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Tributo a Raul Seixas

Murais do coletivo Acidum (Fotos: João Ernesto)

João Ernesto

A chama do primeiro cigarro demorou mais que eu esperava. Planos de pegar o primeiro trem da estação de Natal até Ceará-Mirim em um sábado foram ficando para o de meio dia e quarenta. Vencer uma guerra lutando sozinho não estava nos planos, Nanda e Ygor tinham umas histórias daquele centro. Na cabeça havia umas músicas, uma em especial, do Sergio Sampaio dizendo que viajou de trem. Desde cedo, logo depois de acordar, a cantoria acompanhou os movimentos da manhã. Ceará-Mirim já me parecia um nome curioso, um pequeno Ceará vizinho à capital potiguar e é lá onde acontece a vigésima nona edição do Tributo a Raul Seixas, dito por muitos como o maior tributo do Brasil ao cantor baiano.

Admito que não me ative cronologicamente aos atos narrados aqui, o único fio condutor que bem lembro foram sentimentos, algo entre a alegria e a solidariedade esteve presente até a última cerveja tomada na cidade natal do time Globo Futebol Clube naquele dezoito de agosto. O Centro e a cidade alta, no museu da cultura popular Djalma Maranhão havia um grande mural com intervenções do Coletivo Acidum, amigos artistas que enchem os olhos de quem passa. Por onde andariam Robézio e Thereza? Registra e vamos informar o horário certo do próximo trem, tudo certo. Tempo de tomar um goró no bar do Litrão, pertinho da estação da Ribeira. Cerveja gelada nos copos e o dia se desenrolava como um gole pra uma goela seca.

As veias abertas de um dia em homenagem ao cantor baiano. Latinhas na mão e vamos pegar o trem. Primeiro vagão cantando músicas de Raul Seixas, de Aluga-se a Malandrinha (sim, teve tempo de cantar à capela o reggae de outro baiano, Edson Gomes). Nas conversas dentro do trem deu pra saber algumas coisas do vigésimo nono tributo ao Maluco Beleza: “o trem não era esse novo não, é a primeira vez que a gente tá indo de ar-condicionado”. Algo talvez considerado bom por alguém naquele vagão, provavelmente que não fosse ao tributo, porque pra boa parte dos instigados para ir ao evento era mais interessante o trem antigo: “o antigo era melhor, ele era aberto, a gente podia fumar e tudo”.

Na segurança do vagão tava Éder, primeira vez trabalhando no dia do tributo. Achando curioso, mas também já preparado pra lotação espontânea daquele dia. Ele, com um semblante tranquilo, conversou um pouco sobre como geralmente são os sábados naquele trem que depois soube que era um VLT. Ygor começou a ser Buda e prender a bexiga por pelo menos uma hora. Silencioso a maior parte do caminho por conta da vontade de mijar nos primeiros minutos de viagem. Sim, era mais de uma hora de trem e ele foi concentrando as energias pra hora certa. Passa o tempo e as cantorias, vamos pra estação de Ceará-mirinense.

cronica_jao2Engraçado notar como um evento que acontece há vinte e nove anos mantém uma tradição interessante: aglomerar pessoas de muitas idades, um aperitivo contra a caretice. Dos cabelos grisalhos a rostos sem barba, grupos de amigos tomando de Heineken a vinho barato, fumando careta e o cigarrinho do índio. Em uma mesma estação de trem existia um clima bonito de solidariedade até pra ajudar pessoas desconhecidas a manter um mínimo de privacidade para mijar na rua (independente de certo e errado, havia um motivo de solidariedade nessas pequenas manifestações de gentileza).

Umas moscas pousavam nas idéias. Pensamentos contemplativos muitos naquela tarde e sol a pino. Uma mosca questão perambulando a cabeça, perguntando quantos outros dias do ano as pessoas se destacam para ser mais solidárias com as outras. Quantos dias paramos o nosso tempo pra isso, mesmo inconscientemente? Ouvi muito naquele dia conversando com gente no meio da rua, muitos relatos, “olha, é a décima vez que venho aqui, nunca vi um relato de violência, de roubo. Todo mundo vem na paz”. Com as variantes de umas palavras, essa era a afirmação constante, nenhum fugiu a isso.

Sei lá, décima latinha. O canto da cabeça tá ficando quente e o pensamento no que escrever quando chegar em casa. A gente prefere deixar essas impressões do caminho por onde puder, a chegada traz um ponto em comum e as pessoas estão sempre em trânsito. Ano que vem vai ser o trigésimo tributo e muita dessa gente não estará mais aqui, outras tantas virão. Preciso lembrar que quando começar a estacionar a solidariedade pode ser um clímax genial para o nosso pensamento, pequenas certezas que o mundo nos oferece. Que a mensagem de um artista possa ajudar a fazer o pessoal jogar junto, jogar pra frente. Daqui um tempo vem eleição e com ela toda essa história de mentira, de disputa por poder. Ficam uns ensinamentos de horizontalidade que o social pode oferecer na música, na poesia, na vida.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

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Criança e Consumo lança campanha de denúncia contra o Mc Lanche Feliz

Ação baseia-se no exemplo de um cidadão brasiliense que denunciou a publicidade infantil abusiva da rede ao unir brinquedo a produtos alimentícios

Após constatar a exposição de brinquedos próxima ao balcão de atendimento de uma das lojas da rede de fast food McDonald’s em Brasília, um cidadão brasiliense denunciou ao Ministério Público a estratégia da empresa de direcionar publicidade às crianças. O Criança e Consumo, do Instituto Alana, foi procurado pelo órgão para contribuir com informações e, inspirado nessa ação, resolveu ajudar outros cidadãos a replicar a ação. O programa lançou a campanha “Abusivo Tudo Isso”, nas redes sociais.

A campanha propõe a assinatura de uma petição com denúncia para a Secretaria Nacional do Consumidor, do Ministério da Justiça, com cópia para o SAC do McDonald’s, que trata dos principais argumentos pelos quais a prática da empresa de anunciar e comercializar brinquedos com o intuito de promover seus produtos alimentícios para crianças é abusiva, ilegal e deve acabar. Ainda, estimula que os participantes compartilhem a mobilização, de forma a alcançar um número maior de cidadãos.

“Nós recebemos, o tempo todo, mensagens em nosso site, redes sociais e e-mail de pessoas indignadas com as estratégias publicitárias abusivas direcionadas às crianças por essa rede de fast food. E a denúncia deste cidadão nos inspirou a criar uma ferramenta para que reclamações semelhantes cheguem a um órgão responsável por sua fiscalização. Queremos que as pessoas saibam do seu poder de mobilização e denúncia e que a empresa tome conhecimento do descontentamento gerado por suas ações”, explica Ekaterine Karageorgiadis, advogada e coordenadora do Criança e Consumo.

Já existe consenso, entre especialistas, de que a comercialização de brinquedos por redes de fast food estimula o consumo excessivo e habitual de produtos alimentícios com altos teores de sódio, açúcar e gorduras, sendo extremamente prejudicial à saúde das crianças. A obesidade infantil e as doenças crônicas associadas são um problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Sem uma mudança de hábitos e práticas de mercado, em menos de uma década a obesidade pode atingir 11,3 milhões de crianças brasileiras.

Além disso, o fato de esses brinquedos serem exclusivos e colecionáveis faz com que a criança seja diretamente incentivada a consumir muitas “promoções” no curto espaço de tempo em que são oferecidas. Depois de conseguir o primeiro brinquedo da série, em geral, a criança quer completar a coleção e o apelo para que mãe, pai ou responsável compre os demais itens pode gerar estresse familiar.

Não à toa, o ministro do Superior Tribunal de Justiça, (STJ), Herman Benjamin, em julgamento de caso sobre publicidade direcionada a crianças, afirmou: “significa reconhecer que a autoridade para decidir sobre a dieta dos filhos é dos pais. E nenhuma empresa comercial e nem mesmo outras que não tenham interesse comercial direto, têm o direito constitucional ou legal assegurado de tolher a autoridade e bom senso dos pais”.

Vale lembrar que as famílias brasileiras se posicionam majoritariamente contra a publicidade direcionada a crianças, especialmente quando se trata de venda casada de brinquedos com produtos alimentícios não-saudáveis. A iniciativa é uma tentativa de dar voz à população no seu desejo  de defender a infância.

Recentemente, o Criança e Consumo lançou a campanha “Abusivo Tudo Isso”, para incentivar que pais, mães, responsáveis por crianças ou pessoas em geral (que discordem das ações de direcionamento de  publicidade abusiva ao público infantil), possam denunciar o MC Lanche Feliz ao Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor). A ideia da campanha é facilitar para que os adultos (que discordem da prática de anunciar e comercializar brinquedos com o intuito de promover seus produtos alimentícios para crianças) manifestem seu posicionamento, inclusive perante a empresa, que recebe uma cópia dos emails.

Conheça a campanha: http://criancaeconsumo.org.br/abusivo-tudo-isso/

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“A Escola é Nóis”: Berro facilita projeto de Educomunicação no Bom Jardim

(Foto: Geovana/ Revista Berro)

Olha que notícia massa, galera! Se assentem e tomem tento para lê-la! Ontem, 11 de setembro, iniciamos o “A Escola é Nóis”, um projeto de educomunicação e direitos humanos de 60 horas que será realizado pelos próximos três meses na Escola de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) Santo Amaro, no Bom Jardim, bairro da zona oeste de Fortaleza (CE). A iniciativa é uma parceria entre o Instituto Dragão do Mar – por meio do Centro Cultural do Bom Jardim (CCBJ) – e a Berro.

Ao longo dos próximos meses, vamos desenvolver junto com os/as estudantes – uma turma de aproximadamente 25 discentes – a elaboração de um jornal escolar impresso, a montagem de uma rádio-escola, a criação de um blog, com acompanhamento nas redes sociais, e o gerenciamento de softwares para captação e edição audiovisual em dispositivos móveis (smartphones e tablets). A ideia fundamental da formação é que, ao final do projeto, os/as jovens, com média de idade entre 15 e 18 anos, além de pensarem a comunicação social a partir de uma perspectiva crítica e reflexiva, mantenham autonomamente a continuação dos produtos comunicacionais desenvolvidos (nas linguagens de impresso, rádio e internet) e estejam aptos a compartilharem os saberes, conhecimentos e técnicas aos/às demais colegas. Não é massa? A gente da Berro está super instigado, porque temos um montão de coisas a trocar com essas meninas e meninos, muito a aprender, muito a repassar!

A Lorena Estephany, de 17 anos, que cursa o 3º ano do Ensino Médio, também está instigada! Ela nos contou que resolveu fazer o curso porque queria ampliar seus conhecimentos, já que aprender coisas novas é algo que a motiva. “Comunicação é uma coisa que eu gosto”, comenta Lorena, com um brilho no olho que transmite toda sua potência juvenil. O Sterlan Moreira, também de 17 anos, que está no 9º ano do Ensino Fundamental, nos disse que, por mais que ele queira através do projeto aprimorar-se profissionalmente e aprender a falar em público, o principal mesmo é “conviver com as pessoas, fazer amizades novas”. De nossa parte, já ganhou amigos novos, viu Sterlan? Aliás, a fala do Sterlan é bem representativa. De quê adianta absorver novos saberes e conhecimento se esquecemos de cultivar a amizade nas relações interpessoais, né?

2O diretor da escola Santo Amaro, Marcos Matias, 36 anos, acredita na possibilidade da educação pública propor e formar estudantes com uma leitura crítica e dialógica sobre as questões sociais. É por isso que ele está dando todo o apoio ao projeto. “É preciso tratar esses meninos e meninas como gente, ter um olhar diferenciado para eles. Acredito que [com o curso] vão começar a refletir e elaborar melhor suas próprias questões, vão perceber o mundo através da linguagem, seja ela escrita ou oral”, diz Marcos.

A Berro é uma revista em movimento. Comunicação-movimento! Ela sai do papel, sai da internet, e vai ao encontro das pessoas, no rumo dos processos de construção coletiva, porque é nisso que acreditamos! Se, infelizmente, não temos dinheiro para lançar novas edições impressas (isso é uma peleja, minha gente!), não estamos parados. Caminhar nas trilhas da construção de um mundo justo, fraterno e igualitário é, possivelmente, a razão de existir dessa revistinha enxerida. Que tenhamos sempre a força da sonhação (sonho + ação)! Oxalá!

 

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Arte urbana como “manifestação necessária”

Por Artur Pires

Odylo Falcão rabiscava nas paredes de casa e da escola quando meninote. Ali começava a ser formado o artista que hoje pinta as paredes do Rio de Janeiro com cores, formas e sabores, compondo uma estética de feição singular, com forte marca autoral.

Já realizou três exposições, uma desenho, em pastel seco, e duas de pintura, em acrílico. Ademais, cria murais em paredes, muros, tapumes e outras superfícies, como pintura em porta de aço. Sempre que pode, rabisca palavras que viram crônicas e poemas. De acordo com ele, “as linhas do mundo vão guiando o seu olhar e você descobre um jeito novo de traduzi-las. Fiz cursos, conversei com artistas, mas procurei um olhar próprio, autoral, que me fizesse feliz com as minhas experiências”.

As referências artísticas de Odylo Falcão são transversais, do grafite ao desenho, da pintura à ilustração. Mas também as artes plásticas clássicas: “Volpi, Picasso, Matisse, Van Gogh e vários têm um lugar especial na minha memória gráfica”, conta. “Minha arte é autobiográfica, transformo meu filho Gabriel de 11 anos em personagem, assim como minha esposa Rita, e me represento nos pássaros, por achar que assim ganho toda liberdade para voar bem alto”, suspira alçando vôos sem asas.

Com relação à arte urbana, o artista acredita que “é uma manifestação necessária, e por vezes a única galeria de arte para muitos, por vários motivos. Minha mensagem é estética e tanto nas cores como no preto e branco, vou criando um mundo de formas simples, como uma grande ilustração a céu aberto. Se está na rua, um território livre, está exposto a todo tipo de crítica, e também é um agente transformador da paisagem e que leva reflexão além da melhora visual do local”. Por mais riscos nos muros! Gritos escritos nas paredes das urbes!

Mais sobre o artista:

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Casamento de Raposa

Por Thiago Noronha

Quando eu era criança, eu achava que o Sol e a Chuva eram inimigos e ficavam brigando entre si.

O Sol era o mais poderoso de todos. Uma projeção de herói dourado e fortão. A Chuva era fraca, mas traiçoeira. Uma mulher bonita de cabelos brancos, vestindo trapos cinzas rasgados e escondendo punhais de prata nas dobras do tecido.

Por fatores meteorológicos da cidade onde nasci, a Chuva vinha pouco, e à noite: o sereno. Tímida, usufruindo da fraqueza noturna de seu adversário. E nunca chovia forte durante o dia, mesmo nos meses mais chuvosos. Chuva forte eram as da madrugada.

As nuvens roxas eram o exército da Mulher Cinza. Os trovões, fortes guerreiros. Os ventos eram apenas vítimas, pois esses eram amigos leais dos dias ensolarados. O sol não precisava de exércitos, matava as nuvens a espadadas flamejantes.

Os dias nublados eram os dias em que a Chuva havia derrotado o Sol. Eu odiava dias de chuva, pois significavam que o meu “super-herói” favorito tinha perdido. Mas ele estava apenas se recuperando. Voltaria com tudo. Em dias nublados as nuvens se reproduzem e tomam todo o céu. E até as pobres estrelas, que só têm a noite, vêem-se vítimas da cruel mulher sem compaixão e seu exército de corpulentos guerreiras roxas.

Se os dias nublados eram consecutivos, eu dizia que o Sol tinha sido gravemente ferido e estava demorando mais para se recuperar. Mas quando voltava, dava uma surra tão pesada na Chuva que essa, muitas vezes, não aparecia por semanas.

Aí, vi na TV que o sol estava fazendo maldades no sertão. Fiquei magoado. Traído. Torci pela Mulher Cinza. Mas foi só por um tempo.

A covardia maior vinha quando a Chuva atacava nos finais de semana. Durante a semana, o Sol tá lá, como todos os adultos, trabalhando, vigiando. No final de semana, o Sol tira a armadura, põe uma bermuda, toma uma cerveja antes do almoço, vai para a praia. Atacar o Sol nesses dias é uma puta maldade.

Aí, fui a uma missa no dia de São José. Nesse dia, todo mundo reza pela vitória da Chuva para que as plantas não morram de sede. Aí eu achava que São José sempre “descia” dia 19 de março e se juntava a Chuva para lutar contra o Sol e ajudar os humanos. Lá estava eu forçado a torcer contra o meu ídolo imaginário, novamente. E São José deve ser um grande guerreiro, porque lembro de dias chuvosos e notícias esperançosas na TV.

Uma vez choveu no casamento de uma prima do lado materno. Segundo minha mãe, choveu naquele casamento porque a noiva não tinha feito a promessa da noiva.

— O que é a promessa da noiva?

— A noiva, meses antes de casar, passa um dia inteiro numa igreja rezando para que não venha chuva no dia do casamento. E para não engordar também.

Então Deus mandava um guerreiro muito poderoso que ficava guardando aquele dia contra os ataques da chuva.

Quando a noiva tinha feito a promessa e mesmo assim chovia, é porque ela não era pura. Eu não entendi isso mas não questionei.

Hoje em dia, as mulheres, pela “impureza” geracional ou por preguiça de irem à igreja, preferem ambientes cobertos.

Aí, fui em Belém e vi que lá a Chuva havia achado um dos pontos fracos do Sol e todos os dias o derrotava no fim de tarde.

Na Irlanda, o exército de nuvens da chuva é mais resistente e forte, pensei eu aos vinte e dois.

No verão carioca, torce-se por um ataque surpresa e rápido da chuva para enfraquecer o sol, aprendi aos vinte e três.

Bom mesmo é quando o sol e a chuva brincam juntos no céu. Fazem as pazes por breves instantes. E todo o céu fica bonito. É hora de sair na rua de pés descalços e tomar banho de chuva. Pisar com força nas poças de água. Casamento de Raposa.

Essas raposas devem ser muito impuras ou nada religiosas, concluo, aos vinte e cinco.

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

CAPA - SOM D_LUNA - NESSE TREM

Som D’Luna lança seu primeiro CD apostando na renovação da música popular brasileira

Gravado em João Pessoa, com lançamento nas plataformas digitais e em formato físico, “NESSE TREM” reúne composições e arranjos dos gêmeos paraibanos Vitor e Diogo Luna, em 11 faixas que passeiam pelo baião, samba, soul, funk e balada

A nova MPB ganha frescor paraibano em dobro com o lançamento do disco NESSE TREM, do Som D’Luna, formado pelos gêmeos Vitor e Diogo Luna. De João Pessoa, os irmãos, que decidiram caminhar juntos pela música, lançam o seu primeiro CD gravado em estúdio, totalmente autoral, renovando o cenário nacional da música popular brasileira, em composições que vão desde o baião ao soul/funk.

Com 11 faixas e produzido no estúdio Gota Sonora, em João Pessoa, o NESSE TREM carrega uma variedade de estilos diferentes, conectados por timbres, histórias, texturas e arranjos. Um disco que guarda os olhares dos gêmeos sobre a vida, sobre os amores, as paixões que os fazem vibrar e acordar dispostos, sobre enxergar com esperança cada recorte das horas. “Esse disco é uma tentativa de escancarar uma relação entre nós e as sonoridades que nos fizeram chegar a decisão da música”, afirmam. “Dormimos e acordamos pensando em dividir aquilo que amamos fazer e achamos que não tem algo que descreva melhor esse momento do que: uma incessante busca de sempre fazer música com o coração. Fazer esse trabalho com toda entrega possível”.

Sob direção geral do paulista Jader Finamore (os Fulano), mixagem de Renato Oliveira e arranjos de Vitor Luna e Diogo Luna, Jader Finamore e Ítalo Viana (baixista), o disco foi finalizado junto a uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo. Fazem parte do disco ainda, os bateristas Thiago Jorge, Herbert José e Gilson Machado, os tecladistas Uaná Barreto e Renato Oliveira, o percussionista paulista Luccas Martins (Serelepe), além do saxofonista Joab Andrade, o trompetista Emanoel Barros, o trombonista Sabiano Araújo, o violoncelista Tom Drummond, o flautista Renan Rezende e o clarinetista Thompson Moura. Violões e guitarras por conta dos irmãos gêmeos.

Vitor e Diogo Luna

Nascidos e residindo em João Pessoa (Paraíba), os irmãos começaram sua história profissionalmente com apresentações em bares locais, casamentos, recepções e festas fechadas. Com o tempo, um repertório autoral ganhou corpo e, em 2013, uma nova percepção sobre o mercado se consolidou buscando novos caminhos, que vieram em seguida, em 2014, com uma apresentação na Usina Cultural Energisa (João Pessoa –PB) e, logo depois, a pedido de um produtor musical, um período em Portugal, onde realizaram apresentações em diversas casas, inclusive na Avenida da Liberdade, principal avenida de Lisboa.

De volta ao Brasil, gravaram em home studio e de forma independente o EP “Secura”, formado por 7 faixas autorais e executadas de forma acústica, basicamente vozes, violões e, em algumas canções, percussão. O EP foi importante para os irmãos se tornarem conhecidos na cidade, com músicas tocando em diversas rádios locais e virtuais, com destaque para o single “Mais Ninguém”, gravado depois da estreia do disco, atingindo uma divulgação inesperada na programação diária das emissoras e redes sociais.

Onde ouvir:

Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=XHoO1QzEQWQ&list=PLouDNR7V98FIcx9PKvS2g2wbLgjhTywvz

Spotify

https://open.spotify.com/artist/4aEdUmMWyf5gu6Zw58Z96M?si=R6sfOaMlRCCRiI_KrImWfg

Deezer

https://www.deezer.com/en/artist/14480423

Imusic

https://itunes.apple.com/br/album/nesse-trem/1367777775

Download completo: www.somdluna.com.br

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Para Ler No Vaso

Por Thiago Noronha

Os banheiros são os cômodos mais sinceros de uma casa. Um banheiro diz muito sobre os usuários e suas rotinas. Pego-me a recordar, na manhã de uma quarta nada especial, dos muitos banheiros em que já estive.

Certa vez, mataram um homem dentro do banheiro de um bar na esquina da minha casa. Briga de bar, concluíram durante as incontáveis narrações do ocorrido. E, naquela época, em que a publicidade era algo tão rudimentar na periferia de Fortaleza, o “conta-reconta” gerou um movimento de curiosos que iam tomar aquela cervejinha no bar e entre um assunto e outro, olhar de relance a porta do tal banheiro. O bar acabou mudando o nome de ‘Bar Irmãos Peixoto’ para ‘Bar do Banheiro’. Muito bêbado metido a valente segurou xixi só para não se pôr à prova das tais histórias do banheiro assombrado.

Quando se ia mijar, tinha que dizer bem baixinho três vezes: ‘com licença seu homem do banheiro’. Se você cagava no banheiro, a alma do tal do homem te puxava para dentro do vaso pelas tripas. Talvez fosse verídico, ou talvez o dono do bar quisesse evitar entupimentos e apenas criou a história toda.
Uma vez, dividi apartamento com duas irmãs que compartilhavam um quarto. Impossibilitadas de encontros sexuais em suas camas, pela presença da irmã, não eram raras as vezes em que eu acordava pelos gemidos abafados vindos do banheiro. Era interessante e curioso. Sempre me perguntava onde elas se apoiavam para o sexo se tudo ali era sempre tão gelado, até que, em um momento epifânico, encarei a tábua de passar roupa inocentemente, e desde sempre, guardada atrás da porta do banheiro. Lembro dos tons alaranjados da almofada daquela tábua. Por muitas vezes a imagem dela montada no centro do banheiro me veio à cabeça.

” – Quem nunca transou num banheiro né?!… químico”

Um amigo muito estranho, muito mesmo, narrou-me, certa vez, todas as informações que ele sabia sobre os moradores da casa em que vivia: uma republica universitária. As marcas favoritas de camisinha de cada um. O ciclo menstrual das mulheres. A alimentação e saúde intestinal. A quantidade de vezes por dia em que o china se masturbava e jogava os lencinhos umedecidos impregnados de porra no cesto de lixo, deixando toda aquele cheiro de punheta alheia. O tempo que cada um leva para evacuar. As mudanças de perfume. Depilação. Uma das garotas toma banhos longos em dias tristes. Ele é muito estranho, esse meu amigo.

“- O que você está esperando de um sábado quando raspa o saco às 18:55?”

Lembro de, nostalgicamente, perguntar a minha mãe qual tinha sido o momento mais feliz que ela lembrava de ter tido comigo. Ela respondeu que foi quando eu era criancinha; em um banheiro.
A primeira vez em que eu aprendi a cagar no vaso. Veio nela todo o sentimento de que nunca mais precisaria trocar uma fralda na vida. Foi lindo e libertador, ela disse. Eu lembro que eu gostava de apertar a descarga, mas não alcançava. Aí ela me levantava no colo e dizia:

– Um homem deve se livrar das próprias merdas.

– Tchau merda!

Meu amigo, o estranho, até hoje dá tchau para a merda no vaso. Às vezes, distraído, diz ‘falou’ ou ‘até’, ‘valeu’, ‘é nós!’.

Na parte de trás da porta do banheiro da firma, frases motivacionais para você bater as metas. No banheiro da igreja, um questionamento em piloto vermelho: Deus existe mesmo? Na terceira cabine do banheiro masculino do terceiro andar da faculdade de história, uma frase rápida e direta avisa que o Paulo aparece todas as sextas-feiras às 20h e chupa até as bolas.

Um antigo colega de trabalho tinha o costume de ouvir tango enquanto cagava. Era interessante abrir a porta do banheiro da firma e ouvir toda aquela sofrência argentina vinda de um dos privados. Deve haver alguém por aí que caga ao som de Maiara e Maraísa. E gente que transa ouvido Roberto Carlos. Essa é a graça do mundo: tem de tudo.
Na firma, já se comentava do costume acústico envolvendo as cagadas do fulano lá. Ganhou o apelido de Gardel. O Gardel é um cara legal, mas tudo o que me vem à cabeça quando vejo uma foto dele no Instagram é o tango da defecação.

Encaro o espelho e seus inúmeros pingos de pasta de dente. O que o seu banheiro diria sobre você?

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

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Minha Vida é uma arte

Um dos trabalhos artísticos de Wesley com fogo

Por Wesley D´Amico

Minha Vida é uma arte.

Tive que sujar as mãos de graxa, cortar lenha, derreter metais, e fazer joias, para um dia ser artista plástico, todas essas profissões me ajudaram com arte.

Usei a mecânica para fazer meus quadros com geometria.

Usei meus meses de lenhador para fazer meus cartões de visita de madeira.

Usei meus meses com fundição para fazer uma tela que resistisse ao fogo.

Usei meu curso de joalheria para fazer micro arte.

Comecei minha vida na graxa de Deus, isso mesmo, não é graça de Deus, é graxa mesmo, preta e suja, e nunca pensei em colorir minha vida, estava feliz sendo mecânico, mas a vida tinha planos para mim. Assim estou hoje, sendo um artista plástico com desafios de mercado, sem vender, sobrevivo da mecânica e uso o dinheiro da mecânica para conseguir manter a arte.

Não para por aí, quando eu tinha ateliê um senhor me disse que minhas telas eram de “nível galeria”. Então mandei e-mail para maioria das galerias de São Paulo, sem sucesso, recebi as respostas assim: “minha galeria está lotada”, “minhas paredes estão lotadas”, “o quadro de artistas está completo”, “sua arte não é perfil da galeria”, fora as outras que não responderam, mas não desisti, fui lá pessoalmente, de cara já escutei um “Wesley, não é o artista que vem até a galeria, quando ele é bom, a galeria vai até o artista”.

Outra coisa: para expor em galeria, tem que pagar, e não é barato e não tem garantia de venda. Desde 2004 trabalho com arte, moro atualmente no interior de São Paulo e nunca imaginei ser um artista plástico, quando morava em São Paulo sempre passava na frente de museus e nunca me chamou atenção e hoje saio de Mombuca para visitar museus de São Paulo.

Confesso que pela minha dificuldade de mercado e de críticas, a arte não me atrai por sua história e dificuldade. Mas aos 5 anos gostava de desmontar meus carrinhos para ver como funcionava e aos 10 fiz meu primeiro barco, ficou incrível, minha tia tentou vender e sem sucesso deixou em um bar para decorar e tentar vender, lembro que era muito caro, mas até hoje não sei que fim deu.

Para fazer esse barco caminhava por sete quarteirões para chegar a uma marcenaria e pedir folhas finas de madeira cerejeira. Depois da dificuldade de venda, acho que desanimei de fazer algo assim, mas lembro que quando peguei um ônibus com a minha tia para levar o barco para uma cliente, os passageiros perguntavam quem havia feito e me deram parabéns. Mas a cliente da minha tia não comprou o barco. Acho que era de um time de futebol que ela não gostou.

