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Arte urbana como “manifestação necessária”

Por Artur Pires

Odylo Falcão rabiscava nas paredes de casa e da escola quando meninote. Ali começava a ser formado o artista que hoje pinta as paredes do Rio de Janeiro com cores, formas e sabores, compondo uma estética de feição singular, com forte marca autoral.

Já realizou três exposições, uma desenho, em pastel seco, e duas de pintura, em acrílico. Ademais, cria murais em paredes, muros, tapumes e outras superfícies, como pintura em porta de aço. Sempre que pode, rabisca palavras que viram crônicas e poemas. De acordo com ele, “as linhas do mundo vão guiando o seu olhar e você descobre um jeito novo de traduzi-las. Fiz cursos, conversei com artistas, mas procurei um olhar próprio, autoral, que me fizesse feliz com as minhas experiências”.

As referências artísticas de Odylo Falcão são transversais, do grafite ao desenho, da pintura à ilustração. Mas também as artes plásticas clássicas: “Volpi, Picasso, Matisse, Van Gogh e vários têm um lugar especial na minha memória gráfica”, conta. “Minha arte é autobiográfica, transformo meu filho Gabriel de 11 anos em personagem, assim como minha esposa Rita, e me represento nos pássaros, por achar que assim ganho toda liberdade para voar bem alto”, suspira alçando vôos sem asas.

Com relação à arte urbana, o artista acredita que “é uma manifestação necessária, e por vezes a única galeria de arte para muitos, por vários motivos. Minha mensagem é estética e tanto nas cores como no preto e branco, vou criando um mundo de formas simples, como uma grande ilustração a céu aberto. Se está na rua, um território livre, está exposto a todo tipo de crítica, e também é um agente transformador da paisagem e que leva reflexão além da melhora visual do local”. Por mais riscos nos muros! Gritos escritos nas paredes das urbes!

Mais sobre o artista:

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Casamento de Raposa

Por Thiago Noronha

Quando eu era criança, eu achava que o Sol e a Chuva eram inimigos e ficavam brigando entre si.

O Sol era o mais poderoso de todos. Uma projeção de herói dourado e fortão. A Chuva era fraca, mas traiçoeira. Uma mulher bonita de cabelos brancos, vestindo trapos cinzas rasgados e escondendo punhais de prata nas dobras do tecido.

Por fatores meteorológicos da cidade onde nasci, a Chuva vinha pouco, e à noite: o sereno. Tímida, usufruindo da fraqueza noturna de seu adversário. E nunca chovia forte durante o dia, mesmo nos meses mais chuvosos. Chuva forte eram as da madrugada.

As nuvens roxas eram o exército da Mulher Cinza. Os trovões, fortes guerreiros. Os ventos eram apenas vítimas, pois esses eram amigos leais dos dias ensolarados. O sol não precisava de exércitos, matava as nuvens a espadadas flamejantes.

Os dias nublados eram os dias em que a Chuva havia derrotado o Sol. Eu odiava dias de chuva, pois significavam que o meu “super-herói” favorito tinha perdido. Mas ele estava apenas se recuperando. Voltaria com tudo. Em dias nublados as nuvens se reproduzem e tomam todo o céu. E até as pobres estrelas, que só têm a noite, vêem-se vítimas da cruel mulher sem compaixão e seu exército de corpulentos guerreiras roxas.

Se os dias nublados eram consecutivos, eu dizia que o Sol tinha sido gravemente ferido e estava demorando mais para se recuperar. Mas quando voltava, dava uma surra tão pesada na Chuva que essa, muitas vezes, não aparecia por semanas.

Aí, vi na TV que o sol estava fazendo maldades no sertão. Fiquei magoado. Traído. Torci pela Mulher Cinza. Mas foi só por um tempo.

A covardia maior vinha quando a Chuva atacava nos finais de semana. Durante a semana, o Sol tá lá, como todos os adultos, trabalhando, vigiando. No final de semana, o Sol tira a armadura, põe uma bermuda, toma uma cerveja antes do almoço, vai para a praia. Atacar o Sol nesses dias é uma puta maldade.

