A revolução das consciências

magnata(Arte: Luis Quilles)

Por Artur Pires

O que fazer quando todas as factualidades levam ao completo descrédito na política brasileira? O que fazer quando “políticos” sem nenhum estofo ético, suspeitos de corrupção e improbidade administrativa se perpetuam em cargos executivos e legislativos? O que fazer quando o Congresso e o Executivo Nacional, os ministérios, as assembleias legislativas, os governos estaduais, as câmaras e as prefeituras estão todos abarrotados de “políticos” cujo interesse, único e exclusivo, é se locupletarem ciclicamente, enchendo os bolsos com polpudas quantias à margem da legalidade? O que fazer quando as poucas vozes dissonantes do modus operandi supracitado são sistematicamente negadas, silenciadas ou tratadas, por este mesmo aparato político-institucional, como insignificantes, irrelevantes ou “loucas”?

O jogo da troca de favores, das locupletações, das conversas ao pé da orelha, dos tapinhas nas costas, dos favorecimentos escusos, das decisões tomadas às sombras, ou seja, da corrupção em seu mais avançado grau de metástase, é solenemente ignorado, empurrado cirurgicamente para debaixo do tapete. Quando a tramóia vem à tona, é enfaticamente negada por senhores engravatados e de paletó, do alto de suas posições hipócritas de baluartes da ética, da moral e da probidade administrativa. Nos primeiros dias após o surgimento dos escândalos, a sociedade mostra-se indignada. Depois, muito pouco depois, cansa, esquece, vai atrás de algo que a distraia. Vai ver novela, assistir ao futebol ou ao BBB. Abaixada a poeira, tudo volta à normalidade da roubalheira.

Constatação óbvia ululante: a sociedade brasileira acostumou-se com as coisas como elas são; dá de ombros à desenfreada corrupção que toma de assalto todos nós. “Quero nem saber de política”; “de política eu quero é distância”; “político é tudo ladrão”; “não interferindo na minha vida, pode roubar o quanto quiser”, entre outros, são aforismos recorrentes em qualquer lugar do Brasil. Pessoas que vomitam estas frases não se dão conta que essa ojeriza à política só contribui para que cada vez mais os “políticos profissionais” se grudem feito ventosas às estruturas dominantes do poder e não mais larguem o osso.

Longe de vestir o discurso genérico dos panelaços gourmets de “abaixo a corrupção”. Não é isso. A corrupção é só uma das várias faces e desdobramentos do sistema político, como a eleição já é, em si, a própria essência desse teatro. A bem da verdade, a essa altura da realidade, não acredito mais que uma reforma política – que contemplasse o fim do voto obrigatório, o exclusivo e igualitário financiamento público para campanhas políticas, a distribuição equânime de tempo de propaganda política obrigatória no rádio e na tevê e a validade do voto nulo – seria suficiente para uma mudança paradigmática, que é necessária. O sistema político – e suas representações simbólica e real – junto à sociedade do controle e do consumo estão tão irremediavelmente viciados e imiscuídos ao modo de produção hegemônico que uma reforma política ganha ares de “pontual reparo na engrenagem do sistema”, que precisa continuar funcionando a todo vapor.

O sentimento que paira insistentemente no ar, mas poucos sentem, é o de que está tudo errado, às avessas. Consertar, enfim, arremedar a estrutura dominante não é a solução. A alternativa é destruí-la, pô-la abaixo. O verdadeiro e profundo movimento emancipatório da sociedade não surgirá do Congresso nem do Executivo Nacional tampouco dos ministérios, das assembleias legislativas, dos governos estaduais, das câmaras e das prefeituras. Estas instâncias estão todas carcomidas, escravas de uma ideologia conservadora ou, quando muito, reformista, de avanços mínimos e pontuais. Avança daqui, retrocede dali. Essa é a lógica viciada e viciante.

À consciência emancipatória é necessário difundir-se, grassar louca e desmedidamente, espalhar-se aleatoriamente por todas as searas e instâncias sociais. Para isso, deve contar com organizações sociais e de trabalhadores e movimentos autogestionários que estejam dispostos a levar a mensagem revolucionária, além de uma imprensa pró-ativa, combatente e alternativa à grande mídia (uma vez que esta sustenta e difunde todo esse modelo simbólico de dominação e controle), que exerça papel crucial, em médio prazo, na libertação da sociedade em relação à lógica mercantil, do círculo vicioso e exaustivamente repetitivo: exploração do trabalhador (mais-valia), produção de mercadorias, consumo de mercadorias e entretenimento hipnotizante.

Como disse Debord, no seu clássico A Sociedade do Espetáculo: “A burguesia chegou ao poder porque é a classe da economia que se desenvolve. O proletariado só poderá ser o poder se ele se tornar a classe da consciência.”Portanto, o movimento de emancipação real, revolucionário em sua própria essência, surgirá das ruas, do povo, das consciências. Das consciências.

Crônicas da Cidade: Ou vai… ou racha!

(Foto: #VaiTerCampinho, de Gabriel Gonçalves)

Artur Pires

Não, o título acima decididamente não faz alusão a nenhuma necessidade iminente de decidir-se sobre algo, de optar por algo ou qualquer coisa que os valha. É nada mais do que um trocadilho fuleragem para introduzir o assunto que as próximas linhas abordarão: o futebol na Cidade dos Funcionários e adjacências.

Racha é a maneira como milhões de brasileiros se referem ao ato de jogar futebol, bater uma bolinha. A Cidade dos Funcionários já foi um bairro pra lá de propício a esta atividade. Hoje nem tanto, mas até alguns anos atrás essa banda de cá de Fortaleza agrupava mais campos de futebol do que qualquer centro de treinamento de time da 1ª Divisão do Campeonato Brasileiro. Era um campo a cada esquina.

Foi assim que o bairro se desenvolveu: em volta dos inúmeros campos de futebol que dividiam com as mangueiras, jambeiros, pés de azeitona e cajueiros a composição da paisagem outrora bucólica desta área. É por este motivo também que a Cidade e adjacências (Tancredo Neves, Tasso, Vila Cazumba, Cajazeiras, Jardim das Oliveiras) abriga (ou abrigou, uma vez que alguns já fecharam as portas) diversos times suburbanos da capital: Fortalezinha, Cearazim, Vasquim, Juventude, Atalanta, Asas, Cifec, Leão Azul, Tancredo Neves, Internacional, Nacional e UGFC.

Lembro das primeiras vezes que, ainda menino véi de 9 ou 10 anos, experimentei sair de casa para jogar bola em algum dos campos aqui das redondezas. Joguei, desde então, numa dezena deles: no da Pague Menos (era assim chamado porque ficava atrás da farmácia homônima), no do IPEC, no do Asas, no campo dos conjunto, no campo das azeitoneiras, no lago, nos trenszim, no campo do terreno do Antônio Caixeira (ganhamos inclusive um campeonato nesse campo, que nos valeu, como prêmio, uma galinha de capoeira – ainda viva! Essa história está retratada aqui: O torneio da galinha) e, obviamente, no campo de areia da praça (que, infelizmente, não existe mais).

De geração após geração, o costume de bater racha na Cidade dos Funcionários é mantido. Sagrado! Atualmente, a praça está em reforma e o racha rola às quarta-feiras na quadra da escola próxima. Quando voltar à praça, não se restringe só à galera da Cidade. Vem jogador do Tancredo Neves, da Vila Cazumba, do Jardim das Oliveiras, do Vila Verde e das Cajazeiras. Vez por outra, até do Cambeba, da Messejana e de outras áreas mais distantes.

Em torno de jogar futebol, se reúnem pessoas de diferentes bairros. Mas o grande lance é que os encontros não se restringem tão somente ao ato de bater uma bola. Não! Há, também, nas arquibancadas da quadra toda uma interação maior que vai muito além dos “10 machos correndo atrás de uma bola”.  Tem as tirações de onda, tem a prosa descontraída, tem a convivência com pessoas de outras quebradas que, certamente, se não fosse pelo racha que as leva até a Cidade, nunca as conheceríamos. E sabe por quê?! Porque para jogar futebol bastar querer – e, minimamente, saber chutar uma bola! Não importa se é preto, branco, pobre, rico, magro, gordo, baixo, alto; rachar numa quadra de praça é extremamente democrático (não falo aqui desses campos de aluguel que custam 60, 70, 80 reais a hora). Sem falar que é um das pouquíssimas atividades de lazer para muitos jovens da periferia, que vivem em meio à negligência e ao descaso estatal.

