Dadá-e-Corisco

Suçuarana, entre veredas e trincheiras

Dadá e Corisco no centro da imagem (Fotos: autores desconhecidos/acerco da Fundação Joaquim Nabuco)

Por Augusto Azevedo

Manhã estranha, mais uma vez sentia que o tempo não era bom. Além do seu preparo, sua sensitividade sempre tinha contribuído pra sua preservação e de quem mais estivesse junto. O que sentia naquela manhã havia de ser levado em consideração.

Foi uma travessia difícil e um confronto sobre-humano, que exigia disposição e sapiência típicas de quem sobrevivia no sertão, principalmente de quem levava a vida daquele jeito, correndo de volante, enfurnada em veredas, se embrenhando nos matos. Pra sobreviver a uma batalha daquelas tinha que ser ela ou está com essa força da natureza que até hoje faz o vento soprar de respeito e admiração.

A finda da saga se deu na Pacheco, só que foi na Lagoa da Serra que tudo se alterou. Maciço cerco de volantes. Dos sete do bando três correram, mas quem era pra ter ficado ficou e enfrentou como tinha que ser.

O cerco se fechou rápido e logo os lados se entrincheiraram. Vendo o cônjuge mal posicionado e as balas passando ela gritou sem parar de apertar o gatilho da pistola:

- Rapaz, saia daí. Tô falando pra você, saia daí.

Enquanto atirava com parabellum viu os dois destemidos companheiros eliminados ao chão e Corisco – o responsável por aquilo tudo, que a sequestrou, a violentou e que acabou com a paz de seus familiares – trocar o pente do fuzil e ser inutilizado à bala, com uma mão atravessada e um punho dependurado por pele e tendões, clamar por seu socorro.

Num ia ficar só olhando aquilo e esgotou os três pentes de sua pistola parabellum no confronto, então a suçuarana que ela sempre foi resolveu aquilo, se apegou com o que tinha e correu pra cima dos volante enfrentando rajada de metralhadora na pedrada. Não ia abrir da luta porque estava sem bala, continuou o combate usando pedras.

Aliando seu sexto sentido mais que aguçado a um senso estrategista raro e uma coragem inexplicável ganhou espaço e pode se aproximar do cônjuge, que atordoado pelo alvejo sofrido seria fatalmente abatido se não fosse pela intervenção de quem tinha feito tanto mal. Tomou pra si seu fuzil e tornou a ir pra cima daquela força militar movida por vingança e pelo interesse no espólio dos cabras derrubados.

- Eu não disse? Eu falei pra você sair daqui?

Afastando aquela praga de soldado, todos com metralhadoras, pôs valentemente Corisco no ombro e fugiu pelas veredas que apareceram.

Muita coisa estava por acontecer até sua captura, mas a partir dali Dadá se tornou a maior e derradeira liderança do que chamam até hoje de cangaço.

Dadá Grávida Autor - Desconhecido, Acervo - Fundação Joaquim Nabuco - Recife, PEAs persigas jamais apaziguaram, queixosos sob o coito do estado brasileiro, alegando vingança e reinstituição de  bens tomaram tudo que podiam dela e de seus familiares. Sua força foi outra coisa que nunca acabou, a estilista e costureira mais requisitada dos bandos que teve contato sustentou a família trabalhando como costureira, na periferia de Salvador. Como as demais mulheres que viveram entre veredas e trincheiras, tendo as crianças no meio do mato, sem as menores condições de criá-las, Dona Sérgia Ribeiro da Silva, mulher negra e pobre de país subdesenvolvido criou seus dezesseis netos trabalhando com costura.

Como passou a ter uma relação de tolerância com José Rufino, oficial chefe da volante responsável pela morte de Corisco e de sua prisão na Fazenda Pacheco, que impediu que sua tropa estraçalhasse a Suçuarana do Sertão ali mesmo na Pacheco e que perto da morte solicitou uma visita sua para pedir perdão por toda persiga empreendida, Dadá passou a ter certo respeito até de outros militares. Antes eles só tinham pavor mesmo.

Convidada a uma solenidade em um quartel na Bahia, logo após demonstrar que ainda tinha melhor tiro do que qualquer um dali se aproximou dela um militar reformado, mancando de uma perna, afirmando:

- Você é a Dadá e eu sou um homem que você deixou aleijado em confronto.

