liberdade

Liberdade para amar

Por Diane Southier

Queremos liberdade para amar!
Pelo fim da miséria da monogamia
Pra mim, pra você, em todo lugar:
Múltiplos amores e autonomia!

O casamento mata a paixão
Nos dá uma falsa segurança
Comprime a vida na aliança
Aperta, sufoca o coração

Mas engana-se quem pensa
Que ser livre é não ter compromisso
Pra amar não peça licença
Não cultive um sentimento omisso

Eu quero compromisso de lealdade
Amar até não poder mais
Não se trata de fidelidade
É amar além do que se pensa capaz.

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Nos faltan los puentes

(Foto: Artur Pires)

Por Diane Southier

¿Es posible el conocimiento sin el lenguaje?
Habla, escritura, cuerpo, gestos… comunicación
Es todo así tan distinto en el humano viaje
Culturas marcadas, individuos en objeción…
¡Miraje!
Palabra viva en connotación

Mirando cerca lo que uno siente
Son multitudes de amor…
Identidades,
Dolor.
¿Somos así tan diferentes?
¿O sólo nos faltan los puentes?

noite-estrelada

Lo indecible [o... Lenguaje y Libertad]

(Pintura: “Noite Estrelada”, de Van Gogh)

Por Diane Southier

¿Cuál es el límite de la retórica?
Me mata, me construye
es mi historia.
Cuentos del dolor
del vacío que hay que llenar
Metáforas del amor
de lo que no se puede hablar
Pero…
¿Por qué no lo podemos decir?
Ética, moral, comunidad
Palabra, omisión… ¿verdad?
Todo es hecho de nada [¡suerte!] y devenir
Práctica y teoría…
¡Praxis!
Filosofía.

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Sobre abismos e utopias

(Foto: Artur Pires)

Por Diane Southier

Espero que o abismo
do qual sinto estar me aproximando
de falta de alternativas
de contingência quase absoluta
continue se afastando como o horizonte
conforme eu caminho.
O horizonte
ele sim
pleno em possibilidades…
Tenho sentido um constante pesar
sobre até onde alcança minha visão nessa caminhada
condicionada pela máxima extensão do futuro
e sua limitação perversa pelo presente.
Se eu der um salto cairei no abismo
ou poderei transpô-lo?
Existe horizonte sem abismo?
No limite, a morte.
No limiar, a liberdade.
Só uma delas existe, a outra é utopia:
horizonte necessário, articulação saudável
entre o presente inescapável e o futuro [im]possível.
À minha utopia, paradoxalmente
parece nesse momento restar-lhe
apenas
o aqui e o agora.

feira

Domingo-feira

(Ilustração: Sales)

Por Daniel Sansil

- bicicleta é?
- Ei, ei, ei, papagaio?
- Monto som de carro, viu?
- Áaaaaaagua!

eu sigo desviando
logo, logo, me canso
e me lembro da infância
“- olha pai um ganso!”

A feira da Parangaba
todo dia de domingo
se eu visse meu pai indo
já ia me arrumando

Eu não gostava de ver
os bichin tudo morrendo
mas a vida é cruel
isso eu fui aprendendo

Aprendi a não comprar
coisa de qualquer um
aprendi que existe amor
por trás de tanto enganador

Tem panelada boa
num digo o endereço
se não todo mundo vai
e logo aumenta o preço

Vez em quando passava
um capricho de fulô
num era cabra falador
mas admirado espiava

às vez aparecia poeta
eu via até cantoria
e hoje insisto em poesia
que a feira é uma festa

Daniel Sansil é isso, aquilo, acaso

ensaio sobre o amor_site

Amor livre

(Arte: Rafael Salvador)

Por Diane Southier

De verdade eu me apaixonei
por teu sexo, meu prazer
Não por pouco duvidei
desse laço, meu querer

Na ansiedade que eu tinha de amar
por muitos braços eu busquei
Fui tão longe nesse caminhar
que até em sonho vacilei…
Era tão simples não ter que mentir
…difícil de acreditar…
Não preciso nem omitir!