O triste de tudo isso é constatar que a cada ano diminuem as opções de campos no bairro (na cidade como um todo!) devido ao processo predatório da especulação imobiliária, que vai transformando os campinhos em concreto, cercas elétricas e medo. Uma pena!

UGFC

Um dos times da Cidade dos Funcionários, que tenho orgulho de fazer parte, o União dos Grafiteiros Futebol Clube (UGFC), formado e treinado no racha da quadra, com 90% dos jogadores nascidos e criados no bairro, disputa torneios amadores. O UGFC foi campeão do Torneio Interbairros do Canindezinho (bairro da zona oeste de Fortaleza) em 2011 e vice-campeão em 2012. Venceu também um torneio na Parangaba em 2011. Já disputou torneios na Sabiaguaba (2012 e 2013), na comunidade do Pôr do Sol, na Grande Messejana (2015), entre outros.

Mais do que o clichê “o importante é competir”, o que vale mesmo é compartilhar a vida por meio do futebol, porque, mais do que um esporte, ele pode ser um agregador social dos bons.

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Da seção Crônicas da Cidade

A mídia ninja e a mídia molecagem
A periferia que se foi…
Uma noite no Canto das Tribos
A sexta-feira da praça
O torneio da galinha
Dedé, boemia e futebol
A arte de levar uma geral 

A violência legitimada e a seletividade midiática*

(Charge: Latuff)

Por Artur Pires

Anote aí: ainda hoje, em qualquer noticiário midiático da imprensa empresarial, de qualquer parte do Brasil, você, leitor/ouvinte/telespectador/internauta, tomará ciência de, no mínimo, mais um caso da violência que assola o país. As consequências da guerra civil que impera no cotidiano brasileiro são diariamente retratadas na mídia empresarial, que conta ainda com a espetacularização e a “venda” dessa tragédia social nos programas policialescos.

Mas e as causas? Sim, e as causas dessa violência desenfreada? Ah, essas são propositalmente escanteadas. Não é do interesse da “grande mídia” discutir os porquês da escalada da violência nas cidades brasileiras, uma vez que se se propusesse a levantar o debate em torno dessa questão, se chegaria à conclusão de que o maior responsável pela barbárie social brasileira é o modo de produção hegemônico baseado no dinheiro e no consumo, que aprofunda desigualdades e cria duas realidades sociais: a dos que têm e a dos que não têm.

A sociedade brasileira legitimou e, pior ainda, naturalizou a mais cruel das violências: a da exclusão. Nesse exato momento, enquanto se lê essas linhas, há milhões de brasileiros morando em barracos de pau, papelão e lona nas inúmeras favelas que grassam pelo país; milhões de brasileiros dormindo em cima de papelões, embaixo de marquises e viadutos; milhões de brasileiros catando lixo para comer e sobreviver, disputando seu café-da-manhã, almoço e janta com gatos e cachorros em feiras, praças e calçadas. O mais aterrador de tudo isso? Esses brasileiros são vistos diariamente nas ruas, sinais de trânsito e praças das grandes cidades, mas ainda assim permanecem invisíveis aos olhos dessa sociedade marcada por contrastes. Essa mesma sociedade que, quando muito, dá um trocado para o pretinho que faz malabarismos com bolinhas no semáforo e em seguida ruma para sua casa convicta de que fez sua “boa ação”.

A tragédia da exclusão, da desigualdade e da miséria é escandalosamente ignorada pela mídia empresarial. Quando vem à tona, emerge sob a forma da criminalização da pobreza. Para a mídia burguesa, o bandido no Brasil tem cor, classe social e residência: é preto, pobre e mora na periferia. Ao Partido da Imprensa Golpista (PIG), é necessário construir este estereótipo do criminoso para sombrear a real causa da violência. É por isso que mídia e sociedade aplaudem quando a PM invade favelas e mata traficantes – muitos destes já rendidos – e, em maioria, extermina à revelia moradores que não têm participação nenhuma nessa guerra. É por este mesmo motivo que mídia e sociedade cantam loas à invasão de morros cariocas pela Polícia e pelas Forças Armadas.

Agora, dizem eles, essas comunidades “viverão em paz e libertas do tráfico”. Primeiro, paz sem voz, não é paz, é medo, já diria o Rappa. Segundo, libertas do tráfico? Ora, o tráfico continua a existir abertamente, com a diferença de que agora a PM abocanha parte generosa do lucro da atividade, que antes era exclusivo aos traficantes. Mas isso, ah, isso não é motivo de pauta para a mídia vendida. À imprensa burguesa, é bem mais pertinente aplaudir as UPPs e referendar a domesticação das comunidades invadidas aos padrões do status quo vigente.

Enquanto se lê essas linhas, centenas – quiçá milhares – de brasileiros que moram em favelas, principalmente jovens negros, estão sendo mortos, seja por disputas entre gangues rivais, seja, em sua maioria, pela PM (a polícia brasileira é a que mais mata no mundo; mais do que o Exército fascista de Israel e o governo sírio juntos). É como diz o Racionais MC’s, “assustador é quando se descobre que tudo dá em nada e que só morre o pobre”. Esses jovens são, ao mesmo tempo, causa e conseqüência de uma violência legitimada pelo Estado e endossada pela sociedade. Mas ninguém os vê. Afinal, eles estão lá, no outro Brasil, aquele da miséria, da indignidade, da invisibilidade. A sociedade não se importa com o banho de sangue diário, com a tragédia cotidiana pintada em vermelho nas periferias brasileiras. Não há comoção nacional para esses casos.

Mas experimente um desses jovens se revoltar da sua realidade miserável e violenta, resolver arrostar o estado das coisas e partir para o confronto direto, armado. Experimente esse jovem assaltar e, pelo calor das circunstâncias, matar um classe-mediano. Ah, certamente a mídia, com seu moralismo reacionário, dedicará editoriais, minutos preciosos e páginas inteiras de seus veículos para denunciar a violência no Brasil, usando, como exemplo, o caso do “bandido” que assassinou o “trabalhador”. O caso se transformará rapidamente em comoção nacional. Pessoas comentarão nas ruas, nas paradas de ônibus, à espera do metrô e, assim, a criminalização da pobreza será cada vez mais incorporada ao ideário e ao imaginário coletivo da sociedade brasileira.

Vale deixar bem claro aqui (muito claro mesmo!) que não se está defendendo a morte de quem quer que seja, seja ele rico, pobre, preto ou branco. Ou, muito menos, fazendo-se apologia ao crime. O que se traz à reflexão e se tenta desconstruir é esse discurso midiático altamente seletivo e moralizador, que filtra por classe social e etnia as mortes que quer mostrar, bem como seleciona, também por classe social e etnia, os “bandidos” que quer apresentar à sociedade. A morte de pobre apenas é destaque na imprensa convencional quando morrem, de uma vez só, mais de cinco. E sabe por quê? Porque chacina rende audiência, chacina “vende”.

Enfim, é fundamental que paremos de pensar a violência no Brasil presos ao padrão global, à la Capitão Nascimento, ou à hipocrisia dos lixos televisivos policialescos. É imperativo que analisemos essa questão sob o prisma do profundo fosso social que aparta os inseridos a essa sociedade dos marginalizados por esse mesmo tecido social. Há, na verdade, bem antes dos atos violentos que tomamos conhecimento no noticiário, uma violência e uma omissão simbólicas, mas também reais, brutais e devastadoras, praticadas todos os dias contra o povo pobre – legitimadas pelo Estado e assinadas embaixo pela própria sociedade civil. A questão da violência vai muito além do maniqueísmo “mocinho(a)” da classe média x “bandido(a)” da favela” que a mídia, a todo momento, nos impõe. Como diria a sabedoria popular, o buraco é mais embaixo! E como é!