Ela de pronto indagou o senhor:

- O senhor tem certeza que quem atirou no senhor fui eu mesma? Sabe o que é? Eu não me lembro de ter atirado em perna de ninguém não. Se fosse eu quem tivesse atirado no senhor, o senhor certamente não estaria falando aqui não.

Augusto Azevedo é estudioso da fenomenologia referente ao que é conhecido vulgarmente como pobres de direita

telma weber

Bruta flor

(Ilustração: Telma Weber)

Nagle Melo

Tornar-se mulher nunca foi um mar de rosas. Fomos e somos bruxas. Queimadas na Inquisição, subjugadas e subestimadas durante todo o processo de construção familiar, desrespeitadas em todos os sentidos. Desde sempre e até hoje.

Durante um bom tempo não fomos donas de nós mesmas; de nossos desejos; de nosso sexo; de nosso corpo; de nossas profissões, de nossas artes. Nem do nosso tempo, nem do nosso ócio. Mas, não seria esta uma reflexão que muito bem cabe em nossa realidade atual? A luta continua.

Anais Nin, Simone de Beauvoir, Virgínia Woolf e tantas outras nos abriram caminhos de possibilidades de ser e estar no mundo. Caminhos estes que, em pleno século XXI, em nossa sociedade brasileira, estão cada vez mais tortuosos no sentido de incompreensão e de promoção de pensamentos equivocados a respeito da figura mulher.

Mulher sair à rua sozinha, vestida do jeito que bem entender é sinônimo de assédio sexual. Mulher ir a um bar sozinha, beber ou fazer qualquer outra coisa, significa dizer que ela, obrigatoriamente, está interessada nos homens que lá se encontram. Mulher que transa no primeiro encontro não merece respeito. Mulher que é autêntica, que grita, que fala palavrão não é mulher. Mulher que tem formação superior, carreira de prestígio, experiência de trabalho, ganha menos do que homens que se encontram na mesma posição que ela. Mulher é má. Homem é bom ou, “é homem, né?!”.

Vivemos sob uma realidade completamente machista. Tão machista, que nos ataca, nos constitui e nos transforma em mulheres machistas. Então, não é somente difícil se tornar mulher, mas também, e principalmente, se tornar mulher que tenha consciência de si e do outro enquanto outro (seja este homem ou mulher), deixando de lado a ideia de coisificação do sujeito.

Chegou a hora em que precisamos transformar ou até mesmo transcender a ideia que temos de nós mesmas e da nossa condição no mundo para que o nosso pensamento e prática atinja uma maturidade que modifique de fato o mundo. Lutar por condições de igualdade de direitos é uma prática que deve ser realizada por todos. Não basta que o homem diga que não é machista porque ama as mulheres. Amar no discurso é poesia. Amar na prática é respeito.

Nagle Melo é psicóloga, amante do ócio e escreve o que seu coração grita

luiza

Luiza: novo romance infantojuvenil de literatura negra

Luiza é o um livro infanto-juvenil escrito por Plinio Camillo com ilustrações de Thiene Magalhães e publicado pela Editora Kazuá

De acordo com Luiza Lobo, “a literatura negra é aquela desenvolvida por autor negro ou mulato que escreva sobre sua raça dentro do significado do que é ser negro, da cor negra, de forma assumida, discutindo os problemas que a concernem: religião, sociedade, racismo. Ele tem que se assumir como negro”.

Sinopse:

Luiza, negra de avó e mãe.

Narrar os mitos também é consolar os vencidos

Luiza, a mais nova de contadoras de história.

Sonhar é sair do lugar

Luiza, obrigada a fugir de Efegô, é capturada e escravizada por mais de dez anos.

Inventariar a tradição alegra as subidas e nas descidas da existência.”

Luiza durante uma grande surra revê parentes, irmãs e orixás.

Temos que estar atentas para quem vamos contar. Onde e quando. Por que e para que!

Luiza, uma homenagem a mães, irmãs, primas, filhas e mulheres com que aprendemos muitos.

Minhas filhas, creiam, não existe contar sem aprender com cada palavra que se desenha, quem nos ouve se comove e apreende.”

“Luiza” é a personificação de várias Luizas, mulheres guerreiras, aguerridas e lutadoras por natureza.

“Luiza” é uma ode ao empoderamento do povo negro, desde a mais tenra infância e discute questão de matrizes africanas.

“Luiza” põe em pauta o acesso às culturas que foram invisibilizadas ao longo dos processos de colonização.

“Luiza” – A oralidade é responsável por grande parte das informações – principalmente as ancestrais – que hoje conhecemos. Foi desta forma que povos contaram, geração a geração, suas histórias. Essa a ancestralidade é preservada e ensinada, de maneira didática, aos novos e novas personagens que no futuro darão sequência a essa história.

 

Para degustação I

O CAMINHO

Segue apreciando a trilha.
Está, como nunca antes, animada e imensamente confiante.

Depois da segunda curva, é supreendida: encontra Logun Edé que lhe sorri. Luiza o reconhece pelo cheiro de maçã verde e de pêssego amarelo.

Logun Edé tem os mesmos olhos da finada mãe de Luiza e os mesmos braços resistentes do pai.

Luiza sente uma grande vontade de queixar-se!
Até gritar.
Até gemer.
Até a dor sair!

Ele a abraça.

Ela se alegra e é como se vissem todos os dias!!

— Você está bem?
— Aqui estou sim!!
— Minha pequena, você está em Orum, o mundo dos espíritos!

Maravilhada Luiza aprecia a paisagem!

— Você não é a única Luiza daqui, sabia?
— Verdade?!?
— Há outras, mais altas, mais claras, mais escuras ou mais velhas. Algumas mais serenas, mais calejadas, mais agitadas, mais crédulas, mais comedidas, mais zelosas, mais falantes, mais despreocupadas e mais sagazes. Todas sim homenagens a primeira Luiza que fundou Efegô — Sorriem
— Onde estão? — Logun Edé pegando a sua mão a conduz. — Onde vamos? — Luiza está imensamente feliz.
— Navegar — o orixá ri com os olhos.

Os rios e as cachoeiras param em veneração.
Logun ô akofá!!!
As nascentes e lagoas entoam alegria.
Logun ô akofá!!!

Em terra, deslizam como se somente quisessem aproveitar a melodiosa companhia um do outro. Apreciar o macio caminho. Logun Edé lhe conta que estão em Orum, o mundo dos espíritos.
Para degustação II
ORUM

A terra dos céus.
Terra de tantos céus como contas do colar de Oxum.

Logun Edé fala também da vida nova que ali desponta para a Luiza.

Luiza encantada pede se pode contar a história que sua mãe lhe ensinou sobre Logun Edé.

— Sempre esperei ouvir de você … recite para mim, por favor – — o orixá senta à sobre de uma árvore e se prepara para ouvir atentamente.

No fundo tem o silêncio.
A calmaria das águas ajuda a não pensar.

Ficar longe.
Muito arêrê e muita gritaria.
Oxum por ser a mais…
Oxóssi por ser o mais…
Muitas brigas e nenhuma por ele.

Ilá!!

O fundo do rio está perto do silêncio.
Dentro o banzé ficou longe.

Caça melhor que muitos.
Porém quem conquista o melhor ekó??
Oxóssi!

É dá água mais que todos.
Mas os ejás saúdam?
Somente Oxum.

Nunca erra um alvo, mas vacila perto do seu pai.
Entende dos rios e dos bichos d’águas, mas é um bobo perto de sua mãe.
Conhece sobre os caminhos, porém bem menos que ele: Oxóssi.
Adivinha todas as trilhas da alma, mas ela é mais precisa. Salve Oxum!
Chega primeiro e seu pai sempre já lá esteve.
É belo, ativo, porém sua mãe é a odara.
Nem para ele olham.

Pai??
Mãe??

O fundo a paz inunda.
Do fundo veio a pureza.
Limpa e fluida.
Tempo sumido.

Sentem sua falta.
Mãe se desespera.
Oxossi berra um grito que até chega em Efegô.

Pai implora.
Oxum está desesperada como nunca antes esteve.
Filho??

Filho!??

