mais “dinheiro” possui maior poder de compra, então quem tem mais dinheiro tem mais “capital” financeiro; mas também é verdade que quem tem mais dinheiro exerce maior influência sobre quem está a seu redor; isso porque as pessoas a seu redor querem ter mais dinheiro também para poderem exercer influência sobre as outras. A questão fundamental é visualizarmos o “capital financeiro” apenas como mais uma esfera da teia de relações sociais em que vivemos.

Aceitemos então que estamos em constante disputa. Em um conflito contínuo que nos faz exercer ou sofrer influências das pessoas ao nosso redor e não apenas com a forma dinheiro, mas também com a forma cultural dos círculos sociais em que estamos inseridos, quer dizer: em meio aos universitários, quem escreve melhor e publica mais artigos acumula mais capital social frente a seus colegas que almejam escrever bem e publicar artigos, mas isso não vale para os comerciantes informais do centro da cidade. Pouco importa aos camelôs quem escreve melhor ou pior, se existe ou não um ranking das revistas acadêmicas que dá mais pontos para quem escrever e publicar, assim também é na torcida organizada. Haveria então uma certa ética acadêmica, uma outra ética camelô, uma outra ética torcedora e que pouca coisa teriam as três em comum.

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(Foto: Tatiana Fortes/O Povo)

Entendemos por ética a compreensão particular que cada grupo tem do mundo ao seu redor, seria a ética o modo como determinado grupo se comunica, como se veste, que tipo de música escuta, quais lugares frequenta, como trata os de fora do grupo, como vê os seus pares. Esta forma não deve ser encarada como melhor ou pior que outras, mas sim como outras possibilidades de sociabilidades. Esta forma, em particular, é constituída por um espectro violento, não por algo inato, mas sim por constituição sociocultural do meio que forja os sujeitos. São as habilidades destes que sobrevivem a um espaço em que, ou se aprende a se impor com a força física, ou se é mutilado diariamente pelo próprio ambiente formador; ou se encaixa em um grupo, e protegem-se uns aos outros, ou se vive sob domínio de terceiros.

A tensão social vivida pelos agentes intensifica a forma violenta de sociabilidade. Para Norbert Elias, a tensão social cotidiana produz o stress, o qual seria dissolvido pela excitação agradável, desencadeada pelo nível de ausência de controle dos conflitos miméticos. Assim, é considerado que o nível de excitação é inversamente proporcional ao controle – quanto mais regras um jogo tem, menos stress seria dissolvido.

Acrescenta Elias, em A busca da excitação (p. 95): “Por outras palavras, o que procuro dizer é que a sociedade que não oferece aos seus membros, e em especial, aos mais jovens, oportunidades suficientes para a excitação agradável de uma luta que não existe, mas pode envolver, força e técnica corporal pode, indevidamente, arriscar-se a entorpecer a vida dos seus membros; pode não proporcionar corretivos complementares suficientes para as tensões não excitantes produzidas pelas rotinas regulares da vida social”.

A Torcida Organizada já é a estrutura de conflito mimético que proporciona a excitação agradável necessária para aliviar o stress deste agrupamento social em particular. O que é pungente na política atual de combate à violência é a proibição do mecanismo em si, que não diminui em nada a real violência cotidiana da cidade, ou mesmo em dias de jogos. As disputas que as T.Os. geram são de ordem prioritariamente simbólicas, portanto, propícias a incorporar conflitos de naturezas outras, como as de ordem religiosa, tradicional, financeira e principalmente de ordem territorial, mais vulgar, portanto, mais frequentes.

Sendo as torcidas mecanismos de sociabilidades, não há efeito minimizador dos quadros conflitivos, no caso de extinção destas; assim como não houve efeito quando da proibição dos bailes funk a partir de 2001 na cidade de Fortaleza. Entretanto, a organização dos bailes não tinha influência nos agentes sociais que o habitavam; já as torcidas detêm estrutura que potencialmente acessam, através do capital social, os agentes em questão.

Daqui por diante frisaremos a ideia de um modo particular dos torcedores se socializarem. A formação das torcidas é composta por grupos divididos por bairros; não raro podemos visualizar a mesma distribuição cartográfica da cidade em que a torcida foi fundada. A Torcida Uniformizada do Fortaleza era dividida por núcleos, podendo cada núcleo ser formado por um ou mais bairros da cidade ou por cidades inteiras do interior, como o 2° núcleo que era composto pelos componentes moradores do bairro Pio XII, ou o 8° referente aos moradores do Pirambu, os moradores da Caucaia e Aquiraz, zona metropolitana da capital, 69° e 55° núcleos, respectivamente. No ano de 2004, a TUF contava com mais de 60 núcleos, hoje a torcida é composta por mais de 80.