Aí, fui a uma missa no dia de São José. Nesse dia, todo mundo reza pela vitória da Chuva para que as plantas não morram de sede. Aí eu achava que São José sempre “descia” dia 19 de março e se juntava a Chuva para lutar contra o Sol e ajudar os humanos. Lá estava eu forçado a torcer contra o meu ídolo imaginário, novamente. E São José deve ser um grande guerreiro, porque lembro de dias chuvosos e notícias esperançosas na TV.

Uma vez choveu no casamento de uma prima do lado materno. Segundo minha mãe, choveu naquele casamento porque a noiva não tinha feito a promessa da noiva.

— O que é a promessa da noiva?

— A noiva, meses antes de casar, passa um dia inteiro numa igreja rezando para que não venha chuva no dia do casamento. E para não engordar também.

Então Deus mandava um guerreiro muito poderoso que ficava guardando aquele dia contra os ataques da chuva.

Quando a noiva tinha feito a promessa e mesmo assim chovia, é porque ela não era pura. Eu não entendi isso mas não questionei.

Hoje em dia, as mulheres, pela “impureza” geracional ou por preguiça de irem à igreja, preferem ambientes cobertos.

Aí, fui em Belém e vi que lá a Chuva havia achado um dos pontos fracos do Sol e todos os dias o derrotava no fim de tarde.

Na Irlanda, o exército de nuvens da chuva é mais resistente e forte, pensei eu aos vinte e dois.

No verão carioca, torce-se por um ataque surpresa e rápido da chuva para enfraquecer o sol, aprendi aos vinte e três.

Bom mesmo é quando o sol e a chuva brincam juntos no céu. Fazem as pazes por breves instantes. E todo o céu fica bonito. É hora de sair na rua de pés descalços e tomar banho de chuva. Pisar com força nas poças de água. Casamento de Raposa.

Essas raposas devem ser muito impuras ou nada religiosas, concluo, aos vinte e cinco.

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

CAPA - SOM D_LUNA - NESSE TREM

Som D’Luna lança seu primeiro CD apostando na renovação da música popular brasileira

Gravado em João Pessoa, com lançamento nas plataformas digitais e em formato físico, “NESSE TREM” reúne composições e arranjos dos gêmeos paraibanos Vitor e Diogo Luna, em 11 faixas que passeiam pelo baião, samba, soul, funk e balada

A nova MPB ganha frescor paraibano em dobro com o lançamento do disco NESSE TREM, do Som D’Luna, formado pelos gêmeos Vitor e Diogo Luna. De João Pessoa, os irmãos, que decidiram caminhar juntos pela música, lançam o seu primeiro CD gravado em estúdio, totalmente autoral, renovando o cenário nacional da música popular brasileira, em composições que vão desde o baião ao soul/funk.

Com 11 faixas e produzido no estúdio Gota Sonora, em João Pessoa, o NESSE TREM carrega uma variedade de estilos diferentes, conectados por timbres, histórias, texturas e arranjos. Um disco que guarda os olhares dos gêmeos sobre a vida, sobre os amores, as paixões que os fazem vibrar e acordar dispostos, sobre enxergar com esperança cada recorte das horas. “Esse disco é uma tentativa de escancarar uma relação entre nós e as sonoridades que nos fizeram chegar a decisão da música”, afirmam. “Dormimos e acordamos pensando em dividir aquilo que amamos fazer e achamos que não tem algo que descreva melhor esse momento do que: uma incessante busca de sempre fazer música com o coração. Fazer esse trabalho com toda entrega possível”.

Sob direção geral do paulista Jader Finamore (os Fulano), mixagem de Renato Oliveira e arranjos de Vitor Luna e Diogo Luna, Jader Finamore e Ítalo Viana (baixista), o disco foi finalizado junto a uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo. Fazem parte do disco ainda, os bateristas Thiago Jorge, Herbert José e Gilson Machado, os tecladistas Uaná Barreto e Renato Oliveira, o percussionista paulista Luccas Martins (Serelepe), além do saxofonista Joab Andrade, o trompetista Emanoel Barros, o trombonista Sabiano Araújo, o violoncelista Tom Drummond, o flautista Renan Rezende e o clarinetista Thompson Moura. Violões e guitarras por conta dos irmãos gêmeos.