Clamam pelo maior.
Olurum atende pois tinha outras obrigações para o menino
Olurum ergue Logun Edé.

Que agora pode se fazer pequeno.
Grande Menina.
Menino.
Gente.
Filho.

Pai caçador e mãe d’água agradecem.
Oxum e Oxóssi comemoram.

Logun Edé.
Ri de ser querido.
Veio a alegria quando
Olurum sussurrou que ele é a melhor parte dos dois.

 

Ilustradora

Thiene Magalhães é designer, artista plástica e ilustradora. Hoje residindo no centro de São Paulo, quando criança, morou em Ribeirão Pires, no ABC Paulista. Antiga parceira da Kazuá, ela também assina, além da direção de arte em diversos livros do catálogo da editora, a ilustração das obras “Cidade dos Canais”, de Madô Martins, “Cachinhos de Uva e os Três Ursos” e “A menina que furtou o Sol”, de Max Dias, “Demorei a gostar de Elis”, de Alexandra Lopes da Cunha e “Um Saci em Sampa”, de Luciano Nunes. O processo de criação das aquarelas que compõe o livro LUIZA são parte de um laboratório feito em São Paulo e concluído na Bahia, onde pôde conhecer melhor os preceitos da religiosidade afro-brasileira.

O escrivinhadeiro

Plinio Camillo nasceu em Ribeirão Preto em 1960, reside em São Paulo desde 1984, tendo vivido em Campinas entre 1998 a 2001. Ator, educador social ( atuou com crianças e adolescentes de rua ), roteirista e hoje trabalha na área de comunicação.

Aos três anos descobriu que as letras tinham significados.

Aos cinco, a interrogação.

Aos nove, não era sintético.

Aos doze, quis ser metonímia.

Aos quinze, conquistou a exclamação.

Aos dezessete, viu os morfemas.

Aos dezoito, foi liberado do tiro de guerra, virou perífrase.

Aos vinte, estava no palco.

Aos vinte e dois, se enxergou como um advérbio.

Aos vinte e cinco, desenredou a Lingüística.

Aos vinte e sete, redescobriu o eufemismo.

Aos trinta, a e a onomatopeia.

Aos trinta e dois, melhorou a minha caligrafia.

Aos trinta e cinco, recebeu o maior presente: aquela que lhe trouxe a felicidade.

Aos trinta e seis, não morreu como ameaçava o anacoluto.

Aos quarenta, desvendou uma ligeira maturidade e ironia.

Aos quarenta e cinco, recebeu o prazer de viver no adjunto adverbial de companhia.

Aos quarenta e sete abreviou o seu discurso.

Aos cinquenta, toma remédio para pressão e usa óculos até para atender telefone.

Hoje, com quase sessenta, se diverte cometendo escritos.

 

EXPERIÊNCIA LITERÁRIA – Livros Publicados

ABIGAIL coletânea de contos (diversos autores) – Editora Terracota

O NAMORADO DO PAPAI RONCA – romance infantojuvenil – ProAC 2012 – Editora Prólogo – Selo Mundomundano

ASSIM VOCÊ ME MATA – coletânea de contos (diversos autores) – Editora Terracota

CORAÇÃO PELUDO - coletânea de contos – Editora Kazuá

OUTRAS VOZES - coletânea de contos sobre o negro escravizado no Brasil – 11Editora

DESCONTOS DE FADAS – coletânea de contos (diversos autores) – Alink Editora

PRIMEIRAMENTE – coletânea de contos (diversos autores) – Alink Editora

ESCANGALHAR – Organizador: coletânea de contos (diversos autores) – Resultado da Oficina de contos promovidos pela Editora Kazuá

DE RUA – coletânea de contos sobre meninos de rua em parceria com Júlio Dias – Editora Kazuá

BOMBONS SORTIDOS – coletânea de contos divididos em dez livros: Amargo, Ao Leite, Castanhas, Mel, Pimenta, Crocante, Meio Amargo, Meio Doce, Recheados e Trufados. – Editora Kazuá

 

Contatos

 

Plínio Camillo – Email: pcamillo60@uol.com.brTelefone: 11 996279640

Editora Kazuá – Email:contato@ediotrakazua.com.brTelefone: 11 33372899

 