Então aos poucos entendi
que nada tem a ver com a gente
toda essa aflição
que a repressão que o corpo sente
não é páreo na conexão
de um amor que não mente

Em certo ponto eu já sentia
-não importa fato ou crença-
para além de toda diferença
autoridade, posse, hierarquia
Amar com liberdade
mais que utopia
é também necessidade…

Eu sei
Liberdade com amor
-sinônimo ou pleonasmo-
não rima com rancor
com sofrimento
nem com dor

Longe de mim!
Eu quero é orgasmo
no começo ou no fim…
A hora não importa, vem logo!
Empurra a porta
faz o que te agrade!
Vem sem pressa
eu quero é com vontade!
Demora…
me pega com força
me goza a sanidade
me enamora!

Vamos aprender?
eu, ele, ela
você
junto e em conjunto
a amar sem poder
sem moral e sem verdade
Pensar o amor
com a leveza da amizade
Esse tudo que é tanto!
mas não fidelidade
nem lágrima ou pranto

Iguais
e nada mais…
Aquilo que sonhamos
tem a ver com lealdade
Nesse ideal cotidiano
a nossa guia
é a igualdade


É, amor, eu já sabia…
que se tudo isso não bastasse
estranho mesmo seria
se eu não me apaixonasse

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Só linha e traço

Por Conde Baltazar
Conde Baltazar é pai e ilustrador. Não, minto, ele é mãe e jardineiro. Mexe a terra com as mãos e molda contando com um pouco de sensibilidade que sobra no corpo. Começou a desenhar aos 16, copiando e hoje, continua copiando. Linha, linha, traço, linha: “the straight line is useless“.Gosta da fotografia, da pintura, quadrinhos (Laerte), pintura abstrata e da musica enquanto arquitetura do som.Ficou muito tempo sem desenhar e voltou pois perdeu os dedos da mão, era o que restava e hoje, só linha e traço. O desenho, principalmente a escolha do traço (por onde ele caminha no papel) conta um pouco do cotidiano de cada um, como ve, como sente, assim se sente Conde Baltazar, cronista da linha.
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O Princípio do Fim

(Ilustração: Regina Parra)

Por Ackson Dantas

A guerra não é um princípio
É um fim
No campo de batalha…
Não há triunfantes
Sacerdotes, criminosos são
Mesmo sob a égide da justiça
Pois quanto mais justificável é o extermínio do oponente
Mais destruidor seremos
E nesta constante, nem santos descalços
Nem puritanos bíblicos
Despontarão vencedores
Pois nasce no homem a morte
E nela não há salvação

O Costurador de Mundos (Ackson Dantas) é ator, diretor teatral e poeta com especialidade em fabricar inventividades e significâncias, costurando palavras, pessoas e mundos

 

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O espaço de Jangu

(Foto: Johnny Herman)

Por Rômulo Silva

Jangu fitou os olhos na avenida fronteiriça.

Dois rios paralelos e barulhentos. Um deságua sentido Bom Jardim – parente próximo de Jangu, quem sabe… o outro corre para os braços do irmão Curió – sangue latino e ainda por cima cantor. Não se ouve música, só luto: 12 de novembro de 2015, a maior chacina da história do Ceará jamais será esquecida. Seus algozes, inclusive, estão em liberdade, enquanto onze jovens estão encerrados na sepultura nos levando a gritar contra as injustiças e negligências praticadas pelo Estado. Jangu caminha ao lado da guerreira Dona Edna Carla (mãe de Alef Souza Cavalcante), transformando dia após dia “luto em luta”.

Embora ambos os rios sejam conhecidos como “Perimetral” – estamos no perímetro – , que recentemente alguém teve a ousadia, covardia, aliás, de batizá-los de “Presidente Costa e Silva” – até hoje o AI-5 elimina as liberdades públicas e democráticas (palavrões para o jovem negro Jangu). “Querem ressuscitar Costa e Silva? Desejam oficializar o que nunca acabou?”, não foram estas as perguntas de Jangu.