Sou Wesley D’Amico, artista brasileiro, nascido em 1978.

Conheça mais do trabalho do artista:

https://issuu.com/wesleydamico/docs/codigo_para_minha_alma 

wesleydamico@gmai.com

 

esvazie-se

Travessia

Por Graça Moreira

Um caminho, o meu mais.
Mais experiência e mais vida
acrescentando sabedoria,
linha tênue que separa
a ânsia do buscar
e a tranquilidade do deixar vir,
a força do conduzir
e a calmaria do deixar-se levar.
E num aprendizado incessante
os desejos são transformados,
os valores são revistos.
A tolerância é um filtro
a paciência é melhor abrigada
a urgência desacelera.

O olhar já não é o mesmo,
agora, mais complacente, mais sereno.
O futuro é construído no presente
o presente é ser, é estar, é tudo.

Graça Moreira é psicóloga

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Eduardo Galeano: um contador de histórias escondidas

Por Vanessa Dourado

A América Latina e suas Histórias mais profundas, mais sentidas pelos corpos e pelas almas de seus habitantes. Esta é, sem dúvida, a temática mais marcante no trabalho do escritor uruguaio Eduardo Galeano.

As palavras peregrinas de Galeano levam o leitor para uma viagem pelos detalhes culturais dos territórios e para um interessante despertar de ideias. As provocações articuladas com uma suave ironia e duras críticas com relação à localização sócio-política da América Latina no mundo são disparadores para reflexões e questionamentos.

Muitas negações, rechaços e denúncias estão presentes na literatura do escritor – que gostaria de ter sido jogador de futebol. A crítica à igreja como instituição colonizadora, alienante e normalizante, o desprezo pelo academicismo e o olhar sensível sobre a condição das mulheres na sociedade, são características marcantes e presentes em toda sua obra.

Os desenhos que ilustram as surpreendentes páginas de seus livros guardam uma vontade de resgatar antepassados e fazem um despretensioso culto ao misticismo ameríndio.

Ler Galeano é como adentrar a uma cozinha na qual se prepara variados pratos e onde se sentem vários aromas diferentes. Seu peculiar estilo de escrever transita entre a poesia, o relato e jornalismo-histórico. Seus textos relatam a dura realidade vivida pelos povos latino-americanos, a herança colonial deixada pelo descobrimento das terras que nunca foram perdidas, mas também relatam as resistências, a alegria, as cores e os sons daqueles que entendem seus territórios como extensão dos próprios corpos.

Os vínculos afetivos, presentes em muitos de seus textos, são relatados através das relações entre as personagens, pelas formas de se afetarem, pela simplicidade complexa de suas relações corpóreas, uma conversa entre corpos traduzida em insuficientes palavras.

O autor é, sobretudo, um curioso que compartilha suas descobertas. Isso faz com que a leitura de seus livros seja uma experiência única. Ler Galeano é desvendar as gavetas de seu imaginário e de sua existência intelectual nos mais diversos níveis – desde o mais sensível ao mais articulado diagnóstico da realidade concreta. No entanto, a sensação é a de ter uma conversa relaxada em um café com algum amigo querido, ouvir suas experiências cotidianas e as impressões que lhe atravessam.

Apesar da difícil tarefa escolhida – ou pela qual foi escolhido -, o autor consegue não resignar-se e transforma cada frase de seus característicos curtos textos em uma espécie de esperança-poética-realista que caminha rumo a uma utopia que permite sonhar de olhos abertos.

O vocabulário simples – e nem por isso pouco articulado – revela um caçador de palavras, e de Histórias, que quer ser compreendido, mais que precisamente lido ou reconhecido. Todavia, é difícil não reconhecer sua autenticidade e sua impactante forma de fazer com que o leitor questione seus próprios paradigmas. Para ler Galeano é necessário estar preparado para questionar a si mesmo, para desconstruir e reconstruir ideias e para colocar-se também como escritor de uma História coletiva, escrita no agora.

Vanessa Dourado é escritora, bissexual e feminista latino-americana

*Publicado originalmente na revista portuguesa InComunidade