22_Hemmes

Esquisito Tempo

Graça Moreira

Definir….tem como?
Fugaz, impreciso, precioso.
Não tem cor, nem forma,
Mas na saudade tem sabor.
Não tem peso, nem rastro,
Mas deixa marcas,
na pele e na alma.
É doença na ânsia,
É cura na paciência,
É futuro na esperança,
É passado que nos ensina.
Se nos falta, reclamamos,
Se nos sobra, desperdiçamos.
Com o vento se vai,
Levando a vida,
deixando a lembrança.
Obstinado, jamais para,
Não nos impedindo de parar nele.
É presente, é agora, é já…
E ……foi.
Graça Moreira é psicológa

violencia_regina-parra_editado

Dói o código

(Ilustração: Regina Parra)

João Ernesto

Doi o código
um porão mal iluminado
uma cena penumbra do primeiro corte.
A sala de jantar está cheia
os homens códigos com cabelos bem aparados
as mulheres enchem os pratos dos maridos
das crianças crescidas e mal humoradas.
É uma outra cena da Casa dos Mortos.

Aos desajustados, “Pau! Mata!”
A não ser que seja seu sobrinho
e só atropelou porque bebeu demais
“menino bom”.
“Todo mundo tem direito de errar”
a frase mais seletiva do brasileiro.

Toma uma bala
acerta teu primeiro erro
A qual você mataria?
Com quantos anos você morreria?
Pode falar alto, ninguém vai te ouvir nesse porão
a mais de sete palmos.
Em tempo, quais crimes são dignos de punição?
Juntando tudo dá pelo menos uma carabina na sua boca
vai, quantos vocês morreriam?
Uma bala na testa marcada
Faca,
dezessete filhos de Aureliano
tocando o gelo frio do chão.
Podia ser o seu dente quebrado
sua uretra
seus mamilos
invadidos com o pedaço de arame,
conhecendo o lodo sob a mira do Brilhante.

Segue o Brasil nadando no sangue seco
Sem nenhum medo
de pés descalços sobre ladrilho de navalha
segue a onda
os cães agora
sendo caravana
e em nosso peito de madeira de lei
que pode ser talhado, mas nunca corroído
esse botão de sentir dor,
de ficar espremido enquanto todo mundo grita
lobotomia rasgando idéias e jogando aos porcos

e tudo doendo escrevendo de tinta vermelha o último ato.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

Revolução

Pau-Brasil

Diane Southier

Mercado escravista
Escravidão colonial
Colônia extrativista
Capitalismo brutal

Capacho de espírito
Entreguista moral
Puxa-saco de gringo
É a elite local

Golpes de estado
Estado desigual
Os juros mais altos
Ao grande capital

Desigualdade econômica
Política e social
A sociedade é irônica
A ironia é mortal

É o Brasil à lenha
Em pleno ano eleitoral
No nosso nome
Tem o nome de um pau

Perseguição ideológica
Ideologia neutral
Neutro de cu é rola
O pau é também cultural

Controle da informação
Informação ficcional
A fome não é ficção
Nem a morte é banal

Apagão de combustível
Aluguel nacional
O desemprego é temível
O desgoverno, fatal

O estado é de exceção
A exceção é total
Toda prisão é política
Nem toda política, imoral

Não romantizar as massas
Num estado policial
Nem irracionais julgá-las
Ir além da greve geral!

Criar e articular
A diversidade real
É o poder popular
Democrático e radical

Lula Livre!
Marielle Vive!
Abaixo o golpe do capital!

Diane Southier é socióloga e poeta em construção

liberdade

Em tempos assim

Vanessa Dourado

Amar em tempos assim é essencial
E não interessa se vai ser invisível
É necessário cantar como Whitman
Morder os dedos logo de manhã

Amar hoje, amanhã e depois
Deixar tudo o que não foi
Caminhar como gato de rua
Transar até secar a lua

Passear por estes pântanos
E não cair em seus encantos
Que o ego também é dor
Mas o avesso é bicolor

Em tempos assim
Abraçar o estranho
Para engravidar o tempo
Para ocupar o vão

A revolução sempre foi um prato malcomido

 