* Artigo publicado na Revista Berro – Ano 01 – Edição 01 – Maio/Junho 2014 . Veja aqui a versão PDF

O apartheid brasileiro não acabou

(Charge: Alpino)

Por Artur Pires

Imagine aí a situação: você é negro e pobre, nasceu e cresceu numa favela. Em toda sua vida, dentre as opções de lazer, ir ao shopping nunca foi sequer cogitado. Não fazia parte de seu universo. Mas aí alguns amigos começam a ir, gostam da idéia e te convidam para um rolé por lá também. Você decide experimentar. E então sai de casa com amigos rumo ao shopping. Combinam de passear por lá, mirar as vitrines, comer algo nas feéricas praças de alimentação desses recantos, ir ao cinema ou consumir o supérfluo. Você, enfim, está lá. Eis que, de repente, policiais militares (PMs fazendo rondas em shoppings já é, por si só, revelador de muita coisa – Pelo fim da PM, pela imediata desmilitarização da Polícia!) e seguranças dirigem-se a você e seus amigos e dizem grosseiramente que não podem ficar ali. Você se recusa a sair. E aí vem o pior: te expulsam a cacetada, empurrões, tapas e xingamentos.

Essa cena não é imaginária como parece ser. Ela é real, concreta. Mas aí o leitor pensa que isso certamente aconteceu nos anos 50, no sul racista dos Estados Unidos – quem sabe no Alabama ou no Mississipi – ou talvez na África do Sul do apartheid. Mas não! A cena descrita aconteceu em São Paulo, Brasil, 2015. E ocorreu também em várias cidades brasileiras. Quem não lembra de jovens negros e pobres sendo expulsos na inauguração de um shopping na Parangaba, em Fortaleza? (Lembre aqui).

Infelizmente, esse fato enojante, de embrulhar o estômago, deverá ocorrer outras vezes, em muitas outras cidades, e nas mesmas cidades novamente. Sabe por quê? Porque, para a sociedade das aparências, a favela não é bem-vinda no templo do consumo burguês. À favela, cabe ir ao shopping tão-somente para ser explorada atrás dos balcões do McDonald´s ou para limpar os banheiros. Ou, então, cabe ir somente àqueles que foram construídos para ela, casos do North Shopping Jóquei, em Fortaleza, para que não se misturasse com os clientes do Iguatemi ou do RioMar.

Dentro da lógica consumista, é claro que é importante que os pobres consumam, comprem, ostentem, mas é preciso assegurar que esse neoconsumismo da periferia não invada os templos sagrados da burguesia. A sociedade brasileira é claramente segregada. Contudo, enquanto a periferia esteve cerceada, limitada às suas fronteiras suburbanas e aos locais “apropriados” para ela, estava tudo bem. Quando ela invade, sem pedir licença, os domínios territoriais exclusivos dos ricos, aí o mito do paraíso racial brasileiro vai para o brejo.

Para agravar esse quadro pintado com tintas carregadas de opressão, exclusão e marginalização históricas, a Justiça de vários estados já autorizou “o uso da força policial para conter possíveis atos de ameaça relacionados ao rolezinhos“. Peraí, justiça? O judiciário assinou o atestado de comprovação do apartheid brasileiro. Há locais em que pretos e pobres não podem andar – é isso o que ele diz com essas decisões absurdas! Essa mesma Justiça que abarrota negros e pobres – muitas vezes réus primários, ladrões de galinha e de varal ou vapores do tráfico de drogas nas favelas – como sardinhas em lata no sistema prisional, ao tempo em que põe vendas nos olhos e é condescendente com os criminosos do colarinho branco – esses de paletó e gravata, que desviam e superfaturam milhões em obras públicas, que removem violentamente pessoas de suas casas em nome de organizações mafiosas (como a FIFA, para ficar num só exemplo), que compram votos no Congresso Nacional e nas demais casas legislativas Brasil afora para se perpetuarem no poder, que fazem conchavos políticos por debaixo dos panos para engordarem ainda mais suas contas bancárias em paraísos fiscais…

Não percamos de vista que o poder judiciário é também um dos apêndices do segregacionismo brasileiro. Via de regra, age para manter o status quo, amparando e sendo generoso com a elite tupiniquim e, por outro lado, lançando sua mão punitiva contra a população dos guetos, sempre atendendo aos ditames do capital e da sociedade do controle. O encarceramento em massa de pobres é componente imprescindível dessa política. Aliás, como disse Bourdieu, n´O Poder Simbólico, na atual configuração do sistema político mundial, o Judiciário, o Legislativo e o Executivo estarão sempre a postos para obedecer ao senhor dinheiro. O sistema político está carcomido. O capital é quem canta o funk: “Tá dominado, tá tudo dominado”! O alardeado Estado Democrático de Direito é uma farsa medonha, uma falácia absurda que nos é empurrada goela abaixo diariamente e teatralizada a cada dois anos, nas eleições.

Voltando à questão central do texto, a polêmica dos rolezinhos tem a face positiva de trazer à superfície, de maneira incontestável, a densa segregação de classe e de raça que há no Brasil. Põe definitivamente uma pá de terra sobre o mito do paraíso racial e de classe brasileiro. Não há integração entre as classes sociais no Brasil. O(a) morador(a) da periferia só interage com o(a) burguês(a) quando vai recolher o lixo na casa deste(a), ou quando dá um “bom dia” da portaria do prédio onde trabalha, ou quando é empregado(a) doméstico(a) ou jardineiro(a) numa mansão, ou quando – consequência direta dessa desigualdade – aponta uma quadrada para a cabeça daquele(a)!

“Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal

Por menos de um real Minha chance era pouca

Mas se eu fosse aquele moleque de touca

Que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca

De quebrada, sem roupa, você e sua mina

Um, dois, nem me viu: já sumi na neblina”

(Racionais MC´s – Capítulo 4, Versículo 3)

Assim como na África do Sul do apartheid ou nos estados racistas estadunidenses da primeira metade do século XX, vivemos numa sociedade apartada, profundamente segregada. A relevante diferença é que o segregacionismo brasileiro é ainda mais eficaz, porque sorrateiramente transmite a idéia de que não existe. E é justamente esse véu que acoberta sua feição tenebrosa que o torna ainda mais eficiente e, consequentemente, mais nocivo. Entretanto, com o transbordamento da sociedade do consumo avançando em direção às comunidades periféricas, vai ser cada vez mais difícil mascarar a tão marcante segregação social brasileira. “É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas” (Gilles Deleuze, Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle).

Oxalá que essa explosão venha acompanhada de transformações profundas no estado das coisas e nos costumes sociais, bem como traga em seu bojo fagulhas com alto poder de combustão para a derrocada da onipresente estrutura econômica que a todo custo tenta nos impedir de sonhar. Queima babilônia! Como diria Ednardo, “eles são muitos, mas não podem voar”.

PS: Ensina pra eles aí, Gal:

A concentração midiática e a negação da vida real*

TV e alienação!

Por Artur Pires

Os meios de comunicação são, nos dias atuais, uma ferramenta imprescindível na disputa por posições no campo da hegemonia ideológica e, obviamente, de manutenção da ordem vigente. No Brasil, país continental e amplamente diverso, a comunicação está nas mãos de um oligopólio formado por grupos empresariais de poucas famiglias – contadas nos dedos – que dominam e detêm o controle majoritário da produção, da distribuição e da veiculação do conteúdo midiático nacional. A concentração da comunicação no Brasil é aterradora. Não fosse isso por si só péssimo, essa mídia empresarial ainda dita, à sua maneira mercadológica, padrões culturais e de comportamento atrelados à lógica do consumismo e umbilicalmente ligados às estruturas da sociedade do controle.

Ao seu modo, a mídia empresarial, controlada por estas poucas famiglias de magnatas, mantém o estado das coisas do jeitinho que está: privilégios sócio-econômicos para as suas castas e de seus bajuladores e doses cavalares de opressão e miséria para o restante do povo – no meio desse fosso de disparidade, repousa o “cidadão de bem” da classe média brasileira, completamente alheio aos problemas sociais, que brada genericamente “contra a corrupção”, mas está preocupado mesmo em comprar o novo modelo de Iphone que acabou de ser lançado.

Os meios de comunicação empresariais, aliados às mais modernas estratégias persuasivas da publicidade, estão na vanguarda da sustentação do modo de produção baseado no consumismo e na “descartabilidade” da mercadoria, que favorece o próprio consumo. O monopólio da comunicação nas mãos dos barões da mídia – e a tentativa obstinada de mantê-lo – representa, noutra perspectiva, a explícita confissão de sua vassalagem e conseqüente intersecção à estrutura maior do capitalismo.