Vitor e Diogo Luna

Nascidos e residindo em João Pessoa (Paraíba), os irmãos começaram sua história profissionalmente com apresentações em bares locais, casamentos, recepções e festas fechadas. Com o tempo, um repertório autoral ganhou corpo e, em 2013, uma nova percepção sobre o mercado se consolidou buscando novos caminhos, que vieram em seguida, em 2014, com uma apresentação na Usina Cultural Energisa (João Pessoa –PB) e, logo depois, a pedido de um produtor musical, um período em Portugal, onde realizaram apresentações em diversas casas, inclusive na Avenida da Liberdade, principal avenida de Lisboa.

De volta ao Brasil, gravaram em home studio e de forma independente o EP “Secura”, formado por 7 faixas autorais e executadas de forma acústica, basicamente vozes, violões e, em algumas canções, percussão. O EP foi importante para os irmãos se tornarem conhecidos na cidade, com músicas tocando em diversas rádios locais e virtuais, com destaque para o single “Mais Ninguém”, gravado depois da estreia do disco, atingindo uma divulgação inesperada na programação diária das emissoras e redes sociais.

Onde ouvir:

Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=XHoO1QzEQWQ&list=PLouDNR7V98FIcx9PKvS2g2wbLgjhTywvz

Spotify

https://open.spotify.com/artist/4aEdUmMWyf5gu6Zw58Z96M?si=R6sfOaMlRCCRiI_KrImWfg

Deezer

https://www.deezer.com/en/artist/14480423

Imusic

https://itunes.apple.com/br/album/nesse-trem/1367777775

Download completo: www.somdluna.com.br

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Para Ler No Vaso

Por Thiago Noronha

Os banheiros são os cômodos mais sinceros de uma casa. Um banheiro diz muito sobre os usuários e suas rotinas. Pego-me a recordar, na manhã de uma quarta nada especial, dos muitos banheiros em que já estive.

Certa vez, mataram um homem dentro do banheiro de um bar na esquina da minha casa. Briga de bar, concluíram durante as incontáveis narrações do ocorrido. E, naquela época, em que a publicidade era algo tão rudimentar na periferia de Fortaleza, o “conta-reconta” gerou um movimento de curiosos que iam tomar aquela cervejinha no bar e entre um assunto e outro, olhar de relance a porta do tal banheiro. O bar acabou mudando o nome de ‘Bar Irmãos Peixoto’ para ‘Bar do Banheiro’. Muito bêbado metido a valente segurou xixi só para não se pôr à prova das tais histórias do banheiro assombrado.

Quando se ia mijar, tinha que dizer bem baixinho três vezes: ‘com licença seu homem do banheiro’. Se você cagava no banheiro, a alma do tal do homem te puxava para dentro do vaso pelas tripas. Talvez fosse verídico, ou talvez o dono do bar quisesse evitar entupimentos e apenas criou a história toda.
Uma vez, dividi apartamento com duas irmãs que compartilhavam um quarto. Impossibilitadas de encontros sexuais em suas camas, pela presença da irmã, não eram raras as vezes em que eu acordava pelos gemidos abafados vindos do banheiro. Era interessante e curioso. Sempre me perguntava onde elas se apoiavam para o sexo se tudo ali era sempre tão gelado, até que, em um momento epifânico, encarei a tábua de passar roupa inocentemente, e desde sempre, guardada atrás da porta do banheiro. Lembro dos tons alaranjados da almofada daquela tábua. Por muitas vezes a imagem dela montada no centro do banheiro me veio à cabeça.

” – Quem nunca transou num banheiro né?!… químico”

Um amigo muito estranho, muito mesmo, narrou-me, certa vez, todas as informações que ele sabia sobre os moradores da casa em que vivia: uma republica universitária. As marcas favoritas de camisinha de cada um. O ciclo menstrual das mulheres. A alimentação e saúde intestinal. A quantidade de vezes por dia em que o china se masturbava e jogava os lencinhos umedecidos impregnados de porra no cesto de lixo, deixando toda aquele cheiro de punheta alheia. O tempo que cada um leva para evacuar. As mudanças de perfume. Depilação. Uma das garotas toma banhos longos em dias tristes. Ele é muito estranho, esse meu amigo.

“- O que você está esperando de um sábado quando raspa o saco às 18:55?”