Vanessa Dourado é escritora, bissexual e feminista latino-americana

Michel-Yakini-foto-Sonia-Bischain

“Amanhã quero ser vento”: Michel Yakini dá voz à periferia em seu primeiro romance

Amanhã quero ser vento dá voz a personagens da periferia e traz temas como homofobia, aborto e violência contra mulheres (Foto: Sônia Bischain) 

Autor de livros de contos, crônicas e poemas, Michel Yakini – um dos nomes mais atuantes no movimento de literatura das periferias de São Paulo – lançou seu primeiro romance, Amanhã quero ser vento, que conta a história de Manandí, jovem mulher que deixa marido e filhas em uma pequena cidade e se muda para a metrópole em busca de si mesma. A protagonista enfrenta as durezas da vida na periferia e encontra amparo na amizade de uma recém-conhecida, Márcia, com quem acaba tendo um relacionamento amoroso.

O enredo é firmado em desencontros e desamores, em uma narrativa que dá voz a personagens da periferia e traz fragmentos de prosa poética do narrador. Texto arrojado e sensível de Yakini, que trata também de temas como machismo, homofobia, prostituição, aborto, drogas, violência contra as mulheres e as populações periféricas.

“Uma combinação explosiva de temas que atravessam muitas mulheres e são abordados aqui por um narrador transgênero sem demonstrar, em momento algum, a suspeita de um olhar masculino como pano de fundo”, registra a professora de Literatura Brasileira e Portuguesa na Universidade de Buenos Aires, Lucía Tennina, que prefacia a obra.

Capa Amanhã quero ser ventoNa construção narrativa do romance, o autor se vale de uma escrita muito próxima da oralidade e apresenta personagens cativantes como o botequineiro Sêobetolô, com suas observações perspicazes sobre as pessoas e a vida, a contadora de estórias Donanina, com seus “causos” que se avizinham da poesia, Wanda, a abortadeira, que faz programas sexuais para complementar a renda, entre outros.

O livro Amanhã quero ser vento está pode ser adquirido no site da 11 Editora (www.11editora.com.br).

O autor

Michel Yakini é escritor, artista-educador e produtor cultural. Colunista da revista on-line Palavra Comum (Galícia – Espanha) e cofundador do Sarau Elo da Corrente no bairro de Pirituba, que faz parte do movimento de literatura das periferias de São Paulo.

Desenvolve atividades relacionadas à cultura negra, periférica e criação literária, ministrando cursos, oficinas, palestras e recitais de poesia. Participou de atividades literárias em Cuba, Argentina, México, França, Alemanha, Espanha, Paraguai e Chile.
Autor de Desencontros (contos, 2007); Acorde um verso(poesia, 2012); Crônicas de um Peladeiro (crônicas, 2014) e co-organizador da antologia bilíngue on-line Letras e Becos – Literatura das periferias de São Paulo(2017).

capa-148x105

Quando a realidade mais parece ficção, a literatura é a melhor bússola

A distopia nossa de cada dia em 50 minicontos

É possível resumir uma época, o período atual da História brasileira, em formas curtas sem perder a essência pelo caminho? Desse questionamento surge Pequenas doses de grandes anacronismos, gestado para dizer mais nas entrelinhas do que nas palavras escritas.

Com milhares de opiniões diariamente pairando pelas redes sociais, tantas notícias – fakes ou não, com narrativas tendenciosas ou independentes – circulando pela internet, os 50 minicontos que fazem parte do ebook são uma pequena (sem trocadilhos) tentativa de enxergar a nossa realidade com novos olhares: algumas vezes com ironia, outras com delicadeza, às vezes até com certo humor; mas, acima disso, com senso crítico.

Da política aos fatos mais cotidianos, das angústias da alma às indignações coletivas, de assuntos polêmicos a quase unanimidades. Tudo está contido em Pequenas doses de grandes anacronismos, porém ao mesmo tempo há um vazio; não por falta de espaço ou de vontade do autor, mas porque só a visão de quem lê pode completar o que ficou por ser dito.

O tamanho dos contos e o projeto gráfico diferenciado (em formato horizontal) visa atrair um público amplo, desde os leitores mais assíduos até aqueles que tem menor apetite pelos livros mas frequentam as redes sociais – e leem muita coisa, mesmo que de outros tipos.