Obviamente, a mídia empresarial empreende sua tarefa de manter o status quo de um modo bastante cortinado e muito eficaz: vende diariamente mentiras em seus noticiários contra movimentos sociais, organizações de trabalhadores e iniciativas populares ao tempo em que hipnotiza e entorpece o grosso da população com programação, principalmente televisiva, que atende aos anseios e modos de comportamento da “sociedade do espetáculo”, onde o imagético e a aparência valem bem mais que a vida real; a vida essencialmente humana dá lugar à vida aparente, superficial. “Te colocam em frente da TV, trocando as suas raízes por um modo artificial de se viver. Ninguém questiona mais nada, os homens do poder agora contam sua piada, onde só eles acham graça, abandonando o povo na desgraça”, diz o Ponto de Equilíbrio, na sua Ditadura da Televisão.

À menor tentativa de democratizar os meios de comunicação no Brasil, ou seja, de desbaratar esse conglomerado inconstitucional e de ofertar a grupos e setores da sociedade civil que não se sentem representados pela mídia empresarial capacidade de produzir sua própria informação, o oligopólio midiático brasileiro reage enfurecido e acusa os militantes da democratização de serem contra a liberdade de imprensa. Pura balela!

Nas sociedades atuais, em qualquer lugar do mundo, a mídia, principalmente a televisiva, exerce papel central na manutenção e divulgação das ordens simbólica e institucional. Dito isto, é preciso urgentemente mudar a realidade midiática no Brasil. Não podemos chamar de liberdade de imprensa escolher entre o Gugu ou o Faustão, entre a novela do canal “X” e a do canal “Y”, entre o jornal do canal “Z” e o outro do canal “W”. Todos têm a mesma essência de atrelamento aos ditames do capital; nenhum deles propõe uma mudança paradigmática em relação às estruturas dominantes do poder na sociedade. Pior ainda: nem sequer trazem à tona esse debate.

Em resumo, o fato é que enquanto a sociedade brasileira for refém dessa mídia empresarial, que dita as regras do jogo, não seremos livres, não viveremos numa democracia, mas num arremedo dela. O mais desesperador de tudo disso é que enquanto essa mesma mídia – acompanhada da ilusão publicitária, que transforma a mercadoria no início, no meio e no fim do produto do trabalho – grassar à solta, a sociedade caminhará cada vez mais para longe de sua essência genuinamente humana e rumo à fantasia do consumo das aparências, rumo à vida que é, em si própria, a negação da vida real.

* A Revista Berro trouxe reportagem sobre o assunto na sua 1ª edição impressa. Confira aqui: Democratizar a comunicação para garantir a democracia real

Sobre violência, futebol e a “mística daquelas camisas”

(Foto: Fábio Lima e Rodrigo Carvalho, O Povo)

Artur Pires

Desde ontem, 3 de maio, após o extraordinário e inesquecível Clássico-Rei no Castelão, que decidiu o Campeonato Cearense 2015, li e escutei muitos comentários, tanto de torcedores como de “comentaristas” esportivos, sobre a violência protagonizada por fanáticos de ambos os clubes dentro do gramado, após o jogo. E o que tenho notado é um discurso eivado de hipocrisia, marcadamente raso, superficial, que vomita preconceitos e cobra punição aos “vândalos e marginais”, e, como sempre, analisa as consequências dos atos violentos, mas esquece as causas.

Ora, as cenas de violência que vimos pela televisão ou assistimos no estádio são e serão recorrentes numa sociedade violenta, que marginaliza e negligencia pessoas. O futebol, como fenômeno social que é, apenas reflete a violência no qual está inserido. Os alcunhados “vândalos e baderneiros” são os mesmos que cotidianamente sofrem com a truculência policial, com a falta de educação e saúde pública, de lazer, de direito a uma moradia decente, de respeito à sua dignidade, que saem de casa e têm esgotos a céu aberto à sua frente, enfim, que sofrem dia após dia com a violência social; já vivem a apanhar da vida, por assim dizer. Uma sociedade assim espera o que de seus (sobre)viventes? Que respondam com paz e amor à violência diária a que estão submetidos? Ah, meus caros, não é assim que a banda toca. A violência social ricocheteia em todos os desdobramentos dessa mesma sociedade – e o futebol não está alheio a isso!

A verborragia que pede punição aos “vândalos, marginais e baderneiros” é a mesma que pede a redução da maioridade penal ou que vocifera que “bandido bom é bandido morto”. São de fato marginais, mas sabe por quê? Porque estão à margem de um tecido social que os ignora e exclui, que os condena à própria sorte, que os entrega a uma vida em meio à miséria, e que só os vê quando estes respondem com brutalidade à violência social que os vitima e sangra.

A saída não virá com estes discursos à la Capitão Nascimento de punição a qualquer custo. Porque o buraco é muito mais embaixo. O buraco é comprido e largo, tem mais de quatro séculos de exploração e negligência. A questão aqui não é passar a mão na cabeça de torcedores violentos, mas entender suas questões, fazer o saudável e salutar exercício humano da compaixão, de pôr-se no lugar do outro. “Ahhh, mas então tu não se coloca no lugar do pai de família que quer levar seus filhos pro estádio e não pode mais devido aos vândalos?” Claro que me coloco também! Torço profundamente para que isso volte a ocorrer, que pais, mães, filhas e filhos possam ir tranquilamente ao estádio, sem temer problemas. Mas torcer para que isso aconteça passa necessariamente por desconstruir essa visão de que o problema está na conseqüência, ou seja, nos atos violentos – que, queiram aceitar ou não, já são uma resposta -, e não na causa em si, a própria violência social.

A barbárie no futebol não vai desaparecer enquanto não atacarmos as raízes dela, que não estão no futebol, mas numa humanidade completamente entregue a valores distorcidos, que dá iates para uns e a rua como moradia para outros. É raso e hipócrita atacarmos com discursos punitivos as torcidas organizadas, e não percebermos que o que gera tudo isso é o fato de que muitas pessoas não têm sequer o que comer e onde dormir hoje. A selvageria nos campos e estádios é só uma metonímia da desumanização que vivemos!

 

……..

 

Quanto ao jogo em si, faço aqui uma mea culpa: eu desisti, eu desacreditei, Nação Tricolor! No segundo gol do time rival, virei as costas e fui em direção ao portão de saída, esbravejando desgosto, decepção e desilusão. Mas quando me aproximava para pôr os pés na rua, fui contido pela “mística daquelas camisas”. Um sonoro e gigantesco “Êêêêêêêêêêêêê” me fez parar, olhei prum torcedor que tinha um radim de pilha colado ao ouvido e vi que ele gritava de alegria: – Gol do Leão, gol do Leão, dizia. Olhei pro lado e vi centenas de torcedores pulando eufóricos. A ficha não tinha caído. – O que foi, o que foi? perguntei a quem estava na minha frente. – O Leão empatou, empatou!!!

Saí correndo de volta à arquibancada, ainda sem acreditar direito naquilo, querendo confirmação para o que parecia inacreditável! – O que foi, o que foi? Foi gol do Leão? indaguei, querendo apenas escutar que sim. Olhei para o gramado novamente e vi os jogadores tricolores vibrando e os do time rival com a bola ao centro do gramado. Sim, tinha sido gol do Leão! Gol do 40º título cearense de nossa história, que se juntou às 4 conquistas regionais (46, 60, 68 e 70).

Eu fui levado ao estádio pela primeira vez por meu pai, em 1991, aos 6 anos, na final do Campeonato Cearense. Até hoje, nenhum público em Clássico-Rei foi maior que aquele: mais de 60 mil tricolores e alvinegros lotaram o Castelão. O jogo foi 1 a 1, um golaço de Mirandinha para o Leão, e o Fortaleza foi campeão porque havia conquistado 3 turnos contra 1 do Ceará. Para um menino matuto que tinha vindo do interior ver aquele jogo, a experiência foi catártica…  como ontem!

O futebol tem suas mazelas, que vão bem além das brigas nos estádios: o business, a Fifa e as federações são de uma sujeira que enoja; os cartolas e empresários também maculam a imagem do esporte. O que falar então das vitórias e derrotas? Efêmeras, passageiras, nada mais. As vitórias regozijam; as derrotas doem. Ambas atingem o ego. Inflam-no ou murcham-no! São comemorações ou decepções que escapam às nossas mãos rapidamente, fagueiras como o vento. Mas disse tudo isso para concluir que, ainda assim, é impressionante como o futebol mexe com a gente. Tem algo de etéreo nestas derrotas e vitórias, nestas frustrações e catarses, que não cabe às explicações racionais, algo da ordem do sutil e do invisível, que lentamente e com o passar dos anos vai repousando na alma, sedimentando-se no espírito.