A composição da torcida Cearamor não difere muito, somando número muito semelhante de subdivisões. Cada uma destas conta com o que seus componentes chamam de “cabeça”, membro que é responsável por um núcleo ou bairro. Estes são escolhidos por sua distinção frente aos demais, através de sua influência, poder de persuasão e comando que exercem nos componentes do grupo. Não se trata de uma eleição democrática em que todos votam, mas na escolha consensual cotidiana em que o “cabeça” está sendo colocado à prova a cada decisão tomada, a cada percurso proposto. Ser “cabeça” de bairro é mais que impor suas vontades, trata-se majoritariamente de perpetuar a coesão do seu grupo, de ser escutado e respeitado por todos, sendo, não raramente, árbitro de conflitos.

A proposta de mediação de conflitos é um importante método pacificador das comunidades em permanente tensão. Contudo, existem diversas formas de sua aplicação que se distinguem tanto pelos locais, quanto pelos métodos. Assim, afirmo com convicção que não há meios para desenvolver metodologia eficaz que não sejam através de análise empírica da forma de sociabilidade em que se pretende intervir.

[1] FONTE: Tabela 2.2.2 Mapa da Violência 2014

2 FONTE: Tabela 3.1.4 Mapa da Violência 2014

Materiais complementares:

Mapa da Violência 2014: http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2014/Mapa2014_JovensBrasil_Preliminar.pdf

THOMPSON, Hunter S. Hell’s Angels, Trad. Ludimila Hashimoto, Porto Alegre, RS: L&PM, 2010.

FERNANDES, Kamila. Folha de São Paulo, 2001 http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u24097.shtml

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico, Tradução: Fernando Tomaz (Portugês de Portugal) – 15ª ed. – Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2011

ELIAS, Norbert. A busca da excitação. Lisboa: Difusão Editorial, 1992.

Tratar de forma igualitária os consumidores e dependentes das drogas lícitas e ilícitas

Por Airton Lima

Com a possibilidade da campanha de combate às drogas deixar de ser, entre outras possibilidades, um reles instrumento político em defesa de uma oferta exclusiva da bebida alcoólica, enaltecendo os malefícios das demais drogas em detrimento dos malefícios desta mercadoria, fica o dependente do psicoativo etanol “cortando prego” com a possibilidade de a ética chegar ao mercado e, consequentemente, transformá-lo em mais um criminoso, agora produtivo, a serviço de uma fabriqueta de joias num desses presídios criados pelo capitalismo.

Estas estão agravadas, pois que nas relações de poder, o fato de um indivíduo consumir uma determinada droga faz a diferença, de forma que, nas relações sociais, de caráter competitivo, ao mesmo tempo em que se fazem excludentes geram inúmeros conflitos pessoais e coletivos para a sociedade. Nestas condições, os profissionais ligados aos três poderes, ocupando posições e cargos nas mais diversas instituições e/ou entidades públicas e/ou privadas se sobrepõem socialmente aos consumidores das demais drogas. Assim sendo, a produção social da bebida alcoólica se faz proba de julgar e condenar judicialmente os consumidores das demais drogas.

Portanto, se a bebida alcoólica for juridicamente incluída como droga, nossa hipótese é de que tal fato desencadearia tensões e conflitos capazes de ameaçar a estabilidade do Estado. Por outro lado, mais precisamente nas celas excessivamente excessivas de excessos, temendo mais as leis do mercado que mesmo as leis divinas, que tanto tardam como falham, ficam as já vítimas desse mercado, preocupadas com tal possibilidade na evidência que se estabeleçam novos concorrentes ao desconto de pena.

Em se fazendo possível tal possibilidade, é bem provável que surja uma outra abordagem para a questão do mercado de droga, visto que tal possibilidade acarretaria grandes prejuízos, não só à moral católica, como aos investidores desse tipo de droga. Assim, é bem possível que essa possibilidade não passe de mais uma possibilidade. Mas como tudo é possível, é bem possível que se torne impossível que essa possibilidade deixe de ser possível.

Assim, na possibilidade de ser fazer possível, o provável é que o mercado e todos os seus mercadores refaçam, em defesa própria, o grande engodo que criaram ao estabelecer tais leis de mercado. De forma que surja a possibilidade de saírem juntos tanto os traficantes de drogas lícitas como os comerciantes de drogas ilícitas, numa nova campanha: por uma outra ética, a ética do livre mercado. Isto, evidentemente, se a possibilidade do consumidor livre se fizer possível.

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Pelo direito à diversidade

(Foto: Reprodução)

Por Verônica Guedes

Em 2007, ampliando o cenário de atuação na defesa e promoção dos direitos humanos, o Cenapop (Centro Popular de Cultura e Eco-cidadania) criou o For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, com o objetivo de estimular a  reflexão sobre temas ligados à cultura e  direitos civis de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais  e de promover a convivência pacífica de seres humanos, sem preconceito de gênero ou orientação sexual.

Em 2011, partindo de uma ação articulada com o Conselho Nacional de Cineclubes, em um programa de circuitos audiovisuais, a partir da integração entre cineclubes brasileiros com Festivais, Filmotecas e realizadores independentes – o For Rainbow investiu numa ação de itinerância com abrangência nacional. A parceria também foi acolhida pela rede do Cine Mais Cultura, pontos de cultura, ONGs que trabalham com Direitos Humanos, escolas da rede pública e outros espaços culturais.

Como resultado, a 4ª Mostra Itinerante do For Rainbow – também patrocinada pela Secretaria do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura (MINC) – contemplou 150 espaços de exibição em todo o país.  Para cada coletivo participante desta itinerância, junto com os filmes, foi enviado um CD que, entre outros textos de leis de proteção e de cidadania LGBT, continha o programa “Brasil Sem Homofobia”. Em todos estes espaços as exibições foram seguidas de debates sobre a questão LGBT.

A 5ª edição da Mostra Itinerante do For Rainbow acontecerá em 250 cineclubes, pontos de cultura e espaços culturais de todo o Brasil – com filmes exibidos durante o festival – e iniciou-se em Fortaleza, nos Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (CUCA) Barra, Jangurussu e Mondubim, no mês de maio. Na ocasião, os Cucas receberam a exposição multimídia No Escurinho do Cinema – A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro.

Novamente, cada coletivo participante desta itinerância, em todo o Brasil, receberá junto com os filmes, um CD que, entre outros textos de leis de proteção e de cidadania LGBT, trará o programa “Brasil Sem Homofobia“. Como nos anos anteriores, em todos os espaços as exibições serão seguidas de debates sobre a temática LGBT.

A Mostra Itinerante do For Rainbow é a maior de todo o Brasil e oferece a centenas de jovens a oportunidade de conferir a produção cinematográfica de diversos estados brasileiros e de trocar ideias sobre as questões contempladas nos filmes e sobre o fazer cinematográfico.

Com a Mostra Itinerante, o Cenapop busca contribuir para o programa “Brasil Sem Homofobia” de combate à violência e de promoção da cidadania LGBT, ajudando a construir uma cultura que garanta dignidade e direitos iguais a homens e mulheres, sem preconceito de orientação sexual, crença, raça ou identidade de gênero.

Verônica Guedes é ativista pelos direitos LGBT

*Artigo publicado na Revista Berro – Ano 02 – Edição 04 – Julho/Agosto 2015 (a seguir, versão PDF).

 

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Entorpecente e crime: apontamentos sobre a proibição da maconha no Brasil

(Foto: Chico Célio/Revista Berro)

Pedro Trigueiro

Ensaio aqui uma análise dos conceitos das palavras Entorpecente e Crime, no sentido de ampliar a interpretação histórica com o auxilio da filologia, aproximando as noções da história social da criminalização da maconha, de forma a estreitar as esferas da sociedade e da linguagem, compreendendo seus signos, os elementos extralinguísticos, prélinguísticos, e pós-linguísticos e a relação entre ação e discurso.

Quais as palavras que giram em torno dos discursos da proibição da maconha no Brasil? Entre muitas recorrências (raça, degeneração, maconhismo, nocivo, pernicioso, criminoso, drogas) argumenta-se em favor dos conceitos “entorpecente” e “crime” tentando justificar suas escolhas pelo aspecto sóciolinguístico que delas for possível extrair.

Na década de 1980, em razão de uma conferência na Universidade de São Paulo, Antônio Houaiss palestrou sobre um assunto caro aos interessados sobre a questão da das drogas no Brasil: a relação, ou as possíveis relações entre história, sociedade e cultura linguística, de modo que a língua apareça como elemento central dessa trama. Pode-se converter os conceitos e o estudo do significado dessas palavras, e as formas narrativas e os aparelhados e diversos discursos da proibição e da criminalização da maconha, de forma a relacionar tal processo, não apenas a um circunscrito de ações higienistas do governo. Amparado em uma linguagem médica racista foi erigido um discurso que normatizou o crime da maconha no Brasil, e sobre ele, foi escrita toda uma literatura jornalística que estigmatizou a cultura da planta no país, associando-a ao crime da década de 1920 até os dias atuais.

O verbete “maconha” do Dicionário do Folclore Brasileiro em que o autor Luís da Câmara Cascudo utiliza como referência os trabalhos dos médicos proibicionistas da escola Dr. Rodrigues Dória[1], o bã bã bã da pseudociência proibicionista. Dos termos pelos quais eram conhecidos a erva, dou destaque para Ópio do Pobre, em que se associa de imediato um poderoso entorpecente e uma parcela da população bem específica, o texto apresenta a ideia de que a erva é fumada pela malandragem, e que é mais da predileção dos gatunos e vagabundo1. Credencia assim uma correlação pré-existente entre a planta e o crime, os jornais expuseram essa equação em seus editorais, o maconheiro pobre e negro corresponde ao criminoso[2].

ervaNo jornal cearense O Povo, aparece uma notícia em agosto de 1953 intitulada O vício da maconha na capital, que apresenta como característica do texto jornalístico uma cobrança das autoridades frente ao problema da maconha. É apenas uma dentro de um universo grande de manchetes dessa natureza que podem ser encontradas nos jornais das cidades brasileiras, e que trazem aliadas ao seu alarde uma condenação implícita da planta: Rapazes de diferentes classes sociais se irmanam na pratica desse vício que só prejuízos lhe acarreta… Prainha, Pirambu, São Gerardo e outros bairros são pontos de convergência dos que se entregavam ao uso da erva maldita. A opiniosa redação do texto deixa óbvia a relação entre o uso da erva e a vadiagem: Jovens imberbes andam por aí ‘loucos’, como eles se qualificam, transitando pelas ruas centrais da cidade, sujeitos a prática de atos condenáveis, devido o efeito da maconha[3].O circular dos vários nomes da maconha (fumo de angola, erva maldita, erva do diabo) implica, mesmo que de forma indireta, a divulgação dessas palavras, ou seja, mesmo com o intuito de alertar ou advertir as pessoas no sentido de identificar a planta, a publicação dessas nomenclaturas em contrapartida também propaga e difunde as terminologias do vegetal, aumentando a mitologia a respeito das diversas facetas da maconha.

Já no verbete entorpecente, que constatamos ser o termo mais utilizado entre os médicos proibicionistas[4] aparecem várias noções de algo potencialmente perigoso e nocivo às pessoas. Nos léxicos de Houaiss e de Aurélio, em ambos o sentido da palavra afere o ato de entorpecer, o que, mesmo de modo ‘analgésico’ ou ‘agradável’ acarretaria inevitavelmente a risco e dano progressivo ao usuário de tais substâncias, nesse sentindo compõe algo essencialmente ruim e nocivo socialmente.

Classificar assim a maconha como entorpecente é em certa medida enquadrá-la nessa categoria maléfica de substâncias mesmo sabendo que o discurso ou os discursos não correspondem efetivamente à realidade histórica, ou seja, a população poderia ou não assimilar o conceito da maneira que foi colocado, e certamente em maior ou menor grau o fez, não sem antes, porém, reinterpretar seus significados e sua aplicação. Afinal trata-se de um vegetal de uso muito antigo, introduzido no Brasil através dos negros africanos escravizados, exprobrados, (daí as denominações em línguas africanas maconha, diamba, liamba, e o revestimento da prática de sua cultura com argumentos racistas), mas também fruto de uma política deliberada pela Coroa Portuguesa que buscava aclimatar diversas plantas de uso econômico para servir como alternativa no comércio colonial. Há de se considerar ainda que é pelo mesmo discurso médico que o uso da maconha é transformado de um valioso remédio até fins do século XIX, em um perigoso hábito que ameaçaria a integridade física e moral da raça branca no século XX[5]. De que forma a propagação dos conceitos sobre o cânhamo se relacionam com a proibição da sua cultura?

Para tentar responder essa questão, focamos em um conceito que abarca um grupo de indivíduos em especial, que interpretou essas noções da forma mais direta possível: os criminosos. O sujeito que fazia uso ou cultivo da erva até o fim da década de 1930 estaria em pior das hipóteses cometendo um ato maléfico à sua saúde, no entanto, após a lei, a ação canábica se tornou criminosa e àquele sujeito passou a figurar um elemento transgressor, passivo de punição, e por associação, perigoso.

O maconheiro, o vendedor de maconha, o cultivador, o fumador, são convertidos pela lei em criminosos, dessa forma, praticantes de atos nocivos à sociedade e não mais só a ele mesmo, um condicionamento que justifica sua repressão, seu controle e seu aprisionamento. O termo criminoso acomete genericamente um indivíduo que compactua com a violência, que em seu cotidiano torna habitual a bestialidade, a brutalidade. Essa noção de ferocidade foi associada pela escrita médica às classes pobres, às culturas afro-brasileiras já não suficientemente exprobradas pelo flagelo da escravidão, em dois momentos decisivos. O primeiro entre as décadas de 1910-1930, época da constituição dos discursos proibitivos de características higienistas, na forma de um público conclave médico por demandas jurídicas para o encarceramento da cultura da maconha. E o segundo entre 1940 e 1950, quando a legislação clamada nas décadas anteriores já existia, e por suas vias empossava alguns daqueles médicos e seus discípulos como representantes legais do estado, convertidos em agentes do governo incumbidos de erradicar a cultura da maconha no Brasil[6].

Pedro Trigueiro é professor de História – e historiador nas horas vagas

  • 1. CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Instituto Nacional do Livro. Ministério da Educação e Cultura. Brasília.  1972.  p. 512.
  • 2. Essas três manchetes são do Diário de Notícia do Rio de Janeiro dos anos de 1935 e 1936, momento em que a legislação da proibição da maconha ainda estava se configurando. Estão disponíveis na Hemeroteca Digital Brasileira, em link http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx
  • 3.O Povo, 31 de agosto de 1953.
  • 4. Ver Maconha: Coletânea de trabalhos brasileiros. 2ªed. Serviço Nacional de Educação Sanitária. Ministério da saúde. Rio de Janeiro. 1958.
  • 5. CARNEIRO, Henrique. Pequena Enciclopédia da história das drogas e bebidas: histórias e curiosidades sobre as mais variadas drogas e bebidas. Rio de Janeiro, Elsevier, 2005. p.73.
  • 6. FARIAS, Roberval Cordeiro de. Relatório apresentado aos srs. membros da comissão nacional de fiscalização de entorpecentes. Inspecção realizada de 7 a 18 de novembro de 1943 nos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, visando o problema do comércio e uso da maconha. In: Maconha: Coletânea de trabalhos brasileiros. 2ªed. Serviço Nacional de Educação Sanitária. Ministério da saúde. Rio de Janeiro, 1958.

 

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É só meu filho passar no vestibular

(Arte: Rafael Salvador)

 

Por Pedro Bomba

 

É só meu filho passar no vestibular

Que eu vou estender uma faixa

Colorida de lona

12 por 30

no portão de casa

pra todo mundo ver

sair comentando

falando na vizinhança

que o filho de não sei quem

parente de tal e coisa

passou na faculdade de direito

sétimo lugar

entrou folgado

feliz e satisfeito

dando orgulho pra família

eu falei que aquele menino era assim

mas começou a fumar maconha

a barba cresceu

tá andando com os sem terra

cê acredita aquele desgraçado largou o curso de Direito

Tá fazendo Comunicação

Namorando com outro menino

e disse que ele é o amor de sua vida

Eu também acho.

 

Pedro é Bomba.

máscaras

Celebrações outras

Por Augusto Azevedo

No Curso de Licenciatura em Teatro, do Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia do Ceará – IFCE, entre diversas iniciativas realizadas pelo seu corpo discente, com apoio da coordenação do curso, da direção do Departamento de Artes e de professores, cultiva-se com muita dedicação e carinho o que é chamado de Semana de Boas Vindas, que consiste na recepção dos novos estudantes por parte de alunos veteranos, mas que não se limita a uma mera apresentação da estrutura/infraestrutura do curso e da instituição a qual ele é vinculado; a Semana de Boas Vindas é bem mais que isso, é um momento de convergência e acolhida, em que através de trabalhos cênicos livres, é possibilitada uma interação que se faz extremamente valiosa para o enfrentamento dos desafios respectivos de um curso de graduação em teatro, com suas riquezas e pluralidade.

O Curso de Licenciatura em Teatro do IFCE há tempos é uma referência em criação artística e produção científica, fortalecendo a cena teatral local e a produção cultural do estado de uma maneira geral, através de manifestações cênicas diversas, contribuindo no processo de apreciações e reflexões estéticas e no reconhecimento do teatro enquanto área de conhecimento presente na vida em sociedade. Uma das demonstrações de participação do Curso de Licenciatura em Teatro do IFCE pode ser conferida nas Montagens de Espetáculo Teatral, equivalente ao Trabalho de Conclusão de Curso I, em que as apresentações sempre são abertas ao público.

A Semana de Boas Vindas é um evento repleto de trabalhos oriundos do universo teatral e áreas afins, além de ações de interação e apresentação das disciplinas; os estudantes que iniciam a jornada de estudos no curso são recebidos com atenção e calor humano. E os outros cursos de graduação, do estado e país, como andam recebendo os novos estudantes?

A introdução em cursos de nível superior no Brasil é realmente uma vitória. Tendo como referência os números gerais da população, uma quantidade ainda pequena de brasileiros e residentes consegue entrar na universidade e, embora algumas mudanças estejam ocorrendo, a alta competitividade para a admissão em cursos de universidades públicas mantém a impregnação da concorrência como marca do ensino superior público brasileiro.

É óbvio que a entrada no ensino superior é motivo de festa e as comemorações ocorrem das mais variadas maneiras. Entretanto a recepção de estudantes novatos em instituições de ensino superior do Brasil há muito vem gerando discussões, principalmente devido à violência presente nos ritos de iniciação denominados de trotes. Com forte apelo na reprodução do comportamento da recepção de academias militares e de cursos de outros países, em que a humilhação dos novatos por parte dos veteranos alimenta um depreciativo ciclo na convivência entre estudantes, as recepções de novatos nutrem muitas polêmicas. Ao que parece a aceitação da humilhação funciona como provação obrigatória de reconhecimento da inferioridade de quem está chegando à comunidade de ensino; mas quando não há aceitação, as estúpidas brincadeiras pesadas continuam? Infelizmente a prática mostra que sim, e em vez ser uma celebração alegre, o ato da conquista de uma vaga no ensino superior é marcado muitas vezes pelo assédio moral, capaz de deixar terríveis traços que acompanham as pessoas por toda a vida. Um lugar onde é preciso expor as pessoas para tirar risada de outras muito provavelmente precisa rever seu conceito de sanidade.

O que é justificado como uma prática comum, que inclusive faz parte dos costumes do corpo discente das instituições de ensino tem ido longe demais; observa-se que os ditos trotes têm propiciado sequestros, agressões morais e físicas, estupros e assassinatos, em que o escárnio e o prazer na dor do outro impossibilitam o cultivo da solidariedade e do respeito mútuo. Não é preciso dizer que a onda de trotes, Brasil adentro, já passou dos limites há tempos, a cada começo de semestre surgem incontáveis depoimentos referentes à violação de direitos que em algumas ocasiões conta com a vista grossa da instituição, que na pretensão de não se expor e nem expor os prováveis agressores acaba deixando as vítimas em situações para lá de comprometedoras.

Os eventos de recepção de estudantes novatos não são novos no Brasil e muito menos se limitam ao ensino superior. Na antiga Escola Técnica Federal do Ceará – ETFCE, de onde o IFCE se origina, até o início deste século, costumava-se promover, por meio dos seus estudantes, o que era chamado de Sábado de Lazer, em que as dependências internas da instituição eram abertas à comunidade, onde aconteciam práticas de esportes, apresentações musicais e artísticas das mais diversas, que, além de aproximar os estudantes de cursos e turnos distintos, realizavam uma interação com moradores do Benfica, bairro sede da ETFCE/IFCE, assim como de outros bairros dessa região da cidade. Além dos conhecidos Sábados de Lazer, a ETFCE realizava outras festas de saudação de calouros – assim como escolas tradicionais da região central da cidade de Fortaleza, como o Liceu do Ceará e o Justiniano de Serpa -, abria suas portas aos sábados para a comunidade, também promoviam calouradas no turno da noite, contemplando o estudante que trabalhava durante o dia. Entre os anos de 1980 e 1990 as calouradas, sejam essas gerais ou dos cursos em específico, tanto da Universidade do Estado do Ceará (UECE) quanto da Universidade Federal do Ceará (UFC) cumpriram um papel bem interessante; além de estimular a interação entre alunos, professores, servidores e membros das comunidades em que os campi se encontravam, dispunham de espaço onde artistas podiam mostrar o seus trabalhos. Mesmo com público seleto, as calouradas ofertavam espaço de apresentação para diversas linguagens artísticas, sendo uma boa alternativa ao cerco da indústria cultural local.

Calouradas ainda ocorrem em cidades como Fortaleza, mas hoje se verifica que essas festas acabam utilizando apenas o termo, pois o apelo comercial é tamanho que o esvaziamento cultural é inevitável. Calouradas viraram festas de transmissão de músicas e demais produtos que estão sendo reproduzidos em emissoras de rádio. Em algumas situações se tenta resgatar o espírito das calouradas das antigas, como se pôde observar no ano de 2014: a então diretoria do Diretório Central dos Estudantes (DCE) do IFCE, chamando todos para uma calourada dos cursos de Artes do IFCE, Artes Visuais e Teatro, embora tenha esquecido de comunicar aos próprios estudantes desses cursos, chegando ao ponto de marcar o dia da festa justamente na mesma data em que acontecia, anunciada de modo prévio, um já tradicional festival de esquetes teatrais, que reúne muita gente ligada às artes cênicas da cidade.

Recepção de pessoas novas em instâncias de ensino faz parte da história das práticas educativas do Brasil, até mesmo na educação regular, os primeiros dias de aula são dedicados às apresentações, em escolas públicas até à paisana os estudantes podem ir, o que é um verdadeiro indulto, frente à imposição do uniforme que terá uso obrigatório até o final do ano letivo.

A relação entre estudantes sempre deve estar em debate, não só por parte dos educadores e servidores com funções administrativas, mas principalmente pelos próprios discentes. Sabemos que há horrendos trotes, planejados e programados para humilhar novos estudantes espalhados pelo Brasil e a ausência de legislação específica acaba alimentando essas condenáveis práticas, mas também não se pode perder de vista que tem gente fazendo bem diferente, preocupada com o futuro dos seus colegas de formação e consequentemente de ofício, se dedicando para que a recepção desses colegas desperte a vontade de estudar e não a desconfiança ou o total descrédito das pessoas em sua volta. O Curso de Licenciatura em Teatro do IFCE está de parabéns, dando exemplo de humanidade e criatividade. E que iniciativas como estas possam ganhar maior visibilidade, para que possamos dar o devido valor a quem se esforça na construção de uma sociedade menos contraditória e injusta.

Augusto Azevedo é empreendedor da área de Organizações Sociais, atualmente se encontra envolvido em estudos sobre aproveitamento de recursos hídricos com Peter Brabeck-Letmathe

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A saudade segundo Vertromilda

(Ilustração: Rafael Salvador)

Vanessa Dourado

Querido Miltrino,

Passei para lhe deixar um embrulho, dentro dele você encontrará três embrulhinhos menores; o primeiro é um pacotinho de saudade, sugiro que abra imediatamente, assim você compartilhará do meu sentimento de neste exato momento – este deve ser profundamente inalado até que você sinta o frio lhe cortar as narinas -, e assim poderá entender como me sinto.

O segundo é um pacote de paciência, este deve ser mastigado, sim, é azedo como limão, mas com o tempo você se acostumará e o fato de ser azedo já não será tão desagradável, chegará a gostar de encher a boca de água quando consumi-lo.

Dentro do terceiro há uma passagem de ida para o inferno, sugiro que pegue o primeiro trem e dê um pulinho por lá da próxima vez em que eu disser estar com saudade e você me pedir para ter paciência.

Sua,
Vertromilda

Vanessa Dourado é professora por formação e poeta de coração

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Marias

(Ilustração: Klévisson Viana)

Vanessa Dourado

segue Maria
que o hoje não é ontem
e por mais que lhe contem
não deixe que lhe tomem
a alegria
a dignidade
a cantoria
a lealdade
sê justa com as outras
que feito ostras
morreram roucas
vá de grito nas cordas
vá que já é hora
do mundo amanhecer
segue Maria
de mundo nas costas
seguindo suas rotas
chorando as mortas
a louca
a preta
a lésbica
a puta
sê justa consigo
que sem sigilo
sofre com o ruído
vá de peito para fora
vá que já é hora
de um novo mundo fazer

Vanessa Dourado é professora por formação e poeta de coração

mergulho interior

A compreensão da nossa mente como o universo interior

Bruno Falcão

O universo está em expansão constante, várias energias se chocam gerando conflitos, e a partir destes surge a expansão. A teoria do Bing Bang ou “a grande expansão” – o conflito de energia cósmica gerou o universo, através desta cosmo-energia a Via Láctea surgiu e continua se expandindo constantemente. A explosão de energias ou pensamentos (no caso interno) nos possibilita uma expansão do nosso próprio universo – a expansão da mente – e não a destruição do ser, como nós, seres humanos, interpretamos .

Através dos conflitos de pensamentos, problemas, questionamentos, ou simplesmente embate energético, surge a oportunidade da energia cósmica interna de cada ser expandir-se, evoluir. Jesus Cristo, na sua parábola do fermento, nos fala o seguinte: ”O reinos dos céus é semelhante a um fermento, em que uma mulher meteu três medidas de farinha até ficar tudo elevado”. O fermento faz a massa crescer, imaginemos que esse fermento seja a energia cósmica do universo, que está dentro de cada um de nós: em contato com a matéria esse choque de forças gera crescimento.

Nesse sentido, olhemos cada vez mais para dentro de nós, porque nossos conflitos, os problemas internos são a chave para nossa evolução. O choque de perguntas internas nos expande para uma compreensão maior do nosso universo particular – a mente! Jesus nos ensina em mais uma parábola chamada “A videira e seus ramos”, em que ele fala sobre o corte dos ramos ruins, pois só assim iremos gerar ramos bons. Esse corte só é gerado a partir de sofrimento desenvolvido através de conflitos internos, crises existenciais. Nosso universo interior se choca, gerando a oportunidade do crescimento da nossa energia cósmica.

Analisando a dualidade corpo e alma, a imperfeição do corpo, da matéria (do ego!), compreende esse choque energético como um momento de destruição. O corpo, na sua pequenez, não suporta a força gerada a partir dessas energias. Se nos apegarmos à consciência de corpo, matéria ou ego não compreenderemos com clareza esse choque e muitas vezes encararemos o conflito de forma autodestrutiva, entorpecendo nossa alma com raiva, drogas, etc. Esse tipo de energia mal canalizada faz com que destruamos nosso universo particular – a mente. Porém nossa alma, quem realmente somos, o verdadeiro ser, a energia inacabada que foi criada e se desenvolve cada vez mais a partir desses conflitos, consegue transcender o choque cósmico que o corpo pensa ser destruição encarando tudo como um único momento de (re)criação, expansão e crescimento. Mas para isso precisamos estar cientes de quem somos, precisamos estar fortes para poder enxergar e aproveitar esse momento cósmico expansivo no seu real sentido. O universo em sua perfeição compreende o verdadeiro motivo desses conflitos, interpreta de forma natural e simplesmente cresce, pois segue o fluxo energético. O embate da energia cósmica (pensamentos) gera vida, gera luz nova e o crescimento do universo se faz presente de forma interna ou externa.

Quando nossa energia mental se choca através da dor e de questionamentos essa é a verdadeira hora de crescer e não autodestruir-se. Aproveitamos a dor humana como um trampolim de crescimento espiritual. A morte do ego ou o esquecimento que somos corpo é o que gera essa dor, a percepção de que somos mais incomoda que pensa que é menos(alma mais corpo menos). O filósofo e teólogo brasileiro Humberto Rohden, em seu livro Sabedoria das Parábolas, explica que através dos erros, de pensamentos, de conflitos de energias internas podemos chegar à verdade divina. Assim possuímos dois caminhos para resolução dos conflitos existenciais: crescer espiritualmente ou destruir-se. Jesus não é o único, vários mestres espirituais em toda a História falaram e falam sobre o assunto. No livro sacro hindu Bhagavad Gita, Krishna ajuda o príncipe Arjuna, o ser humano, a resolver seus conflitos internos, dando-o suporte para que canalize sua crise existencial para uma expansão verdadeira da mente.

Essa verdade cósmica está para todos que se permitam senti-la. Essa é a verdadeira intenção de Deus para com nós: a expansão da consciência humana para a consciência cósmica. A união é chave de tudo, o coletivo e o individual devem andar juntos, pois estamos todos inseridos no mesmo cosmos, somos filhos da mesma fonte energética que criou tudo. “Faça-nos sentir a alma da terra dentro de nós, pois assim sentiremos a Sabedoria que existe em tudo” (Jesus Cristo).

 Bruno Falcão bebeu da fonte chamada “Rua” e sentiu os efeitos colaterais do mundo, viu um mundo doente, e busca um antídoto pra amenizar o que já está consumado

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The Real Football Factories: por dentro das torcidas organizadas

(Foto: divulgação)

Kinzin

Para instigar as mentes de vocês a pensarem mais sobre torcidas e organizações de torcedores mundo afora, recomendo a série inglesa de televisão The Real Football Factories.

A série retrata as torcidas de uma forma direta, sem que se busque mascarar ou mostrar o que elas não são. A ideia é simples: vivenciar experiências in loco com torcidas de diversos países famosos no mundo todo por terem torcidas calorosas.

O documentário, que foi feito pela produtora Zig Zag e foi exibido na Bravo TV, em 2006, tem a apresentação de Danny Dyer e a direção de Peter Day. Nas viagens, o apresentador segue por Itália, Inglaterra, Argentina, Brasil, Escócia, entre outros países, marcando presença em clássicos, em viagens com os torcedores, em conflitos.

Para quem desconhece o mundo de ir a jogos com torcidas inflamadas é chocante e enriquecedor, e para quem já conhece é bem próximo da realidade e ao mesmo tempo é interessante por notar como torcidas de países diferentes se comportam de maneiras complexas e diversas.

Brasil

https://www.youtube.com/watch?v=xSez2SFqmdw

Escócia

https://www.youtube.com/watch?v=W1Wnqeqzuis

Itália

https://www.youtube.com/watch?v=Zld4unDadm4

Inglaterra

https://www.youtube.com/watch?v=3TvMph5ecWY

Argentina

https://www.youtube.com/watch?v=3SsJOOXpzbc

Holanda

https://www.youtube.com/watch?v=QOnzkgWK13k

Polônia

https://www.youtube.com/watch?v=zlwXm89cMDM

Turquia

https://www.youtube.com/watch?v=8tkFpDxf1xo

 

Kinzin é amante dos mais variados tipos de músicas possíveis e das boleiragens cotidianas da vida, não necessariamente nessa ordem