O concreto do rio se dissolve, evapora entre fluxos de vida ou de morte – termos que Jangu não faz distinção, tudo para jovens como ele é ensaio e é valendo, intenso. Vem um sonho e um desejo, ambos são atravessados pelas condições materiais, pelo preço que se pode pagar.

Do lado de lá do rio está escrito a palavra “União” – esta palavra está picotada de recados outros, desejos outros, inquietações outras – rebeldia e autonomia – vontade de potência!

O ninho utópico que Jangu visita, habita inclusive, é marcado pelos abraços demorados; rede tecida por fios [in]visíveis, amarradas por nós (nós?) da Tribo. Jangu pára por um instante e pergunta-se: que Tribo é esta? Ela parece não ter nome e talvez não queira um, mas está lá, ela existe porque Jangu existe.

Jangu, vez ou outra navega por mares pouco desbravados; viagem sem malas prontas. Jangu não é o único jovem a desejar conhecer mundos outros, experimentar outros mundos e sair de si mesmo, alcançar o que chamamos genericamente de liberdade. Corpos utópicos caminhando sobre veredas heterotópicas…

O jovem Jangu prova e sente na pele e no estômago a força do deus Capital. Sobre este deus não sabemos se ele é um velhinho que possui barba branca, se é um homem de meia idade burocrata ou se é um bicho, uma sanguessuga, talvez? Para Jangu analisar do que é feito esse bicho não importa agora. O que conta é a oportunidade dada. De onde ela vem, o que ela me proporciona? Ela mata o filho negro do “bicho Capital” chamado Fome? Entre promessas e filas, a oportunidade vem através do “corre do louco” empregatício [in] visível – o preço do sangue que escorre arquibancadas. Jangu vive! Salve salve Jonas Skilf e Alef Lorim.

Jangu, às vezes sem saber, cospe na cara da hipocrisia religiosa e quebra os códigos morais e hierárquicos das Fortalezas. Quem disse que alimento pra cabeça não mata a fome de ninguém? Quem foi o pilantra que disse isso aí?

O ninho utópico existe dentro e fora da mente de Jangu. Ele pode ser a bela vista, pode ser o nascer e pôr-do-sol: a soma dos abraços esperançosos, do racha improvisado em círculos. Pode ser palco da noite ensolarada: razão dos bailes autônomos. “- Chega aê no rolezinho ou no reggae pra dançar agarradinho.” Arena das resistências por vezes planejadas, o espaço outro onde somos lançados para fora de nós mesmos.

Jangu carrega consigo sorrisos espontâneos e gestos aleatórios, [in]definidos em si. Beija na boca do garoto e da garota e celebra o amor. O corpo castigado e criminalizado é uma festa intensa. De Jangu transborda sentimentos que não cabe dentro de si – não cabe em um poema ou em uma prosa; mas pode ser visto [percebido] na lágrima incontida e compartilhada, no repartir do pão das memórias feitas do concreto [dos afetos].

Jan [janelas] / gu [guris] / ru [rua] / ssu [suave].

Rômulo Silva é morador do Jangu e mestrando em Sociologia

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Ser, de direitos

(Ilustração: Rafael Salvador)
Por Vanessa Dourado
Ser, de direitos
Livre ilusão 
Mas as gaiolas tremem 

Sentir o voar impossível 
Destas asas ousadas 
Incomoda? 

Em nossos leitos
Não há remédio 
Que cure nossa vontade 

Corpo-abjeto 
É fato concreto 
Da dura inadequação 

Nossos desejos 
E nossa “invenção” 
Existimos, e muitos temem 

Este corpo visível 
Vidas celebradas 
Incomoda? 

Nossos conceitos 
Livres deste tédio 
Constroem nossa verdade 

Corpo-secreto 
De tudo que é certo 
Não existe correção 

Vanessa Dourado é escritora, bissexual e feminista latino-americana