Racionalmente falando, sou torcedor do Fortaleza, e sei que o futebol é coisa pequena diante da existência, esta é tão maior; infinita, para se falar a verdade. Um jogo não é algo para se dar tanta importância, porque é assim mesmo: descartável. Um dia se ganha, outro se perde. Nem de longe o “Fortaleza é a minha vida”, como alguns torcedores apregoam por aí, batendo no peito. Minha vida vai bem além do clube que torço. Mas, espiritualmente falando, naquilo que a alma nos diz, numa linguagem que não é humana muito menos racional, tão-somente intuitiva, há uma ligação entre mim e o Fortaleza que eu não sei explicar, só sentir! Há algo de misterioso que eu não codifico tampouco entendo à luz da razão – e nem procuro mais! Apenas sinto! E sinto n´alma, não no ego! Nas vitórias e nas derrotas! Deve ser a “mística daquelas camisas”!

Cotas raciais: combatendo a desigualdade de cor

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Arte da 2ª edição da cartilha sobre cotas raciais do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas ( Ibase)

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

A desigualdade racial no Brasil é abissal. Dependendo da pigmentação da pele, um brasileiro pode ter oportunidades bem diversas e contrastantes. O racismo, arraigado no seio da sociedade nacional desde a formação do povo brasileiro, exclui e marginaliza uma parcela significativa da população do país. É sob esse contexto que as políticas afirmativas despontam como uma necessidade premente.

Em uma sociedade como a brasileira, onde as faces do racismo se mostram das mais variadas formas e estão imiscuídas dentro das relações sociais, as cotas raciais se apresentam como um paliativo necessário. “Apesar das críticas contra a ação afirmativa, a experiência das últimas quatro décadas nos países que a implementaram não deixam dúvidas sobre as mudanças alcançadas” (Políticas de ação afirmativa em benefício da população negra no Brasil: um ponto de vista em defesa das cotas, Kabengele Munanga). A partir dos prévios conhecimentos acerca das políticas de afirmação em outros países, poderíamos criar nosso próprio sistema de cotas, fazendo um bom proveito das experiências acumuladas. O que a questão exige é o direito à escuta de grupos sociais marginalizados historicamente que querem agora fazer parte das decisões políticas, não apenas mais como meros espectadores. Esses atores sociais não estão querendo dividir racialmente a sociedade, mas se recusam a esquecer as marcas indeléveis da exclusão realizada há séculos.

Assim, as políticas de afirmação visam a oferecer aos grupos marginalizados um tratamento diferenciado para compensar as menores oportunidades devido à sua condição de discriminados. As cotas raciais funcionam, portanto, como uma desigualdade que se propõe a anular outra desigualdade.  Não intervir na forma como a realidade está posta, através das políticas afirmativas, é favorecer injustamente grupos sociais que historicamente sempre tiveram privilégios e garantias consolidadas.

“Se quisermos contrapormo-nos ao racismo subjacente e invisível das nossas instituições, precisamos, em primeiro lugar, garantir a criação de oportunidades para os negros brasileiros, sem o que não lhes será possível vencer no cenário competitivo da sociedade moderna de livres e iguais perante a lei” (Cota racial e Estado: Abolição do racismo ou direitos de raça?, Célia Marinho de Azevedo).

Ou seja, no universo das possibilidades de acesso, já há uma desigualdade que deve ser considerada. “Daí a justificativa de uma política preferencial no sentido de uma discriminação positiva. O modernismo político acostumou a tratar igualmente seres e grupos diferentes ou desiguais, em vez de tratá-los especificamente como desiguais” (Políticas de ação afirmativa em benefício da população negra no Brasil: um ponto de vista em defesa das cotas, Kabengele Munanga). Desse modo, as cotas para certos grupos sociais são nada mais do que políticas reparativas, que se propõem a tentar equilibrar o quadro das garantias e vantagens sociais.

Os críticos e refratários às cotas raciais, na maioria das vezes, lançam mão de argumentos que não visam a alterar o estado das coisas e se negam a admitir o longo processo de exclusão do negro na sociedade brasileira. Outra argumentação contrária é a de que as cotas sociais seriam mais eficazes, pois atenderiam também aos brancos pobres. Não discordamos desse segundo argumento, mas uma política não necessariamente anula a outra: as duas podem ser adotadas conjuntamente. “Não vejo como tratar, falando de políticas públicas numa cultura e sociedade racista, igualmente os negros pobres e os brancos pobres, quando uns são duplamente discriminados e outros discriminados uma única vez. A cota é apenas um instrumento e uma medida emergencial enquanto se buscam outros caminhos. Dizer simplesmente que implantar cotas é uma injustiça, sem propor outras alternativas a curto, médio e longo prazo, é uma maneira de fugir de uma questão vital para milhões de brasileiros de ascendência africana. É uma maneira de reiterar o mito da democracia racial, embora este esteja desmistificado” (Políticas de ação afirmativa em benefício da população negra no Brasil: um ponto de vista em defesa das cotas, Kabengele Munanga).

Um terceiro argumento lugar-comum dos críticos às cotas raciais é o de que estas vão estimular a discriminação contra os negros. Ora, as cotas não têm como aprofundar os preconceitos raciais, pois estes já se encontram arraigados na cultura e na psique coletiva do povo brasileiro. A função das cotas é outra – e muito bem demarcada: oportunizar condições a uma parcela da população que sempre se deparou com as portas fechadas para sua inserção e mobilidade social.

Em resumo, a implantação das cotas para negros – em todas as searas da sociedade brasileira – como um programa político de abrangência nacional funcionaria como uma política de reparação a séculos de exclusão social. Essa é uma dívida histórica que o Brasil tem com sua população negra.

Conclusões

Pensar em soluções e alternativas para exterminar a praga do racismo na sociedade brasileira é uma tarefa árdua. Muito devido ao fato de que essa visão racista do brasileiro está arraigada em sua identidade enquanto povo. A sociedade brasileira é racista hoje por uma construção social maquiavelicamente engendrada séculos atrás. Na constituição de nosso povo, teorias racistas que atestavam o negro como inferior e propenso à submissão – mas também à violência – foram incorporadas às relações e comportamentos sociais para nunca mais saírem.

Hoje, ainda que quase ninguém se autodeclare racista, esse preconceito subsiste nas camadas mais profundas do imaginário coletivo. “Considerando que esse imaginário e essas representações, em parte situados no inconsciente coletivo, possuem uma dimensão afetiva e emocional, dimensão onde brotam e são cultivadas as crenças, os estereótipos e os valores que codificam as atitudes, é preciso descobrir e inventar técnicas e linguagens capazes de superar os limites da pura razão e de tocar no imaginário e nas representações. Enfim, capazes de deixar aflorar os preconceitos escondidos na estrutura profunda do nosso psiquismo” (Superando o racismo na escola, Kabengele Munanga).

Faz-se também de extrema importância “fortalecer a formação e reatualização de uma consciência negra, em cada país que carrega na sua história um passado assinalado pelo escravismo colonial. Consciência negra é construir uma identidade negra em um mundo dentro do qual o racismo existe de modo explícito ou encoberto. É construir a identidade negra como diferença, e exigir que esta diferença seja percebida sem desigualdade. É dotar essa identidade de força política, de valor social, de pujança cultural” (A construção social da cor, José D´Assunção Barros).

É dentro dessa visão de autoafirmação da “raça” negra com uma construção sociológica – e não mais biológica – que surge também a noção de identidade negra. O conceito de identidade negra traz em seu bojo a revalorização da cultura milenar negra, dos seus costumes, das suas origens. Esse resgate histórico-cultural da negritude tem contribuído decisivamente para cavar espaços de inserção sócio-políticos antes inimagináveis – vide a Lei 10.639, de 2003, que obriga todas as escolas brasileiras, de nível fundamental e médio, a adotar em seus currículos disciplinas que contemplem a cultura e a história afro-brasileira, para além dos clichês habituais.

Em síntese, é imperativo somar à noção de identidade negra as novas linguagens e técnicas que pretendem transformar o imaginário coletivo brasileiro. Juntas, essas alternativas podem enfrentar o racismo da sociedade brasileira e promover um processo contra-hegemônico, que suplantaria as práticas de preconceito racial.

Enquanto isso não ocorre, urge que medidas paliativas sejam tomadas no sentido de igualar as oportunidades às diversas etnias brasileiras. É nesse sentido que as políticas de ação afirmativas para negros são extremamente necessárias, uma vez que o país ainda tem um longo e pedregoso caminho a percorrer para equilibrar seu imenso fosso racial.

*Esse texto faz parte da série Consciência Negra: a questão racial, que foi publicada em novembro de 2014 na Revista Berro. Veja abaixo todos os outros textos da série: 

A construção social da “raça” negra

Ciência a serviço da escravidão

Desconstruindo o mito do paraíso racial brasileiro

Abolicionistas: lobos em pele de cordeiro

O protagonismo negro no processo de abolição

O “black power” sai às ruas

Por que o racismo ainda persiste?

Por que o racismo ainda persiste?

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

O racismo é uma construção social relativamente recente na história da humanidade. Até a Idade Média, antes do período das Grandes Navegações, as principais formas de discriminação se davam por diferenças religiosas e políticas ou em relação à nacionalidade e à língua falada pelos indivíduos. A partir do tráfico negreiro para as Américas, os europeus usaram a ciência a favor do colonialismo exploratório para desenvolverem teorias de superioridade racial, baseadas em diferenças biológicas, que endossavam seus interesses comerciais e de dominação.

Foi nesse momento que surgiu a diferenciação pela cor – o racismo -, que não resistiu aos avanços nos campos biológico e antropológico da ciência, mas deixou marcas indeléveis nas sociedades que fizeram uso das teorias raciais para justificar a escravidão, como o Brasil. Isto porque o racismo se construiu junto com conceito de “raça”, mas com o agravante de que ele sobreviveu à dissolução científica da noção de “raça”, já que, assim como os demais preconceitos, é um produto da cultura na qual está inserido.  O racismo transformou-se em justificativa ideológica para legitimar a dominação de uns sobre outros; se adapta perspicazmente às condições de aceitabilidade exigidas pelos costumes e convenções sociais, manifestando-se às claras ou de maneira cortinada e simbólica, sendo parte constituinte da psique coletiva do conjunto da sociedade. A cultura de discriminação racial, embora abarque todas as classes sociais, tem reflexos mais contundentes nas classes vulneráveis economicamente.

“A ‘construção social da cor’ deu-se e dá-se de modo tão particularmente intenso no mundo moderno que todos aprendem de um modo ou de outro a enxergar o mundo a partir desta e de outras diferenciações, as quais acabam se tornando socialmente significativas. Tirando as diferenças sexuais e etárias, que se impõem naturalmente,existem dezenas de especialidades biológicas que não são percebidas ou valoradas socialmente, e outras que podem sê-lo. Por que as diferenças de pigmentação da pele são selecionadas socialmente como diferenças, inclusive motivando preconceitos e formação de identidades, e não as diferenças de tipos sanguíneos, por exemplo?” (A construção social da cor, José D´Assunção Barros).

O racismo está tão presente na cultura e no imaginário coletivo da sociedade brasileira que pesquisa desenvolvida pelo departamento de Psicologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) com crianças de 5 a 8 anos comprovou essa face invisível do preconceito racial no Brasil. Os pequenos eram induzidos a desenhar uma criança branca e outra negra e depois deveriam classificar os desenhos, segundo critérios de riqueza, beleza, inteligência, proximidade e contato. O resultado foi um alto índice de racismo, com o desenho da criança negra sendo bastante rejeitado em todos os critérios de classificação. O estudo confirmou que a incorporação de atos racistas no comportamento social é introduzida de maneira velada pelo aprendizado das normas sociais e, desse modo, se manifesta na maioria das vezes de modo inconsciente, como no caso das crianças. Assim sendo, o racismo tem lugar cativo no inconsciente coletivo, que, sem perceber, transmite-o de uma geração a outra, tornando essa prática dificílima de ser exterminada.

(Ilustração: Ares)
(Ilustração: Ares)

Entretanto, é importante verificar a construção sociológica positiva que a idéia de “raça” negra adquiriu, em diferentes momentos históricos, sempre como uma voz de enfrentamento às opressões, ao racismo e de autoafirmação do orgulho em pertencer àquela identidade racial. A conceitualização sociológica de “raça” funciona, então, como um contraponto à sua concepção biológica. Assim, esse viés sociológico atua de forma eficaz e benéfica para a estruturação e o fortalecimento de identidades sociais e culturais que funcionarão como formas de luta contra a desigualdade social ou como resistências contra opressões e preconceitos.

Portanto, em que pese sua contestação em termos de validade científica, o conceito de “raça” continuará a subsistir em função de sua possante força sociológica. Essa autoafirmação da “raça” negra “cumpriu ou tem cumprido em certo momento da história o papel de agregar, em torno de ideais de coesão e de luta, grupos sociais que são ou foram oprimidos socialmente, submetidos a desigualdades econômicas, educacionais e políticas, impedidos de se afirmarem com plena liberdade e determinação. No entanto,  permanece como questão polêmica a definição de qual seria o melhor caminho para conquistar o tão sonhado fim das desigualdades sociais ligadas à percepção da cor da pele: a afirmação das ‘identidades raciais’ para lutar concomitantemente pela ‘igualdade entre raças’, ou simplesmente a diluição do conceito de raça de modo a extinguir  gradualmente a percepção social da cor?” (A construção social da cor, José D´Assunção Barros).

Análise da população negra no Brasil

Apesar de constituírem mais da metade da população brasileira (IBGE, 2010), com 51% dos habitantes do Brasil, os negros são recorrentes na grande maioria dos indicadores negativos do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Se o país fosse dividido pelas “raças” e pelo acesso destas às oportunidades, constataríamos um Brasil com padrões nórdicos de um lado – a face branca -, e outro de índices semelhantes aos países mais pobres da África – o pedaço negro. Ainda que o Brasil tenha evoluído em IDH nas últimas décadas, melhorado a distribuição de renda, diminuído a taxa de analfabetismo, a população negra continua sendo a que menos tem acesso a estas recentes conquistas sociais, pois, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 70% dos brasileiros situados na faixa de vulnerabilidade social e econômica são negros.

Mercado de trabalho

No mercado de trabalho, a desigualdade proporcionada pela cor da pele também salta aos olhos. Segundo o Relatório Global sobre Igualdade no Trabalho, de 2011, estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a taxa de desemprego é bem maior entre negros.  Já outra pesquisa desenvolvida pelo Instituto Ethos, em 2010, mostra que quanto maior o nível hierárquico nas empresas no Brasil, menor a probabilidade de ter um negro no comando. No ano do levantamento, os negros representavam residuais 5% dos executivos e 13% dos gerentes nas 500 maiores empresas brasileiras.

Índices de violência

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(Charge: Laerte)

Outro dado alarmante que recai com maior força sobre a população negra brasileira diz respeito aos indicadores de violência. A mortalidade de jovens negros entre 15 e 29 anos é três vezes maior do que entre jovens brancos. Segundo estudo do IPEA, intitulado Dinâmica Demográfica da População Negra Brasileira, em 2001 e 2007 – anos pesquisados – a principal causa externa de morte na população negra foram os homicídios, responsáveis por aproximadamente 50% dos óbitos. O grau de vitimização da população negra é assustador: há uma probabilidade 103,4% maior de um negro ser vitimado do que um branco. Quando se analisa só a faixa etária dos jovens de 15 a 25 anos, essa probabilidade aumenta para 127,6%. Com esses números alarmantes, constata-se que a violência homicida no Brasil tem rosto e cor: jovem, negro, morador da periferia das grandes cidades.

Acesso à educação

No que diz respeito ao acesso à educação, a situação se mantém extremamente desigual. Segundo o IBGE (2010), 70% dos 14 milhões de analfabetos do país são negros. No ensino superior, o quadro é também bastante excludente. De acordo com pesquisa de 2011 da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) sobre o perfil dos estudantes de graduação no Brasil, constatou-se que apenas 8,72% dos estudantes são pretos, ao passo que os brancos representam 53,9% desse universo, e os pardos, 32%.