Lembro de, nostalgicamente, perguntar a minha mãe qual tinha sido o momento mais feliz que ela lembrava de ter tido comigo. Ela respondeu que foi quando eu era criancinha; em um banheiro.
A primeira vez em que eu aprendi a cagar no vaso. Veio nela todo o sentimento de que nunca mais precisaria trocar uma fralda na vida. Foi lindo e libertador, ela disse. Eu lembro que eu gostava de apertar a descarga, mas não alcançava. Aí ela me levantava no colo e dizia:

– Um homem deve se livrar das próprias merdas.

– Tchau merda!

Meu amigo, o estranho, até hoje dá tchau para a merda no vaso. Às vezes, distraído, diz ‘falou’ ou ‘até’, ‘valeu’, ‘é nós!’.

Na parte de trás da porta do banheiro da firma, frases motivacionais para você bater as metas. No banheiro da igreja, um questionamento em piloto vermelho: Deus existe mesmo? Na terceira cabine do banheiro masculino do terceiro andar da faculdade de história, uma frase rápida e direta avisa que o Paulo aparece todas as sextas-feiras às 20h e chupa até as bolas.

Um antigo colega de trabalho tinha o costume de ouvir tango enquanto cagava. Era interessante abrir a porta do banheiro da firma e ouvir toda aquela sofrência argentina vinda de um dos privados. Deve haver alguém por aí que caga ao som de Maiara e Maraísa. E gente que transa ouvido Roberto Carlos. Essa é a graça do mundo: tem de tudo.
Na firma, já se comentava do costume acústico envolvendo as cagadas do fulano lá. Ganhou o apelido de Gardel. O Gardel é um cara legal, mas tudo o que me vem à cabeça quando vejo uma foto dele no Instagram é o tango da defecação.

Encaro o espelho e seus inúmeros pingos de pasta de dente. O que o seu banheiro diria sobre você?

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

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Minha Vida é uma arte

Um dos trabalhos artísticos de Wesley com fogo

Por Wesley D´Amico

Minha Vida é uma arte.

Tive que sujar as mãos de graxa, cortar lenha, derreter metais, e fazer joias, para um dia ser artista plástico, todas essas profissões me ajudaram com arte.

Usei a mecânica para fazer meus quadros com geometria.

Usei meus meses de lenhador para fazer meus cartões de visita de madeira.

Usei meus meses com fundição para fazer uma tela que resistisse ao fogo.

Usei meu curso de joalheria para fazer micro arte.

Comecei minha vida na graxa de Deus, isso mesmo, não é graça de Deus, é graxa mesmo, preta e suja, e nunca pensei em colorir minha vida, estava feliz sendo mecânico, mas a vida tinha planos para mim. Assim estou hoje, sendo um artista plástico com desafios de mercado, sem vender, sobrevivo da mecânica e uso o dinheiro da mecânica para conseguir manter a arte.

Não para por aí, quando eu tinha ateliê um senhor me disse que minhas telas eram de “nível galeria”. Então mandei e-mail para maioria das galerias de São Paulo, sem sucesso, recebi as respostas assim: “minha galeria está lotada”, “minhas paredes estão lotadas”, “o quadro de artistas está completo”, “sua arte não é perfil da galeria”, fora as outras que não responderam, mas não desisti, fui lá pessoalmente, de cara já escutei um “Wesley, não é o artista que vem até a galeria, quando ele é bom, a galeria vai até o artista”.

Outra coisa: para expor em galeria, tem que pagar, e não é barato e não tem garantia de venda. Desde 2004 trabalho com arte, moro atualmente no interior de São Paulo e nunca imaginei ser um artista plástico, quando morava em São Paulo sempre passava na frente de museus e nunca me chamou atenção e hoje saio de Mombuca para visitar museus de São Paulo.

Confesso que pela minha dificuldade de mercado e de críticas, a arte não me atrai por sua história e dificuldade. Mas aos 5 anos gostava de desmontar meus carrinhos para ver como funcionava e aos 10 fiz meu primeiro barco, ficou incrível, minha tia tentou vender e sem sucesso deixou em um bar para decorar e tentar vender, lembro que era muito caro, mas até hoje não sei que fim deu.

