12º Nação



0 Comentários

Arte: Vitor Grilo

O último 13 de maio de 2019 marcou os 131 anos da abolição dos “escravos” no Brasil. Atribui-se o feito a uma princesa branca de origem europeia. Uma escravocrata ditou os moldes da dita abolição. Na época desta farsa, éramos 58% da população. Hoje, 54%. Em 1888, como agora, nossa cidadania varia conforme a ocasião.

Com o golpe que criou o sistema republicano, o Brasil abandona seus filhos pretos e cria duas campanhas: uma para matá-los e outra para embranquecer a população. A campanha para nos exterminar continua até hoje sem êxito. Já o embranquecimento deixa o norte e o nordeste “atrasado” dos engenhos, em busca de um sul construído a partir da importação de europeus. Este projeto de nação entendeu o embranquecimento como progresso.

O Movimento Negro resiste e cria uma verdadeira pérola de guerra na sobrevivência e reconhecimento de um povo: a Frente Negra Brasileira, em 1931. Os brancos botaram pra lascar e a enterram em 1937, quando se iniciou no Brasil a ditadura também conhecida como Estado Novo (1937-1945).

No entanto, das sementes dessa Frente brotaram outras. Com o golpe militar de 1964, fortalecemos os braços da esquerda na luta contra a ditadura, e, em 1978, é criada a Organização de Luta contra a Discriminação Racial, hoje MNU, Movimento Negro Unificado.

Na 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância promovida pela ONU, em 2001, o Brasil se “declara” racista e se compromete a criar políticas de combate ao racismo e de inclusão da população negra, assinando o documento da conferência.

Em 2003, com o governo popular do presidente Lula, são criados mecanismos de Promoção da Igualdade Racial – uma Secretaria com status de Ministério. Outra conquista da época foi a Lei 10.639, que obriga a educação brasileira a ensinar a nossa história e cultura para nós mesmos e para os brancos. No percurso, tivemos a vitória da luta pelas cotas raciais.

Isso tudo poderia ter deixado a população negra em melhores condições de vida e diminuído a fúria racista do Estado que mata negros brasileiros, principalmente os jovens. No entanto, a realidade se deu de outra forma.

Vejamos. Enquanto havia a implementação das políticas públicas de direitos humanos e de promoção da igualdade racial em todo o país, em 2003, os números de assassinatos de jovens negros alcançaram a taxa alarmante de 50% do total de homicídios de adolescentes de 16 a 17 anos no Brasil, enquanto a porcentagem referente aos jovens brancos na mesma idade apontava 29,1% dos casos. Em 2013, após 10 anos, a taxa para os jovens brancos caiu para 24,2% enquanto que, para os negros, essa mesma subiu para 66%. Os dados são do artigo “A violência contra os negros no Brasil”, publicado pela Brasil Debate.

A violência sobre o povo negro, em particular a juventude negra, não vai acabar no Brasil enquanto nós, o Povo Negro, não mostrarmos ao Estado branco brasileiro que somos uma massa de 113 milhões de habitantes. Nós, brasileiros negros, formamos a 12ª nação em população mundial, enquanto que o Brasil branco fica na 15ª posição.

Mesmo sendo uma nação que ocuparia a 12ª posição mundial, somos um agrupamento sem representantes na política, na economia, na educação, no judiciário. Não ocupamos os lugares de decisão de poder neste país. Podemos dizer que até agora elegemos gente branca para nos representar e isso tem demonstrado que temos errado.
Tanto à esquerda como à direita, o Estado brasileiro nos mata e os representantes eleitos por nós nada dizem. É como se ainda estivéssemos na senzala e, quando um de nós morre, o padre, que tomava chá na sala da casa-grande, socorresse nossa alma, mandando-a para o purgatório.
Precisamos urgentemente tomar as rédeas de nosso destino e construir um país onde não precisemos ser incluídos, nem integrados. Um país com 113 milhões de pessoas só precisa ser incluído na lista como a 12ª nação.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *