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O espaço de Jangu

(Foto: Johnny Herman)

Por Rômulo Silva

Jangu fitou os olhos na avenida fronteiriça.

Dois rios paralelos e barulhentos. Um deságua sentido Bom Jardim – parente próximo de Jangu, quem sabe… o outro corre para os braços do irmão Curió – sangue latino e ainda por cima cantor. Não se ouve música, só luto: 12 de novembro de 2015, a maior chacina da história do Ceará jamais será esquecida. Seus algozes, inclusive, estão em liberdade, enquanto onze jovens estão encerrados na sepultura nos levando a gritar contra as injustiças e negligências praticadas pelo Estado. Jangu caminha ao lado da guerreira Dona Edna Carla (mãe de Alef Souza Cavalcante), transformando dia após dia “luto em luta”.

Embora ambos os rios sejam conhecidos como “Perimetral” – estamos no perímetro – , que recentemente alguém teve a ousadia, covardia, aliás, de batizá-los de “Presidente Costa e Silva” – até hoje o AI-5 elimina as liberdades públicas e democráticas (palavrões para o jovem negro Jangu). “Querem ressuscitar Costa e Silva? Desejam oficializar o que nunca acabou?”, não foram estas as perguntas de Jangu.

O concreto do rio se dissolve, evapora entre fluxos de vida ou de morte – termos que Jangu não faz distinção, tudo para jovens como ele é ensaio e é valendo, intenso. Vem um sonho e um desejo, ambos são atravessados pelas condições materiais, pelo preço que se pode pagar.

Do lado de lá do rio está escrito a palavra “União” – esta palavra está picotada de recados outros, desejos outros, inquietações outras – rebeldia e autonomia – vontade de potência!

O ninho utópico que Jangu visita, habita inclusive, é marcado pelos abraços demorados; rede tecida por fios [in]visíveis, amarradas por nós (nós?) da Tribo. Jangu pára por um instante e pergunta-se: que Tribo é esta? Ela parece não ter nome e talvez não queira um, mas está lá, ela existe porque Jangu existe.

Jangu, vez ou outra navega por mares pouco desbravados; viagem sem malas prontas. Jangu não é o único jovem a desejar conhecer mundos outros, experimentar outros mundos e sair de si mesmo, alcançar o que chamamos genericamente de liberdade. Corpos utópicos caminhando sobre veredas heterotópicas…

O jovem Jangu prova e sente na pele e no estômago a força do deus Capital. Sobre este deus não sabemos se ele é um velhinho que possui barba branca, se é um homem de meia idade burocrata ou se é um bicho, uma sanguessuga, talvez? Para Jangu analisar do que é feito esse bicho não importa agora. O que conta é a oportunidade dada. De onde ela vem, o que ela me proporciona? Ela mata o filho negro do “bicho Capital” chamado Fome? Entre promessas e filas, a oportunidade vem através do “corre do louco” empregatício [in] visível – o preço do sangue que escorre arquibancadas. Jangu vive! Salve salve Jonas Skilf e Alef Lorim.

Jangu, às vezes sem saber, cospe na cara da hipocrisia religiosa e quebra os códigos morais e hierárquicos das Fortalezas. Quem disse que alimento pra cabeça não mata a fome de ninguém? Quem foi o pilantra que disse isso aí?

O ninho utópico existe dentro e fora da mente de Jangu. Ele pode ser a bela vista, pode ser o nascer e pôr-do-sol: a soma dos abraços esperançosos, do racha improvisado em círculos. Pode ser palco da noite ensolarada: razão dos bailes autônomos. “- Chega aê no rolezinho ou no reggae pra dançar agarradinho.” Arena das resistências por vezes planejadas, o espaço outro onde somos lançados para fora de nós mesmos.

Jangu carrega consigo sorrisos espontâneos e gestos aleatórios, [in]definidos em si. Beija na boca do garoto e da garota e celebra o amor. O corpo castigado e criminalizado é uma festa intensa. De Jangu transborda sentimentos que não cabe dentro de si – não cabe em um poema ou em uma prosa; mas pode ser visto [percebido] na lágrima incontida e compartilhada, no repartir do pão das memórias feitas do concreto [dos afetos].

Jan [janelas] / gu [guris] / ru [rua] / ssu [suave].

Rômulo Silva é morador do Jangu e mestrando em Sociologia

fundo lusco_editado

Ser, de direitos

(Ilustração: Rafael Salvador)
Por Vanessa Dourado
Ser, de direitos
Livre ilusão 
Mas as gaiolas tremem 

Sentir o voar impossível 
Destas asas ousadas 
Incomoda? 

Em nossos leitos
Não há remédio 
Que cure nossa vontade 

Corpo-abjeto 
É fato concreto 
Da dura inadequação 

Nossos desejos 
E nossa “invenção” 
Existimos, e muitos temem 

Este corpo visível 
Vidas celebradas 
Incomoda? 

Nossos conceitos 
Livres deste tédio 
Constroem nossa verdade 

Corpo-secreto 
De tudo que é certo 
Não existe correção 

Vanessa Dourado é escritora, bissexual e feminista latino-americana

FNDC lança relatório sobre violações à liberdade de expressão

Por FNDC

FNDCCom quase 70 casos relatados, documento será encaminhado a organismos internacionais de direitos humanos

Na semana em que a campanha Calar Jamais! completa exatamente um ano de lançamento, o Fórum Nacional pela Democratização (FNDC) publica o balanço das violações à liberdade de expressão registradas ao longo desse período. O relatório “Calar Jamais! – Um ano de denúncias contra violações à liberdade de expressão“, disponível em versão digital, documenta cerca de 70 casos apurados, organizados em sete categorias: 1) Violações contra jornalistas, comunicadores sociais e meios de comunicação; 2) Censura a manifestações artísticas; 3) Cerceamento a servidores públicos; 4) Repressão a protestos, manifestações, movimentos sociais e organizações políticas; 5) Repressão e censura nas escolas; 6) Censura nas redes sociais; e 7) Desmonte da comunicação pública.

O conjunto das violações comprova que práticas de cerceamento à liberdade de expressão que, já ocorriam no Brasil – por exemplo, em episódios constantes de violência a comunicadores e repressão às rádios comunitárias –, encontraram um ambiente propício para se multiplicar após a chegada de Michel Temer ao poder, por meio de um golpe parlamentar-jurídico-midiático, que resultou na multiplicação de protestos contra as medidas adotadas pelo governo federal e pelo Congresso Nacional.

São histórias de repressão que se capilarizaram em todas as regiões, em cidades grandes e pequenas, praticados pelos mais diferentes atores. Além das tradicionais forças de segurança e de governos e parlamentares, o autoritarismo da censura tem chegado a grandes empresas, direções de escolas até a cidadãos comuns, que tem feito uso do Poder Judiciário para calar aqueles de quem discordam. Assim, manifestações de intolerância religiosa, política e cultural, fruto do avanço conservador no país e de um discurso do ódio reproduzido muito tempo e de maneira sistemática pelos meios de comunicação hegemônicos, têm se espraiado.

Como lembra a apresentação do relatório, casos como o do jovem pernambucano Edvaldo Alves, morto em decorrência de um tiro de bala de borracha enquanto protestava justamente contra a violência, ou do estudante universitário Mateus Ferreira da Silva, que teve traumatismo craniano após ser atingido com um golpe na cabeça durante manifestação em Goiânia, deixaram de ser raridade. A publicação também traz o registro da invasão da Escola Florestan Fernandes, do MST, pela polícia; da condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães; e do flerte de Temer com a suspensão dos direitos constitucionais, por meio do decreto presidencial de 24 de maio passado, que declarou Estado de Defesa e autorizou a ação das Forças Armadas para garantir a “ordem” no país.

Na avaliação da Coordenação Executiva do FNDC, desde o lançamento da campanha Calar Jamais!, o que se registrou foi assustador. “Denúncias chegavam constantemente, e cada vez mais diversificadas. Não era apenas a quantidade de casos que alarmava, mas os diferentes tipos de violações, que se sucediam progressivamente, cada vez mais graves”, afirma a entidade em trecho de apresentação do relatório.

O mais preocupante é que os casos sistematizados pelo Fórum relatam apenas as denúncias que chegaram até à campanha, especialmente em decorrência da sua própria visibilidade na mídia e na internet. Pelo quadro apresentado, portanto, é razoável imaginar que dezenas de outros episódios certamente ocorreram e não alcançaram qualquer repercussão no país. Outros seguem em curso, como projetos de lei para proibir manifestações artísticas ou estudantes que ainda respondem a processos por terem ocupado escolas contra a PEC 55. Também segue o desmonte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde os registros de assédio moral e censura contra jornalistas e radialistas, praticados pela direção nomeada por Temer, são quase diários. Tudo diante da omissão ou conivência de quem deveria defender a liberdade de expressão no país.

Além de cobrar publicamente a responsabilidade dos agentes internos responsáveis pelos ataques à liberdade de expressão constatadas, a campanha Calar Jamais! e o FNDC pretendem levar o relatório para autoridades nacionais e organismos internacionais de defesa de direitos humanos. E, assim, quem sabe, condenar o Estado brasileiro nas cortes internacionais por estas violações.

Baixe em anexo o relatório “Calar Jamais! – Um ano de denúncias contra violações à liberdade de expressão”.

Conheça a campanha, denuncie, divulgue e compartilhe!

Sem liberdade de expressão, não há democracia!

um dia de chuva_cido oliveira

Fuga

(Pintura: Cido Oliveira)

Por Gleyfson Rodrigues 

Cansado de procurar
Uma rima
Usei uma lima
Para as grades cerrar

Cansado da rotina de óbvio pesar
Optei por contar
Verdades. – Vida cafetina

Decido caminhar, voar de asa delta, libélula, arraia
Mosca, abelha, barata.
Voo alto urubuzando
Teto que trazem a segurança da sombra
Sombra que prende junto ao muro
O pedestre que corre da guerra matutina.
Alienação nas trincheiras
Grilhões nas multidões
A necessidade se manifesta.

Gleyfson Rodrigues é estudante de Letras e poeta por acaso

Banda-Ambrosino-Martins

Do sertão ao universal, do universal ao sertão

(Foto: divulgação)

É da cidade de Triunfo, no sertão pernambucano, que vem um dos sons mais alucinantes da nova safra da música brasileira.  A banda Ambrosino Martins, que surgiu no ano de 1997 (e, portanto, nem é tão nooova assim!)  é mais uma a somar-se à safra de qualidade da música autoral pernambucana desde os anos 1990, com o movimento Manguebeat. Iniciando como um grupo de dança, de nome inspirado em seu Ambrosino, um conhecido tocador de pé de bode da região, brincante de alaursa, tocador de novenas e o precursor dos festejos folclóricos da cidade, em meados da década de 50. O grupo de dança deu origem à banda que permaneceu com a mesma alcunha, uma homenagem em vida ao ilustre mestre Ambrosino.

O universo fantástico e místico do Carnaval dos Caretas, das poesias e causos sobrenaturais de Triunfo inspiraram o grupo, assim como movimentos como a Tropicália, o Cinema Novo, a “plagicombinação” de Tom Zé e o Manguebeat de Chico Science e companhia. As músicas do Ambrosino Martins são um mosaico sonoro, uma colcha de retalhos, que transitam do pandeiro aos beats, do coco de roda do Livramento ao rock and roll. Das histórias de assombração ao trip hop.

Tudo isso transforma-se num constante diálogo entre a tradição e as novas tecnologias, entre a vanguarda e a cultura popular. Em seu primeiro disco oficial, A Fantástica Ascensão de Severina Z., a banda dialoga com o universo místico das cidades do interior, faz reflexões sobre um mundo caótico e em constante transformação. Realismo fantástico, poesia, contos e causos.

A faixa “Escura casa de taipa” é uma porrada que denuncia o machismo e a violência contra as mulheres, ainda tão presentes na realidade nacional, seja nas grandes ou pequenas cidades.

O álbum A Fantástica Ascensão de Severina Z pode ser ouvido na íntegra abaixo. É som que merece aquela escuta atenta e ativa. Bora?

Baixe o álbum aqui.

estrada

Asfalto quente

Por Gleyfson Rodrigues 

Corre a faixa flecha
Corre o pneu petróleo
Sobre o piche derretido
O asfalto carrega a evolução humana
E pinta tudo de preto.
Sob o asfalto quente a terra sufoca.

O asfalto carrega o sonho quente
Na boleia da caçamba
Asfalto que sustenta o peso do homem e
Escorre o recurso subdesenvolvido.

No mormaço do asfalto quente
O retirante racha o solado
Crente que no
Fim
Achara São Saruê

Do asfalto só lembro
Quentura e topada
Lembro do enjoo provocado pelas faixas do acostamento.
Nas viagens
O asfalto quente
Me dá é sono.

Gleyfson Rodrigues é estudante de Letras e poeta por acaso

Pawel Kuczynski

Fábrica de fazer de conta

(Ilustração: Pawel Kuczynski)

Por Guilherme Fernandes Leite

A fábrica acorda cedo demais todos os dias. Ela nunca grita som algum. Apenas mantém alta uma coluna de fumaça escura e silente. O portão segue entreaberto, quase dando as boas vindas, como uma arapuca, que sequestra a liberdade e transforma os cantos em lamento e posteriormente em nada, nem mesmo um eco. O sol se ergue amarelo e laranja, por trás das nuvens, como um estudante tímido sem interesse.

As pessoas chegam em suas bicicletas silenciosas ou com passos arrastados, sempre em silêncio. Otários como eu, que não possuem ambição ou aptidão. Mas não hoje. Eu observo agachado atrás de uma pequena moita, como um cagão que se alarma com o vento, as mulheres de ombros largos e quadris disformes chegarem. E os homens de cabeça baixa e ombros caídos.

O único ruído naquela manhã é do homem de bigode. Ele orienta, xinga, repele. Aquele homem sim tem ambição. Dá para ver em seus olhos, azul cinzento da cor de uma garoupa. Como todo homem que sabe o que quer, ele herdou aquela vaga na fábrica sendo filho de uma puta qualquer. Todo herdeiro sabe dar bons conselhos sobre como a vida é difícil e de como é possível superar toda a merda que engolimos.

Aquela era minha hora de entrar, depois que todo mundo estava nos seus postos. Enfim a fábrica fechava o grande portão gradeado e o ‘bigode’ cruzava o braço a espera dos retardatários com um sorriso pateta no rosto. O herdeiro se realizava naquele momento. Ele podia colocar em prática a sua experiência e sua significância de mosca tomava grandeza de homem batalhador e sincero. Um paizão para todos os renegados.

Ele fazia os atrasados aguardarem no sol até o último chegar e começava: – Amigos. Atrasados novamente, eu nem sei por onde começar. Como vocês acham que eu cheguei até aqui? (Com o teu pai fodendo a sua tia). Eu espero mais de vocês, vejam o meu exemplo. Eu chego aqui antes de todo mundo, sempre com um sorriso no rosto, e sou o último a sair. E muitas vezes passo a madrugada pensando em como fazer a fábrica funcionar melhor (ou se masturbando). Meu sonho é ver vocês tomarem o meu lugar. (O único modo de eu tomar o teu lugar é comendo a sua mãe). Mas do jeito que vocês vão, não chegarão tão longe. (De fato, ficando 10 horas dentro de um galpão é que vamos longe na vida).

Eu nunca tive a coragem de falar nada daquilo. Quem não tem ambição não tem coragem para muitas coisas. A fábrica então nos abraçava, deixando um perfume de suor e castanha impregnado nas roupas. Ao fim do expediente eu rumava em direção ao centro daquela pequena cidade, invejando os bêbados e vagabundos que jogavam dominó. Que coragem. Mas, aos olhos do herdeiro, eu deveria dar graças a deus por ter um emprego que me permite a ocupação do tempo.

Cada dia que passava eu me tornava mais silencioso, me tornava um com os meus colegas , um com o herdeiro, um com a enorme fábrica. Como toda morte silenciosa, a fábrica matava a longo prazo. Tornando-nos inúteis a nós mesmos. O relógio que antes marcava o compasso, agora silenciou junto. As chamas estalavam e a fumaça erguia mais longa, mais espessa e mais alegre. Da moita eu observava tudo.

Guilherme Fernandes Leite é jornalista e escritor, seja lá o que isto quer dizer neste país…

mulheres

Curso sobre encarceramento feminino está com inscrições abertas

Por Alma Preta

As inscrições para o curso online “Marcadores Sociais de Mulheres Encarceradas: gênero, classe, raça, sexualidade e etarismo” estão abertas até o dia 29 de Junho. O curso será realizado a partir do dia 20 do mesmo mês e será ministrado pela professora e antropóloga Isadora Assis Bandeira, abordando o sistema prisional a partir de classe, raça, gênero e sexualidade, utilizando discussões antropológicas e sociais de interseccionalidade.

Disponibilizado na plataforma Mooddle, o curso é realizado pelo Coletivo Di Jeje, coordenado pela pesquisadora Jaque Conceição.  O objetivo é compreender a realidade de mulheres encarceradas, com ênfase na mulher negra, maioria no sistema prisional feminino brasileiro. Com essa distinção, deve abordar a possível diferença de intensidade de punição.

Isadora de Assis Bandeira,  curadora do curso, é graduada em Antropologia pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). O foco da formação da pesquisadora é a “Diversidade Cultural Latino-Americana”, com especialização em gênero, diversidade sexual, raça e encarceramento e  mestrado na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

O Coletivo Di Jeje oferece cursos com temas associados à condição da mulher negra e da comunidade negra, cujo objetivo central é a mudança da realidade. “O que a gente espera é que os nossos cursos tragam elementos para a compreensão e o avanço da realidade. No caso da mulher negra e da mulher negra encarcerada, a perspectiva do curso é analisar essas condições para encontrar formas de avançar e modificar essa realidade”, afirma Jaque Conceição, pesquisadora e coordenadora do curso.

Para ela, a política de encarceramento em massa é utilizada em diversos países como processo de limpeza de pobres e miseráveis da sociedade: “No nosso país, por causa da questão racial e da diáspora africana, esse encarceramento em massa se faz com a população negra, mas em países como a China, a Índia, e outros da Ásia e até da própria África, a política de encarceramento é uma política de limpeza da pobreza e da população vulnerável. É um desenho do capital mundial, não é uma coisa que só acontece no Brasil”.

Apesar de ser uma estratégia geral observada no mundo, a coordenadora acredita que é necessário observar as especificidades brasileiras, em especial a da mulher negra, para compreender os processos de maneira apurada: “A invisibilidade trazida pelo racismo intensifica a necessidade dessa discussão da mulher negra no sistema prisional. É muito mais [uma forma de] compreender quais são os processos que o racismo desdobra dentro da lógica da justiça, uma vez que todos os sistemas coercitivos ou de controle sempre vão ser uma resposta às demandas que o capitalismo traz. Ora de inculcação, ora de conformação, ora de manipulação dentro da lógica do modo de produção. Então o processo de analisar as condições das mulheres e negras dentro do sistema prisional é pensar como se dá essa lógica do racismo e do machismo”.

Você pode realizar sua inscrição no seguinte link: https://goo.gl/nIxLvR.

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Simpl(es)cidade de Leo Silva

A exposição fotográfica, ou expedição visual, recebe visitações no Cuca Jangurussu até julho

Por Dani Guerra

O ponto de partida de Leo Silva é a identificação com a comunidade, ele é morador do Jangurussu desde o nascimento. A Exposição Simples Cidade – Simplicidade, potencializa o permanecer, estar no bairro, e não apenas fotografar e ir embora: “Eu já vi diversas vezes  a galera que fotografava aqui, mas não via o que eles fotografavam, eu não via o resultado final”.

Jangurussu é construído e criminalizado diariamente nos programas policiais, mas Leo não assiste TV, entende a vulnerabilidade do bairro, associando os serviços precários ao “esquecimento” da gestão pública. A ideia do fotógrafo é mostrar algo além do que vem sendo reproduzido sobre o local e desconcentrar o que as pessoas entendem por Jangurussu: “Normalmente, as pessoas não conhecem como é o Jangurussu em si, muitos não sabem quais são as comunidades que compõem, como chegar nesses locais, acabam centralizando o Jangurussu na área do Cuca, São Cristovão”.
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O trocadilho entre simplicidade e simples cidade situa o que Leo Silva entende por ela: circunstâncias de cotidiano, o caminho, calçada, espaços coletivos e privados, pessoas reais. “O Jangurussu é minha cidade”, defende. As paisagens de cartão-postal de Fortaleza, tão antigas quanto a desigualdade na cidade, não representam Leo, em seu discurso, precisam ser descentralizadas, o olhar perpassa a escolha dos objetos.

Em uma das fotos selecionadas para a  Exposição, a graça da reação de dois pivetes à câmera traz o dilema do fotógrafo no começo do projeto.  Um cotoco à fotografia. Como explica Leo, a reação inicial das pessoas ao desconhecido é tentar saber para onde vai aquele registro, mas, a partir deste contato, surgem as narrativas e, assim, vão se formando as personagens da exposição.

“No começo da exposição, eu comecei a articular essas comunidades para fazer essas visitas, só que depois eu fiquei pensando, se eu for entrar contato com alguém da comunidade que tem grande acesso àquele local, eu ia ter o antecedente que eu ia utilizar aquela comunidade só para fotografar e sair fora, que que eu fiz? Peguei a bike e comecei a sair andando pelo meu próprio bairro, ia em cada comunidade, em determinado momento, eu tirava a câmera e fotografava, em cada ponto isso foi criando grandes arquivos” – relembra.

Um cotoco à fotografia
Um cotoco à fotografia

Cada foto, uma história, quando não é simples reflexo do preto em branco da imagem, é relembrada no texto que acompanha a exposição. A seleção das imagens passa pelas oito comunidades do Jangurussu. Cada uma delas é ponto de passagem e permanência: “Primeiro foi o Santa Filomena, depois foi o Tamandaré e assim em diante”. O subtítulo da exposição é “fotos aleatórias”, a forma que Leo Silva encontrou de significar o que depende das circunstâncias, sujeito ao acaso.

Além de ficar em exposição na Rede Cuca, a exposição passou no Edital Ação Jovem e, por meio dele, será levado para dentro das comunidades que compõem o Jangurussu.

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Roger Pires sobre videoativismo: “Sair da condição de testemunha para a condição ativa dentro da situações”

Rocheda – Encontro de vídeoativistas começa hoje (26) na cidade solar e, em si, traz o questionamento sobre o ativismo e a comunicação que queremos. Roger Pires do Coletivo Nigéria explica, nesta entrevista, a ideia do encontro e potencializa as possibilidades que se abrem a partir do Rocheda. A palestra de abertura acontece às 19 horas no Porto iracema das Artes e é aberta ao público. Victor Ribeiro, da Witness, faz palestra sobre videoativismo e os coletivos locais Nigéria e Servilost compartilham experiências.

As inscrições para os dois dias de encontro foram destinadas a indivíduos e coletivos que já atuam com videoativismo, mas a mesa de abertura do evento é a oportunidade para “pessoas que tem interesse em vídeo, mas que não tem uma atuação ainda”, como declara Roger.

O ponto de partida foi o mapeamento dessas pessoas, o encontro representa a formação e troca necessária para a criação de uma rede de produtores audiovisuais com engajamento social. A palavra chave dessa entrevista é transformação.

Como surgiu essa ideia?

A ideia surgiu de um mapeamento que a Nigéria vem fazendo de coletivos e indivíduos que estão produzindo vídeos, principalmente nas periferias, uma galera um pouco mais nova que a gente, que, de repente, está entrando na faculdade, que está com uma sede de produção audiovisual e que se encaixa muito bem com o que a Nigéria já vem produzindo, nessa proposta do videoativismo.
A gente quer juntar essa galera para produzir junto, esse é um dos objetivos e o outro é trazer um pouco de formação em duas pegadas que a witness traz muito bem: uma é do vídeo advocacy, ou seja, o vídeo como ação transformadora, não só aquela coisa de sensibilizar a sociedade, mas fazer um vídeo que realmente tenha um impacto; e  outro é o vídeo como prova, usar vídeos em registro de violações de direitos humanos, de agressões em processos judiciais mesmo.

Quanto a programação, o que se pode esperar desse fim de semana?

A programação tem muita coisa no evento, a gente vai trocar experiências, se apresentar, se conhecer. O cara da Witness, o Vitor, vai dar algo mais parecido com uma oficina, mas a gente vai deixar bem livre também pras pessoas apresentarem os seus coletivos, as experiências, casos emblemáticos, projetos que querem desenvolver.

Ao final, a gente quer continuar essa rede, essa troca, muito provavelmente um grupo no Facebook e encontros periódicos para que a gente possa produzir, e aí, tem duas ideias legais: uma é o empréstimo de equipamentos, a gente tem um equipamento na Nigéria um pouco mais básico que a gente vai tá disponibilizando para empréstimo e também um  fundo rotativo solidário que a gente vai estabelecer em que as pessoas podem propor projetos, receber essa grana e devolver a mesma grana para que outra pessoa possa usar, ou pegar uma parte e outro projeto pega outra para incentivar ali pequenos gastos. Às vezes, as pessoas não tem nem o transporte para ir filmar.

Documentário “Com Vandalismo” do Coletivo Nigéria em 2013

Qual a importância do videoativismo na atual conjuntura do Brasil?

Acho que importância do videoativismo é a importância da comunicação, da arte, de trazer um pouco mais de criatividade para os processos de ativismo no geral, acho que o ativismo acaba caindo um pouco em alguns vícios de discurso e prática que não agregam tanto. Aí, quando você fala em filme, em fotos, em reportagens isso agrega informação, conteúdo e convida mais as pessoas. Então, eu acho que são formas de ativismo diferentes e legais, né? Acho que a gente precisa fazer coisas que a gente acha massa e não somente, reuniões, seminários, publicações, coisas que muitas vezes são chatas, pelo menos na minha opinião.

Por que fortalecer a produção audiovisual com engajamento social?

O lance da produção audiovisual com engajamento é a gente ter filmes e produções pra TV, para internet que possam trazer algum conteúdo, mesmo que leve, a alguma transformação. Para que a gente não caia só no entretenimento, só no humor que é muito comum na Internet por exemplo, ou só em propostas que tenham apelo comercial que é o que  agente tem mais em TV aberta.

O que a gente vê mais no cinema, filmes que tem grande alcance de bilheterias e, por isso tem uma temática mais popular, mais leve, a gente quer fazer uma coisa de consistência, mas que também tenha alguma viabilidade e que consiga trazer a galera. Porque o vídeo também está com um alcance muito bom nas redes sociais principalmente.

Então, se você ocupa esses espaços com vídeos que são interessantes, que tem um conteúdo legal, eu acho que a gente disputa um pouco a rede social, o tempo das pessoas e consegue ir, aos poucos, fazendo um processo de transformação de comportamento, de atitude.

Fala um pouco sobre o convidado para o evento Victor Ribeiro e sobre a Witness.

O Vitão é um vídeoativista do Rio de janeiro, ele participa de vários processos há anos e é um dos produtores ativos lá do Rio que está em contato com comunidades, movimentos, organizações. Recentemente, ele começou a integrar o quadro da Witness que é um ONG americana que trabalha o conselho de mídia advocacy e participa pelo mundo, dando oficinas, fazendo vídeos também campanhas e muito nessa pegada de litigância, ou seja, vídeos que são feitos para transformar, que não são entretenimento, que não são pra jogar na rede e causar repercussão, mas são vídeos que vão bater nos agentes transformadores, aí  tem vários casos disso, inclusive de conquistas e de sucessos que a Witness promoveu.

Por exemplo, a gente participou ativamente do processo da Copa, onde fez um vídeo que teve mais de 100 mil visualizações que chegou nas autoridades da Secretaria da Copa, que foi muito interessante e que tinha como temáticas as remoções, isso abriu uma janela de possibilidades sobre a redução dos impactos na Copa.

Houve oficinas da Witness acompanhando esse processo, quando eu conheci, foi uma oficina em 2012 com a Priscila que é uma brasileira que mora lá nos Estados Unidos e, desde lá, a gente vem trocando ideia pra ver se a gente consegue transformar, essa ação em vídeo e fotografia em algo transformador, não simplesmente vai mostrar o que está sendo, ou seja, sair da condição de testemunha para a condição ativa dentro da situações, dentro das problemáticas.

Como vocês pensaram a mesa de abertura?

O encontro está fechado não tem mais como a gente incluir participantes a não ser pessoas que a gente já está articulada, é uma coisa pequena mesmo, mas o evento de abertura é aberto ao público. A gente vai ter palestra do Vitor, falando do vídeo como prova, do vídeo advocacy, das experiências dele.

Também vai ter a participação da gente da Nigéria, trazendo algumas coisas que a gente vem acumulando e essas propostas do fundo solidário, do empréstimo, do equipamento e tentar engajar uma rede que vai funcionar a partir desse encontro para o público em geral que não pode participar do encontro, pessoas que tem interesse em vídeo, mas que não tem uma atuação ainda e que pode participar dessa rede em um outro momento.