Para fazer esse barco caminhava por sete quarteirões para chegar a uma marcenaria e pedir folhas finas de madeira cerejeira. Depois da dificuldade de venda, acho que desanimei de fazer algo assim, mas lembro que quando peguei um ônibus com a minha tia para levar o barco para uma cliente, os passageiros perguntavam quem havia feito e me deram parabéns. Mas a cliente da minha tia não comprou o barco. Acho que era de um time de futebol que ela não gostou.

Sou Wesley D’Amico, artista brasileiro, nascido em 1978.

Conheça mais do trabalho do artista:

https://issuu.com/wesleydamico/docs/codigo_para_minha_alma 

wesleydamico@gmai.com

 

esvazie-se

Travessia

Por Graça Moreira

Um caminho, o meu mais.
Mais experiência e mais vida
acrescentando sabedoria,
linha tênue que separa
a ânsia do buscar
e a tranquilidade do deixar vir,
a força do conduzir
e a calmaria do deixar-se levar.
E num aprendizado incessante
os desejos são transformados,
os valores são revistos.
A tolerância é um filtro
a paciência é melhor abrigada
a urgência desacelera.

O olhar já não é o mesmo,
agora, mais complacente, mais sereno.
O futuro é construído no presente
o presente é ser, é estar, é tudo.

Graça Moreira é psicóloga

galeano

Eduardo Galeano: um contador de histórias escondidas

Por Vanessa Dourado

A América Latina e suas Histórias mais profundas, mais sentidas pelos corpos e pelas almas de seus habitantes. Esta é, sem dúvida, a temática mais marcante no trabalho do escritor uruguaio Eduardo Galeano.

As palavras peregrinas de Galeano levam o leitor para uma viagem pelos detalhes culturais dos territórios e para um interessante despertar de ideias. As provocações articuladas com uma suave ironia e duras críticas com relação à localização sócio-política da América Latina no mundo são disparadores para reflexões e questionamentos.

Muitas negações, rechaços e denúncias estão presentes na literatura do escritor – que gostaria de ter sido jogador de futebol. A crítica à igreja como instituição colonizadora, alienante e normalizante, o desprezo pelo academicismo e o olhar sensível sobre a condição das mulheres na sociedade, são características marcantes e presentes em toda sua obra.

Os desenhos que ilustram as surpreendentes páginas de seus livros guardam uma vontade de resgatar antepassados e fazem um despretensioso culto ao misticismo ameríndio.

Ler Galeano é como adentrar a uma cozinha na qual se prepara variados pratos e onde se sentem vários aromas diferentes. Seu peculiar estilo de escrever transita entre a poesia, o relato e jornalismo-histórico. Seus textos relatam a dura realidade vivida pelos povos latino-americanos, a herança colonial deixada pelo descobrimento das terras que nunca foram perdidas, mas também relatam as resistências, a alegria, as cores e os sons daqueles que entendem seus territórios como extensão dos próprios corpos.

Os vínculos afetivos, presentes em muitos de seus textos, são relatados através das relações entre as personagens, pelas formas de se afetarem, pela simplicidade complexa de suas relações corpóreas, uma conversa entre corpos traduzida em insuficientes palavras.

O autor é, sobretudo, um curioso que compartilha suas descobertas. Isso faz com que a leitura de seus livros seja uma experiência única. Ler Galeano é desvendar as gavetas de seu imaginário e de sua existência intelectual nos mais diversos níveis – desde o mais sensível ao mais articulado diagnóstico da realidade concreta. No entanto, a sensação é a de ter uma conversa relaxada em um café com algum amigo querido, ouvir suas experiências cotidianas e as impressões que lhe atravessam.

Apesar da difícil tarefa escolhida – ou pela qual foi escolhido -, o autor consegue não resignar-se e transforma cada frase de seus característicos curtos textos em uma espécie de esperança-poética-realista que caminha rumo a uma utopia que permite sonhar de olhos abertos.

O vocabulário simples – e nem por isso pouco articulado – revela um caçador de palavras, e de Histórias, que quer ser compreendido, mais que precisamente lido ou reconhecido. Todavia, é difícil não reconhecer sua autenticidade e sua impactante forma de fazer com que o leitor questione seus próprios paradigmas. Para ler Galeano é necessário estar preparado para questionar a si mesmo, para desconstruir e reconstruir ideias e para colocar-se também como escritor de uma História coletiva, escrita no agora.

Vanessa Dourado é escritora, bissexual e feminista latino-americana

*Publicado originalmente na revista portuguesa InComunidade

estrada

a viagem

Por Rique Férrari

primeiro corra até a janela, olhe através do vidro, a cidade em fogo-luz
acanhados quartos de pontos velados, raízes de velas ao chão

o serviço da chuva em almofadinhas de vento – faz frio
penso que desastre total das concepções
isto de nos vermos nos espelhos mas nos enxergarmos nas janelas; no colégio nunca comentaram a respeito

agora vá um pouco mais, para o lado de fora da janela
psicografando os restos de brisa, as fornalhas dos condescendentes e mutantes painéis de luz; mantenha o equilíbrio, ora na constelação de janelas ora no deserto de céu
- e que tanto

como as harpias

destemidos do gélido e do fogo, iríamos chegar neste ponto, você sabe, é um convite:

pule

com sua face completamente escancarada na conjunção dos átimos de segundos,
vislumbrando a gênese e os saltimbancos letreiros, os faróis trilhados e então a coragem

te leva

até a janela daquele amigo amedrontado pela leitura dos sinais presentes
até a rua onde franciscanamente você subiu/desceu raspando o limo dos muros,
quando criança;
lembra?
seus pais batizaram-no e deram um nome: – filho
e então sua avó ganhou um pequeno deus

as portas estão abertas

volte sempre.