Pequenas doses… é leitura fluída sem ser fugaz. Ampla sem deixar de ser profunda. É a vida como ela não é – e deveria ser.

Pequenas doses de grandes anacronismos Minicontos – 54 páginas – Produção independente/download gratuito – 2018 (abaixo):

Pequenas doses_Ebook

Sobre o autor

Rodrigo Zafra Toffolo nasceu em Santos (SP) em 1984. Formado em jornalismo pela UniSantos, é escritor independente e roteirista de audiovisual. Publicou Um dia na vida (contos, 2013), Forjando Mundos (coletânea de contos e poesias, 2014) e Condenados: o crime é apenas uma parte do quebra-cabeça (novela, 2015). Site: rztoffolo.wordpress.com

bruxas2

Salém é aqui. Sempre será?

Augusto Azevedo

Para minhas irmãs e irmãos venezuelanos em situação de refúgio e miséria.

No início de 1953 estreava em Nova York a peça As Bruxas de Salém de autoria de Arthur Miller. A obra trata de acontecimentos ocorridos em 1692 no então povoado de Salém, no estado de Massachussets, em que, a partir da descoberta de um rito pagão realizado por jovens mulheres na floresta, algumas das participantes, impressionadas, entram em estado de choque ocasionando uma série de violentas consequências ao povo que por ali morava.

A obra, que é um clássico da dramaturgia estadunidense e, por que não dizer ocidental, merece atenção não apenas pela constituição instigante de suas cenas em que o autor projeta com muita habilidade uma narrativa escrita, mas com imenso potencial cênico, como todos os grandes clássicos da dramaturgia universal, e sim por sua disposição crítica fomentando reflexões a respeito de questões como histeria coletiva e dissimulação contextualizadas no medo de bruxaria, além de apontamentos a respeito do papel do poder da religião em relação aos poderes políticos e judiciários naquela região no período mencionado.

Entretanto, ouso afirmar que As Bruxas de Salém ainda tem muito a ensinar, por exemplo, aos EUA e a países de economia e cultura influenciadas por eles, como é o caso de uma país profundamente subdesenvolvido conhecido como o Brasil.

Uma das coisas mais assombrosas – e geniais – da peça é a maneira como seu autor expõe a sucessão de acontecimentos dando à narrativa um ritmo e uma verossimilhança bem peculiares. Nada mais desconcertante e tenebroso do que uma acusação. Quem já foi acusado injustamente sabe que não há psicológico que dê jeito e é aí que se destaca a qualidade descritiva de Arthur Miller que, sem fazer grandes segredos, consegue envolver o leitor na trama mexendo e comprometendo a psique mais bem trabalhada que se disponha a acompanhar a obra.

Público e personagens sofrem com as levianas acusações e seus brutais efeitos. A angústia ocasionada pela falsidade das personagens que criminalizam outras é tão pesada quanto à empatia criada por conta da inocência de quem está sendo julgado, preso e executado sem o menor direito à defesa.

Abigail, personagem muito semelhante ao Iago da tragédia Otelo de William Shakespeare, se comporta como uma verdadeira líder comunitária aplicada em fazer o mal; dá tudo de si para alcançar seus objetivos, agindo de modo frio e calculista como uma verdadeira psicopata efetivando seu plano de assassinatos em série.

Porém o que mais causa inquietação na peça é sua concretude atemporal, ou seja, a noção passada e confirmada de que por mais bizarras que sejam as atitudes de Abigail há quem acredite, confie e estimule tal personagem a seguir com seus sórdidos planos, legitimando a farsa e trilhando para o caminho da humilhação pública, da tortura e da morte quem venha a se contrapor ao que Abigail realiza quase nunca só. Proporcionar histeria coletiva e agir de modo dissimulado são poderes da personagem que cinicamente se veste de uma fragilidade bem estratégica para conseguir o que quer.

Tal como o Iago de Shakespeare, a personagem se mostra irredutível e tudo que vem dela não aspira a menor confiança ou aceitação, isso da parte de alguns, pois como na vida real e vale ressaltar que As Bruxas de Salém se trata de uma narrativa criada a partir de eventos históricos, tem quem se afeiçoe ao comportamento de Abigail, seja se deixando levar pelo teatro forjado por ela ou na pretensão de tomar algum proveito das situações elaboradas pela moça.