Como se percebe, a questão racial naturaliza e contribui para a desigualdade no Brasil. Há um claro desequilíbrio de oportunidades de acesso às diversas esferas da sociedade. Todos os indicadores sociais apontam para um quadro de vulnerabilidade social da população negra brasileira, seja no mercado de trabalho, no acesso à moradia urbana, à terra, à educação e à justiça.

A mobilidade social do negro no Brasil – ou seja, sua ascensão social em relação ao conjunto da sociedade – continua em patamares residuais. Apesar dos avanços sociais recentes, a situação da população negra no Brasil continua extremamente vulnerável. Esse quadro tão-somente reforça a necessidade de implantação de políticas públicas direcionadas para a população negra, que visem a alcançar uma maior equanimidade de oportunidades.  As políticas afirmativas para a população negra no Brasil, principalmente as de cotas, são mais do que necessárias, urgem!

*Esse texto faz parte da série Consciência Negra: a questão racial, que foi publicada em novembro de 2014 na Revista Berro. Veja abaixo todos os outros textos da série: 

A construção social da “raça” negra

Ciência a serviço da escravidão

Desconstruindo o mito do paraíso racial brasileiro

Abolicionistas: lobos em pele de cordeiro

O protagonismo negro no processo de abolição

O “black power” sai às ruas

Cotas raciais: combatendo a desigualdade de cor

O “black power” sai às ruas

O punho cerrado é ainda hoje o símbolo “black power” 

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

Para entender o movimento negro atual é importante recorrer ao movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, nos anos 1960, berço e estopim para as lutas atuais da população negra em todo o mundo. A partir dele, movimentos de contestação por direitos para os negros explodiram em todo o mundo, com destaque para a luta contra o apartheid na África do Sul. O movimento negro estadunidense foi base e parâmetro para todos os outros que surgiram no mundo na efervescente década de 1960: o movimento feminista, o movimento hippie, a contracultura. “No mundo inteiro, as pessoas que defendiam causas queriam imitar o movimento dos direitos civis” (1968 – O ano que abalou o mundo,Mark Kurlansky).

A porção sul dos Estados Unidos, que resistiu até onde pôde na sua política escravocrata e racista, nunca considerou os negros como cidadãos plenos dos mesmos direitos civis dos demais. Para se ter uma idéia, pouco tempo após o fim da escravidão, era fundada, no estado do Tennessee, sul dos Estados Unidos, em 1865, a Ku Klux Klan, organização radical que defendia a supremacia branca e se caracterizou por métodos altamente violentos, não hesitando em matar negros em nome dessa alegada superioridade racial. Seu objetivo principal era impedir a integração social dos negros recém-libertos, impedindo-os de adquirir terras ou votar.

Por quase um século após o fim do escravismo nos Estados Unidos, os negros continuaram à margem dos processos sociais e de cidadania do país, principalmente no sul. A parcela negra da população estadunidense foi escandalosamente apartada da vida em sociedade, escanteada a uma posição desprezível e irrelevante dentro da hierarquia social naquele país. A escravidão havia ido embora, mas tinha deixado como lembrança um aviltante racismo que continuava a segregar e a tolher a liberdade da população negra.

A divisão racial era tão intensa que negros e brancos praticamente não se misturavam na sociedade americana, principalmente no sul, até meados do século XX. Na década de 1950, marcadamente na parte sul dos Estados Unidos, a segregação racial imperava. Os bebedouros públicos eram divididos: os negros não podiam beber água no mesmo local que os brancos. Havia as escolas “normais” – e as escolas para negros. Havia os hospitais para os americanos “comuns” – e outros só para negros. Na grande maioria das universidades do sul não se aceitava estudantes negros. Estes também não tinham direito ao voto, enfim, não exerciam qualquer representatividade cidadã.

Nos ônibus, os assentos da frente eram destinados aos brancos; aos negros, a parte de trás do veículo. Ainda assim, se algum branco estivesse sem assento, um negro deveria levantar-se e dar seu lugar. As praças, restaurantes e demais locais de convívio social que se localizavam nos centros urbanos eram exclusividade de brancos. Os negros acomodavam-se às periferias e subúrbios das cidades. Tudo isso era legitimado por lei. Ser racista fazia parte do dia-a-dia da sociedade estadunidense e a Justiça endossava tais práticas.

O grito de igualdade

Certo dia, uma negra, Rosa Parks, costureira na cidade de Montgomery, no racista Alabama, sul dos Estados Unidos, resolveu afrontar as leis segregacionistas de seu estado. Parks saía de um dia estafante de trabalho e pegou um ônibus de volta para casa. Tomou assento. No meio da viagem, intimada a dar seu lugar a um passageiro branco, negou-se, corajosamente. Foi presa, julgada e condenada. A condenação da costureira foi o rastilho de pólvora que faltava para incendiar uma nação inteira na luta pelos direitos civis para os negros.

Como efeito direto do incidente com Parks, as lideranças negras da cidade – capitaneadas por um ainda pouco conhecido pastor protestante chamado Martin Luther King – contando com o apoio de grupos de cidadãos brancos, convocou um boicote geral ao transporte público naquele município, que durou cerca de 13 meses. Considerando que a maioria dos usuários que tinha aderido ao boicote era negra, o sistema de transporte público de Montgomery quase veio à falência. A negação dos negros ao transporte na localidade só terminou quando a legislação municipal que separava brancos e negros foi extinta. A centelha que faiscou inicialmente no Alabama, rápida e ferozmente se espalhou por todo o país, provocando uma combustão explosiva de sentimento e luta em torno dos direitos civis.

Dessa forma, a década de 60, principalmente em terras estadunidenses, foi marcada por uma intensa luta da sociedade negra por direitos civis. Dessa mobilização social, brotaram como frutos a Lei dos Direitos Civis, em 1964, e a Lei do Direito ao Voto, em 1965. Durante esse período histórico, surgiram expressões e apologias aos negros que ganharam as ruas. Stokely Carmichael, um dos organizadores do grupo pelos direitos civis, inventou o nome Panteras Negras e a expressão Black Power (Poder Negro). O maior ícone e ideólogo dos Panteras Negras, partido radicalmente defensor do orgulho negro, era Malcolm X, ativista negro, morto alvejado por vários tiros, em 1965, durante comício no Harlem, bairro de Nova Iorque de maioria negra.

Os Panteras Negras

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As mulheres tinham participação ativa no Black Panther Party (foto: reprodução internet)

Vale ressaltar que dentro do próprio movimento negro não havia unidade. Duas correntes conflitantes tentavam conquistar a sociedade média norte-americana. “Era um momento de grande luta dentro da comunidade negra, com aqueles que eram antigamente pretos agora esforçando-se para definir o novo negro” (1968 – O ano que abalou o mundo,Mark Kurlansky).

Os negros do norte eram diferentes dos negros do sul. Enquanto os adeptos sulistas de Martin Luther King estudavam Gandhi e sua campanha não-violenta contra os ingleses, Stokely Carmichael, que crescera na cidade de Nova York, passou a se interessar por rebeldes violentos, como os Mau Mau, que se insurgiram contra os ingleses no Quênia. “O pessoal de King entoava: ‘Liberdade Agora!’ O pessoal de Carmichael entoava: ‘Poder Negro!’” (1968 – O ano que abalou o mundo,Mark Kurlansky).

Essa divisão, em muitas ocasiões, serviu mais para atrapalhar do que para ajudar os negros na sua busca por mais direitos civis e igualdade de tratamento. Muitos dos grandes nomes da cultura negra eram constantemente atacados por setores da própria comunidade negra. Um braço do movimento pelos direitos civis, os Panteras Negras, que em princípio assustaram a esquerda branca norte-americana com sua posição de, se necessário, pegar em armas para fazer justiça com as próprias mãos, estavam sempre em confronto com a polícia, e eram vistos, cada vez mais, como mártires.

Na plataforma do Black Panther Party, encontravam-se propostas vistas como radicais pela corrente pacifista, mas que buscavam o rompimento total com o estado das coisas, como dispensar todos os negros do serviço militar, libertar todos os negros da prisão, indenizar todas as famílias negras pela escravidão e exigir que todos os futuros julgamentos de negros fossem realizados com um júri integrado apenas por negros. Não tiveram nenhumas destas suas reivindicações atendidas, mas, diferentemente da corrente de Luther King, ousavam e eram bem mais audazes.

O movimento pelos direitos civis, que já houvera recebido um golpe duríssimo com o assassinato de Malcolm X, em 1965, sofreu outro grande abalo com a morte de um de seus principais líderes, Martin Luther King, três anos depois, em 4 de abril de 1968. Assim como Malcolm X, Luther King também foi assassinado, dessa vez em Memphis, no Tennessee, onde estava em apoio a uma greve de coletores de lixo. Ao contrário do que se esperava, logo após o assassinato de King houve um período de recrudescimento da luta: “Quando se espalhou a notícia de que King fora assassinado por um prisioneiro branco que fugira, a violência se espalhou nas áreas negras de 120 cidades americanas e foram noticiados 40 motins” (1968 – O ano que abalou o mundo,Mark Kurlansky).

Em resumo, apesar das enormes divergências internas, o movimento pelos direitos civis foi base e exemplo para todos os outros movimentos de contestação que surgiram nos Estados Unidos e no mundo naqueles tempos e tem reflexos percebidos até os dias de hoje na lutas e reivindicações da população negra em todo o mundo.

*Esse texto faz parte da série Consciência Negra: a questão racial, que foi publicada em novembro de 2014 na Revista Berro. Veja abaixo todos os outros textos da série: 

A construção social da “raça” negra

Ciência a serviço da escravidão

Desconstruindo o mito do paraíso racial brasileiro

Abolicionistas: lobos em pele de cordeiro

O protagonismo negro no processo de abolição

Por que o racismo ainda persiste?

Cotas raciais: combatendo a desigualdade de cor

O protagonismo negro no processo de abolição

(Ilustração: Latuff)

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

Por um longo período a historiografia tradicional convencionou-se a dar os louros do fim da abolição aos abolicionistas, aos políticos que compunham o parlamento nacional à época e a uma monarquia decadente que queria se sustentar no poder e, por isso, posava de simpática à abolição (Abolicionistas: lobos em pele de cordeiro). O papel crucial do negro em todo esse processo de rompimento era flagrantemente esquecido. Ou seja, essa visão negava “ao negro a condição de sujeito da história, encarando-o tão-somente como objeto a ser resgatado das trevas da escravidão pelos verdadeiros sujeitos daquele momento histórico, os abolicionistas” (Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX, Célia Marinho de Azevedo).

Os próprios abolicionistas percebiam os negros como limitados mentalmente. Para eles, o escravo, devido às suas características raciais, que o tornavam um ente passivo e isolado, não tinha capacidade intelectual de alcançar por si só a consciência de sua situação de oprimido e explorado, em função de sua condição estrutural. A idéia dominante era a de que o negro, “apesar de toda sua rebeldia, estava impossibilitado de conferir um sentido político às suas ações, dadas as próprias condições objetivas de um modo de produção que os reduziria irremediavelmente à alienação ou à incapacidade de assumir por si sós uma consciência de classe” (Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX, Célia Marinho de Azevedo).  Visão mais racista impossível!

Uma corrente relativamente nova da História Social tem se empenhado em dar o devido destaque ao protagonismo negro no rompimento do modelo escravocrata. De fato, o movimento abolicionista não teria obtido êxito não fosse a resistência escrava. A idéia do negro passivo, submisso e grato ao seu senhor não passava de um grande desconhecimento que vinha do distanciamento material, moral e cultural da elite com o escravo, que a impedia de perceber o cotidiano dos negros e entender a fundo suas relações sociais e culturais. Provavelmente por isso, “o que hoje se reconhece como formas de resistência, naquela época, mesmo entre as mentes mais humanitárias, passava por desordem, desenfreamento, paixões soltas e criminosas” (Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX, Célia Marinho de Azevedo). Trazendo para os dias de hoje há muita similaridade, na qual formas de resistência também são tachadas como “vandalismo e desordem”.

Desde os primeiros anos do tráfico negreiro, ainda em meados do século XVI, os quilombos, as fugas em massa, os assaltos às fazendas, as revoltas individuais e coletivas e as tentativas de insurreições fizeram parte de todo o arcabouço de resistência que compreendia o comportamento do negro dentro do sistema escravista. O Quilombo dos Palmares, que se formou no século XVI (1597), na serra da Barriga, então capitania de Pernambuco, hoje parte de Alagoas, que durou quase um século (até 1694) e chegou a reunir, no seu auge, mais de 20 mil escravos fugidos, é um claro exemplo da insubmissão negra. “A destruição sistemática dos quilombos não impedia a formação de outros, pois a matança dos quilombos só fazia aumentar a ‘justa cólera’ dos negros que se lançavam sobre as fazendas dos brancos, pondo fogo a tudo e seduzindo os outros escravos!” (Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX, Célia Marinho de Azevedo). Na verdade, em nenhum momento do sistema escravista, no Brasil ou em qualquer parte da América, os negros deixaram de lutar, sempre movidos por sentimentos de liberdade.

“A escravidão, compreendida como sistema gerador e mantenedor de desigualdades, estaria constituída não apenas de uma base material, social e política, mas também de uma dimensão imaginária de um ‘espírito’ que ela corresponderia” (A construção social da cor, José D´Assunção Barros). Ou seja, em que pese a insubordinação negra ter sido uma constante em todo o período escravista, a tarefa de pôr fim ao escravismo não era tão simples, uma vez que as bases e as construções sociais que sustentavam o modelo escravocrata estavam entranhadas na camada mais profunda da psique coletiva do tecido social brasileiro.

Com o passar dos séculos e a permanência da escravidão, a resistência negra foi tornando-se cada vez maior. Nas décadas que antecederam a abolição, a população negra dava sinais claros de luta por uma libertação coletiva e de construção efetiva e decisiva de uma consciência negra. Nos últimos anos antes da assinatura da Lei Áurea, os escravos empreendiam revoltas de maior relevo, e já contavam com um forte apoio popular, além da propaganda abolicionista totalmente favorável à sua causa.

“O fim da escravidão tornou-se um fato através do movimento do ‘não quero’ dos escravos, com centenas deles simplesmente se retirando das fazendas ao final de 1887 e início de 1888” (Abolicionismo: Estados Unidos e Brasil, uma história comparada – século XIX, Célia Marinho de Azevedo). Em 1888, pouco antes da abolição, os escravos já não mais fugiam, “mas simplesmente se retiravam das fazendas, enquanto os fazendeiros viam-nos partir, impotentes, ou então, na falta de mão-de-obra que os substituíssem na próxima colheita, faziam-lhes sucessivas ofertas, até reconhecer seu direito ao salário em troca de trabalho” (Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX, Célia Marinho de Azevedo). Sobre esse “fenômeno social”, conclui-se que sempre funcionou assim o processo político e hoje não é diferente, ou seja: não são os “políticos profissionais” que dão direitos, mas o povo que arranca-os à força, (des)organizando-se e desobedecendo socialmente, até fazer tanta pressão que apenas cabe ao sistema político reconhecer o que já existe na prática.

O regime escravista começou a ruir devido às suas próprias contradições e à sua “irracionalidade” econômica. Em 13 de maio de 1888, os políticos dos três partidos – Liberal, Conservador e Republicano – convergiram em um consenso quase absoluto e votaram a Lei da Abolição, depois assinada pela Princesa Isabel. Estava decretado o fim da escravidão no Brasil!

Entretanto, de lá para cá, nenhuma mudança radical foi percebida. No início pós-escravidão, os negros libertos continuaram excluídos do processo social do país, uma vez que eram preteridos pelo mercado enquanto força de trabalho, que dava preferência aos imigrantes. Os escravos e descendentes saíram espoliados da escravidão, despreparados para o trabalho livre, “incapazes de se adequar aos novos padrões contratuais e esquemas racionalizadores e modernizantes da grande produção agrícola e industrial, tornando-se doravante marginais por força da lógica inevitável do progresso capitalista” (Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX, Célia Marinho de Azevedo). Já que não era mais possível segregar através da escravidão, tinha início o fenômeno de marginalização e exclusão social do negro livre, processo que perdura até os dias de hoje.

*Esse texto faz parte da série Consciência Negra: a questão racial, que foi publicada em novembro de 2014 na Revista Berro. Veja abaixo todos os outros textos da série: 

A construção social da “raça” negra

Ciência a serviço da escravidão

Desconstruindo o mito do paraíso racial brasileiro

Abolicionistas: lobos em pele de cordeiro

O “black power” sai às ruas

Por que o racismo ainda persiste?

Cotas raciais: combatendo a desigualdade de cor