caramujo

Propósitos e motivações existenciais de um caramujo

Por Thiago Noronha

O que será contado?
Como será narrada a era humana?
O que esperar desse bizarro experimento fora de controle?
Quem presenciará?
Haverá, universo afora, algum agrupamento atômico capaz de apreciar nossas criações e feitos?
Melodias, pinturas, receitas de bolo de milho. A quem restará?
E nossos amores, tão admiráveis em suas complexidades, quem sentirá tudo isso quando nosso tempo se for?
Propósitos?
O segredo da vida?
Não fazer, não ser, não dizer. Acomodar e conformar.
E nossas lutas? Quem as contará eternidade afora?
Um ideal.
Em que fase evolutiva células agrupadas decidiram ter um ideal?
Valores, conceitos, crenças, paixões, criação artística, humor.
De onde vem o humor na natureza?
Cá estou eu perdendo cinco minutos ao imaginar a risada de um caramujo.
Que tipo de piada agradaria a um caramujo?
Acontece que essa ansiedade tão característica humana é viciada em construir subterfúgios que resolvam essa equação do se fazer notar e perdurar.
Narrativas gregas nos lembram as recorrentes frases nos campos de batalha: ‘Se morremos hoje, nossos nomes e feitos serão eternos’.
Serão?
Quantos nomes já se perderam nesse mínimo intervalo de tempo em que vivemos em sociedade?
Desde quando os humanos possuem nomes?
Caramujos têm nomes? Qual seria o ‘João’ dos caramujos? Terôncio, talvez?!
‘Os heróis da história humana morreram anônimos, nos fronts de batalhas’.
O que é ser herói? Quem são os nossos? Quem lembrará dos nossos heróis quando nosso tempo se for? Que olhos lacrimarão ao ouvir o discurso de Fred Hampton?
‘Por que não morrer pelo povo? Por que não lutar pelo povo?’
Fred Hampton morreu assassinado aos 21 anos de idade.
Fred Hampton lutou.
Pelo quê morrer?
Que lutas e ideais te convenceriam o risco a existência?
A burra coragem humana.
Uma espécie que se vangloria de prosperar, descobrir e travar grandes guerras territoriais.
Territorialistas, egoístas, e desumanos. Eis o homo sapiens em seu amostral mais sincero.
Dizem que o egoísmo foi fundamental para a sobrevivência da espécie.
A espécie que pensa. O topo da pirâmide. O polegar opositor.
É uma espécie engraçada. Meio animal adestrado. Amam tão bonito e odeiam tão feio. Limpos e sujos. Um predador descontrolado e medroso. Medos existenciais. Um olhar perdido no espaço e uma mente cafeinada se perguntando ‘como deixaremos nossos rastros o mais longe possível?’.
Somos apenas cachorros mijando em postes. Fincando bandeiras em rochas espaciais. Uma corrida contra sabe-se lá o quê.
Vaidosos.
Como ser lembrado?
Como comunicar ao espaço?
‘Eu existi!’.
‘Foi lindo e eu preciso que saibam!’.
Somos fadados ao pó.
Uma parte da minha família acredita firmemente na procriação como método de levar o tal sobrenome e uma suposta narrativa de superações atrelado a esse sobrenome para os tempos futuros. ‘O futuro também é pó, amigo.’
Quando o humano passou a ter um sobrenome? Qual o possível sobrenome de um caramujo? Terôncio Marcha-lenta?
Voltando à família, todos os descendentes tinham, então, que ter pelo menos três filhos ao longo da vida.
Método interessante e lógico de perdurar. Mas ninguém contava com as dificuldades financeiras do começo do terceiro milênio e a cobrança sobre um dos membros desse grupo familiar pelo terceiro filho, somada às contas atrasadas, foi demais e resultou em suicídio. Quais os animais que se suicidam? O que leva um organismo a optar pela inexistência? Ter um terceiro filho é tão ruim assim? Pensar demais é perigoso? Como seria a carta de suicídio de um caramujo? O que teria ele a justificar?
Ironicamente, um outro lado da família é conhecido pelo recorrente suicídio de seus membros quando chega-se ali pelos cinquenta anos. Chamam essa parte da família de ‘os tristes’. A tal da tradição do suicídio é tão presente que rola uma certa cobrança. ‘Iai, num já tá na tua hora não?’.
Rola até uma competição das melhores cartas de suicídio. Um dos tristes passou vinte e sete anos preparando uma tal carta inesquecível. Infelizmente, escolheu se enforcar com a carta no bolso da calça. Quanta dramaturgia! Humanos, vaidosos, humanos. O sufocamento o fez mijar nas calças e a tão preparada mensagem de despedida virou um papel mijado impossível de ler.
Encontraram-no lá, mijado, de língua pra fora, coloração esquisita. Eu gosto de pensar que ele nunca tomou conhecimento que a carta não aconteceu.
Um dos tristes era bem feliz. De bem com a vida. Curtia um forró e uma cachaça. Ele não queria morrer. Teve três filhos, nove netos e vinte e sete bisnetos, quem diria. Alguns se suicidaram, outros planejam fazê-lo, uns dançam forró.
No velório do velho centenário alguém lamentou ao lado do caixão: ‘ele poderia ter bebido por mais uns trinta anos’. Eu nunca esqueci dessa frase.
As últimas palavras do velho, após uma vida enterrando filhos e netos suicidas, concluíam que não valia a pena, realmente, passar de certa idade.
A carta suicídio da qual mais gostei de tomar conhecimento foi deixada por um psicanalista do Colorado (EUA) de trinta anos. Dizia: ‘Carro para Helen ou Ray. Precisa de um reparo. Dinheiro para Max e Sylvia. Exceto $137 que estou devendo a George. ‘
Quem testemunhará a espécie humana? Qual será a reação da plateia?
Qual o propósito?
Dessa leitura?

Não é dizer que não há propósito em nada devido ao fatídico e escuro fim de tudo. É mais uma reflexão sobre o que nos motiva e se parece lógico.

Mas não tem que ser lógico.

Thiago Noronha é administrador por profissão, aventureiro de coração, escritor por diversão. Um apaixonado e propagador da própria forma de ver o mundo através de palavras. Um louco. Um bom louco!

*Publicado originalmente no “Escambau

liberdade

Liberdade para amar

Por Diane Southier

Queremos liberdade para amar!
Pelo fim da miséria da monogamia
Pra mim, pra você, em todo lugar:
Múltiplos amores e autonomia!

O casamento mata a paixão
Nos dá uma falsa segurança
Comprime a vida na aliança
Aperta, sufoca o coração

Mas engana-se quem pensa
Que ser livre é não ter compromisso
Pra amar não peça licença
Não cultive um sentimento omisso

Eu quero compromisso de lealdade
Amar até não poder mais
Não se trata de fidelidade
É amar além do que se pensa capaz.