Analisar o papel de Abigail na obra não se trata de se render ao modo binário de ver e agir sobre as coisas como é muito comum na contemporaneidade e na história da humanidade de uma maneira geral, nem tampouco apostar no maniqueísmo como formato para encarar a vida, resolver problemas, averiguar tramas, estudar personagens e sim ter a consciência do pragmatismo de Abigail e de figuras do tipo para atingir seus objetivos.

Quantas Abigails estiveram presentes na constituição do golpe militar-civil de 1964? Na Guerra do Vietnã? Nas chacinas da Candelária, da Messejana? Será que quem liga ou manda mensagem “dando a fita” para as execuções não possui nada de Abigail? Quem foi lá no Oriente Médio armar e dá treinamento a grupos milicianos não tem nada a ver com a moça? A situação da África desde o processo de colonização não se assemelha com a de Salémno século dezessete?

Os poderes evocados por Abigail – Abby, para os íntimos –, vinculados à dissimulação e histeria coletiva não são características restritas à moça, pelo contrário, muita coisa ruim aconteceu no mundo por conta disso e não adianta se fazer de extraterrestre e relativizar o que acontece de ruim no mundo, essa consciência é inegável e o próprio desenvolvimento do capitalismo, em suas diversas fases, se apropria de instante em instante desses poderes para o alcance de suas metas, lucrativas a uma minoria e letal para todo o resto.

Os equívocos ou excessos de Abigail, além da predisposição do povoado em “ir com a cabeça dos outros” foram os verdadeiros responsáveis pelo pânico e desconfiança extrema e acusativa que tomou conta de Salém, exatamente como ocorre na política brasileira e países afins, uma vez que os políticos instauram a corrupção como estrutura determinante, assumem discurso anticorrupção sem o menor pudor ou receio. Não importa se é uma mentira inacreditável, o que importa é deter os meios aptos a impor a mentira como verdade absoluta, inquestionável, irreparável.

Narrativa bizarra, mundo tão quanto. O bizarro não é algo chapado, unilateral, ao contrário do que muitos pensam o bizarro, pelo menos no que concerne à língua portuguesa, diferente do grotesco que é relativo ao ridículo, tem sentido ambíguo, pode ser algo próximo ao estranho, não convencional, esquisito, mas também pode ser algo atraente, que chame atenção, que seja admirável.

Então, não à toa se pode presenciar a identificação ou admiração de algo ou alguém por alguns, enquanto a repulsão por parte de outros, como no caso de políticos consagrados por discursos de ódio, incitação à violência, exaltação da insipiência, rechaçados ou condenados por algumas pessoas e idolatrados por outras.

Sendo assim é possível afirmar que a expulsão dos venezuelanos refugiados do estado de Roraima foi um evento bizarro. Além de solidariedade e revolta a expulsão dos venezuelanos gerou uma incontrolável vontade de vomitar da parte de quem tem ainda alguma vergonha na cara e sangue nas veias, porém, essa mesma expulsão conforta o coração e afaga o ego da tralha fascista que não se importa com a vida de ninguém, principalmente de quem esteja numa situação socialmente inferior – tal como os políticos e Abby fazem – e que por meio de acusações rasas, sem consistência alguma, como a do roubo de empregos, empreendem força contra mulheres e crianças indefesas.

Num sei se isso cansa mais do que machuca, o que sei é que a Sociedade do Espetáculo brilhantemente teorizada por Guy Debord, tem muito de Salém, e que a culpa jamais deve recair apenas nas Abigails da vida, quem come esse partido também é responsável pelo terror.

A Salém reapresentada por Arthur Miller é o espelho do estado de exceção imposto às economias fragilizadas, precarizadas ou mesmo destruídas pelo grande capital por meio de seus donos e vassalos; cabe a cada um(a) de nós agir como Abigail ou como quem enfrentou as armações de Salém.

Augusto Azevedo é estudioso da fenomenologia referente ao que é conhecido vulgarmente como pobres de direita